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Forum Cinema em Cena

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Depois do sol...


  Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .
 

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!
 

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .
 

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora


Pelos silêncios a sonhar . . .

 

 

Cecília Meireles
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Aff! Pq v cnunca posta nenhuma poesia, se diz gostar tanto??!! 17

 

 

 Lua nova

Cassandra Wilson

Eu quero tua figura

explorando meu íntimo,

rasgando meu peito

num fogaréu de muitas

línguas.

Eu quero tua cor

ampliando meu horizonte,

ofuscando minha íris

— a negra paisagem

que eu ainda não vira.

Eu quero teu perfume

penetrando minhas narinas

— meus pulmões pressentindo

o aroma de tua pele

indígena.

Eu quero tua voz

aguçando meus sentidos,

fazendo vir à tona

sonoridades e timbres

que eu nunca ouvira.

Eu quero tua nudez

despindo meus temores,

celebrando no ato

tua beleza selvagem,

intrínseca.

Maria shy2007-09-05 12:37:57

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Razões de amor...


I



Gosto desse teu ar tristonho,

desse olhar de melancolia,

mesmo nos momentos de prazer e de sonho,

ou nos instantes de amor e de alegria...



Gosto dessa tua expressão de ternura

tão suave e feminina,

desse olhar de ventura

com um brilho úmido a luzir num profundo langor...

Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,

tu que dás sempre a impressão de quem precisa

de proteção e amor...



Desse teu ar de menina, desse teu ar

que te faz mais mulher

ao meu olhar...



Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso

com que falas, como se acariciasses

até as palavras que dizes;

de tua presença, que é assim como um quieto remanso,

um pedaço de sombra onde me abrigo

quando somos felizes...



Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,

com que te encostas em meu peito

e te deixas ficar

entre ternuras e embaraços,

como se tudo ficasse, de repente, parado,

e teu mundo pudesse ser delimitado

pelos meus braços...



Gosto de ti assim, pequenina, macia,

quando te aperto contra mim e te sinto

minha

(inteiramente nua)

e tens um ar abandonado, como quem caminha

sonâmbula, por um estranho caminho

feito de céu e de lua...



II



Gosto de ti

desesperadamente:

dos teus cabelos de tarde

onde mergulho o rosto,

dos teus olhos de remanso

onde me morro e descanso;

dos teus seios de ambrósias,

brancos manjares trementes

com dois vermelhos morangos

para as minhas alegrias;



de teu ventre – uma enseada

– porto sem cais e sem mar –

branca areia à espera da onda

que em vaivém vai se espraiar;

de teus quadris, instrumento

de tantas curvas, convexo,

de tuas coxas que lembram

as brancas asas do sexo;



– do teu corpo só de alvuras

– das infinitas ternuras

de tuas mãos, que são ninhos

de aconchegos e carinhos,

mãos angorás, que parecem

que só de carícias tecem

esses desejos da gente...



Gosto de ti

desesperadamente;



gosto de ti, toda, inteira

nua, nua, bela, bela,

dos teus cabelos de tarde

aos teus pés de Cinderela,

(há dois pássaros inquietos

em teus pequeninos pés)

– gosto de ti, feiticeira,

tal como tu és...

                                                                             

J. G. de Araújo Jorge

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Adorei, Movio. 10

 

 

Doce sonho, suave e soberano


Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano,
se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
pois sempre nas verdades fui mofino.

 

 

 

Camões.
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Desalento

 

 

 

 

 

Sim, vai e diz

 

Diz assim

 

Que eu chorei

 

Que eu morri

 

De arrependimento

 

Que o meu desalento

 

Já não tem mais fim

 

Vai e diz

 

Diz assim

 

Como sou

 

Infeliz

 

No meu descaminho

 

Diz que estou sozinho

 

E sem saber de mim

 

 

 

Diz que eu estive por pouco

 

Diz a ela que estou louco

 

Pra perdoar

 

Que seja lá como for

 

Por amor

 

Por favor

 

É pra ela voltar

 

 

 

Sim, vai e diz

 

Diz assim

 

Que eu rodei

 

Que eu bebi

 

Que eu caí

 

Que eu não sei

 

Que eu só sei

 

Que cansei, enfim

 

Dos meus desencontros

 

Corre e diz a ela

 

Que eu entrego os pontos

 

 

 

 

 

Vinicius de Morais

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O SEU SANTO NOME

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, <?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

não cometa a loucura sem remissão de espalhar

aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie
.

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Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.


Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

 

 

 

 

 

Manuel Bandeira
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VAGA A BUNDA DA VAGABUNDA (Adaga de Almeida)

Rogo para que matem a ignorância

Porque indivíduos fazem dela sua melhor amiga

Meninas tornam-se pequenas vagabundas

Bundas moribundas, sem substância


Falam de inveja, reclamam de ciúmes

Na verdade sonham em ser imitadas

São bundas, vagabundas, vagas bundas

Ó idiotas, invejam e não são invejadas


Têm atraentes bundas, futilidades deprimentes

Fingem ser alguém melhor, mentem

São só bundas que vagam

Vagando vagas, alegremente

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RÉQUIEM PARA UM AMOR


Desde o momento em que eu te vi morrendo,
apercebi-me: estava te perdendo.
Olhei pro tempo, andei léguas pra trás.
A vida veio inteira em minha mente.
Um filme surrealista, tocha ardente,
como um vulcão, uma fera voraz.
Desejei ser a autora do destino.
Vi-me menina, como o Deus Menino,
nos braços da Senhora Mãe donzela.
Ou era uma criança na janela,
olhando os “mascarados” na avenida,
todos querendo se esconder da vida.

A vida, então, pra mim era um brinquedo,
eu não entendia porque tanto medo.
O mesmo medo que me assombra agora,
ao ver você saindo do teu corpo.
Espírito de luz num corpo morto,
querer ficar, mas tendo que ir embora.
A dor maior era te ver calada,
sangrando a vida em plena madrugada.
Vi-me sozinha. Não entendi mais nada.
E a morte veio como erva daninha,
matando tudo. E eu ali, parada.

Que gosto amargo, que cansaço imenso.
Você virando um anjo em minha frente.
Deixando de ser mãe e de ser gente,
agonizando no extertor final.
Que sensação sinistra, ver teu funeral!
Loucura, ver a terra te cobrindo,
e eu te pedindo pra não ir embora.
Rezando, mesmo sem saber rezar,
buscando alguma força pra me dar.
Vi Deus virar Diabo aquela hora!

A casa parecia um templo antigo,
mal assombrado, sem qualquer amigo.
Uma cena delirante, teatral.
E eu fui me dando conta, de repente,
que eu já não era eu, eu era alguém.
Sem pai, sem mãe, um animal sem vida.
Um cão lambendo a própria ferida.
Sentei no chão, chorei amargamente.
E desejei ser terra e ser semente.
Fazer você voltar, sobrevivente.

Você saiu de mim como uma ladra.
Silenciosa, cabisbaixa, errante.
E me deixou sozinha e desarmada,
como uma marginal principiante.
Você roubou meus últimos brinquedos.
Você levou todos os meus segredos.
O meu maiô de elástico vermelho.
O meu batom, o meu primeiro espelho.
A bicicleta, o álbum de retratos.
Meus quinze anos, meus sapatos altos.
Meus carnavais e minhas fantasias.
A minha serpentina, o meu confete.
O meu Colégio Santa Bernadete,
minhas colegas, minhas alegrias.

Levou minhas cigarras, meus oitis,
a minha Madragoa, os bem-te-vis.
Levou minha Avenida Beira-Mar.
Levou Jauá, levou meus veraneios,
o barco de painho e meus passeios.
Levou meu São João, meu milho verde.
Meus doces sobre a mesa, meus natais.
O meu acordeon, o meu piano,
os meus concertos e os meus festivais.
Me diga mãe, o que é que eu faço agora,
se sem você eu já nem sonho mais?

Você me levou tudo mãe, até minh’alma!
Em que ternura eu vou buscar a calma?
Em que calor eu vou guardar meu frio,
se até meu coração ficou vazio?
Em qual abraço eu vou guardar meus medos,
se hoje estou em todos os degredos,
se fui deixada ao sabor do vento,
amargurando a cara do meu tempo,
mortificando a dor todo o momento?

Responda, mãe, de onde estás agora.
Dê-me o sinal que eu te pedi outrora.
Se não existe nada além da morte,
entrego a minha vida à própria sorte.
Responda mãe, o que eu pedi um dia,
em nome da esperança que eu perdi,
em nome do poeta e da poesia.
Por cada ideal, cada utopia,
faça os meus versos ter algum sentido,
faça vibrar o eco universal.
Atenda mãe, meu último pedido.
Responda mãe, num gesto maternal.
Valeu ou não, um dia ter nascido?
Valeu ou não, um dia ter vivido?
A morte é o começo, o meio ou o final?

 

 

Kátia Drummond
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Soneto da fidelidade

 

 

 

De tudo, ao meu amor serei atento

 

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

 

Que mesmo em face do maior encanto

 

Dele se encante mais meu pensamento.

 

 

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

 

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

 

E rir meu riso e derramar meu pranto

 

Ao seu pesar ou seu contentamento.

 

 

 

E assim, quando mais tarde me procure

 

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

 

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

 

 

Eu possa (me) dizer do amor (que tive):

 

Que não seja imortal, posto que é chama

 

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

 

 

Vinicius de Morais

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    A chama insensível do desejo

 

Eu amo seus olhos, meu querido<?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

e a centelha do fogo esplêndido dele,

quando de repente você os levanta assim

como a moldar um rápido relance de  envolver

 

como o relâmpago  no céu

mas há  um encanto  que é um destilador maior:

quando os olhos do meu amor se abaixam

quando tudo está em fogo pelo beijo das paixões

 

e através dos chicotes

eu vejo a chama insensível do desejo

e através dos chicotes

eu vejo a chama insensível do desejo

 

chama insensível

 eu vejo a chama saciada

eu vejo a chama insensível

eu vejo a chama saciada

 

e através dos

chicotes

eu vejo a

 chama insensível

 do

desejo

 

 Poema do russo  Fyodor Tyutchev (1803-1973), utilizado,  no filme Stalker .

 
Maria shy2007-09-11 16:17:49
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Lembrança de morrer

(...)

Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

- Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

 

Sombras do vale, noites da montanha,

Que minh'alma cantou e amava tanto

Protegei o meu corpo abandonado

E no silêncio derramai-lhe um canto!

 

Mas quando preludia ave d'aurora

E quando à meia-noite o céu repousa

Arvoredos do bosque, abri os ramos...

Deixai a lua prantear-me a lousa!

 

(Álvares de Azevedo)

 

 

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Ausência
 
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

 

 

 

Vinícius de Moraes
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Saudades



Foi por ti que num sonho de ventura
A flor da mocidade consumi...
E às primaveras disse adeus tão cedo
E na idade do amor envelheci!
 


Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento...
De fogosas visões nutri meu peito...
Vinte anos!... sem viver um só momento!
 


Contudo, no passado uma esperança
Tanto amor e ventura prometia...
E uma virgem tão doce, tão divina,
Nos sonhos junto a mim adormecia!
 


...
 


Quando eu lia com ela... e no romance
Suspirava melhor ardente nota...
E Jocelyn sonhava com Laurence
Ou Werther se morria por Carlota...
 


Eu sentia a tremer e a transluzir-lhe
Nos olhos negros a alma inocentinha...
E uma furtiva lágrima rolando
Da face dela umedecer a minha!
 


E quantas vezes o luar tardio
Não viu nossos amores inocentes?
Não embalou-se da morena virgem
No suspirar, nos cânticos ardentes?
 


E quantas vezes não dormi sonhando
Eterno amor, eternas as venturas...
E que o céu ia abrir-se... e entre os anjos
Eu ia despertar em noites puras?
 


Foi esse o amor primeiro! requeimou-me
As artérias febris de juventude,
Acordou-me dos sonhos da existência
Na harmonia primeira do alaúde.
 


...
 


Meu Deus! e quantas eu amei... Contudo
Das noites voluptuosas da existência
Só restam-me saudades dessas horas
Que iluminou tua alma d'inocência.
 


Foram três noites só... três noites belas
De lua e de verão, no val saudoso...
Que eu pensava existir... sentindo o peito
Sobre teu coração morrer de gozo.
 


E por três noites padeci três anos,
Na vida cheia de saudade infinda...
Três anos de esperança e de martírio...
Três anos de sofrer - e espero ainda!
 


A ti se ergueram meus doridos versos,
Reflexos sem calor de um sol intenso,
Votei-os à imagem dos amores
Pra velá-la nos sonhos como incenso.
 


Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,
Tantas noites de febre e d'esperança...
Mas hoje o coração parado e frio,
Do meu peito no túmulo descansa.
 


Pálida sombra dos amores santos!
Passa quando eu morrer no meu jazigo,
Ajoelha ao luar e entoa um canto...
Que lá na morte eu sonharei contigo.

 

 

 

Álvares de Azevedo
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A morte de madrugada

 

 

 

UMA CERTA madrugada

 

Eu por um caminho andava

 

Não sei bem se estava bêbedo

 

Ou se tinha a morte n’alma

 

Não sei também se o caminho

 

Me perdia ou encaminhava

 

Só sei que a sede queimava-me

 

A boca desidratada.

 

Era uma terra estrangeira

 

Que me recordava algo

 

Com sua argila cor de sangue

 

E seu ar desesperado.

 

Lembro que havia uma estrela

 

Morrendo no céu vazio

 

De uma outra coisa me lembro:

 

... Un horizonte de perros

 

Ladra muy lejos del río...

 

 

 

De repente reconheço:

 

Eram campos de Granada!

 

Estava em terras de Espanha

 

Em sua terra ensangüentada

 

Por que estranha providência

 

Não sei... não sabia nada...

 

Só sei da nuvem de pó

 

Caminhando sobre a estrada

 

E um duro passo de marcha

 

Que eu meu sentido avançava.

 

Como uma mancha de sangue

 

Abria-se a madrugada

 

Enquanto a estrela morria

 

Numa tremura de lágrima

 

Sobre as colinas vermelhas

 

Os galhos também choravam

 

Aumentando a fria angústia

 

Que de mim transverberava.

 

 

 

Era um grupo de soldados

 

Que pela estrada marchava

 

Trazendo fuzis ao ombro

 

E impiedade na cara

 

Entre eles andava um moço

 

De face morena e cálida

 

Cabelos soltos ao vento

 

Camisa desabotoada.

 

Diante de um velho muro

 

O tenente gritou: Alto!

 

E à frente conduz o moço

 

De fisionomia pálida.

 

Sem ser visto me aproximo

 

Daquela cena macabra

 

Ao tempo em que o pelotão

 

Se punha horizontal.

 

 

 

Súbito um raio de sol

 

Ao moço ilumina a face

 

E eu à boca levo as mãos

 

Para evitar que gritasse.

 

Era ele, era Federico

 

O poeta meu muito amado

 

A um muro de pedra-seca

 

Colado, como um fantasma.

 

Chamei-o: Garcia Lorca!

 

Mas já não ouvia nada

 

O horror da morte imatura

 

Sobre a expressão estampada...

 

Mas que me via, me via

 

Porque eu seus olhos havia

 

Uma luz mal-disfarçada.

 

 

 

Com o peito de dor rompido

 

Me quedei, paralisado

 

Enquanto os soldados miram

 

A cabeça delicada.

 

 

 

Assim vi a Federico

 

Entre dois canos de arma

 

A fitar-me estranhamente

 

Como querendo falar-me

 

Hoje sei que teve medo

 

Diante do inesperado

 

E foi maior seu martírio

 

Do que a tortura da carne.

 

Hoje sei que teve medo

 

Mas sei que não foi covarde

 

Pela curiosa maneira

 

Com que de longe me olhava

 

Como quem me diz: a morte

 

É sempre desagradável

 

Mas antes morrer ciente

 

Do que viver enganado.

 

 

 

Atiraram-lhe na cara

 

Os vendilhões de sua pátria

 

Nos seus olhos andaluzes

 

Em sua boca de palavras.

 

Muerto cayó Federico

 

Sobre a terra de Granada

 

La tierra del inocente

 

No la tierra del culpable.

 

Nos olhos que tinha abertos

 

Numa infinita mirada

 

Em meio a flores de sangue

 

A expressão se conservava

 

Como a segredar-me: A morte

 

É simples, de madrugada...

 

 

 

 

 

Vinicius de morais

 

 

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Um lugar que só nós conhecemos

Eu andei por uma terra desabitada
Eu conhecia o caminho como a palma da minha mão
Eu senti a terra sob meus pés
Eu sentei ao lado do rio e ele me completou

Coisa simples por onde você tem andado
Eu preciso de algo em que confiar
Então me fala quando você vai me deixar entrar
Eu estou ficando cansada

Eu encontrei por acaso uma árvore caída
Eu senti seus ramos olhando para mim
Esse é o lugar que nós costumavamos amar?
Esse é o lugar com o qual eu tenho sonhado

E se você tiver um minuto
por que nós não vamos
falar sobre isso num lugar que só nós conhecemos?

Isso poderia ser o final de tudo

 

 

 

Somewhere Only We Know - Natasha Bedingfield


 

 

 
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Tua Caminhada


Tua caminhada ainda não terminou....
A realidade te acolhe
dizendo que pela frente
o horizonte da vida necessita
de tuas palavras
e do teu silêncio.

Se amanhã sentires saudades,
lembra-te da fantasia e
sonha com tua próxima vitória.
Vitória que todas as armas do mundo
jamais conseguirão obter,
porque é uma vitória que surge da paz
e não do ressentimento.

É certo que irás encontrar situações
tempestuosas novamente,
mas haverá de ver sempre
o lado bom da chuva que cai
e não a faceta do raio que destrói.

Tu és jovem.
Atender a quem te chama é belo,
lutar por quem te rejeita
é quase chegar a perfeição.
A juventude precisa de sonhos
e se nutrir de lembranças,
assim como o leito dos rios
precisa da água que rola
e o coração necessita de afeto.

Não faças do amanhã
o sinônimo de nunca,
nem o ontem te seja o mesmo
que nunca mais.
Teus passos ficaram.
Olhes para trás...
mas vá em frente
pois há muitos que precisam
que chegues para poderem seguir-te.

 

 

 

 

 

Charles Chaplin (porque não? 10)
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Encarnação

                                                     

                            

Carnais, sejam carnais tantos desejos, 
carnais, sejam carnais tantos anseios, 
palpitações e frêmitos e enleios,
das harpas da emoção tantos arpejos...

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, 
à noite, ao luar, intumescer os seios 
láteos, de finos e azulados veios 
de virgindade, de pudor, de pejos...

Sejam carnais todos os sonhos brumos 
de estranhos, vagos, estrelados rumos 
onde as Visões do amor dormem geladas...

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias 
formem, com claridades e fragrâncias, 
a encarnação das lívidas Amadas!

 

 

 

Cruz e Sousa
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Adeus Amor...

 

Flor menina tão querida
Nunca mais penses em mim
Vou sair da tua vida
Pois a vida quis assim
Vou chorar a realidade
Nas esquinas da saudade
No coração do meu fim...
Mas não chore vida minha
Tenha sempre na memória
Dentre todas minha rainha
A beleza é tua gloria
Adeus meiga e doce amada
Linda flor da natureza...
Se queres minha jornada
Nos mares da incerteza
Um mar na tempestade
Naufragando na tristeza...
brisa mansa que me afaga
Ameniza os prantos meus
No horizonte o sol se apaga
Como a luz dos olhos teus...

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Ciúmes

 

Eu ti amo tanto
E de tanto não sei explicar
O ciúmes me atormenta
O amor que só aumenta
Eu não sei quando parar...
É a vontade de estar
Sempre perto de você
E nem uma brecha deixar
Pra ninguém mais te querer...
É um ciúmes doentio
Que eu quero curar
Por isso peço um consolo
Vem depressa ! vem me ajudar...
Para o nosso amor voar livre e suave
Perto das ondas do mar...

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O INSECTO

Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.

Sou mais pequeno que um insecto.

...

Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo umedecido!

Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.

Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!

Pablo Neruda

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