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Mohandas K. Gandhi - Autobiografia: Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade = smiley10.gifsmiley10.gifsmiley10.gifsmiley10.gif (4/5)

Interessante. É a autobiografia de Gandhi, como o nome já sugere. Recomendo para quem está realmente interessado na vida deste grande homem, já que pode ser cansativo.

Comecei a ler Estação Carandiru. Por enquanto está empolgante. Em um dia li 110 páginas.

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Acabei de ler Harry Potter semana passada. Pela primeira vez um gancho pro próximo livro, ainda que não se possa dizer que seja golpe de marketing, porque todo mundo que tiver que comprar, vai comprar de qualquer jeito. Acho que achei o melhor dos 6. Mas não tenho certeza ainda. Acaba explicando tudo bonitinho, tirando umas ideias erroneas que eu tinha sobre o porquê de algumas coisas etc... Mas me decepcionei com o destino de um personagem, por enquanto. Bom, vou parar por aqui antes que comece com spoilers. Espero que a mulher acabe logo o sétimo. smiley7.gif

Comecei a ler "Breve História de Quase Tudo", de Bill Bryson, e tá indo muito bem, muito mesmo. É o tipo de livro que eu gosto, e, como raramente, tá no nível certo pra mim. Recomendo a qualque um que seja cético e/ou curioso cientificamente e/ou religiosamente. smiley36.gif

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Comprei "As crônicas de Nárnia", versão completa e deve chegar amanhã. Vou pra praia mas quando voltar vou devorar. Se alguém quiser pagar barato, compre na Saraiva(net), paguei R$51, enquanto em qq livraria está 85, até na Saraiva.

Lunatic38701.6995717593
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Noite Em Paris

 

El Carmo

Fazia um friozinho e chuviscava. Ele parara em frente ao Eléphant Blanc. Esperar. Logo estiará. Eram, talvez, duas horas, ou menos. Outras pessoas ali se encontravam. Esperavam silenciosas, a chuva passar. Um homem baixo, de careca luzidia, meio desdentado e de roupas modestas, parou em sua frente e de costas, coçando seus perigalhos, comentou sobre o tempo. Eterno tema das conversas dos que nada têm a dizer. Mecanicamente respondera àquele homem convicto, de que conversas passageiras não eram propícias para se iniciar uma amizade e isto era o que lhe interessava, pois sabia das dificuldades em se fazer amigos na França e mais ainda o quanto era difícil conservá-los. Como ser amigo de um clochard? De uma pessoa que não tinha morada e não se sabia onde procurá-la nas dificuldades? Não. Não era um clochard. Flanava, apenas, flanava. E se fosse, iria precisar de um clochard? Si.No. Não lhe interessavam suas porandubas, mas batera um papo. Era difícil encontrar alguém para papear. Sua vida transcorria em monólogos. Monólogos que saiam sem sons. Para que abrir a boca? Não havia ouvidos. aquele homem percebera o estrangeiro.Talvez,também ele, estrangeiro em sua terra. Não. Não era um árabe. Il n´etait pas un pied-noir. Non, il n´etait pas un mexicain, non plus. Il s´agit d´un brésilien. Du Brésil. Le carnaval de Rio. Disse ser do sul e talvez entendesse um pouco de português porque sabia algumas palavras do provençal, la langue d´oc. Orgulho nos olhos ridentes. Alguma semelhança entre o português e o
provençal? Existe ainda falantes desta
língua? Dela sabia apenas que tal qual o francês o u se pronuncia abrindo-se a boca para dizer u e ao contrário dizer i, saindo um som semelhante ao ü alemão. Acabava de aprender que bouche se diz boca como em português, une boca, ou bouco, uno bouco; Que nuit se escreve nuet, noite, e se pronuncia nué; dia não é jour mas jorn e se pronuncia dzur, pois o j e g se pronunciam dz; Ch se diz ts; Paraxítonas las palabras finitas em un, a, e,o, as, es, os. Saberá que Frederico Mistral, escrevendo em provençau, tornou respeitada a língua occitana. Dias virão em que lerá o Miréio: "Cante uno chato de Prouvènço./ Dins lis amour de sa jouvènço". "Canto uma jovem da Provença.E seu amor de juventude". E lerá um dia a súplica dirigida ao rei René em 1474: Tres soveyran et tres haut prince, A la vostra sacrada real majestat, humilment et devota si expausa..."
Uma rajada de vento e água. O velho recuou tocando-o. No sexo. Entendeu tudo. Não era isto que estava procurando. Tinha estado em alguns bares. D´Alliance Française, onde estudava e lavava pratos fora ao Trait-d´Union. O primeiro trago. Ponto de partida para a noite. O velho Daniel dansava a bandeja em suas mãos. Estivera na Buate Grise. ouvir cantar Pernambuco. A bossa Nova. Ensaiara cantar: "guarda a rose que dei... O pianista negro como sempre reclamava da falta de ritmo. A compreensão e o carinho de Pernambuco. Bebera, bebera e bebera. Não lhe olhavam as loiras nem as morenas. Em vão. Tímido para a abordagem. Sòzinho mais difícil a conquista. Não era um pédé. Não. Ele não dissera isto. Queria apenas sucer sa bite. Não. Alí na rua, descaradamente assim? Qu´il n´y avait personne. Tous sont rentrés. L´Elephant Blanc fazia congé, nesta noite. Seus fregueses foram beber em outra freguesia o grogue reconfortador. Não, definitivamente, não. Iria voltar a seu quarto. Seu runcó. Subiria os sete vãos de escada do 16 rue d´Assas. Dormindo estaria Madame Zurflux e seu fiel kiki. Dormindo estaria Mademoiselle Zurflux. E Concepción, a solícita ménagère. La concierge botaria os olhos para ver quem estava entrando. Nunca dormem as concierges. Poria um disco na vitrola. Aquela que lhe presenteara a namorada, dedicada esposa do italiano. Lembraria o dia em que a conhecera ao comprar-lhe amendoim na avenida Saint Michel. Est-ce-que vous jouez de la guitarre? Por acaso tocava, sim, violão. Claro, dar-lhe-ia aulas de violão. Talvez não tocasse tão bem, não fosse capaz de tocar-lhe o Concerto de Aranjuez. Ou Igualar Turíbio Santos num Estudo de Villa-Lobos. Saberia, contudo, planger as primeiras notas.
Sim, subiria ao seu quarto. Tomaria um copo de Porto. Esquentar o frio. Deitar-se-ia ouvindo tranquilamente Mozart. O Divertimento em ré maior, K334, do poeta que em l779, na velha Salzburg, num rasgo de inspiração, compôs para o deleite da posteridade. Era cedo. O leiteiro inda não passara. Dormiria um pouco e voltaria à rua. Buscar sua cota de leite na mercearia. Não. Não era um clope. Não era um ladrão. Mercúrio sabe disso. Fazia sua redistribuição da riqueza. Os francêses entregam o leite nas padarias e mercearias na madrugada. Como nas residências, deixavam os pacotes empilhados em frente à porta. Pegava sua parte todas noites. Era preciso comer. Em seu quarto lhe esperavam a baguete e a manteiga, esta, surripiada no marché à cotê. Não tremer como lhe dizia o amigo Luiz. Se tremer o francês vê, como quase viu no dia em que roubaram chocolate no mercado. Ou no dia em que te pegaram roubando um livro de Pierre George. A mão do segurança sobre teu ombro. Não. Não tinha esquecido nada. A prova do furto. O livro sob o capote. O caminho para delegacia. O caminho para seu quarto. Os gritos dos policiais. Polícia, igual em todo mundo. Como bem disse Maradona imbecis, há em toda parte. Não mataram Sacco e Vanzetti? O medo da deportação. A volta, envergonhado e vencido. Por-lhe-iam num barco de terceira. A viagem, a náusea e a chegada. As indagações curiosas. Saudades das luzes de Paris. Seus bares buliçosos. O aprendizado. O fumo, o vinho e a cerveja. Un demi. Un panaché. As discussões. Cinema, teatro e literatura. E política e política e política. Daria tempo de avisar a Chantal? Dar-lhe-ia o violão e o berimbau. Um regalo. Devolveria a radiola a Louise. Que brigasse o homem bigodudo. A máquina de escrever para Novelli. Que deixasse os pincéis um momento. Escrever um poema. Os livros de política para o Ortega. Fazer a revolução na sua Nicarágua. Não esquecer. Poesia e teatro para o David, o néozelandês. Perdoa-lhe-ia por não lhe ter apresentado a petite allemande? De cinema para yushiro. Sentia. sentia muito. Quando iria rever seus amigos? Seu berimbau. Talvez o único existente em toda Paris. Quanto deve a seu berimbau. O toque n´A feijoada de Madame Faure e o toque em Brigitte Bardot. Seus passos, sua dança e a amizade. Ensina-me dançar o samba. Seu berimbau, seu gunga. Como o amava e as cantigas ensinadas por seu mestre Canjiquinha. Esse Gunga é meu, eu não dou ninguém. Esse gunga é meu. Foi meu Deus que me deu. Essse gunga é meu. Seu berimbau, seu abre-te sesamo. Se ele estivesse ali. O delegado. O encanto da serpente. Os gritos dos policiais. Como pode? Um estudante de direito, como pode? As lágrimas. O pleito, a pena e o perdão. O exame de demografia quase prejudicado. Não. Ser firme, dizia. E viverás. El Carmo.

 

 

 

 

 

  

El Carmo2006-3-12 3:16:57
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Estação Carandiru smiley10.gifsmiley10.gifsmiley10.gifsmiley10.gifsmiley10.gif

Esperava que a obra que inspirou o filme Carandiru fosse um livro ruim como o filme. Felizmente eu estava errado. Totalmente o contrário do filme, essa obra se mostrou uma das melhores, se não a melhor que li recentemente e me mostro desde já excitado para ler o próximo livro de Varella, um excelente escritor.

Aliás, comecei a ler Harry Potter e o Enigma do Príncipe terça. Quando terminar, posto minha opinião aqui.

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Terminei ontem de ler o último do Harry Potter. Muito melhor do que o anterior, dentro do universo dos livros do bruxinho esse é para mim, o mais completo. Não só pelos fatos impactantes mas porque pela primeira vez Harry diz ao que veio. Ele não é mais um personagem periférico ele é a estrela. Com este aqui J. K. Rowlings decreta o fim da inocência, vemos o trio de amigos de uma forma que nunca foi mostrada nos outros livros (não sei ainda se não teria sido meio abrupto, talvez a mudança já devesse ter ocorrido).

A personalidade do Lorde das Trevas é esquadrinhada, não há joguinhos ou pistas falsas, as coisas acontecem. E Snape se mostra um personagem mais interessante do que se imagina. Espero que a trinca de atores não seja trocada, ainda que eles tenham que melhorar muito quando chegar a hora de fazer este aqui.

 

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Frankenstein...

Ainda não acabei; mas já tenho idéia porque este livro se tornou um clássico. Ele não é de botar medo (em hora nenhuma), mas é um clássico assim mesmo. É interessante como o cinema muda as coisas. Enquanto Drácula é romanceado e ganha um caráter mais humano nos filmes (mesmo nos mais antigos), pois no livro é (quase) puro demônio; a criatura de frankenstein perdeu o lado humano (pelo menos na versão antiga). Mesmo que de todos os monstros ele seja o único com bom coração, está longe de possuir a complexidade do personagem do livro. E diga-se de passagem que esta criatura não é zé moleza e lerda como aparenta nos filmes, mas um ser dotado de uma inteligência viva. Antes dos filmes de George Romero e de Blade Runner, nós temos Mary Shelley com Frankenstein. smiley32.gif

Conan o bárbaro38719.9875578704
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Acabei o Um Estranho no Espelho de Sidney Sheldon (achei muito bom, 08/10) e comecei o Cristine, de Stephen King. Ótimo, devia ter lido ele nos meus 17 anos quando estava sedento pelo meu primeiro carro... muito bom mesmo, dificil não se identificar... gostei tbm das músicas presentes (mas eu preferia que não fosse traduzida, enfim) dá um toque nostalgico e especial a história. Nunca vi o filme e nem quero ver, mas tenho uma curiosidade: o filme é bom?

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Noite Em Paris

El Carmo


Fazia um friozinho e chuviscava. Ele
parara em frente ao Eléphant Blanc para esperar passar a
chuva. Eram' date=' talvez, duas horas, ou menos. Outras pessoas ali
se encontravam e esperavam silenciosas a chuva passar. Um
homem baixo, de careca luzidia, meio desdentado e de roupas
modestas parou em sua frente e de costas,  comentou sobre o
tempo. O tempo é tema das pessoas que querem iniciar uma
conversa e não tem nada para dizer. Mecanicamente respondera
àquele homem convicto de que conversas passageiras não eram
propicias para se fazer amigos e amigos era o que lhe
interessava fazer, pois sabia das dificuldades em fazer
amigos na França e mais ainda o quanto era difícil conserva-
los. Como ser amigo de um clochard, de uma pessoa que não
tinha morada e não se sabia onde procurá-lo nas dificuldades?
Não. Não era um clochard. E se fosse, iria precisar de um
clochard? Sim. Bateu um papo. Era difícil encontrar alguém
para papear. Sua vida transcorria em monólogos. Monólogos que
saiam sem sons. Para que abrir a boca? Não havia ouvidos. O
velho percebeu o estrangeiro. Talvez, também ele estrangeiro
em sua terra. Não. Não era um árabe. Il n´etait pas un pied-
noir. Non, il n´etait pas un mexicain, non plus. Il s´agit
d´un brésilien. Du Brésil. Le carnaval de Rio. Disse ser do
sul e talvez entendesse um pouco de português porque sabia
algumas palavras do provençal, la langue d´oc. Orgulho nos
olhos ridentes. Alguma semelhança entre o português e o
provençal? Existe ainda falantes desta língua? Dela sabia apenas que tal qual o francês e o piemontês o u se pronuncia
abrindo-se a boca para dizer u e ao contrário dizer i, saindo
um som semelhante ao ü alemão. Acabava de aprender que bouche
se diz boca como em português, une boca, ou bouco, uno bouco;
Que nuit se escreve nuet, noite, e se pronuncia nué; dia não
é jour mas jorn e se pronuncia dzur, pois o j e g se
pronuncia dz; Ch se diz ts; Paraxítonas las palabras finitas
em un. a e,o, as, es, os.
Saberá que Gabriel
Mistral escrevendo em prouvençau tornou respeitada a língua
occitana. E lerá um dia esta súplica dirigida ao rei René em
1474:

Tres soveyran et tres haut prince,
A la vostra sacrada real majestat, humilment et devota si
expausa, per la part del senhor de Cucuron et de sos homes
del dich luoc, que a lur noticia es vengut que ung jort de la
semana passada alcun appellat Nicolau de V..., mestre dostal
del magnific monsenhor de Saut, ambe un notari del dich
senhor de Saut appellat Gastinel, per comandament (coma
dizian) del dich senhor de Saut, son vengus en terra de
Cucuron en un luoc appellat Gotorras, que solia estre una
bastida (...).

Uma rajada de vento e água. O velho recuou tocando-o.
No sexo. Entendeu tudo. Não era isto que estava procurando.
Tinha estado em alguns bares. Bebera. Não lhe olhavam as
loiras nem as morenas. Em vão. Tímido para a abordagem.
Sòzinho mais difícil a conquista. Não era um pédé. Não. Ele
não disse isto. Queria apenas sucer sa bite. Não, alí na rua,
descaradamente assim? Qu´il n´y avait personne. Tous sont
rentré. L´Elephant Blanc fazia congé, nesta noite. Seus
fregueses foram beber em outra freguesia o grog
reconfortador. Iria voltar a seu quarto. Subiria os sete vãos
de escada do 16 rue d´Assas.
La concierge botaria os olhos para ver quem estava entrando.
Nunca dormem as concierges. Poria um disco na vitrola. Aquela
que lhe presenteara a amante, dedicada esposa do italiano.
Lembraria o dia em que a conhecera ao comprar-lhe amendoim na
avenida Saint Michel. Est-ce que vous jouez de la guitarre?
Por acaso tocava, sim, violão. Claro, dar-lhe aulas de
violão. Talvez não tocasse tão bem, não fosse capaz de tocar-
lhe o concerto de Aranjuez. Saberia, planger as primeiras
notas.

Sim, subiria ao seu quarto. Tomaria um copo de porto.
Esquentar o frio. Deitar-se-ia ouvindo tranquilamente Mozart.
O Divertimento em ré maior, K334 do poeta que em l779 na
velha Salzburg, num rasgo de inspiração compôs para o
deleite da posteridade. Era cedo. O leiteiro inda não passara.
Dormiria um pouco e voltaria à rua. Buscar sua cota de leite
na mercearia. Não era um ladrão. Fazia sua redistribuição da
riqueza. Os francêses entregam o leite nas padarias e
mercearias na madrugada. Como nas residências, deixavam os
pacotes empilhados em frente à porta. Pegava sua parte todas
noites. Era preciso comer. Em seu quarto lhe esperavam a
baguete e a manteiga esta surrupiada no marché à cotê. Não
tremer como lhe dizia seu amigo Luiz. Se tremer o francês vê,
como quase viu no dia em roubaram chocate no mercado. Ser
firme. E viverás. Sejas firme e viverás... El Carmo.


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Terminei o Código da Vinci. Não gostei, a pesquisa histórica do autor

até que é interessante mas como ele na maioria das vezes não fornece

fontes fica difícil confiar no que está escrito. A trama achei fraca e

a reviravolta do final previsível. Também não gostei do texto de Dan

Brown, prolixo demais. Agora estou O Guia do Mochileiro das Galáxias,

esse sim um livro realmente bom.

 

 

 

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Noite Em Paris

El Carmo


Fazia um friozinho e chuviscava. Ele parara em frente ao Eléphant
Blanc. Devia estiar. Eram' date=' talvez, duas horas, ou menos. Outras pessoas ali
se encontravam. Esperavam, silenciosas, a chuva passar. Um homem baixo, de careca luzidia, meio desdentado e de roupas modestas, parou em sua frente e de costas.Comentou sobre o tempo. O tempo é tema das pessoas que querem iniciar uma conversa e não tem nada para dizer. Mecanicamente respondera
àquele homem convicto de que conversas passageiras não eram propicias para se iniciar uma amizade e isto era o que lhe interessava,  pois sabia das dificuldades em fazer amigos na França e mais ainda o quanto era difícil conserva- los. Como ser amigo de um clochard? De uma pessoa que não
tinha morada e não se sabia onde procurá-la nas dificuldades? Não. Não era um clochard. E se fosse, iria precisar de um clochard? Sim. Bateu um papo. Era difícil encontrar alguém para papear. Sua vida transcorria em monólogos. Monólogos que saiam sem sons. Para que abrir a boca? Não havia ouvidos. O
velho percebeu o estrangeiro. Talvez, também ele, estrangeiro em sua terra. Não. Não era um árabe. Il n´etait pas un pied- noir. Non, il n´etait pas un mexicain, non plus. Il s´agit d´un brésilien. Du Brésil. Le carnaval de Rio. Disse ser do sul e talvez entendesse um pouco de português porque sabia algumas palavras do provençal, la langue d´oc. Orgulho nos olhos ridentes. Alguma semelhança entre o português e o provençal? Existe ainda falantes desta língua? Dela sabia apenas que tal qual o francês e o piemontês o u se pronuncia abrindo-se a boca para dizer u e ao contrário dizer i, saindo um som semelhante ao ü alemão. Acabava de aprender que bouche se diz boca como em português, une boca, ou bouco, uno bouco; Que nuit se escreve nuet, noite, e se pronuncia nué; dia não é jour mas jorn e se pronuncia dzur, pois o j e g se pronunciam dz; Ch se diz ts; Paraxítonas las palabras finitas em un. a e,o, as, es, os.
Saberá que Frederico Mistral escrevendo em prouvençau tornou respeitada a língua occitana. E lerá um dia esta súplica dirigida ao rei René em 1474:
Tres soveyran et tres haut prince, A la vostra sacrada real majestat, humilment et devota si expausa, per la part del senhor de Cucuron et de sos homes del dich luoc, que a lur noticia es vengut que ung jort de la semana passada alcun appellat Nicolau de V..., mestre dostal del magnific monsenhor de Saut, ambe un notari del dich senhor de Saut appellat Gastinel, per comandament (coma
dizian) del dich senhor de Saut, son vengus en terra de Cucuron en un luoc appellat Gotorras, que solia estre una bastida (...).

Uma rajada de vento e água. O velho recuou tocando-o. No sexo. Entendeu tudo. Não era isto que estava procurando. Tinha estado em alguns bares. Bebera. Não lhe olhavam as loiras nem as morenas. Em vão. Tímido para a abordagem.
Sòzinho mais difícil a conquista. Não era um pédé. Não. Ele não dissera isto. Queria apenas sucer sa bite. Não.A lí na rua, descaradamente assim? Qu´il n´y avait personne. Tous sont rentrés. L´Elephant Blanc fazia congé, nesta noite. Seus fregueses foram beber em outra freguesia o grog reconfortador. Iria voltar a seu quarto. Subiria os sete vãos de escada do 16 rue d´Assas. La concierge botaria os olhos para ver quem estava entrando. Nunca dormem as concierges. Poria um disco na vitrola. Aquela
que lhe presenteara a amante, dedicada esposa do italiano.Lembraria o dia em que a conhecera ao comprar-lhe amendoim na avenida Saint Michel. Est-ce que vous jouez de la guitarre?
Por acaso tocava, sim, violão. Claro, dar-lhe-ia aulas de violão. Talvez não tocasse tão bem, não fosse capaz de tocar- lhe o concerto de Aranjuez. Saberia, contudo, planger as primeiras notas.

Sim, subiria ao seu quarto. Tomaria um copo de Porto.Esquentar o frio. Deitar-se-ia ouvindo tranquilamente Mozart. O Divertimento em ré maior, K334, do poeta que em l779 na velha Salzburg, num rasgo de inspiração compôs para o
deleite da posteridade. Era cedo. O leiteiro inda não passara Dormiria um pouco e voltaria à rua. Buscar sua cota de leite na mercearia. Não era um ladrão. Fazia sua redistribuição da riqueza. Os francêses entregam o leite nas padarias e
mercearias na madrugada. Como nas residências, deixavam os pacotes
empilhados em frente à porta. Pegava sua parte todas as noites. Era preciso comer. Em seu quarto lhe esperavam a baguete e a manteiga esta surrupiada no marché à cotê. Não tremer como lhe dizia o amigo Luiz. Se tremer o francês vê,
como quase viu no dia em roubaram chocolate no mercado. Ser firme. E viverás. Sejas firme viverás... El Carmo.

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