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Forum Cinema em Cena

Muviola

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  1. Falando em Olimpíadas, o Kelvin é de Santos (ou Guarujá, não me lembro) e ele falou que não ouvia nada no seu fone que leva ao ouvido, mas que se ouvisse seria Charlie Brown.
  2. Não havia me atentado que Volonte foi o ator principal dos dois ganhadores da Palma. Isto porque, para mim, sua interpretação máxima é em "Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita"
  3. Gênio gênio gênio! Fico feliz que numa área que muitos não têm o devido reconhecimento, ele o teve.
  4. Lançado no mesmo ano daquela obrazinha qualquer "O Conformista", "A Estratégia da Aranha" é dos poucos filmes inspirados em escritos de meu escritor favorito Jorge Luis Borges (interessante que mais ou menos na época, Antonioni havia adaptado Cortázar em Blow Up). Já começa com o protagonista, Athos Magnani chegando numa cidadezinha na Itália, que mais parece um lugar-fantasma. Descobrimos que ele é filho de uma lenda local, que foi assassinado pelas costas por fascistas; mais do que ser filho, ele é idêntico ao pai e ambos carregam o mesmo nome. Sua visita foi à pedido de uma ex-amante do pai que deseja que Athos investigue as circunstâncias suspeitas do assassinato. Bertollucci faz um jogo duplo de presente/passado com pai/filho, num questionamento histórico, filosófico e psicanalista. A decisão de fazer os mesmos atores fazerem passado e presente (estrategia usada por Spike Lee em Das 5 Bloods) dá mais camadas a estas relações. Já que é adaptação tem de haver muita citação literária. Bem que poderia haver mais adaptações dele.
  5. Eu não costumo gostar muito da frase "tal obra nunca conseguiria ser feita hoje". Acho um tanto simplista, mas no caso deste "Louca Paixão", a afirmação pode ser dada. E olha que estamos falando de Paul Verhoeven, aqui no seu segundo longa. Os dez primeiros minutos deste filme tem sonho de duplo assassinato; Rutger Hauer (poucos atores conseguem atuar tão bem com o corpo todo) com o pau para fora e se masturbando; ele transando e guardando "recordações" das mulheres. E isto é só o começo... Verhoeven envolve sua comédia romântica entre o suspense e o drama, sempre com um pézinho no grotesco. Ele absolutamente não teme mostrar o sexo e a doença, com todos os fluidos que acompanham o corpo nestas fases. Este é até hoje o filme holandês de maior sucesso e é uma bela apresentação do que este doido mostraria posteriormente.
  6. Olha, eu consigo enxergar o lado dela: não era proteger o pai, mas o irmão. Só que claro, entendo a sua opinião.
  7. Tenho um estranho fascínio por estes documentários que analisam vida e obra de grandes personalidades. Claro, o fascínio é pelo próprio personagem, mas o estranhamento citado é por eu desgostar da maior parte destes produtos. Boa parte deles não consegue distribuir de maneira satisfatória esta duplicidade, além do próprio formato de "cabeças falantes" ser um pouco cansativo. Até por isso, eu gostei da abordagem deste retrato do grandíssimo Arthur Miller por sua filha mais nova, Rebecca (também esposa de Daniel Day-Lewis). Desde o princípio, ela já aponta a dicotomia da figura do pai: para ela, é o sujeito meio bonachão, caseiro e carpinteiro; para o mundo, um colosso, dos maiores escritores do século XX. É justamente esta intimidade familiar, mostrada numa série de vídeos caseiros filmados desde a juventude de Rebecca até a morte do pai, que nos ajuda a enxergá-lo um pouco mais com os olhos da filha e há uma sinceridade latente em como isso é mostrado, diferente de ouvirmos apenas as "cabeças falantes". Inclusive nisso, as cabeças que surgem (destaque para um emocional e fragilizado Mike Nichols) são importantes para o entendimento do homem e do mito. Da infância classe média-alta e a queda econômica por conta da Queda da Bolsa; as primeiras obras-prima, em especial a biográfica "Morte de Um Caixeiro Viajante"; a perseguição do Macarthismo, por mais que ele tenha abandonado desde cedo o Marxismo, que gerou sua segunda peça mais famosa "Bruxas de Salem"; e por fim, seus três casamentos, em especial o segundo, com Marilyn Monroe. Há carinho e há muita tristeza nas falas de Arthur Miller, seja no período imediatamente posterior à morte dela, seja já na sua velhice. Apesar do carinho, ela não deixa que os fatos problemáticos de seu pai sejam omitidos: traição no primeiro casamento, pai ausente dos primeiros dois filhos e principalmente abandono do irmão de Rebecca, Danny, nascido com Down. Por fim, acho especialmente inspirado o título, que soa simples, mas era que ele gostaria que estivesse em sua epígrafe: "Escritor"
  8. Inspiração para algumas obras importantes recentes, tais quais "Três Reis", "Sangue Negro", "Destacamento Blood" e até "Senhor dos Anéis", "Tesouro de Sierra Madre" é um dos exemplos mais fortes do cinema americano por excelência, em seus melhores tons. Além disso, é uma das primeiras produções de Hollywood filmadas em locação e isso faz uma sensível diferença no resultado final. Humphrey Bogart é um desempregado americano no México da década de 20, atrás de esmolas e empregos até que esbarra com outro americano na mesma situação e ambos são passados são passados para trás numa oportunidade, mas então descobrem acidentalmente por meio de um senhor a possibilidade de encontrar ouro nas montanhas da redondeza de onde estão. Os três parte juntos para o garimpo. John Huston, adaptando o livro de mesmo nome quer mais do que mostrar a violência por trás do garimpo, ele quer extrair o que a chance da riqueza pode causar nos homens: cobiça, paranóia, decadência moral. Humphrey Bogart, na melhor interpretação sua que vi, passa por esta transformação entre o sujeito sem lá muita direção na vida, mas que tenta achar seu sustento de forma correta para uma versão absolutamente atormentada pela "febre do ouro", citada pelo veterano do garimpo Howard. Sua paranóia chega a níveis de famosos autocratas que temiam todos ao redor. Apesar de haver sim julgamento moral (muito também por influência do Código Hays), John Huston não quer limitar o destino apenas à tragédia. A ironia também é parte deste teatro de fantoches, mais uma das falas notórias do personagem do pai de Huston.
  9. Baal (1970) é a releitura de Volker Schlöndorff para a obra homônima de Bertolt Brecht, sua primeira peça completa. Quem dá vida a Baal é Rainer Werner Fassbinder, ainda jovem e acompanhado aqui de uma série de atores que fariam parte de sua trupe. Ele é uma figura um tanto ambígua, capaz de gerar as mais diversas reações nas pessoas ao redor: devoção, ojeriza, tesão. Ele é um furacão, destruindo a si mesmo e a todos que passam por seu caminho. Fassbinder o interpreta quase como se estivesse refletindo sua futura persona: anárquico, narcisista, sujo e fugindo de qualquer expectativa que tenham sobre ele. Assim como boa parte da produção alemã da época, é uma reflexão sobre o estado incerto de um país ainda se tateando, Baal foi detestado pela esposa de Brecht, o que fez com que sumisse de circulação durante muitos anos.
  10. Um tanto decepcionado aqui. Thomas Vinterberg receber indicação ao Oscar de direção pelo quê? Câmera na mão? Ele já fez isso melhor anteriormente. Não entendi muito bem a intenção aqui: beber pode levar ao descontrole? A falta de comunicação no relacionamento te leva a uma infelicidade que te leva à bebida? A solidão pode te fazer mais suscetível a ser autodestrutivo? Todas são questões de respostas muito simples, distantes do que deveria ser o questionamento inicial, fora a total previsibilidade das ações. Se alguém merecesse uma indicação que fosse Mads Mikkelsen.
  11. Eu também o vi recentemente e lendo seu relato, além do paralelo muito bem-lembrado de Arábia, me veio à cabeça as minhas recentes visitas ao "Wendy e Lucy", numa outra perspectiva geográfica e histórica, mas lidando com a perda de raízes a partir da necessidade de mudança em vista de uma tentativa de progresso e econômica e o doc do Pasolini "Love Meetings", neste caso por conta do contexto regional italiano, tanto em termos socioeconômicos como sexual.
  12. Em 1962, Pier Paolo Pasolini viajou por toda a Itália para entender sobre o princípio de tudo: o que os italianos, em seus mais diversos recortes regionais, econômicos, sociais, idade, gênero entendem por "sexualidade". A partir deste grande retrato, Pasolini recorta os sub-temas dentro do amplo espectro de sexualidade: sexo x amor; casamento x divórcio (a Lei do Divórcio ainda era inexistente na época); papel da mulher; visão sobre homossexualidade; proibição dos bordéis e prostituição de rua. Citando inspiração do cinema-verdade de "Crônicas de um Verão", de Jean Rouch e Edgar Morin, Pasolini não tem medo de expor e, até certo modo, constranger seus entrevistadores, seja criança, adolescentes, velhos, mas especialmente o lado mais machista e carola da sociedade italiana. O principal ponto foi ver como algo supostamente tão pessoal quanto sexualidade consegue definir tão bem a complexidade de um lugar como a Itália, com sua claríssima divisão do norte burguês, intelectual (destaque para participação do grande Alberto Moravia), urbano, mas moralista com o sul agrário, atrasado, mas menos comedido. Eu só não entendi muito bem o epílogo, me pareceu um pouco destoante do apresentado anteriormente, mas valeu ver esta provocação do ainda iniciante Pasolini.
  13. Segundo filme da leva de Kelly Reichardt, "Wendy and Lucy" deve ser um dos primeiros olhares da crise econômica de 2008 nos EUA. Wendy e a fofíssima Lucy estão à caminho do Alaska para uma jornada de trabalho intermitente. Nada se sabe sobre a garota, apenas que ela tem uma irmã e cunhado no Indiana, mas fora isso ela é essencialmente um corpo em movimento. Tudo que ela tem é um carro e o companheirismo de Lucy. Até que numa manhã dormindo em lugar proibido, o carro pifa. Depois, numa decisão errada, ela descobre que Lucy se perdeu. Presa num lugar que nada tem, sem ter onde ficar, com quem falar e perdendo seu norte. Para mim, o mais notório do filme é a forma como fala de uma situação crítica sem precisar berrar e abre os olhos para pequenos detalhes que normalmente não são tão tratados em obras do tipo: não se perde apenas os pertences numa crise econômica, mas ela traz muita solidão, pois é preciso buscar algo, normalmente longe e se nao é você quem o faz, será um familiar ou amigos. Além disso, é bem ilustrativo ao reforcar que uma vez caindo neste espiral de pobreza, é muito difícil escapar; isso é mais bem comentado na fala do segurança que se aproxima de Wendy (muito provavelmente por sua própria solidão ) "É preciso um endereço para ter um endereço e um trabalho para ter um trabalho". Tendo ainda uma das sequências mais tristes que vi recentemente (o travelling no canil), Wendy e Lucy é o retrato muito gentil, mas não menos duro de sobrevivência.
  14. "Empty Man" é o primeiro trabalho de David Prior, que na indústria é conhecido por ter dirigido e editado alguns making-of de filmes do David Fincher. Claro, há algumas composições fincherianas. Baseado em uma graphic novel que desconhecia, este filme tem um excelente prólogo de 20 minutos, ao melhor estilo "O Exorcista"; nos anos 90, dois casais estão numa trilha no Butão e o silêncio bucólico traz um estranho ruído. A partir daí a merda acontece. Depois, nos tempos atuais, um ex-policial começa a investigar o sumiço de um grupo de adolescentes...acho que este é o máximo que da pra falar. A duração bem longa é escancarada por um filme que explora diversos subgêneros (filme de seita, sobrenatural, thriller psicologico, drama familiar). Mesmo sendo sua primeira experiência, é possível enxergar a segurança de Prior e, sendo um discípulo de Fincher, é notório ver sua preocupação em cada aspecto da construção cinematográfica, destacando som e efeitos visuais. Sendo possível enxergar várias inspirações e também não fugindo de clichês do gênero (ex-policial solitário de passado tormentoso, fita vhs, inicio em país "exótico"), Empty Man é uma diversão que não é nada vazia.
  15. Primeiro longa de Christian Petzold, "Segurança Interna" de 2000 não faz questão de explicar absolutamente nada. Uma família alemã está em Portugal, aparentemente em fuga, mas do quê? De quem? O que fizeram? Para onde vão? O foco é na filha adolescente Jeanne, que solitária, vive seu coming of age, nesta constante fuga com seus pais. Como rebelar-se quando já vive -se à margem? Como descobrir novas músicas, curtir o que vestir, aflorar sexualidade? Petzold consegue mesclar estas questões com seu cinema de montagem seca, elíptica e objetiva. Uma estreia marcando forte presença.
  16. Este é um dos filmes com mais citações memoráveis que já vi: "O amigo gosta de mensagens? Então guarda essa: cada um aprende com as vilanias de cada um e continua a andar. Num é possível, e é." "O homem progride porque é desgraçado e se aperfeiçoa em desgraça e para a desgraça."
  17. Acho que dos principais envolvidos do Superman, só Gene Hackman, John Williams e Terrence Stamp estão vivos ainda, né?
  18. Fiquei muito feliz em saber que o Mubi vai ter retrospectiva com boa parte das obras de Kelly Reichardt. Poderei tirar meu atraso, pois até hoje só havia visto "Certain Women", que eu já havia gostado, com seus gestos pouco grandiosos e verborrágicos, mas altamente significativos. Este detalhe de pequenos gestos e palavras é também preponderante em "Old Joy". Um fio de enredo, dois amigos vão fazer uma trilha antes que um deles se torne pai, é um grande exercício no entendimento do que tange amizade adulta; o distanciamento, a desconexão e uma tentativa de esconexão, tanto em corpo como em mente. Tudo regado a bela composição sonora da excelente Yo La Tengo. Kelly Reichardt ainda inclui comentarios políticos, que à primeira vista podem soar meio fora do lugar, mas que é um tanto premonitória, pensando na grande crise de três anos depois, o que se encaixa perfeitamente com o clima melancólico final. Muito bonito.
  19. Último filme dos Contos Morais e também o último da série que faltava assistir, "Amor à tarde", diferencia dos outros contos por trazer um protagonista casado; um feliz casamento burguês. No entanto, esta felicidade não impede, na verdade até é uma válvula para sua constante atração a todas as mulheres parisienses. Rohmer films duma maneira que todas estas mulheres de fato sejam atraentes aos olhares masculinos; seu prólogo inclusive mostra uma sequência de seu protagonista com as mulheres que participaram dos filmes anteriores da série. Sua situação muda um tanto quando uma ex-namorada de seu amigo volta dos EUA (O poder do acaso, constante em sua obra) e eles passam a se ver frequentemente às tardes, no intervalo do trabalho dele Assim se arma o conflito: Frédéric nunca deixa de amar sua esposa e filhos e até certo modo continua atraído a ela, mas a ideia da possibilidade de dividir este amor e paixão por qualquer outra o intriga e perturba; é a possibilidade de cruzar a linha entre o flerte e a ação. Rohmer usa este questionamento moral como um suspense, esperamos para quando a relação ira de fato acontecer. São obras bem distintas, mas este dilema me lembrou o "De Olhos bem Fechado". Meu ranking da série ficaria assim: 1) Minha noite com ela 2) A Colecionadora 3) Amor à tarde 4) Joelho de Claire 5) A padeira do bairro 6) A carreira de Suzanne
  20. Não li a polêmica biografia de Benjamim Moser, mas Susan Sontag foi provavelmente a intelectual mais pop depois de Sartre, uma escritora interessada sobre tudo, mas principalmente, que sabia escrever sobre tudo, concorde-se ou não com seus posicionamentos. Temos aqui um panorama geral da pessoa, num maior grau e da obra, num grau menor. Suas principais amantes e parceiras são ouvidas e muito é gasto sobre sua decisão de nunca ter se assumido como uma mulher lésbica. O que por si só é um tanto absurdo, pois ela era bissexual, um apagamento bastante recorrente na comunidade. Sobra pouco para sua obra e diferente do que muitos intelectuais e acadêmicos perpetuam, falar sobre os tópicos quentes e fazer parte da ação, tal qual em suas viagens ao Vietnã e Bósnia. Outro ponto que poderia ser mais bem discutido é a decepção com sua obra ficcional, de romances e filme (não sabia que ela havia dirigido). Para mim, o insight principal disso vem de uma de suas ex, que mencionou "Susan é insensível"; ela era formidável em destrinchar o outro, mas não conseguia buscar em suas próprias emoções, a inspiração para criar. Não importa, ela escrevendo de outros (Ou de tudo) fez eu me entender um tanto mais.
  21. Inspirado por e inspiração para uma série de westerns, Yojimbo é a 13a parceria entre Kurosawa e Toshiro Mifune. Sanjuro é um ronin que, sem muito destino, perambula pelo Japão do século XIX à procura de serviços. Ele chega a uma vila que é dividida por duas gangues rivais, colocando medo no restante do povoado. Sanjuro então decide "jogar" nos dois lados e acabar com ambos. Um roteiro simples, mas zero expositivo, que traz toda a complexidade das relações deste lugar e que, em minha leitura, reflete a Guerra Fria, que naquele momento esteve no ápice da ansiedade de destruição mútua. As grandes forças são a construção visual e sonora, além da interpretação de Mifune. A trilha sonora aqui é o bastião para o que Ennio Moriconne desenvolveria em sua parceria com Leone; o som, principalmente nas lutas de espadas é um marco novo, também, tanto no tocar de uma com a outra, quanto a inserção na carne; visualmente, é impressionante como Kurosawa consegue focar tudo, seja nos planos gerais, quanto nos próximos. E Mifune, aqui é menos explosivo que em colaborações passadas, é mais cool, mas ao mesmo tempo é perceptível o seu cansaço de muitas batalhas passadas, mas que não impedem sua demonstração de força. Entre as colaborações dos dois, acho que ainda prefiro Trono Manchado de Sangue, mas não por muito.
  22. Nossa, eu tenho 0 vontade de ver este filme, por mais que eu tenha um posicionamento de esquerda e também goste de boa parte dos envolvidos. Sei lá, me pareceu um produto pra assistir enquanto se está no Twitter e não algo que gere uma discussão séria de fato.
  23. Em 2016, Leonard Cohen e sua musa e ex-mulher Marianne morreram separados por 3 meses um do outro. (No caso dele, não me lembrava, foi no meu aniversário). Este documentário "Marianne & Leonard: Words of Love", recentemente adicionado na Netflix, é um olhar para este relacionamento de mais de 5 décadas. Formalmente é colcha de depoimentos, incluindo passagens dos dois personagens principais, embalados por imagens de arquivo, destacando a incrível Ilha de Hydra, na Grécia, onde a história deles se iniciou e que foi um ponto de encontro e fuga durante os anos, praticamente se tornando uma paisagem mitológica helênica. Esta parte de depoimentos reside os dois pontos mais negativos do filme: a auto-inserção do diretor, algo de bem pouco interesse geral e uma cronolgia um pouco bagunçada. O principal da obra foi ver que ambos, Marianne e Leonard, por mais que tenham seguido caminhos muito distintos, tinham um interesse comum: a busca de si mesmos, de uma identidade, de respostas e, principalmente no caso de Leonard, da luz grega no meio da penumbra canadense. "Poetas não fazem bons maridos.", uma frase de uma das amigas deles e que achei engraçada e bem certeira.
  24. Eu não vi ainda. Eu sabia que havia ocorrido um terremoto bem onde rolaram as gravações. Não sabia que havia este note da Copa do Mundo. Espero ver o mais breve possível.
  25. Abbas Kiarostami ficou conhecido por dilatar os limites de narrativas e representações cinematográficas. Close-up, Dez, Gosto de Cereja, Cópia Real e outros são maravilhosos exemplos desta mente inquieta. Eis que tenho contato com "Onde fica a casa de meu amigo?", um filme de "simplicidade" ímpar em sua obra. Essencialmente, um garoto (Ahmed) vê seu amigo tomar um esporro de professor por estar sem seu caderno na aula. Se ele esquecer novamente, será expulso. Ao voltar pra casa, percebe que está com o caderno dele e para evitar o pior, precisa devolvê-lo. Detalhe: ele não sabe onde o amigo mora. Temos aqui início de uma jornada épica para este menino de 08 anos. Incorporando o próprio Sisifo em suas subidas e descidas do Morro que separa os bairros de onde moram, a narrativa toma contorno kafkaniano na impossibilidade de achar a casa. Mais do que isso, a grande beleza é o contraste que fica dos códigos morais dos adultos, com destaque para respeito às autoridades versus a moralidade própria de Ahmed, brilhantemente encenada na sequência que Ahmed "some" por alguns minutos e o foco vai para seu avô e outras autoridades da Vila. Além disso, Kiarostami insere algumas observações incríveis, sem precisar gritar, como um outro colega de Ahmed que reclama de dores nas costas e descobrimos o porquê. Emulando Ozu com um toque de Neo-Realismo, este é um dos trabalhos mais singelos sobre cumplicidade e caridade sem qualquer pieguismo. Tenho muita saudades de Abbas Kiarostami.
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