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Forum Cinema em Cena

SergioB.

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Everything posted by SergioB.

  1. Sem planejar, ultimamente vi muitos filmes clássicos brasileiros...E, ontem, "Bye, Bye, Brazil", de 1980, assinando ainda Carlos Diegues. Oi, coração Amo a música, desde criança, a melodia de Roberto Menescal, e a letra extraordinária de Chico Buarque. Então a ouvi com gosto até o final dos créditos, quando aparece uma dedicatória do diretor: "Aos Brasileiros do Século XXI". Isso me emocionou, de certa maneira. Fiquei com a sensação de que não a merecemos, de que o país avançou muito pouco nos últimos 40 anos. José Wilker está excelente, mas, como sou meio crítico, observo que ele repetiu vários trejeitos ao longo da carreira, como a risadinha sincopada, ou um jeito de tirar o suor da testa. Quem mais me chamou a atenção foi Fábio Jr., lindo e carismático. Eu tenho tesão é no mar De qualquer maneira, o cinema de Cacá Diegues tem uma proposta generosa de país. Ele quer falar do Brasil falando "brasileiro", sem cacoetes de filmografia americana. Por trás da falta de grana da produção, do design, do figurino, há uma riqueza de ideias. Por exemplo, quando a caravana Rolidei está em - se bem reconheço, Piranhas, Alagoas - os personagens se deparam com um velho, interpetado por Jofre Soares, que exibe o filme "O Ébrio", com o cantor e ídolo popular Vicente Celestino - ele que passou uma parte da vida fazendo as mesmas caravanas culturais pelo Brasil. E ninguém se interessa mais! É que o tempo passou. O que reúne ainda a população, do prefeito ao pároco à prostituta, é a tevê pública instalada na praça central passando a novela Dancin` Days. Eu vi um Brasil na tevê. No filme também estão a abertura da Transamazônica (governo Médici), a BR-230 Eu vou dar um pulo em Manaus, que ligou o Nordeste à floresta, e seu consequente desmatamento; bem como há os primeiros anos de Brasília, já de pé, mas ainda recebendo os candangos, transferindo sua cultura musical para o vazio Planalto Central Um Lance lá na Capital O Brasil rural, o Brasil paraíso intocado, dando lugar ao "progresso", ao "moderno", mesmo sem muito jeito, sem muito tino Nem tem que ter ginasial , sem muito traço Puseram uma usina no mar Há muitas boas ideias, generosas ideias, mas eu não gosto da parte "comédia" do texto. E não posso deixar de notar o quanto de Fellini há nessa viagem, ainda mais "La Strada", que vi recentemente. Ambos Road Movie, viagens pela pobreza do país Bom mesmo é ter um caminhão, meu amor Em todo caso, vendo a dedicatória final, penso que nós do Século XXI deveríamos agradecer o presente. A última ficha caiu
  2. Melhor que Irène Jacob, só duas Irène Jacob. Mais linda do que nunca, em 1991, a atriz francesa ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes por seu desempenho fascinante em "La Doube Vie de Véronique"/ A Dupla Vida de Véronique, do mago Krystof Kieslowski. Magistralmente fotografado em nuances de verde, amarelo e vermelho, e igualmente bem dirigido, com uma trilha de extremo bom gosto, só lamento mesmo o filme ter uma história substancialmente boba, que não quer dizer nada. Tipo, o tema dos "duplos" não me comove muito, afinal, tenho eu o meu, pois sou gêmeo. No filme, há uma Veronika na Polônia, e uma Véronique na França. Têm de alguma forma consciência uma da outra. Seriam a mesma pessoa, partilham a mesma alma, um reflexo da Teoria das Cordas? Ambas têm um enorme pendor para a música, compartilham o gesto de passar um anel nos cílios, e se vestem parecido. No entanto, apresentam personalidades um tanto diferentes: A polonesa é mais aberta, livre, confiante, sorridente; a francesa é mais tímida, sensível, e observadora.Tais características se refletirão na vivência do amor. Porém, assim, o filme, como substância, é meio fraco. Ou vago. Ou fraco, ou vago. Sem muitas respostas. É da tessitura de Kieslowski fazer filmes um pouco cifrados demais. Quando ele conseguiu ser um tiquinho mais aberto, alguns anos depois, tocando justamente na questão de vidas duplas, resultou na obra-prima "A Fraternidade é Vermelha". OBS: Outro filme com uma estátua de Lênin "voadora", sendo retirada, pós-comunismo...
  3. "Não vou nem falar nada..." Corte para o ano de 1999, aka "melhor ano da história do cinema". Festival de Cannes. Todo mundo alvoroçado para entregar a Palma de Ouro para Pedro Almodóvar, por "Tudo Sobre Minha Mãe", até que o último filme do Festival foi exibido... Pois bem, "Rosetta", dos irmãos Dardenne, acabou premiado com a Palma de Ouro e o Prêmio de Melhor Atriz, por que todo mundo ficou admirado com a crueza da narrativa, com o que pode fazer um ser humano apenas para arrumar um emprego. Rosetta, a personagem-título, é acompanhanda o tempo todo pela câmera dos diretores belgas, registrando toda a sua luta para ter um emprego, e assim sair de sua vida encerrada em um trailer, com uma mãe alcoólatra. Falar ou escrever não adianta. É preciso ver a personagem agindo. A sua rotina, o seu dia a dia, é quase uma guerra, na difícil tarefa de conseguir sobreviver. Pra isso, ela age como um animal, ou como uma viciada (não bebe nem cerveja!), tamanha a impetuosidade, a fúria, o desespero corajoso, a determinação para ser empregada. Passará por cima das amizades, do amor, da dignidade, e até da moral. Como aprendemos com Brecht: "Estômago primeiro, moral depois". Não deixo de pensar que o maravilhoso "Two Days, One Night" é uma pós-elaboração desta jovem personagem. Pois a luta será - de uma mulher, anos depois - para manter seu emprego. Impressão reforçada pela presença do ator Fabrizio Rongione, como par romântico, tanto lá, como cá.
  4. Minha vez de conferir esse "The Painted Bird", candidato da República Tcheca ao Oscar, e que teve bastante destaque em Veneza 2019, mormente por parte do público deixar a sala horrorizado. Queria muito ter lido o livro de memórias, no qual se baseia, mas infelizmente não há no Brasil. O título é uma metáfora: há um senhor em uma aldeia que pinta um pássaro para observá-lo ser esquartejado pelos companheiros da mesma espécie, que, confundidos pela tinta, creem ser ele um invasor. Uma cena pavorosa, que traduz a essência do filme: Um garoto - provavelmente o autor na vida real - é enviado pela família judia ao interior da Polônia, pois acreditava-se que lá ele estaria mais seguro, evitando-se assim a deportação para um campo de concentração. O garoto então é passado de família em família, uma mais odiosa do que a outra, uma mais supersticiosa do que a outra (ontem escrevi que os mexicanos passavam uma pomba nas costas do doente, aqui passa-se uma cobra), e sofre todo tipo de abuso e violência. Como consequência, pelo que entendi, o garoto emudece. O que aconteceu de fato com o escritor dos 10 aos 14 anos, na vida real. Não acho que o cinema deve ter limites. De jeito algum. Dito isso, existem os MEUS limites! Eu não aguento ver sofrimento animal, e nesse filme a dose é altíssima. Como posso falar que "gostei"? Foi impossível gostar. A Fotografia é maravilhosa, realmente. Os punheteiros da categoria vão se deliciar. Eu não sou. Pra mim, um filme precisa de outras valências, entre elas, um pouco mais de equilíbrio. Como se diz: Há uma barra, e você está forçando ela. Em todo caso, achei muito meritório um filme abordar a parte civil da Segunda Guerra, e não a questão militar, ou a questão política, propriamente ditas. E é sempre importante falar da maldade que um ser humano pode infligir ao outro. Sempre importante.
  5. Luis Buñuel tem em "Os Esquecidos", 1950, seu momento realista, abordando a deliquencia juvenil no México, mas em seu prólogo, deixa claro que a situação dos menores em conflito com a lei era problemática em toda grande cidade mundial. A questão é que o que será mostrado a seguir é bem característicamente mexicano, ou latino. A pobreza enorme, a superstição (carregar o dente de um morto; passar uma pomba viva nas costas), o abandono social por parte do Estado, a polícia supergenerosa que não faz nada... É muito bom filme, realista, convencional, mas...normal. Sem a ousadia intelectual de alguns anos antes, ou anos depois. No entanto, Prêmio de melhor Direção em Cannes, 1951. "De barriga cheia, todo mundo é melhor".
  6. Estava vendo uma live com alguns gurus do Oscar, e fiquei impressionado com a reação deles quando alguém tocou na performance de Anthony Hopkins em "The Father": "Oh, my God; Oh, my God!!". Parece que é incrivelmente foda. Está em segundo na minha lista, apenas por que não faz campanha.
  7. Saudade das boates, saudade dos inferninhos, saudade do rock, do eletrônico, saudade da viagem vertical. Melhor então ver "Enter The Void"/ Viagem Alucinante, filme de 2009, do franco-argentino Gaspar Noé. Sua câmera sem eixo, sem paralelo, entra numa espiral de drogas, alucinações, e também metafísica, pra contar uma parábola do ciclo da vida. Engraçado, mesmo os livros presentes na ambientação são um mergulho no autoconhecimento, uma viagem para o oculto e para dentro. Me chama muito a atenção as tomadas do alto (longos plongée), dos prédios iluminados, da vida urbana noturna em neon, pois se liga a ideia evocada também de uma experiência extrasensorial, uma alma pairando, vigilante. No time de lunáticos de Noé, Pierre Buffin, que fez os efeitos visuais (inclusive em "Clube da Luta", "Avatar"); Trilha de Thomas Bangalter (Daft Punk); e a Fotografia de Benôi Debie, seu parceiro de sempre. Gosto muito da primeira 1 hora e meia. Depois, acho que o filme dá uma caída quando se centra apenas na irmã. No cômputo geral, um bom filme. Que ingenuidade crer que o close de uma ejaculação estaria apenas em "Love"!
  8. Este documentário da Netflix reúne um círculo de palavras mais atinente a um ídolo musical do que a uma advogada de formação: turnê, arena, autógrafos, fãs, entrevistas, show... Mas estamos falando de Michelle Obama, ex-primeira dama dos Estados Unidos, autora de uma autobiografia de sucesso. O doc, da diretora do curta "After Maria", Nadia Hallgren, é pedestre na forma: entrevistas, imagens de bastidor - aquela estratégia básica de ilha de edição. Tem uma evidente adoração pela registrada, que, infelizmente, não se atreve a investigar os desvãos de cada alma, tanto que o que mais me abriu os olhos de espanto foi ver os breves momentos em que há imagens da Fox News contestando o "soquinho" congratulatório que ela dá no marido Obama, interpretado então, na pré-campanha, como um gesto terrorista! É incrível ver a psicopatia dos extremistas americanos! Mas isso dura - o quê?- dois minutos. Poderia ter ido mais a fundo nessa parte do preconceito, mas entendo que quiseram deixar mais em destaque os pontos otimistas, a mensagem de esperança. Michelle, realmente, é uma figura fascinante, que merece estar onde está. Tem muito o que dizer. "Becoming" é uma tarefa que não termina nunca. Trazendo o documentário para o Brasil, me impressiona como os políticos brasileiros não têm postura. Não se dão conta da importância dos gestos, da importância da sua presença nos lugares, da importância, enfim, do cargo. Seria bom que aprendessem com quem chegou aos palácios, e, quando saiu, foi o palácio que sentiu sua falta. Vão fazer campanha para o Oscar?
  9. "Ober"/ Garçom, de 2006, é mais uma delícia de comédia do holandês Alex Van Warmerdam, que sempre, sempre, sempre surpreende. Ou pelo seu lado soturno, ou pela sua inteligência humorada. Aqui acompanhamos a vida de um garçom (vivido pelo próprio diretor) que...na verdade é um garçom fictício...que está sendo desenvolvido como personagem por um escritor. Até que a criatura começa a se revoltar com o criador, e quer tomar conta de seu destino, principalmente junto às mulheres. No fundo, trata-se daquela discussão antiga da onipotência do escritor, confrontada com a existência própria de um personagem bem-criado... O meio do filme é meio sem brilho, se comparados com o início e seu final, mas o filme compensa tudo pelos seus magistrais 10 últimos segundos, que modificam o filme inteiramente. Um dos diretores pelos quais ando "in love" neste ano de 2020.
  10. "Não vou nem falar nada..." Dos filmes mais incensados entre a turminha cult dos anos 1990 (quando o filme finalmente chegou no Brasil), "Paisagem na Neblina" me encantou desde sempre. É a trilha, é a Fotografia, é a história... Mas, hoje, mais velho, mais consciente, sei por que gosto. É porque é a câmera de Theo Angelopoulos que conta o filme. São inúmeros planos-sequência, com poucos diálogos (quase evasivos, pouco expliticativos, que pouco acionam ou adiantam a trama), de um rigor e de uma precisão embasbacantes. A Fotografia é um cinza claro, gelado, uma coisa sensorial, dá vontade de vestir uma blusa... Dois irmãos gregos - a menina de 12, e o menino de 6 - almejam chegar à Alemanha para conhecerem pela primeira vez o pai (que talvez nem esteja lá). O engraçado é que na geografia fictícia os dois países fazem fronteira, num comentário politico inteligente já que, em 1988, o tema da redefinição das fronteiras estava mesmo candente. Da mãe das crianças, também não se sabe nada. Tudo isso, sem muito chororô manipulador. Os atores mirins não são usados como plataforma. Quase não há closes. Aliás, se tiver 1 é muito. O que temos é apenas a estrada, que os levarão a encontrar pessoas maléficas, pessoas boas, a sexualidade precocemente forçada, a mão de uma estátua da herança comunista sendo içada de helicóptero (prequel de "Adeus, Lenin!"), um ator-motoqueiro (gay! Abusado na infância?) , e uma árvore...inesquecível árvore...entre a neblina. Obra-prima.
  11. "Batman Begins" começa mal. Muito didático, para uma história assaz conhecida, mas reconheço a necessidade de agradar aos fãs. Vencidos os primeiros 50 minutos, o filme deslancha. Só queria ver a parte da descoberta da batcaverna, sua construção, e depois a testagem do tumbler (quero um de brinquedo, já que não posso ter o de verdade!)...Como eu amo aquelas cenas!!! Morgan Freeman, irônico: "Ah, você não vai querer ver..." E há ainda muitas cenas boas: como a do primeiro bat-sinal... A bem da verdade, não é só o começo, a confusão do final também me desagrada um pouco. Gosto de uma imagem de ação mais limpa. Nisso o Nolan melhorou muito. Nathan Crowley é muito subestimado! É ridículo ele nunca ter ganhado uma estatueta de Oscar na categoria Production Design, apesar de 5 indicações. Primeira indicação ao Oscar do Pfister em Fotografia. Este já ganhou. Pelo filme errado, acho. Michael Caine, Gary Oldman, Freeman, e Bale, excelentes!
  12. Pois é, rapaz, uma pena que esse projeto foi sabotado. Já vi o documentário, sim, é excelente, tem resenha minha, aqui, inclusive, mas a rigor não é "dele", é com ele.
  13. Gênio é gênio, né, pái?! O chileno Alejandro Jodorowsky, na minha opinião, é o maior artista vivo sul-americano (Abaixo, Vargas Llosa, e Caetano Veloso)! De quebra, ele começa sua carreira cinematográfica, em 1957, com um curta-metragem esplêndido, baseado em "As Cabeças Trocadas" de Thomas Mann. "La Cravate" conta em 20 mintuos uma história de autoaceitação, amor de si, e - por que não? - anti-ideológica. Ninguém precisa fazer a cabeça de ninguém! Orgulhe-se da sua mente! Parecem ser os temas do filme. A gravata que dá título ao curta é uma peça do vestuário associada ao caráter burguês, aos bons modos, à massificação do trabalho do homem. Quando o personagem, vivido por Jodorowsky, a retira de seu figurino, pode ser quem de fato ele é: feliz, amoroso, jovial. Com uma trilha linda; recursos visuais espertíssimos; "no money", só criatividade; sem diálogos; totalmente estruturado na mímica de Marcel Marceau, com quem Alejandro teve aulas em Paris; "La Cravate" é de um surrealismo profundo e lírico. Como não amar? Amei.
  14. O ano de 2016 foi bem difícil pra mim, então não perdia tempo com qualquer filme, especialmente os mais mal criticados. Só ontem, acredite se quiser, eu perdi meu tempo para ver essa bomba nuclear do Zack Snyder chamada "Batman vs Superman: A Origem da Justiça". Um amigo meu especializado em quadrinhos estava me explicando que temos que entender que a ideia nos quadrinhos é a desconstrução do herói, que se vê nos divisores de águas "Watchmen" (que chegou às telas também com a assinatura do Snyder) de Alan Moore, e "Cavaleiros das Trevas" do Frank Miller, ambos de 1986/1987 (com seu Batman velhão). Daí por diante, vários gibis tentaram replicar essa ideia de desconstrução do herói sem sucesso, e essa ideia revisionista chegou ao cinema, também, até agora, sem muitos louros a colher. E esse filme de 2016 não tem nenhum mesmo. O que é aquele início? São todos os clichês de filme de ação em 5 minutos. Tem até garotinha sendo salva no último instante da queda de uma "viga". O que é aquele final? Um orc gigantesco, copiado na cara dura? E nem vou falar do instante "Martha", por respeito a todo mundo aqui... No quesito atuações, só Amy Adams e Gal Gadot se salvaram, na minha opinião. O resto...Ben, Henry, Jesse, Hunter, Irons, nossa, podem voltar pra escolinha de Ator. Uma Fotografia escura demais...Chegou em 3D aos cinemas? Não me lembro. Trilha "nada" do Zimmer... O único instante que eu gostei foi quando a Gadot entra no sistema Luthor e vê todos os "meta-humanos" vigiados, aparecendo brevemente os heróis do universo da DC. Achei muito da hora. Muito pouco, ainda mais para quase 3 horas de filme.
  15. Estou há meses vendo filmes da era do Cinema Político italiano dos anos 1960, sucessora do Neorrealismo; mas estava faltando um filme do grande e profícuo Mario Monicelli, e esse "I Compagni"/ Os Companheiros, de 1963, é maravilhoso! A cena final, então, é espetacular. Bati palmas! Seu Roteiro Original, inclusive, foi indicado ao Oscar, em 1965. É um filme painel, sobre a situação dos trabalhadores em uma fábrica no final do Século XIX. A exploração dos empregados é tamanha, que eles se veem sujeitos a muitos acidentes de trabalho, o que dá azo à uma primeira contestação, o que chamaríamos hoje de Operação Tartaruga. Os trabalhadores são punidos pelos donos da fábrica, mas o levante chama a atenção de um professor comunista (Marcello Mastroianni), que chega à cidade para ajudá-los a aumentar a temperatura, e incitar o desencadeamento de uma greve. É um filme claramente de cepa comunista, no qual há a figura de um intelectual de esquerda que instruirá a classe operária a conhecer seus direitos, a lutar por seus direitos, a tentar tomar a fábrica (é dizer, na linguagem marxista: "expropriar os meios de produção"); sairá pessoalmente ileso dos conflitos; e se tornará político. Dou risada, pois na vida real é isso que acontece inadvertidamente. Uma plataforma à carreira política. No soberbo "Eles não Usam Black-Tie", escrevi longamente e aqui reitero: A questão do Direito de Greve hoje em dia mudou completamente! Não vejo greve no setor privado de maneira nenhuma, pelo contrário, vejo todo mundo muito aliviado por trabalhar ainda na Indústria - um local onde os salários em regra são maiores e há mais benefícios. Onde há greve atualmente? No Setor Público! Embora o STF já tenha decidido que pode-se cortar os vencimentos de uma paralisação julgada ilegal, não vemos os governantes com coragem suficiente para tal. Os servidores, portanto, fazem greve, prejudicam o serviço público (em Minas, os professores estão em "greve", em plena pandemia, clamando por aumento salarial, de um orçamento pré-falimentar), e ainda recebem integralmente, todos os meses. Mas estou divagando... O filme é maravilhosamente bem filmado, com a Fotografia que parece uma "foto" antiga realmente, obra do brilhante e ainda vivo Giuseppe Rotunno ("Amarcord", "Rocco e seus Irmãos", e indicado ao oscar pela obra-prima "All That Jazz"). Figurinos perfeitos, de Piero Tosi. Montagem muito bem feita, pois soube alinhavar muitas histórias, de Ruggero Mastroianni, irmão mais novo do ator - (Rugerro morreu em setembro de 1996, e Marcello em dezembro, não aguentou de tristeza). Vale muito a pena ver esse filme. Principalmente com os olhos bem abertos para todas as transformações do mundo do trabalho. Amei.
  16. "Clemência - A História de Cyntoia Brown" é um documentário a respeito de uma jovem de 16 anos que foi presa e condenada à prisão perpétua por assassinato. É um acompanhamento da defesa jurídica dela ao longo de muitos e muitos anos, bem como uma análise sobre o passado tormentoso dela e de sua família. Para quem ama Direito, é uma grande oportunidade para pensar e repensar diversos temas, como Juiz Natural, Ressocialização, Prova, Revisão Criminal... Se acompanhamos bem a doída vida de Cyntoia, e seu caso jurídico, há um grande ausente no documentário: a vítima! A família da vítima só é ouvida em menos de 30 segundos! Isso mesmo. Causa surpresa a vocês? A mim, nenhuma. O preso, o condenado, é um dos personagens da Sociedade de Coitados que estamos cultivando. Falam em liberar presos na pandemia, por questões de humanidade; apelam emocionalmente para as razões sociais do crime; discute-se preconceito racial ou sexual...Já a vítima é a grande personagem ausente do debate penal. Falar da dor da vítima é uma questão - parece - "de direita". Já dizia o ditado: Um liberal é um cara de esquerda que foi assaltado. Ou, acrescento, teve alguém da sua família assassinado.
  17. Não vou nem falar nada... Sempre bom ver uma atuação de verdade, gigantesca...Giulietta Masina em "La Strada", de 1954. O que mais amo é ser Gelsomina, em essência, um palhaço. Não pela risadaria, mas pela expressão infantil, inocente, triste, e vulnerável, de um clown. Basta, para comprovar, aquela piscadela, com o rosto maquiado... Uma artista intrínseca, natural, e que não sabe disso; diferentemente do personagem de Anthony Quinn, dono de um número só. Aliás, artista não o é, pois é incapaz de se dar. Vencedor do primeiro Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1957 (pois antes havia apenas prêmios de mérito). Fellini, ou a Itália, repetiriam a dose, no ano seguinte, por "Noites de Cabiria".
  18. Ontem à noite, revi "Ilha do Medo", um filme que eu não gosto, aliás, não gosto nada, vi apenas pra conferir uma informação passada por um colega meu. Que o filme tem em seu soundtrack a mesma peça musical de "A Chegada", a música denominada "On the Nature of Daylight". É verdade. O tema é usado quando o personagem de Leonardo diCaprio lembra com saudade da esposa vivida por Michelle Williams, e é executada por duas vezes; enquanto em "A Chegada" é a música de Amy Adams "lembrando" de sua filha. Claro, que no filme de Villeneuve ficou muito mais bem colocada, com maior duração, mais emotiva. Nada neste filme do Scorsese funciona a contento. A começar pelos péssimos Efeitos Visuais, que denunciam, de cara, o "segredo" da história. A Fotografia associada ao CGI já me desagradara em 2010, e, com o passar de 10 anos, ficaram ainda piores. E, de fato, nem essa bela composição conseguiram usar.
  19. "The Half of It"/ Você Nem Imagina é o filme mais assistido da Netflix Brasil nos últimos dias. O filme me surpreendeu no começo, ao fazer uma introdução baseando-se em "O Banquete" de Platão, e depois discutir a repressão do desejo no livro "Os Vestígios do Dia". Mas infelizmente as citações eram apenas "lustre". Porque o filme vira um repeteco de ideias banais, e, pior, comete um atentado contra si mesmo. Explico. Fico perplexo em ver como os gays estão celebrando esse filme. São os gays que se contentam com o abraço apaixonado de dois personagens do mesmo sexo na cena final de um filme, ou no último capítulo da novela! Mostrar personagens gays que não se tocam é o derradeiro estágio do preconceito heteronormativo. Os produtores, diretores, etx, devem ficar aliviados: "Falamos do assunto, mas não precisamos mostrá-lo, para não agredir ninguém". Me revolta! Neste filme, a personagem lésbica é intocável! Como pode? Eu até entendo que os gays na adolescência sofrem pra caralho de "amor mental", de um sentimento represado, e acho louvável fazerem um filme disso, mostrar a angústia disso. Mas o caminho do filme não é exatamente esse. Faz-se uma comédia romântica dessa situação. Ok, até aí ok. Mas o final é inadimissível. O máximo que permitiram à adolescente lésbica é um beijo roubado de dois segundos de duração. Isso não é "representatividade" nem aqui, nem na China, nem para os chineses que moram nos Estados Unidos. Fora isso, a atriz Leah Lewis infelizmente não tem fotogenia, nem presença de cena, para carregar o filme. Um desserviço embrulhado para presente.
  20. Ao final de "Bacurau" assiste-se a um enterro coletivo das vítimas (dos "americanos", da Operação Lava-Jato, da Elite Brasileira, do Capitalismo), cujos nomes cantados são de Marisa Letícia (evocando a ex-primeira-dama, que padeceu de um aneurisma, dizem, inoperável), da vereadora Marielle Franco, e o nome de um homem menos na boca do povo, João Pedro Teixeira, líder rural, assassinado em 1962, e que veio a ser o motivo primeiro do filme "Cabra Marcado para Morrer". Vi o documentário pela primeira vez na Universidade, mas sem muita cultura cinematográfica, não sabia apreciá-lo. Não tinha cultura cinematográfica, e não tinha cultura econômica. Então só podia repetir os clichês que os professores de esquerda nos obrigavam, começando pelo hoje abandonado "A necessidade da Reforma Agrária"... No entanto, queria revê-lo, já que muitos o reputam como o maior filme brasileiro de todos os tempos, a começar, salvo engano, pelo Pablo Villaça. Eu amo a parte formal. Ser um documentário sobre uma ficção. E daí seus caminhos tortos: Ser um documentário sobre um homem e acabar sendo sobre uma mulher. Ser um documentário sobre a História política e acabar sendo uma história de vidas miúdas. Ser uma documentário sobre o sertão rural e acabar varando pelo país inteiro, indo parar até em Cuba. E já se disse melhor do que eu: este é um belo documentário de como a Ditadura mexeu não só com as vidas da classe média da época e com os artistas de então, mas também com os mais pobres dos pobres. É dizer, o que houve em 1964 acabou com a vida dessa família, separou 8 irmãos, gerou brigas inconciliáveis, prisões arbitrárias, suicídio... Não dá pra passar o pano, nunca, jamais! Agora, é lógico que estamos diante de uma obra marxista. Que defende muito claramente ideias que estão ERRADAS do ponto de vista econômico (gerando, na China, uma enorme Fome, que matou milhões de pessoas!), que geraram inclusive mais pobreza do que a retratada no sertão, em todos os lugares em que floresceu, bem como gerou mais repressão do que aquela que acabamos de asssistir. Cuidado com a manipulação ideológica, seja de que matiz for, seja de onde vier. Com arte ou sem arte. Não passo pano pra ninguém.
  21. Finalmente vou ler "O Romance Luminoso", de 2005, considerado o melhor livro latino-americano do Século XXI, ao lado do extraordinário "2666". Seu autor é o uruguaio Mario Levrero, que começa a ser mais reconhecido por aqui nos últimos tempos. Trata-se de uma autoficção: O diário de Levrero tentando escrever este mesmo livro, sim, O Romance Luminoso. Conseguirá? São 644 páginas de texto até se descobrir.
  22. As imagens das famílias atingidas pela Covid-19 que não podem sequer ver ou enterrar seus parentes me deixam mortificado. Toda a hora me lembro de "Antígona", peça escrita inacreditavelmente no ano de 442 a.C por Sófocles. Fui ver um dos inúmeros filmes. Este "Antígona" é um filme grego, de 1961, e conta com a maior atriz grega da história, Irene Papas, no papel-título desta história, que fecha o ciclo Tebano. Papas, que, sejamos sinceros, aparece relativamente pouco. Mas muito linda, compenetrada, e digna. Uma guerreira em prol da virtude, em prol do que é eticamente correto. Mais do que a irmã lutando para enterrar o corpo do irmão, conforme a lei divina; o que podemos observar sobretudo é o nascimento de um autocrata, de um désposta orgulhoso, Creonte, que pretende ser maior do que a Lei vigente. Será que há algo parecido ocorrendo por aqui, 2442 anos depois?
  23. Dez anos depois do ótimo "O que Resta do Tempo", o palestino (nascido em Nazaré, hoje Israel, mas ai de quem o tratar por israelense) Elia Suleiman vem com esse formidável, cômico, e elegantíssimo "It Must Be Heaven", premiado com uma Menção Especial do Júri em Cannes 2019. São vários esquetes entrelaçados, filmados na Palestina, em Paris, e em Nova York, que são observações sobre o cotidiano, e parecendo defender a tese de que todos somos mesmo muito parecidos, por mais que tenhamos nascidos seja onde for. Elia Suleiman, roteirista, diretor, e protagonista, age como um Buster Keaton, ou Jacques Tati, não falado nada, colhendo humor seja onde for, apenas testemunhando o comportamento às vezes nobre, às vezes bobo, às vezes egoísta das pessoas. As diferenças se encurtam. O militarismo vaidoso dos policiais de Israel é confrontado mais à frente com os policiais sem muito o que fazer de Paris, que só têm que verificar as posturas dos bares, se as calçadas estão devidamente ocupadas, etc; ou ou agentes superequipados de Nova York correndo atrás de uma simples ativista pró-Palestina. Ou então as belas mulheres árabes que passam carregando água na cabeça são igualadas às chiques parisienses que andam maquiadas e em roupas de grife. Tudo é muito bem filmado, de uma maneira muito bonita, calma, gentil, e afetuosa. Por afetuosa, a cena com o passarinho que invade o partamento de Paris e depois atrapalha o trabalho de Suleiman, até ser expulso pela janela... Maravilhoso! Amei!
  24. Falando em famílias... "Toda Nudez Será Castigada", de Arnaldo Jabor, adapta com sucesso a peça de Nelson Rodrigues. Um pouco de datas: a peça é de 1965, o filme de 1973, e, como a protagonista se chama Geni, me fez atinar que eis aí uma inspiração culta para a famosa Geni da canção de Chico Buarque, presente no musical "Ópera do Malandro", do ano de 1978. A história nos ensina que o dramaturgo gostou muito do filme, pois Jabor não escondeu seu caráter de folhetim. E é justamente esse tom que faz tudo funcionar muito bem. Um quê de tragédia, alçando o sexo à um agente destruidor da moral, à agente do caos, e perturbador da ordem. O que viria bem a calhar no período de auge da Ditadura. Darlene Glória está excelente como a prostituta Geni. Ora criança crescida, ora mãe trágica, ora noiva desvirginada, ora madrasta sexy, sempre puta. Traz vida, simplicidade e calor à personagem. Gostei muito. É digno do Urso de Prata que ganhou em Berlim. Mas imensamente prejudicado pela Mixagem de Som terrível da época. Quem passar pela técnica falha, porém, verá um grande filme do cinema nacional.
  25. Não curti muito essa animação independente, adquirida pela Netflix. "Os Irmãos Willoughby" tem uma premissa muita boa, uma sátira sobre uma família disfuncional - família que é sempre vista como a "base", seja por religiosos patriotas, seja por estúdios de animação, seja por uma concepção individual pequena-burguesa da existência. Como diz Freud, "A salvação está fora da família", pois afinal, ela é a base da educação, da criação, bem como da origem de todos os traumas. O indivíduo, em certo momento, precisa ruir essa base, para existir. Mas infelizmente essa premissa de crítica à família ideal é desperdiçada por um enredo mal desenvolvido. Do nada, o filme faz uma curva e vai parar em uma fábrica de doces, ficando às voltas com um bebê. Tipo, são 20 minutos perdidos. Parece uma cópia das peripécias do bebê de "Os Incríveis" num cenário de fábrica de chocolate. Para quê? Que não acrescentam em nada. Aí depois se retoma à narrativa. Mas esse desvio me retirou do filme. Embora a conclusão seja atinente com a premissa: família é quem te ama. No visual, gostei bastante do uso das cores, vivas, exarcerbadas.
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