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Forum Cinema em Cena

O Que Você Anda Vendo e Comentando?


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Terminei a leitura do livro de Sérgio Sant`Anna, "Um crime Delicado", e parti pra ver a adaptação, de 2005, feita por Beto Brant, e intitulada "Crime Delicado". Foi bom por que era uma das poucas obras do Beto que eu não havia visto, e foi ruim por que eu tive de ficar mais tempo agarrado a uma história que em nenhum momento me cativou. Mas tenho que reconhecer que o filme consegue ser melhor do que o livro - que é bem ruim, infelizmente. Sérgio Sant`Anna foi uma das vitimas de COVID-19 e eu queria muito endossar a leitura, mas não será o caso.

"Crime Delicado" se espreme no tempo entre os excelentes "O Invasor" e "Cão Sem Dono", cujas adaptações eram bem fidedignas, aqui o roteiro precisou "inventar" um pouco mais. Não muito, mas precisou. Deu mais vida ao personagem do pintor, que no livro é quase uma figura fantasma. E também optou por fazer um final aberto e inconclusivo, ao contrário do livro.

Bom, a ideia do livro e do filme é comparar crítica de arte ao fazer artístico. Traz um crítico de teatro de tom conservador, meticuloso, inclemente, disputando a atenção amorosa, mais que isso, fetichista, de uma modelo de quadro com um pintor (no livro, um italiano; no filme um mexicano) de jeito mais sedutor. Bom, só ao final do livro e do filme, é que essa intenção artística muda de figura. O que temos é uma discussão sobre estupro. Quando o não de uma mulher na cama é de fato não ou sim. Ocorreu ou não ocorreu o crime? A obra original é do final dos anos 1990. Hoje em dia, sabe-se que não é não; e ponto e acabou. Surgem então perguntas ambíguas: O que o crítico fez com a modelo é violência, e o que o pintor faz com ela, expondo-a completamente, em suas telas, não o é? O filme, pelo menos, deixa essa questão mais clarividente do que o livro.

Longos planos fixos, atores falando baixo (típico do cinema brasileiro...Eu já falei que não gosto mutio do Marco Ricca como ator?), um clima meio chato...

Outra mudança em relação ao livro é que o filme é passado em São Paulo e não no Rio de Janeiro. Trocam-se as zonas boêmias. O personagem do crítico erra solitário pelos ambientes, e depara com figuras da noite paulista. Como curiosidade, o jornalista Xico Sá está em uma das mesas de um boteco, como companheiro de uma transexual, bebendo, de mãos dadas.  

Não recomendo.

 

Crime Delicado poster - Poster 1 - AdoroCinema

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Vamos lá, chuchus. Nos brindem com seus comentários. E não vale só o nomezinho do filme.

Barbie and the Rockers: Out of This World (Bernard Deyriès, EUA, 1987)   Os personagens são tão falsos quanto se tivessem sido criados para um material de ensino de inglês. Até mesmo Barbie, a única

"Baby Driver" é uma divertida matinê onde o roteiro batido não é o que interessa, mas sim o som e música, que são é mais um personagem ativo da estrutura do longa. Divertido,é mais um musical travesti

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"Verão de 85" é um coming-of-age, adaptação de um livro adolescente gay, dirigido por François Ozon. Uma história de amizade, da qual resulta o primeiro amor de um jovem. O diferencial é que sabemos desde o início que o outro carinha morreu, e que o protagonista cometeu um crime.

A trama não me fisgou, mas a ambientação é irresistível: Verão, litoral francês, anos 1980, roupas em listras, veleiros, The Cure e Sting tocando, nenhum celular, nenhuma vida perdida para a tecnologia... Gente, 2020 não chega aos pés de 1985! Que decadência estamos! 

A excelente Valeria Bruni Tedeschi faz a mãe de um dos rapazes.

Verão de 85 - Ingresso.com

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Quando nos Conhecemos (When we first Met, Dir.: Ari Sandel, 2018) 2/4

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Não deixa de ser outra variação de 'Feitiço do Tempo', só que agora não é um dia que se repete, mas ainda é um loop temporal influenciando na trama do filme. Personagem principal, que ama uma garota que vai se casar com outro, consegue voltar 3 anos no passado, no dia que ele conhece a tal garota, daí tenta mudar as coisas para que ela se apaixone por ele. Ele acaba voltando pro tempo atual e vendo as consequência do que fez no passado (ele fica então pulando de 2017 - presente - pra 2014 - passado). Não é grande coisa mas como gosto de coisa envolvendo viagens do tempo, acabei gostando. É mais um pra virar 'clássico da Sessão da Tarde', nada mais.

 

Perda Total (Game Over, man!, Dir.: Kyle Newacheck, 2018) 2/4 

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Trio principal veio da série "Workaholic' (não conheço) que acabou em 2017 (não sei se o filme seria um sequel do seriado com os 3 repetindo os papéis, sei lá). O humor aqui é o mesmo do Deadpool, comédia direcionada pro público adulto com cenas mais pesadas de violência (mas o humor não deixa de ser meio infantil). Basicamente, fizeram uma homenagem/paródia de 'Duro de Matar', com o trio trabalhando num edifício que vai ser assaltado por uns bandidos/ladrões. Filme é bem pastelão, mas tem momentos que pega pesado demais (a cena do cachorro lá, achei meio sem função, e tem alguns pintos sendo esfregados na cara do público de forma meio gratuita). Pra quem não se incomodar com algumas das bobagens, é assistível.

 

À Queima Roupa (Point Blank, Dir.: Joe Lunch, 2019) 2/4

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Um médico é obrigado a ajudar um criminoso ferido, depois que esse supostamente matou um promotor. É uma boa parceria da dupla que veio do Capitão América. Um filme de ação competente, redondo. Não chega a voar muito alto, mas é bem interessante.

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"N`um vou nem falar nada!!"

Maratona John Cassavetes.

Estou boquiaberto e ainda aplaudindo de pé esse filme, de 1971, "Assim Falou o Amor", no original, "Minnie and Moskowitz". Brilhante, maravilhoso, e, detalhe, gostoso de ver...

O encontro amoroso entre duas almas solitárias. Ela, culta, esnobe, funcionária de um museu, bipolar, circunscrita ao papel de amante; ele, uma figura beatnick, simples garagista, distinguido por um bigodão estranho, um adolescente velho. Ambos vividos, respectivamente, com imenso talento, por Gena Rowlands e Seymour Cassel, com uma afinidade particular de serem fãs de Humphrey Bogart: Ela, o de "Casablanca", ele, o de "Relíquia Macabra".

Eles só se encontram no minuto 47, depois do roteiro mostrar as várias facetas da personalidade dos dois, mostrar como ambos não têm sorte no amor, mostrar como ambos são ma-lu-cos, até perigosos, solitários patológicos. Qando os dois se encontram, a loucura só cresce, os erros se tornam gigantes, as arestas se mostram plenas, gritaria, confusão, tudo menos a paz...E, mesmo, assim, Cassavetes, nos dá uma aula de esperança no amor! Ao final, o espectador está com um sorriso na cara, completamente comovido e torcendo desbragadamente pelo casal.

Dá-se a desconstrução do gênero Romance, filmada ao modo Cassavetes, escrita sem o Mito do Amor Romântico comandando as falas, ou as ações. A improvisação torna esse filme tão real, tão íntimo, que aquele aspecto mitificador do amor, como registrado no cinema, desaparece.

A bem da verdade, é quase uma Comédia Romântica, pois se ao longo do filme damos risadas ocasionais, com a extravagãncia do casal, no final, morremos de rir. O casal se reúne em um restaurante para conhecer as sogras, interpretadas brilhantemente por Katherine Cassavetes, mãe do diretor, e por Lady Rowlands, mãe da Gena. Notamos logo a fonte original da loucura. A mãe de Cassel, com muito humor, detona o próprio filho, completamente descrente que alguém em sã consciência pode querer se casar com ele. É hilário.

Fora as tiradas cômicas, existe muita poesia depressiva aqui e ali, com Gena, em uma cena dilacerante se perguntando algo como: "Quando estou me sentindo solitária, devo sair, ou devo ficar tranquilamente em casa?"

Quem nunca se perguntou isso?

 

Minnie and Moskowitz movie review (1972) | Roger Ebert

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F I N A L M E N T E!!

Maratona Hong Sang-soo.

Penei. Penei para encontrar "Noite e Dia", filme de 2008, do diretor sul-coreano. Aliás, o mais extenso filme dele, quase 150 minutos. É Hong Sang-soo em Paris, minha gente...

Um pintor casado parte sozinho para Paris, no intuito de fugir da polícia coreana, que descobriu - vejam só - que ele fumou maconha com estudantes norte-americanos... Que escândalo! Pode ser preso ou ter de pagar uma multa. Assim que chega no aeroporto da Cidade Luz, recebe uma advertência em inglês de um cara, meio amarrotado, perdido, como um artista mal-sucedido também: "Tenha cuidado!". Nosso protagonista irá se instalar em uma residência de estudantes de arte mais jovens do que ele, todos da comunidade coreana, e irá passar o seu tempo frequentando museus, admirando a cidade, e, vivendo uma espécie de adolescência tardia, agora liberto do casamento.

De súbido, reencontra uma ex-namorada que revela a ele (que não a reconhece num primeiro momento!) que ela teve de fazer 6 abortos enquanto estiveram juntos. É a primeira grande instrução a respeito do caráter dele que o espetcador terá. Depois, acompanharemos por quase duas horas sua tentativa de conquistar uma gatinha coreana, estudante de arte, enquanto sua esposa liga toda noite aflita da Coreia.

Em uma determinada cena, ele vai admirar a obra-prima do mestre do realismo francês Gustave Courbet, "A Origem do Mundo". Na cópia que eu vi, a vagina da tela está desfocada. Pra vocês verem como esse quadro ainda hoje desperta pudores. O que isso sugere? Que os homens, seja em que tempo for, de que país for, só pensam em sexo.

Mais para o fim do filme, descobrimos que a jovem artista por quem o protagonista se desmancha é uma "copiadora". Todos os seus desenhos são cópias de um trabalho alheio. O que é uma cópia se não uma repetição? Ideia tão cara ao cinema do diretor... Hong Sang-soo é muito gênio.

É sintomático que este filma suceda a "Mulher na Praia", outro filme sobre traição, sobre um artista mau-caráter, envolvido com duas mulheres. Tinha escrito que aquele filme explorava a ideia do machismo coreano com perfeição, mas este consegue ir além. O protagonista não consegue, senhores, nem ir comprar um preservativo na farmácia, quando finalmente se deita com a jovem. Nunca usou, nunca precisou.

Em uma pequena cena, um novíssimo Sun-Kyun Lee (o pai rico de "Parasita") interpreta um estudante norte-coreano, que fica puto quando não usam a alcunha devida de "grande mestre" para o ditador de seu país. Num dos raros momentos políticos de Hong Sang-soo, ele e o protagonista disputam uma queda-de-braço, e o sul-coreano vence. É o máximo de política que já vi no cinema intimista do diretor.

"Noite e Dia" revela a ambiguidade de um cara que de dia é amante tardio, de noite é marido saudoso; na Coreia é pintor, na França é um nada; e seus dois amores; uma na França e outra na Coreia, que - graças ao movimento de rotação -  uma está de dia, e a outra está de noite; as duas, também mentirão para ele.

Ótimo!

Amazon.com: Night and Day: Hong Sang-soo, Hong Sang-soo: Movies & TV

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Karate Kill é um divertido filme de porradaria B que emula a produção bagaceira de videolocadora, tipica do Chuck Norris, mas a procedência japa lhe confere um charme extra. Não espere coerência ou lógica, apenas é pra deixar ver esta trasheira tipicamente grindhouse que pega elementos de tantos filmes (dificil dizer todos) e os entorna num caldo só. Este filme tem público definido e provavelmente vai desagradar quem não é. Eu curti muito. Pancadaria, gore e nudes nivel top. 8,5-10

Karate Kill Trailer Is The Karate Kid on Steroids

 

 

Tailgate é um bacanudo e tenso thriller holandês que é mix de Encurralado e Morte Pede Carona que fala sobre tolerância e educação, resumidamente. O psico da vez é muito carismático que torcemos mais por ele que pela infeliz e chatérrima familia que cruza com ele. As atuações tão ok onde se destaca de longe o cara que faz o killer e que torço pra que tenha outro filme só dele. O ruim é que o terço final do filme se torna genérico, mas não a ponto de comprometer toda obra. 8,5-10

Recensie: Bumperkleef (Lodewijk Crijns, 2019)

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Fim da Maratona Emir Kusturica.

Terminei com o primeiro. Primeiro filme e já tem a semente de tudo: Música, Humor, Socialismo rural. "Você se lembra de Dolly Bell?" é o primeiro longa do diretor sérvio para o cinema, em 1981, e já chegou ganhando quatro prêmios em Veneza ( por lá também nosso espetacular "Eles Não Usam Black-Tie"), bem como o Festival Internacional de São Paulo.

Na Iugoslávia dos anos 1960, um garoto de 16 anos, filho de uma enorme família, cujo pai é um voraz militante comunista, vai ser chamado para integrar uma bandinha de rock italiano, para animar a comunidade, e, em outra parte da história, será obrigado por bandidinhos locais a esconder uma prostituta de codinome Dolly Bell, que será seu primeiro amor. Essa ideia do jovem pressionado por bandidinhos a fazer algo, por sinal, será retomada depois em "Vida Cigana".

Temos animais, sim. Coelho, macaco (não o de "Underground"), pombos...Temos música cigana, sim, mas não ininterrupta. Temos a mística do Socialismo empobrecendo e encantando uma comunidade... 

O maior trunfo do roteiro é fazer do garoto um adepto da hipnose e das pretensas benesses da autossugestão. Assim como a doutrina marxista hipnotiza seu pai, que não vê problemas em nenhum traço da pobreza em que vivem, por exemplo, na casa pequena em decadência, ou nas notícias orquestradas dos jornais. Crê ele que o futuro será glorioso , "que o comunismo chegará ao ano 2000". Assim como o primeiro amor é uma espécie de hipnose, que não o fará encontrar defeito na garota problema.

Uma ótima estreia desse diretor sumamente talentoso, uma mente genial, que atingiu o auge do cinema muito cedo na carreira, com duas Palmas de Ouro, e tantíssimos prêmios internacionais, e que se vê atualmente preso por demais ao universo singular que ele mesmo engendrou.

Tendo visto, ou revisto, todos os filmes, meu ranking Emir Kusturica fica assim:

1) "Gata Preta, Gato Branco";

2) "Underground- Mentiras de Guerra";

3) "Vida Cigana";

4) "O Ano em que Papai Saiu em Viagem de Negócios";

5) "A Vida é um Milagre"

 

Você se Lembra de Dolly Bell? - 1981 | Filmow

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Assisti a "Japão" filme do Carlos Reygadas neste ano, e até hoje estou pensando nele. Mas "Luz Silenciosa", de 2007, que vi logo depois que lançou, logo depois que arrebatou elogios e o prêmio do Juri em Cannes, sempre foi meu preferido da filmografia do mexicano. Precisava revê-lo.

Ainda hoje é impressionante o quanto a Fotografia de Alexis Zabe (muito elogiado também, mais recentemente, por "Projeto Flórida") é so-ber-ba. A parte do: "Vamos ver a neve", e abre-se a porta do galpão...O que é aquilo? Certamente está entre as 10 melhores Fotografias do Século XXI. Mas acho que em matéria de história, atualmente, prefiro "Japão".

Aqui temos um homem dividido entre o amor da esposa e o amor da amante, todos vivendo o rigor moral de uma comunidade menonita no norte do México. O peso da religião/tradição é tão forte que as cenas de amor são frias, gélidas, é dizer, foram internalizadas no corpo. Mesmo assim, o sentimento quer se fazer prevalecer. O marido procura seu pai e um amigo para comunicar que decidiu viver com a outra mulher. Logo, sente o questionamento moral vindo deles, associando a vontade ao diabo. Mesmo que a atual mulher seja ciente da nova relação. Enfim, temos entrelaçados o começo da ruptura de um casamento, bem como o começo da ruptura de um código de ética. O que eu não gosto é da cena de realismo mágico do final. É questão de gosto. Dizem que a trama tem muito a ver com o filme "A Palavra" de Dreyer, que verei em seguida para tirar a limpo.

Quando alguém chamar "Boyhood", ou "Roma" , de lento ou arrastado, indique "Luz Silenciosa" para este ser humano. Vai ficar admirado com o fato de o cinema poder ser tão lento quanto um por do sol.

Silent Light (2007) - IMDb

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E não é que tem a ver?

No post acima, me comprometi a assistir a "A Palavra", de 1955, penúltimo longa-metragem do mestre dinamarquês Carl Theodor Dreyer, pois ele teria associações com o longa "Luz Silenciosa". 

Até a primeira hora , eu não estava vendo nenhuma. Pelo contrário, aquele é arrastado, calmo, silencioso, este é cheio de diálogos. Mas os momentos finais daquele filme são extremamente parecidos com o final deste filme, claro, com as devidas modificações pertinentes às tramas. 

"A Palavra" é uma adaptação teatral, acerca de uma grande família religiosa. Um avô, proprietário de terras, vive em uma casa feliz, com seus 3 filhos, 2 netas, e mais a nora. O filho maior já é um adulto, e junto à sua esposa, aguardam apaixonados, por um novo rebento, que esperam dessa vez ser menino. O filho caçula é um jovem enamorado pela filha do alfaiate da aldeia, cujo pai , por rixas religiosas, se opõe ao casamento. O filho do meio era um estudante de Filosofia que, segundo todos, ficou louco com as palavras de Kant, e se identifica como Jesus Cristo, e vive fugindo de casa, e pregando a Bíblia.

Ou seja, tirando o aspecto de uma família bem religiosa, não se tem muito a ver propriamente com a trama do drama mexicano. Na primeira hora, ao contrário, temos uma aproximação com o filme de Dreyer, de 1926, o já resenhado aqui, "A Noiva de Glomdal", pela questão do relacionamento amoroso contrariado com a filha adoelscente do vizinho. Porém, como dito, o final dos dois é muito parecido, com um personagem sendo salvo, estranhamento, pela fé. 

Cessadas as comparações, este filme é brilhante. Adorei a movimentantação lateral da câmera pelos aposentos, adorei o preto e branco, as atuações, e adorei a discussão teológica. Os dois pais, o proprietário de terras e o alfaiate, disputam um pedacinho do Cristianismo, segundo interpreto, os méritos e os prejuízos da vertente Protestante e da vertente Católica, sendo o amor do filho caçula e da vizinha a grande vítima, com o casamento impedido. Ambas as versões da "palavra", vamos dizer assim, estão "legitimidas", porém é o filho tido como "louco" que demonstra sem titubear a fé na palavra sagrada. Sua visão da religião é tida como insanidade, porém é nela que as crianças do filme irão crer.

 Leão de Ouro em Veneza, e vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Espetacular!

A Palavra (Ordet /1955) – Estante da Sala

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"O Eclipse", de 1962, fecha a Trilogia da Incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni. Depois do primeiro filme, "A Aventura", ser vaiado em Cannes, este filme conseguiu o Prêmio do Júri, mas a Palma de Ouro foi para o Brasil sil sil, com o maravilhoso "O Pagador de Promessas".

Bom, é um filme difícil, até experimental. Se no esplêndido "A Noite", o segundo da trilogia, acompanhamos 24h da ruína de uma relação, aqui o filme já começa com a personagem de Monica Vitti dando um fim ao seu relacionamento com o personagem de Francisco Rabal, sem apresentar justificativa. Então ela andará solitariamente por Roma, irá atrás da mãe viciada em acompanhar o pregão da Bolsa de Valores (como uma Corrida de Cavalos), vai ter momentos com as vizinhas - uma delas, chegada do Quênia, onde se orgulha do colonialismo, e sua matança de elefantes e rinocerontes...Para só quase lá no meio do filme realmente ter um princípio de envolvimento com o personagem de Alain Delon, um ambiciosa corretor da Bolsa.

Todos geralmente ressaltam a frieza da personagem de Vitti quanto ao amor. Seu vazio emocional, seu vazio sexual, sua quase frigidez. Mas é engraçado como a personagem dela é indiferente também ao dinheiro, seja o velho vindo da exploração colonial africana (e aqui há de se repudir a cena de blackface entre ela e a vizinha), bem como é indiferente ao dinheiro novo, do mercado financeiro, cujo personagem de Delon gosta de exibir.

É a última obra do italiano filmado em preto e branco. Sinto até pena pois ele era um dos que melhor exploravam a relação de luz e sombra, aqui muito bem representando no longo plano final, de 7 minutos, com a cidade se iluminando aos poucos; depois de exibir o momento de maior genialidade do filme, mostrar cada lugar - vazio - onde os personagens dos protagonistas estiveram.

O que será que ele quer dizer? Que no final só as coisas objetivas permanecem? Que o amor não deixa vestígios, só existem as coisas, tais como elas são? Que o vazio preenche o mundo? Que o amor de fato é "líquido", em uma sociedade líquida, que está sempre mudando? Dá uma tese. Ou várias.

 

L'ECLISSE (1962) THE ECLIPSE (ALT) POSTER ECLP 001 VS Stock Photo - Alamy

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Boss Level é um bacanudo thriller scy-fy que é um A Morte te dá Parabéns ou Feitiço do Tempo só que dos filmes de ação, com várias referências a outras produções do gênero, tipo Timecop. Sim, o plot não é original mas sua execução sim, tentando quebrar a monotonia de ver seu protagonista trocentas vezes na mesma cena. A metáfora da evolução do personagem em vários níveis se dá como se fosse videogame, boa sacada. Só acho que o Frank Grillo não ta a altura do personagem principal, pois o Mel Gibson ofusca ele facinho como vilão. Opção pipoca bem sacada de entretenimento, um violento filme alto-astral envolto em ótima trilha sonora.9-10

OnlineHD Boss Level Online Teljes Film Magyar

 


Game of Death é uma divertida fita de horror, recheada de gore e nostalgia oitentista em partes iguais. Imagina um mix sinistro de Jumanji com Assassinos por Natureza.. é isso! A premissa é bem simples e o filme funciona como relógio, em contagem regressiva. Atuações ok, ritmo frenético e sangue voando na tela devido aos sempre bons efeitos práticos. Filme indie e com baixo orçamento, surpreende que seja bem estiloso nalgumas sequências feitas com ácido. Diversão com duração enxuta pra quem curte um gore das antigas! 9-10

Постеры: Игра смерти / Постер фильма «Игра смерти» (2017) #3430760

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6 hours ago, Jorge Soto said:

Boss Level é um bacanudo thriller scy-fy que é um A Morte te dá Parabéns ou Feitiço do Tempo só que dos filmes de ação, com várias referências a outras produções do gênero, tipo Timecop. Sim, o plot não é original mas sua execução sim, tentando quebrar a monotonia de ver seu protagonista trocentas vezes na mesma cena. A metáfora da evolução do personagem em vários níveis se dá como se fosse videogame, boa sacada. Só acho que o Frank Grillo não ta a altura do personagem principal, pois o Mel Gibson ofusca ele facinho como vilão. Opção pipoca bem sacada de entretenimento, um violento filme alto-astral envolto em ótima trilha sonora.9-10

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Frank Grillo depois do Capitão América, acabou sabendo dar um up na carreira, até que se envolveu com filmes legais (não foram tão sucesso, pelo que sei, e não sei se vão ser cultuados no futuro, mas, pelo menos até o momento, tá tudo ok com os filmes dele).

Estou curioso com esse aí, ainda mais com loop temporal. Devo ver em algum momento.

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6 hours ago, Jailcante said:

 

Frank Grillo depois do Capitão América, acabou sabendo dar um up na carreira, até que se envolveu com filmes legais (não foram tão sucesso, pelo que sei, e não sei se vão ser cultuados no futuro, mas, pelo menos até o momento, tá tudo ok com os filmes dele).

Estou curioso com esse aí, ainda mais com loop temporal. Devo ver em algum momento.

Olha, Frank Grillo é um ator limitado e sempre o verei como eterno coadjuvante. Ele so ta no filme pela amizade que tem com o diretor (ja fez outros 2 filmes com ele) e no meu entender ele é a unica peça que não encaixa bem nessa produção, mas não a ponto de comprometê-la, até porque quando entra o Mel Gibson os holofotes e sua atenção se voltam sometne pra ele, que tem anoz-luz muito mais presença que o...grillo. O ator em questão tenta ser um Ryan Reynolds e The Rock mas não rola.. se quiser te mando o filme por mp, mas ta legendado em espanhol pois nao tem ainda na nossa "inculta e bela"..?

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Gente...Que filmaço!!!

É impossível gostar e compreender "Mank" sem ter visto "Cidadão Kane" (tem comentário meu sobre ele aqui no site). É um pré-requisito. Ou seja, exclui praticamente todos os meus amigos e pessoas que não são um pouquinho cinéfilas. Por isso, avançando a conclusão, tendo a pensar que não é tão acessível, tão popular, para ser um Best Picture no Oscar, embora certamente terá para mais de 10 indicações.

Eu estava a pensar que o filme seria sobretudo a respeito da questão da coautoria do roteiro, entre Mank e Welles, mas essa questão só aparece, propriamente, nos últimos 10 minutos. Fiquei muito surpreso com isso. Embora o filme seja, no limite, sobre uma "Teoria da Conspiração", ancorado em uma controvérsia FALSA!, já amplamente desmentida, o roteiro do pai de Fincher mesmo assim é muito bom. Muito bom mesmo. Tem ainda uns cacoetes de escritura antiga, como o excesso de "punchlines". Explico: toda cena terminar com uma grande frase, para provar a inteligência do protagonista, para provar a inteligência de um roteirista...Isso é um recurso meio antigo até. Hoje, um bom Roteiro, para mim, disfarça sua escrita, sua vontade de impressionar. Em todo caso, a narrativa me surpreendeu por demais, ao fazer um amplo painel sobre os Estúdios dos anos 1920 e 1930, mas também, quem diria?, por abordar a questão política, a eleição para Governador na Califórnia de então, com a satanização dos democratas, igualando-os a"comunistas", fato que se dá ainda hoje...Eu amei essa ponte entre as épocas.

Como amei a Fotografia; como amei o Design, como amei o Figurino. Fantástico trabalho! Das coisas que mais gosto em "Cidadão Kane" é sua Direção de Arte, com aquela quinquilharia da mansão Xanadu, por exemplo, aqui vemos a origem chic daquela casa...Amei! A Fotografia além do belo preto-e-branco, às vezes corroído preto-e-branco, tem muitos planos-detalhe e muitas profundidade de campo, que foi um recurso intensivamente original de "Cidadão Kane". Figurino, um show! Desde as gravatas encurtadas, até as roupas da personagem da Amanda Seyfried...

Ela está excelente. Com aqueles olhos incríveis...Olhos muito cinema mudo, olhos muito 1920, tão enormes, e tão necessários para passar a emoção de modo mais didático. Amanda brilha em vários momentos, mas, curiosamente, ela não tem uma cena especial: um discurso, uma briga, um choro...Considero-a favorita ao Oscar, mas, por conta disso, não é uma pedra cantada não. Quanto aos homens Coadjuvantes... Todos estão excelentes, mas não vejo nenhum indicado. É que a narrativa não foca especialmente em nenhum deles.

O filme é do protagonista. Só um grande ator para dar conta desse personagem. Gary Oldman está incrível. "Janta" o filme todo. É rápido em dizer as falas inteligentíssimas, mas tem uam cena, com a personagem da esposa, em que promete ficar calado quando não tiver nada melhor a dizer, que está genial. Matou-me de rir com seu silêncio! Comé que pode? Fabulosa atuação.

E o Fincher...Poxa, como ele é bom quando faz algo racional. Algo difícil. Que elegância nos planos! Que controle dos elementos! Que direção elegante, fria, e esperta...Palmas também para a Montagem, pois a de "Cidadão Kane" é reverenciada até hoje, durou meses e meses para ser feita, e essa faz jus ao filme-pai.

Passou da hora de ele ganhar como Diretor.

Amei!

 

Watch The Official Trailer For David Fincher's Mank Right Here

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Freaky é um divertido terrir teen que tem o mesmo frescor nostálgico oitentista de A Morte te dá Parabéns, e so depois vi que é do mesmo diretor. É mix daqueles filmes de "troca de corpo", tipo Quero ser Grande ou Se Eu Fosse Você...com Sexta-Feira 13! Tem gore.. e muito, mas a pegada é mais cômica e funciona muito bem pra mostrar a evolução do personagem principal. Atuações ok e bem feitinho, eis um filme que parece ter saído de uma locadora século passado. E isso é elogio, apesar de um errinho ou outro no roteiro. @Jailcante com certeza vai curtir pois é uma homenagem ao slasher. 9-10

One More Trailer for 'Freaky' Body Swap Slasher with Vince Vaughn |  FirstShowing.net

 

 

Asylum: Twisted Horror and Fantasy Tales é uma antologia de 8 curtas de terror, scy-fy e fantasia que dá pro gasto. Sua espinha dorsal é bem meia boca pois parece feita ás pressas pra tentar "unir" cada produção e seu mestre de ceremônias é fraco, não chega aos pés do Creepy, de Tales From the Cript. Pra variar, umas destoam das outras, como a do exorcismo, a engraçada que envolve o Trump e a feita com animação, superiores ao resto. Ainda assim, não chega á genialidade de Mortuary, a coletânea do ano. 8-10

Santiago Horror: Primeras confirmaciones de la programación 2020 - Cine de  Género Latinoamericano

 

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A Netflix gosta de formar pares. Ao promover seu filme "Rosa e Momo" para o Oscar, colocou alguns filmes de Sophia Loren no catálogo, entre eles, essa comédia, de 1955, de Dino Risi, "O Signo de Vênus".

Sophia Loren, em começo de carreira, mas acompanhada por nomes tais como Raf Vallone, Vittorio de Sica, Alberto Sordi, Peppino de Fillipo...Como o cinema italiano formou bons atores no passado. Digo passado, porque hoje em dia não consigo destacar nenhum que eu goste, nem eu nem o Luca Guadagnino, que declarou em entrevista preferir atores de fora da Bota.

É uma comédia, meio triste, em verdade, a respeito de duas primas. Uma, mais feia, interpretada por Franca Valeri, que não tem sorte no amor; e outra, Sophia Loren, que, pela beleza magnética, sempre ganha a atenção de todos os homens, bem como facilidades de arrumar emprego, ganhar dinheiro, e, num outro giro, certas inconveniências, como assédio. A outra prima não é invejosa, não diria isso. Tem consciência de como funcionam os homens. Ao procurar uma cartomante, é-lhe dito que está sob a influência benfazeja de Vênus, o planeta do amor. Três homens entrarão em sua vida e ela poderá escolher um para casar.

As coisas não se dão exatamente assim. Todos ao conhecerem a prima belíssima mudam de rota de atenção. É assim a beleza. É assim o mundo. Em Minas, se diz: "Mulher bonita nasce casada".

Faltou um pouco de profundidade na condução da narrativa.

Image gallery for The Sign of Venus - FilmAffinity

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Maratona Theodoros Angelopoulos.

São quase 3 horas deste raro e dificílimo "Os Caçadores", de 1977. Um filme que conta a História política da Grécia, (Guerra Civil, governos liberais pró-Estados Unidos, o curto período democrático de Papandreu, a Ditadura dos Coroneis), de 1949 a 1977, mas da maneira menos didática, e mais onírica, que alguém possa imaginar, e da maneira mais autoral, mais Angelopoulos, que só ele, claro, poderia filmar.

Se o recurso Proustiano é provar uma madeleine para viajar ao passado, aqui tem-se esse efeito reconstitutivo por meio de um cadáver achado na neve, por um grupo de caçadores. Logo, entenderemos que se trata do corpo de um militante de esquerda morto há tempos, e que os caçadores são os burgueses, "os vencedores". Recolhido o corpo, inicia-se uma sucessão de depoimentos para investigar quem ele poderia ser, e esses depoimentos geram uma volta à Grécia de décadas atrás.

Mas uma volta onírica. Não é um flash-back comum. O plano-sequência muda de era, e você quase nem percebe. E volta tão sutilmente que você nem percebe. Efeito que ele retomaria em "Um Olhar a Cada Dia". Este cadáver insepulto - é dizer: a história insepulta, não debatida - traz amargas recordações: "Seu pai matou o meu pai", "E você matou a minha mãe", etc, mostrando como o país ficou completamente, incontornavelmente dividido entre dois grupos, até o final dos anos 1970.

É o filme que eu menos entendi, pois não sou versado em política grega, né? Sob esse ponto de vista, é um filme que viaja mal, é muito particular, pertence sentimentalmente, e academicamente aos gregos.

Nos 15 minutos finais, durante um baile de Réveillon para a elite - SPOILER - os companheiros do militante, que vivem escondidos nas montanhas geladas do norte do país, interrompem a festa, e formam um pelotão de fuzilamento de todos os participantes. Atiram! Você pensa: "Pronto, o diretor marxista realizou o seu sonho, e assassinou os direitistas conservadores". Já seria um bom filme de revanche. Mas como o diretor é genial de verdade, a cena não acaba aí. Os fuzilados, aos poucos se levantam, retornam ao salão de festa, e dançam novamente. Conclusão: A luta é inglória! O cadáver que trouxe perigosas lembranças será levado de volta.

Melhor não mexer.

Os Caçadores - 1977 | Filmow

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On 12/5/2020 at 7:53 AM, Jorge Soto said:

Freaky é um divertido terrir teen que tem o mesmo frescor nostálgico oitentista de A Morte te dá Parabéns, e so depois vi que é do mesmo diretor. É mix daqueles filmes de "troca de corpo", tipo Quero ser Grande ou Se Eu Fosse Você...com Sexta-Feira 13! Tem gore.. e muito, mas a pegada é mais cômica e funciona muito bem pra mostrar a evolução do personagem principal. Atuações ok e bem feitinho, eis um filme que parece ter saído de uma locadora século passado. E isso é elogio, apesar de um errinho ou outro no roteiro. @Jailcante com certeza vai curtir pois é uma homenagem ao slasher. 9-10

One More Trailer for 'Freaky' Body Swap Slasher with Vince Vaughn |  FirstShowing.net

 

Ansioso por esse, já ouvi falar dele. Parece muito bom.

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Maratona Hong Sang-soo.

Filme da prateleira de baixo. "Como Você Sabe Tudo", de 2009, é uma comédia dividida em dois atos, com duas histórias diferentes, ainda que tenham o mesmo protagonista e alguns coadjuvantes nas duas metades. 

Um jovem diretor de cinema muito celebrado é convidado para ser jurado de um Festival de Cinema em uma cidadezinha de uma ilha, e lá é cortejado pelos estudantes, revê antigos professores ou conhecidos, contudo, nas duas histórias, mostra-se meio irresponsável com a função para o qual foi convidado, e, pior, mulherengo, traindo, nas duas histórias, seus amigos com suas respectivas esposas.

Muito soju (muito!); muitas discussões prosaicas; aparece aqui novamente o recurso da queda-de-braço como em "Noite e Dia"; e mais uma vez temos um artista, que, mesmo que seja talentoso,e considerado entre os seus, é fraco moralmente, e, que, ao final, descobriremos a razão do título, "não sabe tudo", não sabe como conquistar de vez uma mulher.

Porém falta graça e falta charme às duas histórias. Fica difícil extrair algo relevante, ou mais profundo, deste filme.

Nunca comentei o modo de introdução dos créditos de grande parte dos filmes do Hong Sang-soo, e neste filme não é diferente: Simples letreiros, com uma musiquinha tocando, em uma versão coreana de Woody Allen.

 

Like You Know It All - 14 de Maio de 2009 | Filmow

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Maratona John Cassavetes.

O Pai do Cinema Independente chamou tanto a atenção com "Sombras", que seu segundo e terceiro filme tiveram um grande estúdio por trás. No caso deste subestimado "Canção da Esperança", de 1961, seu segundo filme, a Paramount. Cassavetes queria Montgomery Clift e Gena Rowlands nos papeis principais, mas o estúdio impôs Bobby Darin e Stella Stevens ( de "O Professor Aloprado"), que, verdade seja dita, não fazem feio.

Reaproveitando o jazz e o preto e branco de sua estreia, Cassavetes conta a história de um músico, líder de uma big band (curiosamente, só há brancos tocando nela - o que seria absurdo hoje em dia), que ainda não alcançou o sucesso, que se apaixona por uma cantora insegura, ao mesmo tempo que tenta incorporá-la à banda.

O grupo a recebe bem, a voz encaixa com a sonoridade da banda, eles recebem um convite para gravar, mas, em uma saída para comemorar a esperança renovada de sucesso de todos, acontece uma briga de bar, e o protagonista (baixinho, sensível) não defende a namorada do valentão importunador. Em seguida, ela o trai com um companheiro de banda.  A relação degringola. A banda perde a oportunidade de gravar.

O filme se desenvolvia muito bem até ali, quando entra um terceiro ato meio confuso, de brigas com agente, com tentativas de achar uma nova garota... A narrativa se perde um pouco. Para retomar o fio da meada na belíssima cena final.

Talvez seja esteticamente "limpo" demais, para registrar os ambientes e os personagens retratados. Faltou loucura. Como se houvesse uma mão segurando os ímpetos, as audácias do diretor. Mesmo assim, é muito bom filme.

Os planos quase nunca dão certo.

A Canção da Esperança - 1961 | Filmow

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The Dinner Party é um bom thriller macabro com muitos diálogos tarantinescos desnecessários, mas que não compromete o longa. É a versão satânica de qualquer filme gastronômico, tipo Festa de Babette. É bem legal ver a transformação da personagem principal, de introvertida pra fodona bad ass, e o gore lindo de ver. Tem personagens interessantes, tensão crescente todo longa, um banho de sangue no último ato e uma boa reviravolta no fim. O ruim é que tem muito diálogo (uns legais, outros não) até os finalmentes. É um bom filme indie, divertido e competente, feito Monster Party. 8,5-10

WTS3.15 Guests: Miles Doleac and Clifton Hyde

 

 

Dreamland é uma boa fábula neo-noir que trata de moralidade e redenção e se sustenta basicamente pelo ótimo protagonista (em papel duplo) e os bizonhos personagens coadjuvantes. Vai vendo, tem matador de aluguel, um cafetão, uma ricaça e..um vampiro (!?)..sim, isso mesmo! Não é um filme pra todos, mas é uma abrodagem diferenciada e criativa do cinema de crime. É uma produção que transpira o cinema de Lynch pela bizarrice, mas nem por isso deixa de ser interessante, seja narrativa como esteticamente. Depois fui ver o diretor e vi que aqui ele faz dobradinha com o ator do ótimo Pontypool. 8,5-10

DREAMLAND” has a different date and more profane poster in Canada | Rue  Morgue

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Ouçam bem, um dos melhores filmes do ano!

"Sound of Metal"/ O Som do Silêncio, dirigido por Darius Marder, seu primeiro longa, com roteiro dele e de Derek Ciafrance, é uma obra extremamente cativante, sensível, e imersiva. Um baterista de rock que perde a audição.

A história é muito boa, os personagens são encantadores, o tema é forte, e tudo é feito com muito cuidado e carisma. Poderia ser sobre música, mas é sobre o silêncio. Poderia ser sobre deficiência, mas é sobre ressignificação. Poderia ser lacrimoso, mas é elegante. Poderia ser sobre reaprender a ouvir, mas é sobre reaprender a falar.

Olivia Cooke está ótima como a namorada, e vocalista da banda, que fica no dilema entre ajudar ou seguir em frente com o trabalho. Mas é Riz Ahmed quem está verdadeiramente excelente. Ele já tinha me chamado a atenção em "O Abutre", quando deveria ter sido indicado aos grandes prêmios, mas agora a brincadeira ficou séria. Que atuação linda! Vou torcer pela indicação dele ao Oscar.

Mas o trabalho genial é do Som. Deem todos os prêmios! Sentimos na pele as falhas auditivas, a variação de volume, os agudos extremos, a ausência apavorante, e por fim, a quietude búdica.

Um filme que ainda conta com boas sacadas de direção, como focar por muitas vezes o ator de perfil, centrando a atenção para as orelhas, mesmo nos planos-médios. Detalhes que me ganham.

Parabéns!

Amei!

Sound of Metal movie large poster.

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On 12/4/2020 at 7:34 PM, SergioB. said:

Gente...Que filmaço!!!

É impossível gostar e compreender "Mank" sem ter visto "Cidadão Kane" (tem comentário meu sobre ele aqui no site). É um pré-requisito. Ou seja, exclui praticamente todos os meus amigos e pessoas que não são um pouquinho cinéfilas. Por isso, avançando a conclusão, tendo a pensar que não é tão acessível, tão popular, para ser um Best Picture no Oscar, embora certamente terá para mais de 10 indicações.

Eu estava a pensar que o filme seria sobretudo a respeito da questão da coautoria do roteiro, entre Mank e Welles, mas essa questão só aparece, propriamente, nos últimos 10 minutos. Fiquei muito surpreso com isso. Embora o filme seja, no limite, sobre uma "Teoria da Conspiração", ancorado em uma controvérsia FALSA!, já amplamente desmentida, o roteiro do pai de Fincher mesmo assim é muito bom. Muito bom mesmo. Tem ainda uns cacoetes de escritura antiga, como o excesso de "punchlines". Explico: toda cena terminar com uma grande frase, para provar a inteligência do protagonista, para provar a inteligência de um roteirista...Isso é um recurso meio antigo até. Hoje, um bom Roteiro, para mim, disfarça sua escrita, sua vontade de impressionar. Em todo caso, a narrativa me surpreendeu por demais, ao fazer um amplo painel sobre os Estúdios dos anos 1920 e 1930, mas também, quem diria?, por abordar a questão política, a eleição para Governador na Califórnia de então, com a satanização dos democratas, igualando-os a"comunistas", fato que se dá ainda hoje...Eu amei essa ponte entre as épocas.

Como amei a Fotografia; como amei o Design, como amei o Figurino. Fantástico trabalho! Das coisas que mais gosto em "Cidadão Kane" é sua Direção de Arte, com aquela quinquilharia da mansão Xanadu, por exemplo, aqui vemos a origem chic daquela casa...Amei! A Fotografia além do belo preto-e-branco, às vezes corroído preto-e-branco, tem muitos planos-detalhe e muitas profundidade de campo, que foi um recurso intensivamente original de "Cidadão Kane". Figurino, um show! Desde as gravatas encurtadas, até as roupas da personagem da Amanda Seyfried...

Ela está excelente. Com aqueles olhos incríveis...Olhos muito cinema mudo, olhos muito 1920, tão enormes, e tão necessários para passar a emoção de modo mais didático. Amanda brilha em vários momentos, mas, curiosamente, ela não tem uma cena especial: um discurso, uma briga, um choro...Considero-a favorita ao Oscar, mas, por conta disso, não é uma pedra cantada não. Quanto aos homens Coadjuvantes... Todos estão excelentes, mas não vejo nenhum indicado. É que a narrativa não foca especialmente em nenhum deles.

O filme é do protagonista. Só um grande ator para dar conta desse personagem. Gary Oldman está incrível. "Janta" o filme todo. É rápido em dizer as falas inteligentíssimas, mas tem uam cena, com a personagem da esposa, em que promete ficar calado quando não tiver nada melhor a dizer, que está genial. Matou-me de rir com seu silêncio! Comé que pode? Fabulosa atuação.

E o Fincher...Poxa, como ele é bom quando faz algo racional. Algo difícil. Que elegância nos planos! Que controle dos elementos! Que direção elegante, fria, e esperta...Palmas também para a Montagem, pois a de "Cidadão Kane" é reverenciada até hoje, durou meses e meses para ser feita, e essa faz jus ao filme-pai.

Passou da hora de ele ganhar como Diretor.

Amei!

 

Watch The Official Trailer For David Fincher's Mank Right Here

Vi hoje numa sequência Cidadão Kane e Mank. Vi algumas pessoas dizendo que não é preciso ver Cidadão Kane para apreciar Mank. Discordo. Faz diferença sim. 

Gostei da parte política da história bem como ver como eram os estúdios na época. Gostaria que Orson Wells aparecesse mais. 

E ver os dois filmes ficou uma coisameio louca porque os filmes se misturaram.na minha cabeça. Rsrsrs. O Wells eh o Kane kkk. E finalmente.reveoado o que eh Rosebud. A genitália de uma atriz. Kkkk

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Tô bastante sem tempo, então parti para ver um curta-metragem de um dos meus preferidos: "Madame Butterfly", de 2009, do malaio Tsai Ming-liang. Apenas 36 minutos de uma experiência, que pode ser um choque de perplexidade para a maioria das pessoas.

É uma livre interpretação da história da homônima ópera de Puccini (que por sua vez veio de um livro). Enquanto na ópera de 1904, vemos a relação amorosa de um marinheiro americano e uma dona de casa japonesa, no isolado Japão, do Século XIX. O marinheiro abandona a gueixa na ilha, deixando-a esperançosa de que irá voltar. Ela sofre à distância por amor, enquanto o espera pacientemente. Até que a volta dele não será como ela esperava.

Tsai deixou só o núcleo: Uma mulher abandonada por um homem temporário. A atriz Pearlly Chua fica perdida, sozinha, na rodoviária de Kuala Lumpur; perdida na multidão, e sem dinheiro. Tenta ligar para ele, pede para ele ajudá-la, avisa que está sem grana, que não tem como voltar. O cara não aparece.

O  grande lance cinematográfico é que parece que só a atriz tem consciência de que se está gravando um filme, pois as pessoas em volta, as pessoas da estação, os vendedores de passagem, nitidamente, não estão atuando, não veem a câmera, estão reagindo sinceramente à aflição da mulher. Tanto é que quanto oferecem a ela dinheiro, ela recusa - senão o filme acabava, né?

Muita gente vai achar um porre ver uma mulher comendo uma banana por longos minutos em uma cadeira de rodoviária. É o cinema sem rococó, humano, urbano, chuvoso, e vazio, do grande Tsai Ming-liang.

Nos minutos finais vemos a atriz deitada em uma cama, cheirando uma espécie de pano, sofrendo de angústia amorosa, por alguém que não aparece. Isso, essa noite mal-passada, também acontece na ópera, mas aqui o destino final é selado com um instrumento diferente.

Parabéns pela inteligência!

Madame Butterfly - 10 de Julho de 2009 | Filmow

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