Jump to content
Forum Cinema em Cena

Poesias


gold_walker
 Share

Recommended Posts

9 de julho de 2010,  30 anos sem  Vinícius de Moraes

Que tal uma série de poemas do  poetinha. Vou começar com A Máscara da noite.

 

 

 

 

A máscara da noite

Sim, essa tarde conhece todos os meus pensamentos
Todos os meus segredos e todos os meus patéticos anseios
Sob esse céu como uma visão azul de incenso
As estrelas são perfumes passados que me chegam...

Sim! essa tarde que eu não conheço é uma mulher que me chama
E eis que é uma cidade apenas, uma cidade dourada de astros
Aves, folhas silenciosas, sons perdidos em cores
Nuvens como velas abertas para o tempo...

Não sei, toda essa evocação perdida, toda essa música perdida
É como um pressentimento de inocência, como um apelo...
Mas para que buscar se a forma ficou no gesto esvanecida
E se a poesia ficou dormindo nos braços de outrora...

Como saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo
Nesse entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas?
Orvalho, orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo
Faz-se surgir diamante dentro do sol!

Lembro-me!... como se fosse a hora da memória
Outras tardes, outras janelas, outras criaturas na alma
O olhar abandonado de um lago e o frêmito de um vento
Seios crescendo para o poente como salmos...

Oh, a doce tarde! Sobre mares de gelo ardentes de revérbero
Vagam placidamente navios fantásticos de prata
E em grandes castelos cor de ouro, anjos azuis serenos
Tangem sinos de cristal que vibram na imensa transparência!

Eu sinto que essa tarde está me vendo, que essa serenidade está me vendo
Que o momento da criação está me vendo neste instante doloroso de sossego em mim mesmo
Oh criação que estás me vendo, surge e beija-me os olhos
Afaga-me os cabelos, canta uma canção para eu dormir!

És bem tu, máscara da noite, com tua carne rósea
Com teus longos xales campestres e com teus cânticos
És bem tu! ouço teus faunos pontilhando as águas de sons de flautas
Em longas escalas cromáticas fragrantes...

Ah, meu verso tem palpitações dulcíssimas! – primaveras!
Sonhos bucólicos nunca sonhados pelo desespero
Visões de rios plácidos e matas adormecidas
Sobre o panorama crucificado e monstruoso dos telhados!

Por que vens, noite? por que não adormeces o teu crepe
Por que não te esvais – espectro – nesse perfume tenro de rosas?
Deixa que a tarde envolva eternamente a face dos deuses
Noite, dolorosa noite, misteriosa noite!

Oh tarde, máscara da noite, tu és a presciência
Só tu conheces e acolhes todos os meus pensamentos
O teu céu, a tua luz, a tua calma
São a palavra da morte e do sonho em mim!



Rio de Janeiro, 1938

in: Novos Poemas

in:Antologia Poética

in:Poesia completa e pros:"A saudade do cotidiano"

 

 

 
laure2010-07-09 09:41:59
Link to comment
Share on other sites

Místico


O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização…
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.

Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas –
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz –
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.

No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.

Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?

Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...

Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.

Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.

Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.



Rio de Janeiro, 1933
in O caminho para a distância
in Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime"

Link to comment
Share on other sites

  • 2 weeks later...

 Minha contribuição:

 

 

<?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

Insensatez


 

A insensatez que você fez

Coração mais sem cuidado

Fez chorar de dor o seu amor

Um amor tão delicado

Ah! Porque você foi fraco assim

Assim tão desalmado

Ah! Meu coração quem nunca amou

Não merece ser amado

Vai meu coração, ouve a razão

Usa só sinceridade

Quem semeia vento, diz a razão

Colhe sempre tempestade

Vai meu coração

Pede perdão, perdão apaixonado

Vai porque não pede perdão

Não é nunca perdoado
 
 
 
De Repente


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
MariaShy2010-07-19 17:19:03
Link to comment
Share on other sites

Pela luz dos olhos teus

 

Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus

Resolvem se encontrar

Ai que bom que isso é meu Deus

Que frio que me dá o encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus só pra me provocar

Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus

Que a luz dos olhos meus já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará

Pela luz dos olhos teus

Eu acho meu amor que só se pode achar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

Vinícius de Moraes
Link to comment
Share on other sites

Eu não existo sem você

 

 

 

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim

 

Que nada nesse mundo levará você de mim

 

Eu sei e você sabe que a distância não existe

 

Que todo grande amor

 

Só é bem grande se for triste

 

Por isso, meu amor

 

Não tenha medo de sofrer

 

Que todos os caminhos

 

Me encaminham pra você

 

 

 

Assim como o oceano

 

Só é belo com luar

 

Assim como a canção

 

Só tem razão se se cantar

 

Assim como uma nuvem

 

Só acontece se chover

 

Assim como o poeta

 

Só é grande se sofrer

 

Assim como viver

 

Sem ter amor não é viver

 

Não há você sem mim

 

Eu não existo sem você

 

Vinícius de Moraes

 

 

Link to comment
Share on other sites

Minha contribuição:

 

Tomara

 

Que você volte depressa

 

Que você não se despeça

 

Nunca mais do meu carinho

 

E chore, se arrependa

 

E pense muito

 

Que é melhor se sofrer junto

 

Que viver feliz sozinho

 

 

 

Tomara

 

Que a tristeza te convença

 

Que a saudade não compensa

 

E que a ausência não dá paz

 

E o verdadeiro amor de quem se ama

 

Tece a mesma antiga trama

 

Que não se desfaz

 

 

 

E a coisa mais divina

 

Que há no mundo

 

É viver cada segundo

 

Como nunca mais...

 

Vinicius de Moraes

 

 

Link to comment
Share on other sites

já que dizem que hoje é dia do Amigo, aí vai uma parte da prosa Amigos meus (Poetinha)

 

 

E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
Mas sobretudo não morrais, amigos meus!

1965

in Para uma menina com uma flor (crônicas)
in Poesia complea e prosa: "Para uma menina com uma flor"
Link to comment
Share on other sites

Aqui no Brasil o povo é tão camarada que tem 2 dias do amigo, em abril tb!06

 

BONS AMIGOS

 

 

 

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.

 

Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.

 

Amigo a gente sente!

 

 

 

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.

 

Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.

 

Amigo a gente entende!

 

 

 

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.

 

Porque amigo sofre e chora.

 

Amigo não tem hora pra consolar!

 

 

 

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.

 

Porque amigo é a direção.

 

Amigo é a base quando falta o chão!

 

 

 

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.

 

Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.

 

Ter amigos é a melhor cumplicidade!

 

 

 

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,

 

Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

 

Link to comment
Share on other sites

 

“Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
(...) Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero o meu avesso.

(...) Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.(...) Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo, loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

Oscar Wilde

Link to comment
Share on other sites

Aqui no Brasil o povo é tão camarada que tem 2 dias do amigo' date=' em abril tb!06

BONS AMIGOS

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas! [/quote']

 

 

 

 

Esse é de Machado de Assis, né?!
Link to comment
Share on other sites

  • 3 weeks later...

 

Esse é de Machado de Assis' date=' né?!
[/quote']

 

É dele sim, Laure, é que esqueci de por o nome do autor no fim!06

 

Essa aqui tb é dele, achei simplesinha mas ate que é legalzinha!

 

Livros e flores

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

 

------

 

Agora, uma que li e achei muito melodramática é essa do Vinicius de Moraes:

 

Bom dia, amigo
Que a paz seja contigo
Eu vim somente dizer
Que eu te amo tanto
Que vou morrer
Amigo... adeus

 

Não sei se nao captei certo, mas achei muito dramatica, quase novela mexicana!06
Link to comment
Share on other sites

  • 2 weeks later...

ÓPERA DOS POMBOS SEM DESTINO


Eu moro no sótão onde os pombos morrem

Eu deixo a janela aberta

                e deixo que eles venham morrer a meus pés

Eles entram voando e me olham

               com seus olhos tristes de pombo

Como eu posso ser feliz com todos esses pombos mortos

            abandonados por Deus

Gostava quando eles se chocavam contra o pára-brisa

Pombos desgovernados sempre me fascinaram

Esses pombos com destino certo

eles me deixam com os olhos cheios de lágrimas

vez ou outra um avião passa no céu

e os pombos sonham com lugares nunca visitados

Um dia os pombos desaparecerão

terão voado para algum lugar inatingível

não haverá mais pombos

e alguém irá contar histórias sobre pombos

os seus cadáveres espalhados no chão do meu sótão

receberão visitas apaixonadas

mas pra mim o que vai ficar

será a lembrança dos pombos na minha caixa de correio

pombos que se recusaram a saber o caminho

pombos que Deus há de acolher

pombos dos quais sempre vou me lembrar

ouvindo ópera no sótão

meu sótão de pombos sem destino



MÁRIO BORTOLOTTO
Link to comment
Share on other sites

  • 2 weeks later...


Sexta-feira à noite 
Os homens acariciam o clitóris das esposas 
Com dedos molhados de saliva. 
O mesmo gesto com que todos os dias 
Contam dinheiro, papéis, documentos 
E folheiam nas revistas 
A vida dos seus ídolos. 

Sexta-feira à noite 
Os homens penetram suas esposas 
Com tédio e pénis. 
O mesmo tédio com que todos os dias 
Enfiam o carro na garagem 
O dedo no nariz 
E metem a mão no bolso 
Para coçar o saco. 

Sexta-feira à noite 
Os homens ressonam de borco 
Enquanto as mulheres no escuro 
Encaram seu destino 
E sonham com o príncipe encantado.

 

(Marina Colasanti)
Link to comment
Share on other sites

  • 2 weeks later...

A verdade sobre a morte das vítimas do aborto

 --- Walter Medeiros

 No pé da Serra da Onça -

Alto sertão de Alagoas -

O povo gosta de loas

Mas tem a maior responsa:

Criança, jovem e coroas

Discutem as coisas boas

E combatem gente sonsa.

 

Pois numa noite bem mansa,

A lua branqueando o Céu,

Foi de tirar o chapéu

E não perder na lembrança

O filho de Dona Bel

Enfrentou seu Miruel

Num assunto que não cansa.

 

Seu Miruel é ateu,

Do bem ele quer distância;

Homem cheio de ganância,

Rouba até parente seu.

Uma triste discrepância

Que deixa muitos na ânsia

De vê-lo comendo breu.

 

Além de tudo é perverso,

Sem ética nem moral;

É mesmo gente do mal,

Mas está no Universo;

E seu maior ideal

É ver uma lei fatal

Nascer num novo processo.

 

Ele defende o aborto,

É homem muito falante,

Tem um tom repugnante

Mas não quero lhe ver morto;

Quero que ele se espante

Com a verdade de Dante

Que é matar um zigoto.

 

Ao vê-lo todo exaltado,

O filho de dona Bel

Que nunca foi bacharel

Nem tinha sido testado,

Olhou a barra do Céu

E até quem tava ao léu

Foi ouvir o seu recado:

 

- Neste dia iluminado

Da minha amada vida,

Esta pendenga sofrida,

Cheia de arrazoado,

Ganha a maior guarida

Para ser bem referida

Neste momento rimado.

 

- Pois neste mundo malvado,

De tanto conceito torto,

Vou também falar do aborto,

Que está sendo analisado

Da roça ao cais do porto,

Temos muito bebê morto

E outros sendo assassinados.

 

- Alguém terá desconforto,

Mas quero falar da vida

Que é sempre concebida

Como semente no horto,

Quando a mãe engravida

No instante dá guarida

Ao pequenino zigoto.

 

- Não sei por quê se duvida

Daquele exato momento

Onde surge o rebento

E a pessoa é concebida;

Nem mesmo o mais avarento

Teria outro pensamento

Sobre aquela nova vida.

 

Ao ver o homem rimando

O povo ficou feliz,

Pois um simples aprendiz

Estava ali ensinando

O que a gente boa diz

No templo e na matriz

E ele foi assimilando.

 

É mesmo sinal dos tempos

Tamanha aberração,

Pessoas sem gratidão

Que um dia foram rebentos,

Mas defendem punição

Pra quem não tem condição

De defender um intento.

 

Depois da vida formada

Seus direitos se garantem;

Nem mesmo o mais falante

Consegue mudar mais nada,

Pois se mudar é mandante

De um crime horripilante

Contra a vida iniciada.

 

Não pode ter exceção,

Nem ser regulamentada,

Se não pode fazer nada

Durante a operação

A mãe pode ser poupada

Mas a criança gerada

Também precisa atenção.

 

- O que ocorre, entretanto,

É que a coisa é diferente,

Pois tem muito delinqüente

Deixando gente em pranto,

Fazendo aborto indecente

Traumatiza nossa gente

Ou manda pro campo santo.

 

O filho de Dona Bel

Que tem pequeno apelido

É conhecido por Dido

Falou até de bordel

Foi bastante aplaudido

E se já era querido

Virou rival de Miruel.

 

- Aborto é incompetência

De pretensos governantes

Que podem ser bem falantes

Mas inventam na ciência

Motivos extravagantes

Pra matar feito marchantes

Muitos fetos, sem clemência.

 

O filho que foi gerado

Precisa mesmo nascer

Seu direito de viver

Tem de ser assegurado

E o país tem que fazer

Toda segurança ter

Pra não ser prejudicado.

 

Para evitar o aborto

Tanta gente sem apego

Só precisa de sossego

Não pode fingir de morto

Saúde, escola, emprego,

Formam o melhor arrego

E acaba este ideal torto.

 

A questão é complicada

De saúde e de moral

Em busca do ideal

Tem gente desesperada

Pois no âmbito legal

Também precisa de aval

Debaixo daquela espada.

 

Assunto tão vasto assim

Precisa de discussão

Para não ficar na mão

Ou pra não passar por ruim

Vamos ter reunião

Para saber a razão

De tanto aborto enfim.

 

Aborto é assassinato

De pequeno ser humano

Um gesto muito tirano

Um triste e horrendo fato

Pois o feto com os anos

Sem perigo de enganos

Pode ser Messias nato.

 

Uma criança, um filho,

É o que o feto é

Na barriga da mulher

Pode não ter todo brilho

Pois quando em Nazaré

Maria provou a fé

Jesus não foi empecilho.

 

Quem pode dispor na vida

Da vida de outro alguém?

Eu não conheço ninguém,

Pessoa tão atrevida

Que tenha tanto desdém

Para fazer algo além

Dessa missão recebida

 

Uma nova vida humana

Não pertence a ninguém

Nem mesmo a mãe detém

A potência tão profana

Pegar futuro nenén

Matar um Matusalém

Que dura poucas semanas

 

Miruel estava calado,

Ouvia a rima do Dido

Mas com um tom atrevido

Resolveu dar um recado

Que o aborto tinha sentido

Pois ele tinha ouvido

A fala de um deputado.

 

Dido então se concentrou

E virou-se pro seu lado

Com um tom emocionado

Rapidamente pensou

E naquele seu rimado

Sem se sentir rebaixado

Mais uma rima mandou:

 

- Já pensou, seu deputado,

Se a sua genitora

Fosse uma abortadora

Quando o senhor foi gerado?

O Brasil outro seria

O senhor não viveria

Tinha sido assassinado.

 

Mostrando conhecimento

Dido estava inspirado

E Miruel, meio acuado,

Já estava meio bufento

Já que tinha começado

Ficava todo animado

A cada novo momento.

 

Ninguém sabe de onde veio

A carga de informação

Talvez da televisão

Pois ele nunca fez feio

Assiste a programação

Se liga até no plantão

E nunca tem aperreio.

 

O jovem continuou

Sua bela prelação

Naquela situação

O aborto ele taxou

De morte sem compaixão

Pois lá na fecundação

A vida já se formou.

 

Aborto é infanticídio

Pois a mãe mata o filho

Que considera empecilho

Isso também deu no vídeo

Mas é também um martírio

Não digam que é delírio

Pois é tudo homicídio.

 

Tem quem diga que o aborto

É uma “interrupção”

Isso não é nada são

Por resultar em bebê morto

É uma intervenção

Sem qualquer contemplação

Deixa Miruel num oito.

 

Se trata de defender

Quem não pode protestar

Pois gerado já está

Deseja sobreviver

Mas alguém quer lhe matar

Se sua mãe abortar

Seu direito é só sofrer.

 

Além de ser natural

A ida tem algo mais

Deus disse “Não matarás”

Como lembra o Cardeal

O pastor não fica atrás

Diz que é o Satanaz

Que provoca tanto mal.

 

A ciência comprovou

Algo ainda mais triste

No feto o sistema existe

E ele sente muita dor

Mas a maldade persiste

O desumano não desiste

E anestesia indicou.

 

Sei que não falei de tudo

Disse Dido a Miruel,

Mas mostrei que é crurel

Você ficou meio mudo

Quem sabe se esse cordel

Não tira você do fel

E lhe faz menos sizudo?

 

Miruel se concentrou

Para dar sua resposta

Com a voz sempre imposta,

Mas uma lágrima rolou;

Como quem perde uma aposta

Ele admitiu que gosta

Do que Dido lhe falou.

 

Disse que ia refletir

Sobre coisa tão exata

Que seu amigo relata

Sem intenção de ferir

Sabe que aborto mata

E agora até se retrata

Querendo se redimir.

 

Dido então se despediu

Abraçando Miruel

Seu jeito de coronel

Parece que se esvaiu

Os dois olharam pro Céu

E como quem toma um mel

A dupla então se uniu.

 

Agora a causa da vida

Ganha um grande aliado

O homem chegou vaiado

No fim já tinha torcida

E aquela idéia sonhada

Pode ser realizada

Já está sendo aplaudida.

Link to comment
Share on other sites

  • 4 weeks later...

Achei essa aqui bonitinha:

 

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor.

Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus

por Ele haver me levado.

Se não quiser chorar, não chore.

Se não conseguir chorar, não se preocupe.

Se tiver vontade de rir, ria.

Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito,

ouça e acrescente sua versão.

Se me elogiarem demais, corrija o exagero.

Se me criticarem demais, defenda-me.

Se me quiserem fazer um santo, só porque morri,

mostre que eu tinha um pouco de santo,

mas estava longe de ser o santo que me pintam.

Se me quiserem fazer um demônio,

mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio,

mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo.

Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo,

chame a atenção deles.

Se sentir saudade e quiser falar comigo,

fale com Jesus e eu ouvirei.

Espero estar com Ele o suficiente para continuar

sendo útil a você, lá onde estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim,

diga apenas uma frase :

 ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus !'

 Aí, então derrame uma lágrima.

Eu não estarei presente para enxuga-la, mas não faz mal.

Outros amigos farão isso no meu lugar.

E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu.

Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus.

Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele.

E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai,

aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver,

em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele.

Você acredita nessas coisas ? Sim???

 Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe

que vai morrer um dia,

e que morramos como quem soube viver direito.

 Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente,

e se inaugura aqui mesmo o seu começo.

Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe porque ?

Porque... Ser seu amigo já é um pedaço dele !

 

Vinícius de Moraes
J.McClane2010-10-13 15:29:35
Link to comment
Share on other sites

“Mi táctica es mirarte, aprender como sos, quererte como sos.

 Mi táctica es hablarte y escucharte, construir com palabras un puente indestructible.

 Mi táctica es quedarme en tu recuerdo, no sé cómo ni sé con qué pretexto, pero  quedarme con vos..”

 

(Mario Benedetti)

 

 

 

 

 

 
laure2010-10-14 22:22:27
Link to comment
Share on other sites

A Montanha

(Olavo Bilac)

Calma, entre os ventos, em lufadas cheias
De um vago sussurrar de ladainha,
Sacerdotisa em prece, o vulto alteias
Do vale, quando a noite se avizinha:

Rezas sobre os desertos e as areias,
Sobre as florestas e a amplidão marinha;
E, ajoelhadas, rodeiam-te as aldeias,
Mudas servas aos pés de uma rainha.

Ardes, num holocausto de ternura…
E abres, piedosa, a solidão bravia
Para as águias e as nuvens, a acolhê-las;

E invades, como um sonho, a imensa altura,
- Última a receber o adeus do dia,
Primeira a ter a bênção das estrelas!

 

(in Poesia Parnasiana. Antologia. Ed Melhoramentos)
Link to comment
Share on other sites

Não te amo mais.
Estarei mentindo se disser que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza de que
Nada foi em vão.
Sei dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer nunca que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade:
É tarde demais...

Clarice Lispector

Kikas2010-10-19 17:16:33
Link to comment
Share on other sites

 

 

 

 

Hoje é aniversário do grande Milton Nascimento. Uma das músicas dele que mais gosto.

 

 

Amor de índio

 

Milton Nascimento

Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo cuidado, meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa
Do azul pintado pra durar
Abelha fazendo mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for e ser tudo
Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver
No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser tudo

 

 

 

 
laure2010-10-26 10:36:25
Link to comment
Share on other sites

É preciso não esquecer nada
 

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante. 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre. 

O que  é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória. 

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Link to comment
Share on other sites

Música...poesia...música...

 

"Vapor Barato"

Oh! sim!
Eu estou tão cansado
Mas não prá dizer
Que eu não acredito
Mais em você...

Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis...

Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus!
E não me importa, Honey...

Minha Honey Baby
Baby! Honey Baby!
Oh! Minha Honey Baby
Baby! Honey Baby!...

Oh! sim!
Eu estou tão cansado
Mas não prá dizer
Que eu tô indo embora...

Talvez eu volte
Um dia eu volto
Mas eu quero esquecê-la
Eu preciso...

Oh! minha grande!
Oh! minha pequena!
Oh! minha grande!
Obsessão!...

Ando tão a flor da pele
Qualquer beijo de novela
Me faz chorar
Ando tão a flor da pele
Que teu olhar
Flor na janela
Me faz morrer...

Ando tão a flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser
Ando tão a flor da pele
Que a minha pele tem o fogo
De um juízo final..

Barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem cela
Bicho solto, cão sem dono
Menino um bandido
As vezes me preservo
Noutras, suicido...

Honey Baby!
Baby! Baby! Baby!...

Jards Macalé/Wally Salomão
Link to comment
Share on other sites

  • 2 weeks later...

Aqui vai uma das mais simples e belas poesia...

 

 

 

Dialética

 

 

 

É claro que a vida é boa

 

E a alegria, a única indizível emoção

 

É claro que te acho linda

 

Em ti bendigo o amor das coisas simples

 

É claro que te amo

 

E tenho tudo para ser feliz

 

Mas acontece que eu sou triste...

 

 

 

Vinícius de Moraes

Link to comment
Share on other sites

"NEGUE"

 

Negue seu amor o seu carinho

Diga que você já me esqueceu

Pise machucando com jeitinho

Esse coração que ainda é seu

 

Diga que  meu pranto é covardia

Mas não  esqueça

Que você foi meu um dia

 

Diga que já não me quer

Negue que me pertenceu

E eu mostro a boca molhada

E ainda marcada pelo beijo seu!

 

 Moreira e  Almeida Passos

 
Link to comment
Share on other sites

Join the conversation

You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.

Guest
Reply to this topic...

×   Pasted as rich text.   Paste as plain text instead

  Only 75 emoji are allowed.

×   Your link has been automatically embedded.   Display as a link instead

×   Your previous content has been restored.   Clear editor

×   You cannot paste images directly. Upload or insert images from URL.

Loading...
 Share

×
×
  • Create New...