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Forum Cinema em Cena

Poesias


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Quase uma oração

 

Um dia a gente acorda e percebe que mudou,
depois de levar muita porrada e ter os ossos
moídos junto aos sonhos. Um dia a gente acorda
e percebe que nem toda mudança precisa
ser amarga, embora o que nos mova quase
sempre seja a dor, esta parceira do imprevisto.

Um dia a gente acorda e descobre do lado do
avesso um espaço zen, uma espécie de paz
interior que nos adula e acaricia, como se a mãe
voltasse a nos pegar no colo.

Neste dia, inexplicavelmente, decidimos que o
melhor a fazer numa manhã é plantar um girassol
só para ver, dali a um tempo, sem angústia,
dilema ou rejeição, que a vida dança a dança
dos dervixes...e que a nossa entrega à vida
é um ritual sem hoje nem amanhã.

A felicidade pode ser o ato de movimentar -se
como os girassóis, para lá e para cá, só pra ver
onde começa e onde termina o dia...sem pressa.
Os acontecimentos não nos pertencem.

 

(Célia Musilli)
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O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
                Mas com que fim
Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas,
Não sei.
                Outros ecos
No jardim se aninham. Seguiremos?
 
(célia musilli)<?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

 

Recebido de Lau... lindo!!!

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Chica, que bom que gostou!!! Aí vai mais um dela.

As vezes tem sarau no Cemitério de automóveis e ela declama seus poemas. Lindo demais!!

 

 

 

Desfolhamento<?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

 

 

 

ao escutar seu silêncio

me dei por vencida

depois de jurar

ouvir diálogos onde não havia

passos invisíveis na casa-fantasma

vi a chegada de uma carta-bilhete

com todas as promessas

assinadas embaixo

como um canteiro de tulipas 

num jardim suspenso

 

 

ah! amor do meu amor

quando construí palácios de sonhos

e coloquei móveis e cortinas diáfanas

de insustentável realidade

pensei que meu afeto

seria o alimento à mesa

a ser levado às colheradas

à sua boca

como o pacto dos romances

que resistem

 

depois veio o rio caudaloso

a força d´água

a tempestade-ira que me tirou o sossego

no início senti medo

adivinhei o perigo

decifrei a ausência

na imaterialidade sem palavras

sabia que dali em diante

sem fazer planos nem contas

o amor me subtraíra

 



(Célia Musilli)
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Amigas e amigos queridos...

que venha a primavera!

 

 

Canção da Primavera

(Para Érico Veríssimo)

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

 

Mario Quintana

 

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“Pensando em fazer, pensando em fazer, se passaram 20 anos
Não consegui, não consegui, se passaram 20 anos
Ai, por que não fiz?, ai, por que não fiz?, se passaram 20 anos
Assim, se passaram 60 anos
Essa é a biografia de uma vida vazia.”

(Provérbio tibetano)

 

 

--------------------------------------------

 

 

A  Águia e a Galinha
Uma metáfora da condição humana

                   Era uma vez um camponês que foi a floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Coloco-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros. Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
 - Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.
            - De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu criei como galinha.
Ela não é mas uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
 - Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar ás alturas. - Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
  Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse: - já que você de fato é uma águia,  já que você pertence ao céu e não a terra, então abra suas asas e voe! A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

                  O camponês comentou:

 
-         Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!

 
-         Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia.

 
E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

 


                 
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:

 
-         Águia, já que você é uma águia, abra as suas asas e voe!

 
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

 


O camponês sorriu e voltou à carga:

 
-         Eu lhe havia dito, ela virou galinha!

 
-                     Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração  de águia. Vamos experimentar ainda uma ultima vez. Amanhã a farei voar.

 
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

 
- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

 
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

 
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergue-se, soberana, sobre se mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto. Voou... voou... até confundir-se com o azul do firmamento...<?:NAMESPACE PREFIX = O />

E Aggrey  terminou conclamando:

 - Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus!  Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos . Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.

(Autor:  Frei Leonardo Boff)

flower2009-09-23 22:26:55
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A Solidão

   (Rodrigo Garcia Lopes)

a solidão sempre aparece com beijos & bombons
a solidão faz visitas regulares a seus amigos íntimos

a solidão brinca no mar com seus dedos de açúcar
a solidão vive sorrindo pra desconhecidos
a solidão ainda se emociona com filmes antigos na televisão

a solidão imagina gueixas cujos olhos são borboletas de vidro

a solidão bebe em meu corpo seu próprio desespero
a solidão adora esconde-esconde e amarelinha

a solidão coleciona diários e discos do Coltrane
a solidão usa pijamas de bolinhas e óculos quebrados
a solidão depois do sexo ainda se sente sozinha
a solidão e eu somos apenas bons amigos
a solidão corta meus pulsos com uma gilete de sal

depois sai chapada pelas ruas
com uma folha de alface na lapela.

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  • 2 weeks later...

TABACARIA

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso' date=' tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

[/quote']

Fernando Pessoa é um dos melhores da língua portuguesa.16
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  • 2 weeks later...

Soneto XVII

No te amo como se fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.


Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.


Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,


sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tu ojos con mi sueño.

Pablo Neruda

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  • 3 weeks later...

Dia difícil.

É necessário fazer o degelo de pensamentos congelados.

Há anos disfarço a intensa lucidez com as tarefas do dia a dia.

O gelo espoca no copo de uísque.

Meu corpo acostumou com este ritual

e o marulho do líquido descendo pelo organismo

é um indício de coragem.

Há anos abandonei o vício

de fazer aquilo que não quero.

Os fantasmas saíram trotando

mas há indeléveis marcas desta cavalgada de fuga

- patas, rastros, ferraduras -

Agora, toda manhã, consigo estalar

os dedos

e me sentir

mais viva.

(Karen Debértolis)

 

 

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NADA A FAZER

 

 

 

“Quando fazemos tudo para que nos amem

 

e não conseguimos' date=' resta-nos um último recurso:

 

não fazer mais nada.

 

Por isso, digo, quando não obtivermos o amor,

 

o afeto ou a ternura que havíamos solicitado,

 

melhor será desistirmos e procurar mais

 

adiante os sentimentos que nos negaram.

 

Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não,

 

espontaneamente, mas nunca por força de imposição.

 

Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;

 

outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés.

 

Os sentimentos são sempre uma surpresa.

 

Nunca foram uma

 

caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido.

 

Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos

 

quem melhor nos quer.

 

Assim, repito, quando tivermos feito

 

tudo para conseguir um amor, e falhado,

 

resta-nos um só caminho…

 

o de mais nada fazer.”

 

(Clarice Lispector)[/quote']

 

Belíssimo!

 

 

 

Quanto ao Oswaldo Montenegro, tá aí um cara que eu respeito.

 

Aqui algo dele que eu gosto bastante. (Embora saia um pouco de todo o romantismo que ele costuma fazer.)

 

 

 

A Lista

 

 

 

Faça uma lista de grandes amigos

 

Quem você mais via há dez anos atrás

 

Quantos você ainda vê todo dia?

 

Quantos você já não encontra mais?

 

 

 

Faça uma lista dos sonhos que tinha

 

Quantos você desistiu de sonhar?

 

Quantos amores jurados pra sempre?

 

Quantos você conseguiu preservar?

 

 

 

Onde você ainda se reconhece:

 

Na foto passada ou no espelho de agora?

 

Hoje é do jeito que achou que seria?

 

Quantos amigos você jogou fora?

 

 

 

Quantos mistérios que você sondava?

 

Quantos você conseguiu entender?

 

Quantos segredos que você guardava

 

Hoje são bobos, ninguém quer saber?

 

 

 

Quantas mentiras você condenava?

 

Quantas você teve que cometer?

 

Quantos defeitos sanados com o tempo

 

Eram o melhor que havia em você?

 

 

 

Quantas canções que você não cantava

 

Hoje assovia pra sobreviver?

 

Quantas pessoas que você amava

 

Hoje acredita que amam você?dark_angel2009-11-19 13:26:48

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  • 2 weeks later...

Gilete

 

"Corta o meu barato nas noites de ferro 

corta a minha doze em tiras de metal 

bebe o sangue do pulso das meninas 

depois passeia chapada 

esperando o final 

Gilete 

na bolsa das putas 

Gilete 

nos olhos dos loucos

Gilete

nas línguas das virgens 

Gilete

no sangue de poucos

Corta o meu barato 

nas noites de vício 

leva mil baladas 

pra segurar este hospício

lava com whisky os pecados dos meninos 

depois convoca a alcatéia pra um ensaio geral" 

 

(Mário Bortolotto)

 

“Se na hora grave de um homem toda a compaixão de outros homens se juntasse para impedi-lo de partir, esse homem não morreria.” (Pedro Maciel)

 

Que essa oração chegue aos ouvidos de quem decide: Deus, Zeus, Tupã... Que  a vida continue a pulsar no coração ferido a bala do Mário e ele viva para continuar a desfilar como um menino, com  seus coturnos com os cadarços desamarrados.

laure2009-12-09 00:18:14
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COME LIE WITH ME AND BE MY LOVE

 

 

Venha deitar comigo e ser meu amor

Amor minta comigo

Jaza aqui comigo

Ao pé do cipreste

No doce gramado

Onde o vento fenece

Onde o vento perece

Enquanto a noite marca passo

Venha deitar comigo

A noite toda comigo

E me beije até se fartar

E se farte de fazer amor

E deixe nossos eus falarem em par

Por toda a noite ao pé do cipreste

Sem fazer amor

**

Lawrence Ferlinghetti

(Starting from San Francisco, 1961)

Versão brasileira: Cardoso & Santana Translation Productions

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  • 2 weeks later...
  • 4 weeks later...

Presentaço (aço...aço)

virei fã absoluta e incondicional 10

 

 

O QUE EU NÃO DISSE<?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

 

O silêncio é arma

a fustigar entranhas

Quando dói me recolho

Como bicho

Intuindo o sacrifício

E a quietude sangra, incendeia

 

Fecho bem os olhos

A solidão na veia

Aberta à perda

Na correnteza do rio

 

Uivo, laivo, cio

na manhã que se despedaça

Flor, pétala entre os dedos,

O silêncio é minha dor

E meu segredo.

 

Célia Musilli

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Uma taça feita de um crânio humano

Não recues! De mim não foi-se o espírito...

Em mim verás - pobre caveira fria -

Único crânio que, ao invés dos vivos,

Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte

Arrancaram da terra os ossos meus.

Não me insultes! empina-me!... que a larva

Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira

Do que ao verme do chão ser pasto vil;

- Taça - levar dos Deuses a bebida,

Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,

Vá nos outros o espírito acender.

Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro

...Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,

Quando tu e os teus fordes nos fossos,

Pode do abraço te livrar da terra,

E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida

Tanto mal, tanta dor ai repousa?

É bom fugindo à podridão do lado

Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...

 Lord Byron

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Acho que Lord Byron deve ter ensinado tudo a Augusto dos Anjos rs Qd li esse poema  "Uma taça feita de um crânio humano"

 

Lembrei-me do augusto..com seus Versos íntimos que arrepiam 09 Conhecem? Uma coisa estilo ler...e encantar-se com a ousadia e desencantar-se com o imaginário que ao lê-lo te traz...rs06

 

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo, Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja esta mão vil que te afaga,
Escarra nesta boca que te beija!


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  • 2 weeks later...

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...

 

Mas, enquanto houver amizade,

 

Faremos as pazes de novo.

 

 

 

Pode ser que um dia o tempo passe...

 

Mas, se a amizade permanecer,

 

Um de outro se há-de lembrar.

 

 

 

Pode ser que um dia nos afastemos...

 

Mas, se formos amigos de verdade,

 

A amizade nos reaproximará.

 

 

 

Pode ser que um dia não mais existamos...

 

Mas, se ainda sobrar amizade,

 

Nasceremos de novo, um para o outro.

 

 

 

Pode ser que um dia tudo acabe...

 

Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,

 

Cada vez de forma diferente.

 

Sendo único e inesquecível cada momento

 

Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

 

 

 

Há duas formas para viver a sua vida:

 

Uma é acreditar que não existe milagre.

 

A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre

 

Einstein

 

 

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Que boniiiiiiiiiiitoooooooo Clane! *.* Q poema fofo! rs

Einstein merecia um prêmio por isso! rs

 

Lembrei-me de Fernando Pessoa, poeta preferido da minha mãe...

 

Poema do amigo aprendiz


Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...
                                                        Fernando Pessoa
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  • 1 month later...

Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada

 

Cecília Meireles
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