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Pequenas Causas Cinematográficas


Nacka
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1 - Deadman, a sentença precisa fundamentar-se em uma opinião, foi que fiz se ela lhe pareceu parcial, tudo bem, mas não retiro uma vírgula. Sim e foi consenso entre os demais do júri. Sem recursos cara pálida e você tem mais o quê para falar?

 

2 - Assista Crash... falar sobre quem está defendendo ou acusando o filme, não né?

 

PS: Prepare-se para o grill do Cozinha...
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1 - Deadman, a sentença precisa fundamentar-se em uma opinião, foi que fiz se ela lhe pareceu parcial, tudo bem, mas não retiro uma vírgula. Sim e foi consenso entre os demais do júri. Sem recursos cara pálida e você tem mais o quê para falar?

 

2 - Assista Crash... falar sobre quem está defendendo ou acusando o filme, não né?

 

PS: Prepare-se para o grill do Cozinha...
[/quote']

 

1) Relaxa! Foi só um comentário! Afinal, ao contrário de um "tribunal de verdade" onde a sentença é pronunciada depois de um longo processo (mix de levantamento de fatos, dados, testemunhos, retórica etc), aqui o que vale, no fundo, são opiniões. Mesmo que sejam de um "Juizado Instituido"...Nada contra! Só não concordo. 05

 

Tenho muito mais a comentar, mas se não há recurso, pra quê?!03 09 Deixa como está. Gosto do filme e tenho minhas razões. Isso basta.  

 

2) Vou pensar no caso... Acho que me fiz entender errado: não vou entrar aqui pra comentar (bem ou mal) QUEM quer que seja (a pessoa), mas o MODO como os argumentadores irão se comportar. Aliás, nem sei se farei isso...       

 

PS: Fico no aguardo da chapa quente!
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Sobre a sentença:14

 

Esse tribunal é completamente parcial......

Tchau.03

 

Posso achar o mesmo da sua participação? Vou reiterar o que já te disse, o Tribunal é uma BRINCADEIRA, claro que tentamos nos manter sérios até porque estamos discutindo um filme e opiniões devem ser emitidas com seriedade, mas não espere e não crie na sua mente a figura ilusória de velho gagá com toga e peruca branca mal conseguindo levantar o martelo, não aqui. 

 

A "sentença" é dada após deliberação do júri e não é (como respondi para o Deadman) passível de recursos, demoraria demais e não é o propósito do tópico, no entanto, a deliberação sobre o filme de Gibson foi a mais demorada, normalmente a "sentença" é dada no sábado e só fechamos hoje. Vocês que se sentiram incomodados com a forma que o filme foi tratado poderiam ter se manifestado durante o final de semana, o que houve?  A pá de cal jogado pelo Alexei sepultou os ânimos? Estranho, não houve uma vírgula sobre o ótimo texto que ele postou, porquê? 

 

Bem de qualquer forma agora o trem já passou.

 
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 "...A pá de cal jogado pelo Alexei sepultou os ânimos? Estranho, não houve uma vírgula sobre o ótimo texto que ele postou, porquê?" [/quote']

 

Desculpe-me Nacka, mas não pude resistir...Será que faria (faria?) alguma diferença eu postar outros 3 ou 4 textos "ótimos", só que simpáticos ao filme?!17 Além do que, no fim de semana "o cal" jogado, voltou do jeito que veio (ou será que não?) e nem mesmo o Alexei fez algum comentário sobre...

 

O Cisne deve ter morrido... Com a palavra, o Gato!  06  
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A questão é, você encontraria textos simpáticos ao filme? (preciso lembrar que a crítica especializada acabou com ele?)

 

Veja bem, o texto da Slant que o Alexei postou é virulento mas aponta direitinho os descalabros do filme, ou seja, ele postou um texto que corrobora sua posição.

 

E você? Aceita o desafio de fazer o mesmo? Vasculhe na net por um texto e não precisa traduzir (dá muito trabalho) como ele fez, só precisa ser tão "simpático" ao filme de Mel Gibson quanto é virulento o outro e aí a gente compara, só para re-finalizar e enquanto não aparecem os detratores e/ou defensores de Crash. Run Forest, run...
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 Atendendo PARCIALMENTE o pedido do Nacka (sorry, mas lá vão 2 textos e nenhum deles do Bernardo 19 06...):

 

Primeiro texto retirado do site Contracampo de autoria de Eduardo Valente:

 

"Há pelo menos cinco ou seis claras opções diferenciadas de aproximação com A Paixão de Cristo – isso tudo num primeiro olhar, é claro. Trata-se de um filme importante de se analisar para além de suas condições cinematográficas – mas seria um erro desprezá-las também, trocando-as tão somente por uma leitura de ordem teológica ou como fenômeno cultural. A Paixão de Cristo, sabe-se desde já, é filme para se voltar a ele depois, com calma, em outras circunstâncias e com o peso de seu massivo lançamento já um pouco atenuado (nisso se parece muito com outro filme, e a comparação faz todo sentido – Titanic). No entanto, parte do trabalho da cobertura crítica no calor da hora, que é uma das atividades que exercitamos aqui na Contracampo, é o de se arriscar sem muitas redes de segurança a um olhar mais rápido, mais urgente, mais imediato. E é isso que se fará neste texto – ainda que seja necessário separar, desde já, pelo menos dois Paixão de Cristo diferentes: o filme e o fenômeno de lançamento. Trataremos, aqui, dos dois.

O filme – Os olhos de Cristo

De todos os aspectos de linguagem que Mel Gibson resolveu usar no seu retrato do martírio de Cristo (a onipresença do sangue, a câmera lenta, os diálogos em aramaico e latim, a trilha sonora percussiva, etc), um parece estar passando desapercebido, quando claramente é o mais importante e coerente: o retrato do Cristo através dos seus olhos. Esta frase, aliás (graças aos meandros misteriosos da língua portuguesa), tem ao menos duas leituras imediatas – e ambas fazem sentido.

Impressiona, primeiro, a obsessão de Gibson por cenas em close no rosto de Jim Caviezel como o Cristo. Closes estes que buscam revelar nos seus olhos (melhor seria dizer, no olho esquerdo – uma vez que o direito passa boa parte do filme desfigurado) toda a decepção e posterior crença de Cristo na raça humana; ou por outra, a dimensão simultaneamente divina e humana do personagem. Nesta aposta, Gibson não confiou só no seu ator, nem só no fotógrafo: há uma evidente manipulação digital de todas estas imagens, de forma a imprimir uma tonalidade de intensa suavidade sobre-humana à íris do olho do Cristo. Poderia parecer um detalhe, se não fosse um tão obsessivamente repetido, enquadrado, buscado. Vemos com atenção o olhar de Cristo a Pedro quando este o nega três vezes; o olhar para Simão quando este o vem ajudar a carregar a cruz; o olhar para Maria, para Maria Madalena, para Pilatos, para Judas – em suma, todos os olhares são focados e iluminados de forma a destacar o olho de Jesus Cristo, simbolizando sua visão da Humanidade (espelhada nos outros personagens).

O que nos leva ao segundo entendimento da frase que abre a argumentação lá em cima: vemos o filme através dos olhos do Cristo não só por sua constante focalização como imagem central, como eixo dramático da narrativa, mas principalmente porque Gibson tenta nos contar esta história "através dos olhos de Jesus Cristo" – ao contrário dos evangelhos, podemos dizer que o narrador aqui é Cristo. E, neste ponto o filme dá um recuo de uma riqueza inesperada: ao fazer isso, Gibson não apenas se utiliza de métodos clássicos da linguagem cinematográfica (como inúmeros planos ponto de vista encarnando o olhar de Cristo, ou a centralização dos flashbacks em momentos de lembranças claramente dele), como deixa claro que assume ele mesmo (Gibson) a voz de Cristo. O diretor é, ele também, o Filho de David, por assim dizer, e seu filme é uma enorme acusação à raça humana, na verdade (acusação esta que tem sua prova inconteste no olhar de Maria para a câmera, que fecha o filme, antes do rápido epílogo/ressurreição). O que Mel Gibson busca, com sua câmera, é reviver o martírio sem igual pelo qual passou Jesus, segundo a fé católica, pela mão dos homens.

Daí porque parece essencialmente tolo acusar o filme de sadismo ou de ostentação da violência: esta acusação faz supor uma violência gratuita, quando de fato ela é a motivação essencial de Gibson ao realizar o filme. Pode-se concordar ou discordar de seus objetivos, isso é uma coisa. Não se pode é julgar a forma de seu filme inadequada a seus propósitos – Gibson filma da única forma como poderia filmar esta sua visão da história. Quando ele fala de filmar o martírio de Cristo como nunca havia sido mostrado, não creio que se trate de um problema de verdade histórica, como se quis fazer crer, e sim de tratamento de personagem. Afinal, se personagens humanos históricos (e até mesmo ainda vivos, infelizmente) sofreram torturas indizíveis nas mãos de outros seres humanos, o que se esperar do retrato do martírio do filho de Deus? O que Gibson faz é uma opção radical: tentar dar encarnação sobre-humana ao sofrimento de Jesus – aonde sua câmera é Jesus, e o espectador é uma encarnação de Judas (não por acaso seu suicídio merece filmagem à parte).

É claro que se pode dizer que este ato é sádico em relação ao espectador, mas aí é que se completam as intenções do diretor: ele sabe disso. Sabe tão bem que pelo menos em dois momentos isso está colocado na tela em seu filme: quando Simão tenta tapar os olhos da filha pequena perante os horrores da Via Crúcis, e quando uma outra personagem pede aos gritos: "Alguém faça isso parar!" Gibson sabe que seu filme vai nos limites do tolerável – e é seu desejo que assim seja. Porque, segundo sua visão, o espectador precisa ser tratado como o povo nas ruas frente àquele espetáculo: a catarse só seria possível pelo exagero, e recusar este espetáculo é recusar sua participação nele. Portanto, o "gore", o sangue, o seviciamento de Jesus é parte essencial da proposta de Mel Gibson com este filme – e não entender isso é não entender o filme.

Complementarmente, é tolo da mesma forma acusar o filme de anti-semita: sim, os judeus são retratados, em sua maioria (e aí seria preciso abstrair o fato de que Jesus era um deles), como os responsáveis pelo sofrimento de Cristo. No entanto, o que se deve ter bem separado é que o problema não é alguma característica inerente a uma "alma judaica", e sim uma condenação por Gibson da raça humana quando defronte a seu "salvador": a raça humana falhou, segundo ele – não os judeus. Os judeus apenas calharam de ser os que ali estavam – mas os romanos não são nada melhores (com exceção de Pôncio Pilatos, cujo retrato aliás daria pano para manga em outros textos), nem seria diferente com nenhum outro povo. É interessante reparar que o perdão e a compaixão, se existem no filme, são encarnados sempre nas mulheres: não só em Maria, a Mãe, ou em Maria Madalena, mas também em uma mulher que assiste à Via Crúcis e se apieda dele; e surpreendentemente, na mulher de Pôncio Pilatos (ela sim a responsável pelos atos "piedosos" dele).

É desta representação da dor de Cristo (e, por conseguinte e principalmente, da falibilidade dos humanos) que Gibson quer tratar – e a forma como o faz é através de um filme tão irracional, exagerado, manipulador e revoltado quanto qualquer ato de fé cega. E é isso que o filme é, no final das contas, e o que o torna tão fascinante: um produto autenticamente religioso, crente – ao contrário de tantas aproximações das escrituras que tentavam usar o Cristo para outros fins, fossem eles espetaculares, paródicos ou políticos (dos quais trataremos aqui mesmo na revista – <?:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />em DVD/VHS). O filme de Gibson inaugura um cinema efetivamente fundamentalista (afinal o fundamentalismo não é característica exclusiva do Islã, e sim uma forma de enxergar o mundo pela fé cega), e isso torna seu filme admirável pela honestidade. Para além das questões em torno de seu lançamento (as quais mencionamos abaixo), o que nos importa aqui (o filme que está na tela) é absolutamente radical, não negocia: um filme desagradável e exagerado, como o grito de um fanático. E, acima de tudo isso: um filme que prega o que acredita, e não tem medo de levar o que prega (sem trocadilhos, por favor!) até o fim. Por tudo isso, um esforço admirável – mesmo com todos os seus pontos questionáveis, aos quais podemos voltar no futuro.

O fenômeno – Alhos e bugalhos

Para todos os fins, há que se separar o fenômeno de bilheteria e divulgação de A Paixão de Cristo em dois momentos distintos (ainda que de difícil separação cronológica). Até mesmo nisso, mas não só, é importante apelarmos para uma comparação com o Titanic de James Cameron: tanto num caso como no outro, os cineastas enfrentaram Deus e o mundo, dentro do sistema hollywoodiano, por acreditarem na validade de suas visões – e se provaram certos no final das contas (especialmente no final das contas). Claro, dirão os mais céticos, é muito mais fácil brigar com o sistema estando dentro dele, ou sendo James Cameron ou Mel Gibson, e cooptando os milhões de dólares deste sistema para trabalhar por você. Isso tudo é mais do que óbvio ou evidente. Mas, ainda assim, há que se diferenciar um Titanic, um Paixão de Cristo, de um projeto laboratorial de um grande estúdio, totalmente pensado e feito sob controle para gerar lucros com poucos riscos. Não por acaso, talvez, estes poucos riscos gerem poucas surpresas – enquanto Titanic e Cristo pegaram todos de calças curtas tal o alcance de seu sucesso. E o que isso tudo tem de interessante? Talvez a afirmação de uma estranha modalidade radical de cinema de autor – dentro dos grandes estúdios.

"Cinema de autor??", perguntarão aqueles – pensando em Godard, em Glauber, em Bergman. Sim, cinema de autor: A Paixão de Cristo é um dos mais radicais exemplos de autoria no cinema a aparecer em muitos anos nas nossas telas. Senão, vejamos: sem conseguir financiamento de nenhum grande estúdio, Mel Gibson pegou dinheiro próprio seu, de sua produtora (não por acaso a Icon assina o filme sozinha), e foi filmar com pouco mais de 25 milhões de dólares sua Paixão de Cristo em aramaico, com atores desconhecidos. O orçamento, diga-se, claramente não é uma invenção de marketing para dar charme a uma mega-produção: Paixão de Cristo tem características formais e de filmagem típicas de um "filme B" (que é o que seria hoje um épico histórico filmado com este orçamento – que em Hollywood é de comédia romântica contemporânea), e esta é uma de suas características mais interessantes. "Ah, ele filmou em aramaico só para ser diferente" – OK, mesmo que se acredite nisso, certamente não estaria em acordo com um filme de grande estúdio, aonde se odeia bastante o "diferente". Paixão de Cristo era tão desacreditado em sua pré-produção, quanto Titanic às vésperas do seu lançamento.

Aqui, cabe esclarecer uma diferença importante: o filme de Cameron tinha tido um início radicalmente diferente do de Gibson, com um mega-orçamento aprovado na casa dos cento e tanto milhões de dólares. No entanto, uma vez que o perfeccionismo obsessivo de Cameron (característica partilhada por Gibson, dizem) levou o filme a sucessivos estouros de orçamento, chegando perto (ou ultrapassando, dependendo da versão) os duzentos milhões de dólares, o estúdio já tinha desistido totalmente de qualquer "sucesso" – desejava-se no máximo, perder o menos de dinheiro que se pudesse. Isso não é tese "a posteriori" – está registrado nas revistas do mercado de cinema americano às vésperas do lançamento.

Gibson filmou e começou a trabalhar na finalização do filme sempre por conta dele, já tendo fechado com um distribuidor absolutamente independente. Aí é que as coisas começaram a ficar interessantes: com a polêmica que as instituições religiosas (principalmente as judaicas) resolvem comprar com o filme ainda não pronto. Possivelmente foi aí que os estúdios (que hoje estão ligados ao filme no mercado externo – no Brasil o filme é lançamento da Fox, por exemplo) começaram a se dar conta de que, uma vez feito por tão pouco, talvez este filme não fosse de todo um mau negócio – polêmica é sempre (ou, quase sempre) bom para os negócios. Entretanto, a estas alturas um certo abraço do sistema já não mudava mais a independência do produto final que Gibson assina: em aramaico e latim (portanto com legendas nos EUA), sem atores famosos (Monica Bellucci não é ninguém nos EUA, nem mesmo pós-Matrix), ultra-violento e com censura para menores de 17 anos.

Mas, talvez o ponto mais interessante a unir os dois filmes seja o do trabalho com gêneros. Quando o senso comum diz que o cinema é feito hoje para adolescentes interessados, antes de tudo, no cinema de ação com muitos efeitos visuais, ou nas comédias rasgadas e de pouco raciocínio, Titanic vinha propor, do alto de suas três horas e pouco de duração, um retorno ao cinema épico romântico que se considerava enterrado nos áureos tempos hollywoodianos. Um produto cinematográfico atualizado, sem dúvida (basta ver os efeitos visuais abundantes), mas ainda assim filho completamente diferente do que se produzia em torno dele – uma aposta radical num cinema de gênero, romântico e grandioso. De forma análoga, o filme de Gibson vem propor a volta a um gênero ainda mais distante e "enterrado": o filme bíblico, religioso, não só desinteressante a princípio, como de fato proibido (nos EUA) para o público adolescente.

É neste contexto que a presença dos dois como os maiores fenômenos de bilheteria da história recente (ou de sempre) do cinema americano não pode ser vista sem interesse, sem matizes, sem estudo. Me parece pequeno colocá-los na categoria do "marketing puro" (ainda que caiba a provocação, sendo este um filme religioso: o que é a Igreja Católica senão uma genial sacada de marketing?), porque marketing sempre houve e sempre haverá, e isso não garantiu o sucesso comercial a tantos e tantos filmes feitos com este propósito.

Diminuir um filme a "violência de terceira" ou "fenômeno de marketing", simplesmente, é muito legal para quem quer vender jornal, fingindo-se (ou sendo realmente??) incapaz de autocrítica. Para quem queira tratar o cinema (seja como expressão artística, seja como fenômeno cultural) com algum interesse real ou seriedade, é preciso ir um pouco mais longe."

Obs: NÃO houve retorno ao tema. Suponho que a opinião do crítico não tenha mudado...

Segundo texto de autoria do Psicanalista e escritor Contardo Calligaris no site Uol e Folha de São Paulo:

"A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, estréia amanhã no Brasil.


1) Muitos perguntarão: por que representar a paixão de Cristo com tamanha violência e tanto sangue? O cristianismo não seria mais bem apresentado pelo Cristo da ressurreição e pela mensagem generosa dos Evangelhos?
Ora, em 1521, Lucas Cranach publicou um pequeno livro, "Passional Christi und Antichristi" (Paixão do Cristo e do Anticristo). A gravura em que o anticristo era coroado com muita pompa, como um papa ou um imperador, era contraposta à que representava o Cristo escarnecido e humilhado, com sua coroa de espinhos.
Como milhões de homens e mulheres ocidentais, passei minha infância sob o olhar protetor de dois tipos de imagens: de um lado, os heróis nacionais com faixas, gala, espada e bandeira; do outro, o crucifixo. Cuidado: não era o Cristo sentado à direita de Deus nem o Cristo conversando amavelmente com os apóstolos ou sarando leprosos e ressuscitando mortos. Era o Cristo na cruz. Seu poder era obviamente diferente do poder dos heróis a cavalo: ele parecia se originar no próprio martírio.
Em matéria de religião, prefiro conviver com perguntas que não têm resposta. Mas uma coisa me parece certa: sem o mistério (absurdo, como dizia Tertuliano) de um deus que teria aceitado viver um suplício horrível para redimir os pecados dos homens, o cristianismo não passaria de uma ideologia social-democrata. Ótimo e simpático, mas não precisa do Cristo para isso.
No filme de Mel Gibson, a paixão acontece na presença constante do demônio, que é o único derrotado. Se o Cristo desistisse de seu martírio e recorresse a uma mágica divina para evitar o sofrimento, o demônio triunfaria. E prevaleceria, em nossa cultura, uma única idéia do poder, a idéia da qual gosta o maligno e segundo a qual o poder está com o mais forte.

2) Vários críticos acusam Mel Gibson de ser hollywoodiano. Dizem que, na "Paixão de Cristo", o sangue escorre como num filme de ação de segundo escalão.
É uma inversão. O Cristo crucificado é a imagem que mais foi reproduzida e divulgada no segundo milênio do Ocidente. Não é estranho, por conseqüência, que um tema básico de nossas narrativas populares seja o seguinte: um homem é massacrado, surrado, deixado numa poça de sangue, mas ele é um justo e voltará um dia para ajustar as contas.
A paixão de Cristo não precisa do sangue falso de Hollywood, mas há muito sangue de Hollywood que seria impensável sem nosso fascínio pela paixão de Cristo. O próprio Mel Gibson, como ator, já foi "crucificado" mais de uma vez.

3) Ao achar que a violência do filme é excessiva, somos fiéis à modernidade. A partir da segunda metade do século 15, somem das praças da Europa as brutais encenações teatrais do suplício de Cristo, e as imagens da paixão na arte sagrada se tornam menos cruentas. O historiador suíço Valentin Groebner, num livro recente e admirável ("Defaced, the Visual Culture of Violence in the Late Middle Ages"; Desfigurado, a Cultura Visual da Violência na Idade Média Tardia, Zone Books), nota que, a partir de 1525, as representações de Jesus crucificado, em vez de mostrar a agonia de um torturado, começam a apresentar "um redentor delicadamente suspenso na cruz".
Há exceções: o barroco brasileiro produziu, por exemplo, algumas estátuas do corpo doloroso de Cristo que não ficam para trás de nenhum Mel Gibson. Mas, no conjunto, o Renascimento do século 16 (e a gente com ele) prefere esquecer pragas e dores para exaltar as potencialidades do homem. O que era o crucifixo para um sujeito medieval? Uma consolação? Um exemplo de resignação? Pode ser. Mas, quando os pestilentos, os supliciados em praça pública, os famintos e os destroçados das mil guerras olhavam para o crucifixo, eles deviam encontrar um curioso espelho. O que havia de mais real em seus corpos, o sofrimento e a fragilidade mortal, fora também o lote de Deus. Talvez, com isso, eles reconhecessem que sua desgraça não os excluía da humanidade.
A modernidade continua pendurando crucifixos nas paredes, mas prefere esquecer pudicamente a paixão representada. Se precisássemos da imagem de um corpo comum, seria mais um ginasta que um crucificado.
Mel Gibson nos lembra de algo incômodo. E também útil: não há como entender o que é um homem moderno sem considerar que, para muitos, desde a infância, a imagem de um jovem torturado e agonizante foi o primeiro símbolo (paradoxal) de grandeza e o primeiro ideal de um corpo masculino amável e venerável.

Notas

1) Alguns acham que "A Paixão" é um filme anti-semita. A obra confirmaria o antigo argumento segundo o qual "os judeus" quiseram supliciar o Cristo (argumento que, de fato, a Igreja Católica usou durante séculos para supliciar judeus). Ora, no conto evangélico como no filme, Caifás e o "establishment" judaico de Jerusalém (não "os judeus") pediram a crucifixão de um profeta de sucesso, que minava o poder religioso instituído. Esse profeta era Cristo, um judeu.

2) De fato, Tertuliano (terceiro século de nossa era), no "De Carne Christi", não disse "credo quia absurdum" (creio porque é absurdo), mas "credibile est, quia ineptum est": é acreditável porque é inepto, ou seja, porque é uma história fraca.
Aliás, a paixão serve para isto: para que acreditemos nos fracos."

 

Existem outros textos (um deles com 8 páginas!!) onde algumas pessoas expõem suas opiniões e visões sobre o filme "A Paixão de Cristo", mas acho que esses sejam mais que suficientes para mostrar que, independente do que se pensa sobre essa obra controversa, vale a pena conferir por si próprio e tirar suas próprias conclusões.    <?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

 



 
The Deadman2006-10-23 16:04:08
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Existem outros textos (um deles com 8 páginas!!) onde algumas pessoas expõem suas opiniões e visões sobre o filme "A Paixão de Cristo"' date=' mas acho que esses sejam mais que suficientes para mostrar que, independente do que se pensa sobre essa obra controversa, vale a pena conferir por si próprio e tirar suas próprias conclusões.  [/quote']

 

Ok. Deadman, cumprida a tarefa. O tribunal agradece a presteza... podemos falar de Crash agora folks?

 

Algo do que já se falou sobre o filme de Paul Haggis:

 

Portal Terra: As histórias individuais no filme têm seu mérito e pode-se imaginar se cada segmento não seria mais eficaz se fosse expandido para um filme inteiro.  Mas no lugar disso, o público deve se concentrar na bela luminosidade da cinematografia e nas maravilhosas performances de um elenco bastante comprometido com a causa.

 

À sua maneira, Crash" consegue fazer uma reflexão tocante sobre a alienação social moderna e a paranóia. Se tivesse aparecido há 10 anos, talvez ainda pudesse ser considerado um trabalho original e corajoso.

 

Cine Reporter: Crash – No Limite” (EUA/Alemanha, 2005) reacende um debate que volta e meia reaparece nos círculos de cinéfilos: até que ponto é válido o uso de artifícios dramáticos para realçar o resultado que o diretor deseja atingir? Vale a pena sacrificar o realismo de um espetáculo cinematográfico em nome do recado que se deseja passar? Essas perguntas ecoam com toda a força porque “Crash” é um filme intenso, maduro, que bate forte no tema “preconceito”. Por outro lado, embora se proponha realista, ele descreve uma realidade falsa, repleta de licenças poéticas. E isso, para algumas pessoas, pode ser um grande problema.

 

 
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Ei Graxa, porque você não se candidata para a defensoria de Crash? Seria interessante. Você iria precisar de sorte, pois não vejo como defender aquilo...

 

Os muitos erros estéticos e conceituais de Crash foram apontados no próprio tópico. E, discordando dos parágrafos aí em cima, Crash não é apenas forçado e piegas como justificativa para atacar o preconceito. O filme é conformista e reforça estereótipos. É, portanto, preconceituoso à sua maneira.
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Pato você passa óleo nas penas? Ê criatura lisa... nós já sabemos que você não leva seus projetos até o fim... conte-nos uma novidade, basta fazer um breve resumo da defesa do filme (convoque o Moviola para te ajudar se precisar) e pronto... é só esperar o massacr... digo os comentários dos outros "advogados"...

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Pato você passa óleo nas penas? Ê criatura lisa...Nós

já sabemos que você não leva seus projetos até o fim... conte-nos uma

novidade, basta fazer um breve resumo da defesa do filme (convoque o

Moviola para te ajudar se precisar) e pronto... é só esperar o

massacr... digo os comentários dos outros "advogados"...

 

[/quote']

Não é desculpa esfarrapada. Esta semana será difícil pra mim, talvez eu nem entre no Fórum ... Aconselho você a encerrar o caso antes do prazo ... 06

Engraxador!2006-10-23 17:40:41
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Passamos agora ao próximo processo que trata de julgar se o filme Crash - No Limite do diretor Paul Haggis é merecedor do Oscar de melhor filme e se estamos diante de um bom filme ou apenas de mais uma odiosa birra da Academia... o júri gostaria que houvessem manifestações de pelo menos um usuário disposto a defender o filme, como advogado de acusação, indicamos o Dook.

 

Então: Crash - No Limite

crash-no-limite-poster02t.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Defesa:

 

help

 

Acusação:

Avatar

[/quote']

 

Vou declinar da indicação, buddy... Preciso de um descanso... participei ativamente dos últimos 3 processos aqui no JEC (Juizado Especial Cinematográfico) e quero uma folga...

 

Além do mais, já disse tudo que tinha para dizer sobre Crash e, sinceramente, é uma discussão que eu considero infrutífera pois fica nisso:

 

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E outra: achei uma boçalidade sem tamanho ver gente que não assistiu A Paixão de Cristo defendê-lo (de forma porca, obviamente) mesmo sem tê-lo assistido e ainda reclamar da 'parcialidade' (oooooooh) do colegiado de Juízes...

 

07
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    Mas olha só, será q um bom debate (ou seria massacre? 06) com o Dook sobre Crash faria eu me animar novamente com o fórum? 17...hum, acho q sim, por isso Malacka, nem sei como funciona essa budega, mas eu me ofereço p defender Crash!! 16 (não disse q seria um massacre 06)...esse filme eu vi, e gostei muito, mas nem me venha com baitolagem cinematográfica, vou discutir esse filme a lá Risadinha! 1606

 

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Vocês que se sentiram incomodados com a forma que o filme foi tratado poderiam ter se manifestado durante o final de semana' date=' o que houve?  A pá de cal jogado pelo Alexei sepultou os ânimos? Estranho, não houve uma vírgula sobre o ótimo texto que ele postou, porquê? 

[/quote']

Olhe meu histórico no fórum e veja que não entro no fórum(e na internet) no final de semana,tenhos coisas melhores para fazer19

E você? Aceita o desafio de fazer o mesmo? Vasculhe na net por um texto e não precisa traduzir (dá muito trabalho) como ele fez, só precisa ser tão "simpático" ao filme de Mel Gibson quanto é virulento o outro e aí a gente compara, só para re-finalizar e enquanto não aparecem os detratores e/ou defensores de Crash. Run Forest, run...

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Ok. Deadman, cumprida a tarefa. O tribunal agradece a presteza... podemos falar de Crash agora folks?

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É disto que estou falando....
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Top 5 - Momentos em que você cutuca sua companhia na sessão e pergunta: "Isso é sério?"
1. "Essa capa invisível realmente funciona, papai."
2. Meias + piso escorregadio + escada.
3. Imigrantes cambojanos, ou coreanos, ou chineses, sendo liberados da van.
4. "I am speaking english, you stupid cow!!!"
5. "Vou te mostrar o que eu tenho no meu bolso!". Bang!
A #2 se torna absurdamente embaraçosa e mais engraçada quando você pensa que o piso pode ter sido encerado pela própria empregada latina.

 

ps-edit: eu estou falando de Crash, para os desavisados.
Katsushiro2006-10-24 10:47:01
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Sinceramente, acho que não caiu bem no gosto do público essa discussão sobre Crash... Particularmente, não tenho como opinar por aqui, pois não vi tal filme e, com toda sinceridade do mundo, nem tenho muita vontade (sabe quando um filme não te chama a atenção? Então... Assim como Brockback Moutain, esse filme também não chamou a minha atenção... Vejo o DVD na locadora e simplesmente não sinto nenhuma vontade de pagar 4 reais pela locação dele...)

 

The Spartan

 

 

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