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Poesias


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Infância

 

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

 

Minha mãe ficava sentada cosendo.

 

Meu irmão pequeno dormia.

 

Eu sozinho menino entre mangueiras

 

lia a história de Robinson Crusoé,

 

comprida história que não acaba mais.

 

 

 

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

 

a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu

 

chamava para o café.

 

Café preto que nem a preta velha

 

café gostoso

 

café bom.

 

 

 

Minha mãe ficava sentada cosendo

 

olhando para mim:

 

- Psiu... Não acorde o menino.

 

Para o berço onde pousou um mosquito.

 

E dava um suspiro... que fundo!

 

 

 

Lá longe meu pai campeava

 

no mato sem fim da fazenda.

 

 

 

E eu não sabia que minha história

 

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

 

 

 

Carlos Drummond de Andrade

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De Repente (Vinícius de Morais)

 

 

 

De repente do riso fez-se o pranto

 

Silencioso e branco como a bruma

 

E das bocas unidas fez-se a espuma

 

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

 

 

De repente da calma fez-se o vento

 

Que dos olhos desfez a última chama

 

E da paixão fez-se o pressentimento

 

E do momento imóvel fez-se o drama.

 

 

 

De repente, não mais que de repente

 

Fez-se de triste o que se fez amante

 

E de sozinho o que se fez contente.

 

 

 

Fez-se do amigo próximo o distante

 

Fez-se da vida uma aventura errante

 

De repente, não mais que de repente.

 

 

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  • 2 weeks later...

Mais uma história de amor...

 

Ganhar e perder

Terminada a guerra de Tróia, Ulisses levaria

mais dez anos para chegar a Ítaca, seu lar, onde Penélope ainda o

aguardava. Nesse longo caminho de volta, tudo parecia conspirar contra

o seu retorno. Obrigado a aportar em ilhas desconhecidas, Ulisses foi

enfrentando um perigo após o outro. Tempestades terríveis, povos

selvagens e seres monstruosos foram destruindo seus navios e dizimando

seus companheiros, até que, no seu último naufrágio, foi lançado

completamente sozinho numa costa desconhecida, junto à boca de um rio,

quase morto de exaustão. Cauteloso, conseguiu arrastar-se para dentro

de um arbusto, onde adormeceu instantaneamente. Ele não sabia, mas era

uma precaução desnecessária, porque estava agora na terra dos Feácios,

povo próspero e pacífico que ia acolhê-lo muito bem - talvez até bem

demais.

 

O perigo era Nausícaa, a graciosa filha do rei. Nos

sonhos, uma deusa a avisou para estar preparada para casar quando

aparecesse o homem certo. Assim, ao despertar, ela e suas aias

colocaram os baús do enxoval num carro de bois e foram até o rio para

arejar seu conteúdo. Enquanto as roupas secavam ao sol, elas se

divertiam em jogar com uma leve bola de vime, e seus gritos de alegria

fizeram Ulisses acordar. Ao vê-las tão inofensivas, cobriu sua nudez

com um galho cheio de folhas e deixou o arbusto. Com os cabelos e a

pele cobertos de sal, ele estava assustador, e todas correram

apavoradas, menos Nausícaa, que manteve sua dignidade de princesa. Foi

a ela que Ulisses se dirigiu, com palavras escolhidas que caíam

suavemente como flocos de neve: comparou-a a uma jovem palmeira

verdejante, de inacreditável beleza, que um dia contemplara com espanto

junto ao templo de Apolo, e implorou por sua proteção. Impressionada, a

jovem mandou que lhe dessem roupas secas e óleo para banhar-se; quando

Ulisses voltou do rio, limpo, ela admirou a nobreza de seus traços e

pressentiu que aquele era o homem a que o sonho se referia. Antes de

chegarem ao palácio, ela já o estava amando.

 

Os feácios

exultaram ao saber que ali estava Ulisses, um dos heróis de Tróia; o

rei Alcino, candidamente, ofereceu-lhe a mão de Nausícaa e, com ela, o

futuro poder sobre toda aquela gente rica e feliz. A tentação dessa

oferta fez Ulisses vacilar, mas, como todos sabemos, preferiu voltar

para Penélope. Na hora de partir, numa despedida tocante, ela

lançou-lhe um olhar apaixonado e pediu, bela como uma jovem deusa, que

nunca mais a esquecesse. Ulisses, tomado de emoção, confessou que

pensaria nela enquanto estivesse vivo. Disse, e virou-lhe as costas,

para não ver mais aquele rosto suplicante, cheio de promessas. A

tristeza que o invadia era velha conhecida, pois vinha da dor que

sentimos pela perda irreparável que se esconde em cada escolha. Deixava

Nausícaa, é verdade, mas em nome de um amor que o tinha mantido vivo ao

longo de tantos anos. Agora, ia voltar para Ítaca e reencontrar sua

mulher.

 

 

Cláudio Moreno

(Texto publicado no jornal Zero Hora, edição de 14.08.07)

 

 

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Aff! Bravo, Mov mala 10

 

 

Qui êtes-vous ? 

 

  Vou lhe dizer o que farei e o que não farei.

Não vou servir àquilo em que não acredito mais,

seja meu lar, minha pátria ou minha religião;

e tentarei exprimir-me num certo modo de vida ou

 de arte tão livre e tão plenamente quanto puder,

usando em minha defesa

 as únicas armas que me permito usar:

silêncio, exílio e sagacidade.

 

James Joyce

 

(Stephen Dedalus, em "Retrato do artista quando jovem")

 

 (não sei francês, mas deve ser algo como "Quem seria vc?")

 
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Castigo


Desencaixo-me displicente.

Esvaziei-me, enfim.


Teu corpo


ainda queima,


tua mão ainda afaga.


Jamais


o prazer fora tão perverso.


Escondo meus lábios


atrás do batom.


Teus olhos


– canibais marinhos –


começam a se desfazer.


Não consigo te acompanhar.


És tão tolo...


Ainda me engasgo


com um último orgasmo.


Venci.


Sou aquela


que pela primeira vez


amas.


Mas a noite se esvai.


Sei que vais me tocar:


deixarei?


Não quero me amarrotar.


Tua boca me implora,


só que as estrelas se apagaram.


Vou-me embora


para nunca mais...


Se fosse amor,


não acabaria.

                                                                                       Agostina Akemi

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Soneto da saudade

Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!

Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas...

Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos...
Nem a distância apaga a chama da paixão.

 

Guimarães Rosa.

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Mulher


Não quero uma mulher

Que seja gorda ou magra


Ou alta ou baixa


Ou isto e aquilo.




Não quero uma mulher


Mas sim um porto, uma esquina


Onde virar a vida e olhá-la


De dentro para fora.




Não espero uma mulher


Mas um barco que me navegue


Uma tempestade que me aflija


Uma sensualidade que me altere


Uma serenidade que me nine.




Não sonho uma mulher


Mas um grito de prazer


Saindo da boca pendurada


No rosto emoldurado


No corpo que se apoie


Nas pernas que me abracem.




Não sonho nem espero


Nem quero uma mulher


Mas exijo aos meus devaneios


Que encontrem a única


Que quero sonho e espero


Não uma, mas ela.




E sei onde se esconde


E conheço-lhe as senhas


Que a definem. O sexo


Ardente, a volúpia estridente


A carência do espasmo


O Amor com o dedo no gatilho.




Só quero essa mulher


Com todos seus desertos


Onde descansar a minha pele


Exausta e a minha boca sedenta


E a minha vontade faminta


E a minha urgência aflita


E a minha lágrima austera


E a minha ternura eloquente.




Sim, essa mulher que me excite


Os vinte e nove sentidos


A única a saber


O que dizer


Como fazer


Quando parar


Onde Esperar.




Essa a mulher que espero


E não espero


Que quero e não quero


Essa mulherportoesquina


Que desejo e não desejo


Que outro a tenha.




Que seja alta ou baixa


Isto ou aquilo


Mas que seja ela


Aquela que seja minha


E eu seja dela


Que seja eu e ela


Euela eu lá nela


Que sejamos ela.




E eu então terei encontrado


A mulher que não procuro


O barco, a esquina, Você.


Sim, você, que espreita


Do outro lado da esquina, no cais,


A chegada do marinheiro


Como quem apenas me espera.




Então nos amarraremos sem vergonha


À luz dos holofotes dos teus olhos,


E procriaremos gritos e gemidos


Que iluminarão todas as esquinas.




Será o momento de dizer


Achei/achamos amei/amamos


E por primeira vez vocalizar o


Somos, pluralizando-nos


Na emoção do encontro.




Essa a mulher


que não procuro


nem espero.


Você, viu? Você!

                                                                                           Bruno Kampel

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Mãos dadas
 

 Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

 

 

 

Carlos Drummond de Andrade
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Vale postar conto por aqui? Espero que sim 06 Adoro muito, muito esse aí:

 

 

 

A Moça Tecelã
Por Marina Colasanti


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos  do algodão  mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta.  Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

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Lobos? São muitos.

Mas tu podes ainda

A palavra na língua

Aquietá-los.

Mortos? O mundo.

Mas podes acordá-lo

Sortilégio de vida

Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.

Mas se farão milhares

Se à lucidez dos poucos

Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.

E tu mesmo, raro.

Se nas coisas que digo

Acreditares.



Hilda Hilst

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Pela vida inteira

Meu coração vive festa

Alegra-se com tua chegada

Amado, sou tão feliz...

Contigo faço minha morada;

 

Acalentas todo meu ser

Me amas, como nunca antes fui amada

Com tuas palavras, teus gestos

Fazes de mim, mulher apaixonada;

 

Contigo, esqueço amarguras

Me acompanhas onde vou

Me sinto bela, resolvida

Apaguei de vez, tudo o que antes de ti, passou;

 

Nossas vidas, juntas finalmente

Nos queremos tanto

Que sejamos sempre felizes...

Viveremos para sempre este encanto;

 

Sou tua mulher, és meu homem

Nossos destinos já estão traçados

Nada nos separará então

Seremos pela vida inteira, apaixonados!

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Moore, é bom te ver por aqui 05

 

 

Teresa


A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
 

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
 

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

 
                                                                Manuel Bandeira.
Kah*2007-08-23 17:49:55
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Remorso


Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah ! Mais cem vidas ! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando !

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse !

 

 

 


Palavras


As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;
Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos
De pó, que o sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos
-As palavras da fé vivem num só momento...

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O "não!" que desengana, o "nunca!" que alucina,
E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.

 

 

 

Ambas de Olavo Bilac.
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04...Teresa é lindo Kah...nunca tinha visto...10

 

 

RECORDO AINDA

Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

Mario Quintana
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Eu conheci na aula de Literatura. Achei linda também... E essa tua aí, gostei bastante 10

 

 

 

 

Cárcere das Almas

 

 

Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa, 
soluçando nas trevas, entre as grades 
do calabouço olhando imensidades, 
mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza 
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e sonhando, as imortalidades 
rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas 
nas prisões colossais e abandonadas, 
da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves 
para abrir-vos as portas do Mistério?!

 

Cruz e Sousa
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...ahhh...nem é minha Kah...é do Mário Quintana...06...(piadinha sem graça..08)

 

..mais dele:

 

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mario Quintana

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Refém

Eu...
Que de nada, sentia falta...
Agora sinto
Uma falta danada !

Doamigo, que tive,
Que não tenho,
Que apenas tive,
Por alguns poucos momentos...

Que falta que sinto
Da presença amiga
Carinhosa, meiga
Da simplicidade
De menina...

Ah! Logo eu,
Que de nada
Sentia falta...
Agora sinto
Uma falta danada

Do meu amigo!!!


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Naira, nem conheço muitos do Quintana... To gostando deles! 02

 

Mãos dadas


Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
 

 

                                         Carlos Drummond de Andrade
Kah*2007-08-31 18:26:45
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 Acho que sei pq não postou nenhum dos poemas de "Amor Natural" aqui... afff! 08

 

língua girava no céu da boca.
 Girava! Eram duas bocas, no céu único.
O sexo desprendera-se de sua fundação,
errante imprimia-nos seus traços de cobre.
Eu, ela, ela eu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu.
A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava.
Consumia-nos em piscina de aniquilamento.
Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino,
 vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo,
 se restituíram à consciência.
 O sexo reintegrou-se.
A vida repontou: a vida menor.<?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar ...
Sem que eu esperasse, ficastes de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o falo recolhe a piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.

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Sim Shy... hhuahua

 

São os poemas "pornográficos" que o Drummond fazia.

Diria eu que são quase pornográficos. O pessoal costuma chamar esses poemas dele desse jeito pq Drummond falava tudo sem cerimônias.

 

E curto mto isso. Acho que todo homem pensa muito da maneira que o Drummond coloca as coisas nesses poemas.

 

O cara que diz que nunca pensou nisso, na verdade é um hipócrita.

Tem sempre aquela coisa do libido, mesmo que suave, na mente do homem, seja por poucos segundos ou por horas, mas a gente pensa.

 

Hehe

 

Até

 

 
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Eu gosto do Drummond, apesar de ele fazer parte de uma época literária que não me agrada muito...

 

 

 

                                            

 

Futuros Amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

 

 

 

(salve, salve) Chico Buarque de Holanda
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Sim Shy... hhuahua

 

São os poemas "pornográficos" que o Drummond fazia.

Diria eu que são quase pornográficos. O pessoal costuma chamar esses poemas dele desse jeito pq Drummond falava tudo sem cerimônias.

 

E curto mto isso. Acho que todo homem pensa muito da maneira que o Drummond coloca as coisas nesses poemas.

 

O cara que diz que nunca pensou nisso' date=' na verdade é um hipócrita.

Tem sempre aquela coisa do libido, mesmo que suave, na mente do homem, seja por poucos segundos ou por horas, mas a gente pensa.

 

Hehe

 

Até

  
[/quote']

 

 É mas ele tinha vergonha, receio ou sei lá o que, desses mesmos poemas.  Tanto que pediu que somente fosse publicado após sua morte.  Talvez por timidez.

 

 Não são poemas menores. Concordo ctg.

 Alguns deles descrevem o ato de amor, com força e logo depois com suavidade e depois com sutileza, e então de modo velado e explícito...  alternação... afff! 08 10 10

 

 
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