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O Clube dos Anjos: Gula


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O Clube dos Anjos: Gula

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Devo confessar, antes de mais nada, que cometi um erro na minha relação com a literatura. Erro por inocência. O primeiro livro que peguei na mão foi um Luis Fernando Veríssimo. Deveria ter sido o último. Deveria ter sido o auge de um caminho ascendente, de um fascínio amplificado a cada descoberta. Porém, desde que li meu primeiro LFV, faço uma espécie de caminho inverso. Saí do topo da montanha para não retornar nunca mais nos braços de outro autor que não seja o próprio Veríssimo. Eu não chamaria de uma sucessão de decepções, até porque, já fui preparado e convencido pelo tempo de que provavelmente não encontrarei um gênio igual. Até porque, não seria justo com “os outros”, pra mim, gênios não tão geniais. Até porque, não há porquês, não há conceitos que reproduzam o encanto. Pensando bem, graças a Deus...

 

O Clube dos Anjos: Gula, de 1998, é o terceiro livro da série Plenos Pecados, da Editora Objetiva. Dez amigos formam um grupo, quase uma instituição, nomeada Clube do Picadinho. Estabelecida desde a adolescência, evoluindo de reuniões em um botequim para jantares mensais e excursões à Europa. Depois de duas décadas, o Clube parecia estar na crista de sua decadência, a um detalhe da extinção, quando um misterioso cozinheiro aparece para resgatá-los da ruína, e enterrá-los.

 

Luis Fernando já abre seu anti-romance de maneira única, nos contando sem penas quem é o assassino da estória (mas apenas da estória). Com isso, ele tira o foco da linearidade toda que acompanha a “tediosa busca pelo culpado”, nos romances policiais comuns. Ele reinventa nossa curiosidade. Apesar do incrível contraponto de que, desde o início, você já sabe que todos morreram, exceto Lucídio e o autor. Mas espere, quem seria o autor? Daniel ou Luis Fernando? A dúvida que permanece ao final do livro, severamente dilacerado em uma ou duas sentadas, é o estopim de uma recapitulação que durará dias na sua cabeça. Tudo fica mais intrigante ao relermos um pequeno trecho, logo na segunda página:

 

“Imaginação não é desculpa. Todos nós matamos em pensamento, mas só o autor, esse monstro, põe seus crimes no papel e os publica. Se não matei meus nove confrades e irmãos de obsessão, sou culpado da ficção de tê-los matado. Preciso convencer você que não inventei o Lucídio para provar que sou inocente desses terríveis crimes. E preciso convencê-lo que a história é verdadeira para provar que sou inocente da ficção. O crime inventado é pior do que o crime real. Pois se o crime real pode ser acidental, ou fruto de uma paixão momentânea, não há notícia de um crime fictício que não tenha sido premeditado”.

 

Afinal, o autor é personagem ou não é? Quem escreve, escreve uma ficção ou relata uma história real? Se for ficção, é Luis Fernando, se for real, é Daniel. Na verdade, Veríssimo se mistura à trama de forma a brincar com o leitor. Porque, o tempo todo, sabemos que um homem, Luis Fernando, escreve sobre um homem, Daniel, que escreve a história. Se fosse filmada, a cena teria o gordo de sandálias, em frente ao computador, com uma taça de vinho ao lado, escrevendo tensamente sobre o que estava acontecendo com ele próprio. Mas esta é a questão. O que aconteceu, foi ação sofrida pelo autor. Enquanto o autor DO autor é onisciente, Daniel, inventado e inventor, percorre o caminho das suposições. É um universo dentro do outro. Temos a ficção real (O Clube dos Anjos, escrito por Luis Fernando Veríssimo) e a ficção dentro da ficção (algo como “O Clube do Picadinho”, escrito por Daniel). Desta forma, tanto Luis Fernando como Daniel se transformam em personagens. Quando, na segunda página, ele diz ser preciso convencer-nos de que estamos diante de um fato real (e é aqui que reside o mais sensacional, e que fará com que quebremos a cabeça). Lendo o livro como a ficção que é, dentro do real, você precisa descobrir se a estória, dentro da ficção, é verdadeira ou não. Caso seja, então Daniel não passa de uma vítima, pois está fazendo o papel de mero intermediário entre os fatos que aconteceram com ele, e o leitor. Caso não seja, não há Daniel, há Luis Fernando, e ele é o culpado de ter matado a todos com sua imaginação. Ou seja, a busca pelo assassino não se limita a um nome na última página, à “tediosa busca”, ao linear, mas a interpretações e muito raciocínio. Temos de descobrir se Luis Fernando Veríssimo é o assassino ou não, e o que é melhor, a descoberta cabe apenas a cada um. É estritamente subjetiva.

 

Desta forma, escrevendo um livro tão curto e “simples”, Luis Fernando consegue deixar o máximo possível de questões em aberto, o que termina por injetar uma complexidade imensurável à sua história (ou estória, afinal, tire suas conclusões). Com muita habilidade, ele nos leva a conhecer apenas o essencial de cada personagem, tornando-os fascinantes, tornando-os reais, verossímeis, já que, quando podemos inclusive ler os pensamentos de certo personagem, a atmosfera de fantasia se dissolve e você lembra que está lendo um livro. Veríssimo não comete esse erro (aqui, seria um erro). Ele economiza nas palavras postas no papel, para que possamos trabalhá-las com individualidade, o que confere ainda mais carga subjetiva à história. Tudo o que sabemos de cada um é o que Daniel nos conta, ou lembra de nos contar. Os conhecemos de ouvir falar, literalmente, o que abre todos os espaços possíveis para interpretações.

 

 

E já que tocamos nesta palavra, “interpretações”, podemos falar da filosofia de O Clube dos Anjos. Como escreve Veríssimo, em uma citação de Ramos, “A fome é o único desejo reincidente, pois a visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba – mas a fome continua”. A fome, a gula, exige a destruição do objeto que nos fornece prazer, diferente do sexo, da música ou da leitura. Porém, sem perceber, somos consumidos pelo nosso desejo de destruição. Aqui, no entanto, os homens comiam para morrer, para serem também destruídos. Funciona como uma metáfora, que pode ser derramada não apenas para a fome, mas para todos os desejos que a gula engloba, como o cigarro, o álcool, nosso planeta... A gula abriga a ambição (desejo do “mais, mais, mais, mais”, “o homem é homem porque quer sempre mais”), e não importa se sairemos prejudicados, não importa o preço pelo prazer, estaremos prontos a pagar.

 

Luis Fernando Veríssimo não é apenas o maior acontecimento da crônica brasileira, ele é o Amadeus. E nós, ou todos os outros, somos meros Salieris. Quando escrevi, lá no alto, o “graças a Deus”, me referi à possibilidade de que, se não tivesse iniciado com um LFV, talvez não tivesse desenvolvido gosto algum. Não falo das comparações com romances consagrados, análises de comportamento humano, nada disso. Falo, pura e simplesmente, do texto inigualável de Veríssimo. O Clube dos Anjos: Gula, é quase como uma extensão de uma das suas crônicas, todas com margem para livros, filmes e, como já feito, inúmeras adaptações para teatro e TV. Na história destes dez homens, em especial, somos direcionados ao humor e à melancolia em segundos, linhas. Isso quando não se misturam. O pecado de Luis Fernando pode até ser devorado em algumas horas, menos, mas seu sabor permanecerá por dias.

 
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