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Desejo e Reparação (Atonement)


Bob Harris
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Atonement (Dir.: Joe Wright) starstarstar

 

É preciso dividir o filme em pelo menos duas fatias para analisá-lo com justiça.

Os primeiros 40 minutos são triunfais, líricos, e parecem dar conta de uma obra notável. Quando digo notável, quero dizer "às portas de uma obra-prima". Trata-se de takes absolutamente perfeitos, resultado de uma edição fantástica, que deve (e irá) concorrer ao Oscar. As performances (incluso a que eu mais temia, Keira Knightley) estão impecáveis e não é exagero nenhum afirmar que boa parte das indicações da Academia será abocanhada por esse grupo. McAvoy é quase sempre ótimo, Keira tem nas mãos uma personagem interessante (até aqui) e faz um trabalho digno na medida do possível. No entanto, é a novata Saoirse Ronan que rouba a cena como Briony Tallis e traz para si a responsabilidade de seduzir o espectador. Saoirse possui expressões marcantes intercaladas a uma ingenuidade pueril que ora assusta, ora encanta. Irônico que seja justamente essa grande atuação a principal pedra no sapato de Joe Wright...

 

A chamada “virada de plot point” acontece de uma maneira muito desastrada e inconvincente, que o diretor tenta mistificar o tempo todo com um múltiplo embaralhamento, com uma complexidade vazia que faz cair por terra o clímax genial do “primeiro ato” do filme. Há uma queda generalizada, mas é a personagem de Keira Knightley quem mais sofre com o irrealismo e a transição atropelada dos personagens. A atriz não faz um mau trabalho, mas seu desempenho acaba sendo, ainda que de maneira injusta, o mais decepcionante a partir de então. Em contrapartida, Romola Garai é incapaz de assumir o legado dramático de Ronan, o que torna sua atuação verdadeiramente constrangedora frente ao interessante dilema psicológico enfrentado por uma já adulta Briony.

Daí pra frente, são só exageros técnicos (a trilha é repetitiva e chega a imitar certa seqüência de notas usada em um dos temas principais de Orgulho & Preconceito) e um festival de chavões cheesy, que só não culminam em um desfecho tipicamente cheesy porque Vanessa Redgrave está lá para, afinal, abocanhar a sua indicação e livrar Atonement de críticas mais severas.

 

 

P.S : Alguns serão facilmente seduzidos pelos predicados estéticos do filme, mas quem resistir a essa overdose plástica, enxergará pouco mais que uma história banal contada com alguma sofisticação (não entrando nos méritos literários, é claro).

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Atenção para com SPOILERS.

 

Veja só, Lola.. Você não é a única a se incomodar com a segunda parte do filme. Para falar bem a verdade, boa parte das críticas se restringem a tal. Entretanto, creio Wright captou a essência e realizou, de fato, uma versão romanceada da segunda guerra. Você parou para se perguntar o motivo?

 

Digamos que Atonement é uma obra estruturada em uma base metalingüística. Na primeira parte do filme, acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos até culminar na virada de plot. Obviamente, aqueles fatos são reais. Surge, no segundo ato, então, a metalinguagem. Tudo o assistido em tela não passa de uma versão de Briony sobre a Guerra. Sim. A segunda parte seria a 'obra literária' de Briony. Logo, nada mais novelesco e romanceado. É difícil fazer a distinção, mas nada do assistido a partir de 50 minutos de filme se revela plenamente verossímil. E os exageros técnicos só reforçam esta visão.

 

E poxa Lola... Trama banal? Tem certeza? Na minha opinião, é dotada de uma complexidade psicológica sem precedentes. Primeiro no desenvolvimento dos personagens e na instigante questão proposta sobre a imaginação. Em segundo lugar, por se revelar uma obra metalínguistica, realizando um paralelo bastante interessante entre literatura e cinema. E por fim, Wright ainda surpreende por demonstrar a capacidade manipulativa da chamada sétima arte. Digamos que Ian McEwan e Joe Wright se apropriam de um 'pano de fundo' batido e aproveitam para desenrolar algo que deveria provocar profundas reflexões.

 

Sobre as atuações, não veja falha alguma! Garai é responsável pelo momento mais frágil da personagem. E transmite esta fragilidade perfeitamente bem. Insegurança, vazio psicológico. Graças ao acontecimento, Briony se torna alguém completamente maleável, de personalidade abalada. A interpretação calhou com o perfil da personagem. E Keira... Bem, ela cumpre o seu papel como dama, nada além disso. Não são limitações impostas pelo roteiro, mas sim pela trama. Knightley, aqui, é mera coadjuvante e a relação entre Briony e Robbie se torna o centro. E... Irrealismo? Talvez proposital, não? Lembre-se: tudo relatado é apenas o ponto de vista de uma personagem dramaticamente abalada. Aí surge uma questão: no que devemos acreditar? confiar?O que aconteceu? O que não aconteceu? E tenha em mente: nada em tela é garantido como sendo verossímil. 03

 

Veja por este lado e abra sua mente para interpretações. Não se limite ao caso amor perdido na segunda guerra mundial.
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Rike, eu entendi a proposta do filme e toda essa abordagem metalinguística, etc. Isso não me incomoda...o que acho surreal é a mudança brusca na personalidade de Cecilia. Eu não consigo conceber uma paixão pura e verdadeira da parte dela para com Robbie. Dos sentimentos dele, Wright nunca deixa dúvida, mas a moça é tratada como um dondoca que se envolve com o filho da cozinheira por um ímpeto de luxúria. Não há um amor latente ali, o que invalida todo o sofrimento do casal com a separação e a idéia de que Cecilia, uma mulher apresentada como volúvel e promíscua, ficaria à espera de um soldado ex-condenado por estupro. Eu entendo a sua visão, mas peço que analise esse tripé... A culpa de Briony e a consequente infelicidade translúcida nos olhos da Redgrave deveria ser acentuada pela gravidade de seus atos. Uma vez que a relação entre Cecilia e Robbie não se mostra convincente, esse tripé fica bambo e a história torna-se banal. O filme constrói uma atmosfera fascinante, mas tropeça em um erro fatal: não consegue superar a si mesmo. Nos primeiros 20 minutos, é como se  vc realmente estivesse diante de uma trama hitchcokiana (excelente direção até ai), mas a partir da metade final a coisa começa a desmoronar e, tudo o que fora clinicamente encaixado no início, cai por terra.

O filme não é ruim...é bem acima da média...ousado...como disse, Wright tem dificuldade de superar a si mesmo, de  criar uma gradação narrativa que surpreenda o espectador cada vez mais. O filme involui e é impossível não usar a palavra 'decepção'.

 

Merece (quase) todos os prêmios técnicos e poderia perfeitamente papar alguma estatueta no quesito atuação, mas não, não é o filme mais bem estruturado da temporada. Definitivamente.03
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Ah Lola. Discordo. O problema é que, praticamente, só temos apenas momentos mínimos com a participação de Cecilia no segundo ato: a cena do café, a cena da 'reparação', e a cena de sua morte. O sentimento de Cecilia por Robbie se revela indiretamente! Afinal, a moça saiu de casa, abandonou a família. Ela sumiu. E é óbvio que Robbie não deixa dúvidas: a história se concentra nele. Mas o que Cecilia poderia fazer para demonstrar? Ela apenas tinha que esperar e morrer esperando.

 

E, mesmo assim, o relacionamento de ambos é estranho, Lola! Veja os momentos os quais eles estão juntos! Todos são dotados de certa incerteza e estranheza (principalmente no Café). Parece que há um constrangimento, afinal, eles ficaram juntos por apenas uma noite.

 

Atonement é um filme bastante delicado. Acredito que você se incomodou com a fragmentação da trama. Mas é bem por aí. Se você parar para analisar de já citada metalinguagem, verá que esta obra cinematográfica se revela um, cinicamente, livro: dividido em capítulos e episódios.

 

Espero que você reveja. Acho que as suas expectativas eram altas demais. 03
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Sim, Rike, eu não duvido que a expectativa exagerada tenha contribuído para a visão morna que acabei tendo do filme, mas acho que a hype criada pelo primeiro momento da história propicia uma insatisfação até maior com o desenrolar da trama. É tudo tão incrível e avassalador, que a quebra daquela tensão inicial é quase traumática. O filme não faz juz ao seu trecho inaugural e eu realmente não consigo conceber nenhum laço afetivo entre Robbie e Cecilia. Há um envolvimento sexual entre os dois (eles só "ficaram" juntos uma noite), mas esse interesse não cresce na personagem a ponto de convencer alguém de que ela esperaria pelo rapaz e inclusive, de que abandonaria sua família, como vc citou. Não dá pra entender essa irregularidade da moça...

 

O cara vai de Vertigo a Pearl Harbor em uma velocidade inacompanhável e a troca da atriz mela tudo de vez09.
Scarlet Rose2007-12-27 19:42:10
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Desejo e Reparação - 9,5/10

Não tenho muito que falar, acho que o Rike já disse tudo que penso sobre o filme. Mas nunca é demais destacar a Saiorse que está fantástica e a direção do Wright que é espetácular. Segundo melhor filme que vi no ano (o primeiro é Eastern Promises).

Ah e eu adoro a segunda parte do filme, apesar de preferir a primeira, achei que o Wright conseguiu dar o tom certo para toda a questão da guerra e a culpa da Briony.

E o plano-sequência é maravilhoso.
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Minha mãe chorou nessa cena final, eu não 06. Mas realmente é devastadora, e com uma performance maravilhosa da Redgrave.

 

Ah, já vi o filme duas vezes, e não encontro falha nenhuma, talvez um pouco a questão da personagem da Keira que foi meio esquecida pelo roteiro, mas mesmo assim não há nada que atrapalhe o filme e seu desenrolar.
Monster2008-01-02 23:44:32
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SPOILERS

 

Cecilia também não recebe muita atenção no livro. Eu acho plausível. Não há dúvidas da paixão platônica de Briony por Robbie. Nada mais sábio do que ela escrever uma narrativa se focando neles. Briony nunca se deu bem com a irmã. E Cecilia não tinha muito o que fazer a não ser esperar pelo o seu amado. Eu até achei uma boa sacada do Ewan/ Wright evitar o chavão do drama da pobre menina abandonada pelo amado que foi pra guerra (Como acontece em Cold Mountain, e outros do gênero). Ele economizou tempo. E obviamente, Briony se interessaria muito mais por Robbie e seu período de guerra (lembrando que todo o filme não se passa de uma obra literária, o ponto de vista de um personagem). 03
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SPOILERS

Sim, eu entendo isso e vejo que é totalmente plausível o esquecimento da personagem, mas é algo meu mesmo, é como se eu dissesse: "Ah o final poderia ser diferente, poderia ser assim...", como já disseram os filmes são o que são e não o que queremos.
Uma coisa, nada daquilo realmente aconteceu, ou até a parte da prisão foi algo "real"?

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SPOILERS. MUITOOOS SPOILERS!!!!!!!!!!!

EVITEM LER!!!!!!

 

 

Tudo ali faz parte da imaginação da Briony. O filme, com exceção do desfecho, é como se fosse um livro. Ela afirma que tudo ali é real, menos o desfecho da trama. Entretanto, devemos acreditar nela? Aí entra o caráter manipulativo do filme, entendeu?
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SPOILERS

Hum, entendi. Então aquela coisa de "contar a verdade absoluta" talvez não seja tão verdade então, mas eu acredito que ela tenha contado a verdade, pelo menos uma parte dela (o começo), por causa do nome do livro dela e tudo mais.

Ah, e o que você achou da Romola Garay (acho que é isso). Eu adorei a cena em que ela fala: "I'm very, very sorry for the terrible distress
that I have caused", na casa da cecilia, a voz dela está tão diferente, tão cheia de culpa. Por mim as três eram indicadas ao Oscar.
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SPOILERS

 

 

Você já viu o poster americano do filme, Monster? É muito interessante e, de certa forma, possui um spoiler. A Tagline é 'You can only imagine de Truth'. Belíssima, por sinal. 16

Eu também acredito na Briony. Aliás, para mim, ela é uma das personagens mais incríveis já criadas. 02

 

Sobre a atuação da Romola Garai... Foi a que menos recebeu atenção por parte da crítica. Poxa! Eu achei ela fenomenal. Ela representa perfeitamente toda a fragilidade da personagem perante o fim da adolescência. Essa frase é absolutamente emocionante. Outra cena que gostei muito foi a que ela conversa com o soldado francês. Genial.

 

E concordo! As três deveriam ser indicadas. Impecáveis!
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SPOILERS

 

 

Já vi esse poster Rike, e a frase é ótima. Condiz totalmente com o filme.

Também acho Briony uma personagem incrível, além de bem complexa, isso porque não li o livro, mas logo logo eu irei lê-lo.

 

A cena da conversa dela com o soldado foi muito linda, houve um contraste incrível entre a conversa deles (mais delicada, carinhosa) com a situação que o soldado e ela estavam vivendo (um sofrendo com o horror da guerra, o ferimento na cabeça, etc e a outra "pagando" uma penitência e se remoendo de culpa).

 

OSCAR para Atonement agora 16

 

Por falar em Oscar, muitos andam dizendo que esse Oscar vai lembrar a disputa de quando O Paciente Inglês ganhou de Fargo, pois supostamente Atonement lembra O Paciente Inglês e No Country for Old Men lembra Fargo, porém não acho que seja verdade, eu assisti aos quatros e Desejo e Reparação é MUITO diferente de O Paciente Inglês e No Country For Old Men também é diferente de Fargo, e por incrível que pareça eu prefiro os dois recentes, Atonement à Paciente Inglês e No Country... à Fargo, mas entre os dois eu fico com Atonement, ao contrário do passado em que Fargo é bem melhor que O Paciente Inglês, claro que isso é minha opinião, mesmo que não esteja muito clara 06.
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SPOILERS. MUITOOOS SPOILERS!!!!!!!!!!!

EVITEM LER!!!!!!

 

 

Tudo ali faz parte da imaginação da Briony. O filme' date=' com exceção do desfecho, é como se fosse um livro. Ela afirma que tudo ali é real, menos o desfecho da trama. Entretanto, devemos acreditar nela? Aí entra o caráter manipulativo do filme, entendeu?
[/quote']

 

 Não sei, me pareceu que a primeira parte do filme é real mesmo, depois é que começa o livro da Briony. Tanto que, pensando agora, o filme fica de alguma forma meio diferente depois que isso acontece. Não me pergunte como. 06

 

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