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Poesias

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ESTUDO 175

 

 

 

Estar com o rio não é molhar-se na água.

 

Nem ser leito.

 

É ser a água e o leito.

 

E o mar.

 

E ser as nuvens do céu.

 

 

 

Nosso destino é o que somos. Somos

 

o destino – o olho d’água

 

e a foz.

 

Somos a foz

 

e o ruído das águas se encontrando.

 

 

 

E as nuvens do céu e o homem

 

sentado numa pedra. E a pedra.

 

 

 

Antonio Brasileiro

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A arte de perder

 

“A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

... Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

 

[Elisabeth Bishop]

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PEDIDO

 

Ontem no baile

Não me atendias!

Não me atendias,

Quando eu falava.

 

De mim bem longe

Teu pensamento!!

Teu pensamento,

Bem longe errava.

 

Eu vi teus olhos

Sobre outros olhos!

Sobre outros olhos,

Que eu odiava.

 

Tu lhe sorriste

Com tal sorriso!

Com tal sorriso,

Que apunhalava.

 

Tu lhe falaste

Com voz tão doce!

Com voz tão doce,

Que me matava.

 

Oh! não lhe fales,

Não lhe sorrias,

Se então só qu'rias

Exp'rimentar-me.

 

Oh! não lhe fales,

Não lhe sorrias,

Não lhe sorrias,

Que era matar-me.

 

Gonçalves Dias

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O que há em mim é sobretudo cansaço

 

 

 

O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

 

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto alguém.

Essas coisas todas -

Essas e o que faz falta nelas eternamente -;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

 

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada -

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...

 

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço.

Íssimo, íssimo. íssimo,

Cansaço...

 

(Fernando Pessoa)

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"Flor Da Pele"

 

Ando tão à flor da pele,

Que qualquer beijo de novela me faz chorar,

Ando tão à flor da pele,

Que teu olhar flor na janela me faz morrer,

Ando tão à flor da pele,

Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser,

Ando tão à flor da pele,

Que a minha pele tem o fogo do juízo final.

 

Um barco sem porto,

Sem rumo,

Sem vela,

Cavalo sem sela,

Um bicho solto,

Um cão sem dono,

Um menino,

Um bandido,

Às vezes me preservo noutras suicido.

 

Oh sim eu estou tão cansado,

Mas não pra dizer,

Que não acredito mais em você

Eu não preciso de muito dinheiro graças a Deus

Mas vou tomar aquele velho navio,

Aquele velho navio..

 

Um barco sem porto,

Sem rumo,

Sem vela,

Cavalo sem sela,

Um bicho solto,

Um cão sem dono,

Um menino,

Um bandido,

Às vezes me preservo noutras suicido.

 

Zeca Baleiro

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Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

 

 

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

colhidos no mais íntimo de mim...

Suas palavras

seriam as mais simples do mundo,

porém não sei que luz as iluminaria

que terias de fechar teus olhos para as ouvir...

Sim! Uma luz que viria de dentro delas,

como essa que acende inesperadas cores

nas lanternas chinesas de papel!

Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas

do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te

e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento

da Poesia...

como

uma pobre lanterna que incendiou!

 

(Mario Quintana)

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"Pequena mosca,

Com minha mão

Bruta, cortei

Teu jogo vão.

Não serei, mosca,

Um igual teu?

Ou não és tu

Homem, como eu?

Pois amo a dança,

Canções, bebida,

Até que a mão cega

Me corta a vida."

 

 

 

(William Blake, Songs of experience, "The fly")

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Poesia musicada

 

 

 

"Metade"

 

Que a força do medo que tenho

Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito

Não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é o que eu grito

Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe

Seja linda ainda que tristeza

Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada

Mesmo que distante

Porque metade de mim é partida

Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo

Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor

Apenas respeitadas

Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço

Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora

Se transforme na calma e na paz que eu mereço

Que essa tensão que me corrói por dentro

Seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso

Que eu me lembro ter dado na infância

Por que metade de mim é a lembrança do que fui

A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria

Pra me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo

Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta

Mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar

Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer

Porque metade de mim é platéia

E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor

E a outra metade também.

 

Oswaldo Montenegro

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Os versos que te fiz

 

 

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem para dizer!

São talhados em mármore Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer!

 

Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder...

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!

 

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda.

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não fiz!

 

Amo-te tanto! E nunca te beijei...

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

 

(Florbela Espanca)

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Guardar

 

(Antonio Cicero )

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

 

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

 

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

 

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que um pássaro sem vôos.

 

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

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Desejo

Drummond

 

Desejo a você

Fruto do mato

Cheiro de jardim

Namoro no portão

Domingo sem chuva

Segunda sem mau humor

Sábado com seu amor

Filme do Carlitos

Chope com amigos

Crônica de Rubem Braga

Viver sem inimigos

Filme antigo na TV

Ter uma pessoa especial

E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico

Frango caipira em pensão do interior

Ouvir uma palavra amável

Ter uma surpresa agradável

Ver a Banda passar

Noite de lua Cheia

Rever uma velha amizade

Ter fé em Deus

Não ter que ouvir a palavra não

Nem nunca, nem jamais e adeus.

Rir como criança

Ouvir canto de passarinho

Sarar de resfriado

Escrever um poema de Amor

Que nunca será rasgado

Formar um par ideal

Tomar banho de cachoeira

Pegar um bronzeado legal

Aprender um nova canção

Esperar alguém na estação Queijo com goiabada

Pôr-do-Sol na roça Uma festa

Um violão

Uma seresta

Recordar um amor antigo

Ter um ombro sempre amigo

Bater palmas de alegria

Uma tarde amena

Calçar um velho chinelo

Sentar numa velha poltrona

Tocar violão para alguém

Ouvir a chuva no telhado

Vinho branco Bolero de Ravel

E muito carinho meu.

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" Vem "

 

Vem, que ainda somos jovens

Nossos corações ainda não congelaram

Nossos corpos ainda não murcharam

Nossas vidas ainda nem começaram

 

Vem, enquanto ainda nos conhecemos

E ao mesmo tempo somos perfeitos estranhos

Enquanto ainda somos curiosos

E o tempo ainda não nos fez cínicos

 

Vem, que ainda somos inocentes

E de nenhum crime alguém pode nos acusar

Ainda não sentimos culpa

Ainda não sentimos medo

 

Vem, que o tempo é uma engrenagem implacável

Mas ainda não nos engoliu

Ainda estamos buscando por nós mesmos

E não estamos cansados de ser o que somos

 

Vem, enquanto ainda podemos

O peso do mundo ainda não está em nossos ombros

Ainda não somos titãs subjugados

Nossos calcanhares de Aquiles ainda não foram descobertos

 

Vem, enquanto ainda queremos

Vem, enquanto ainda estamos vivos

Vem, enquanto tudo o que existe ainda está aqui

Vem, enquanto eu ainda te amo

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A DESINTELIGÊNCIA HUMANA


 


Que meus sentimentos sejam apenas delírios e alucinação,


de um poeta em descompasso.


 


Que... o que eu sinto e vejo, seja breve como uma ventania.


E que eu possa compreender, e mudar, se... preciso, os destinos,


o meu e de outros, sem fazer do existir... uma agonia.


Que eu possa crer sem disfarce, nos sonhos... sem fazê-los, solidão.


Que em vez de destruir, edifique os desenganos,


e combata os que estão roubando a inteligência dos humanos.


E que assuste menos, todas as vezes que olhar o mundo, os homens...


Principalmente aqueles que querem despovoar o caminho.


Pois, os observo com incerteza, os tenho como predadores de essência,


conectam-se apenas através da distancia, reverenciam a ausência.


Existem no singular, e vivem na tribo do “eu sozinho”.


Interagem mais com as maquinas, com a tela fria de um computador.


Perderam o encanto do encontro, a melodia,


o olhar na alma, a força da pele, o bálsamo de uma flor.


Foram acometidos de uma desinteligência sem igual.


Individualistas, autômatos... vagueiam em busca de um Deus.


Cegos... o quer perdido na folha pálida de um livro.


Buscam nos templos e nos discursos vazios,


o toque, a transcendência de um ser supremo, de um criador.


Que meus sentimentos sejam apenas delírios e alucinação,


de um poeta em descompasso.


Onde houver vazios que eu chegue com a sutileza do abraço,


e quando encontrar pelo caminho, alguém vencido pelo cansaço


saiba oferecer o riso e nada impor.


E depois... há? e depois... conceber a vida... a alegria.


Encontrar a si mesmo, e instalar na alma um Deus.


Não importando o nome, nem o rito, nem a magia, nem o lugar.


Ele pode estar no vento, no sol, na beleza de um rouxinol.


Que eu possa desmistificar a desinteligência humana,


e fazê-los enxergar o amor.


 


Ari Mota

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Este não conehcia ainda. Curto mas  intenso!

 

 

OS DEGRAUS

(Mário Quintana)

 

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

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mulheres não sabem como amar,

ela me disse.

você sabe como amar

mas mulheres só querem

parasitar.

sei disso porque sou

mulher.

hahaha, eu ri.

por isso não se preocupe por ter terminado

com Susan

porque ela apenas irá parasitar

outro homem.

(velho buk)

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