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Forum Cinema em Cena

O Que Você Anda Vendo e Comentando?


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"A Dame de Baco", de 2016, é tido como o filme com a grande atuação de Youn Yuh-jung, no cinema coreano - Ela que pode acabar ganhando o oscar por "Minari". Interpreta uma prostituta idosa que oferece seus serviços em um parque, sob o disfarce de vender um energético de nome Baco. 

Aos poucos, vamos conhecendo melhor a personagem. Justifica a prostituição, dizendo que paga os estudos de um filho nos Estados Unidos. E que logo ela irá para lá.  Mentira. Ela está com gonorreia, sem muita grana, e com clientes rareando, e ainda lhe pesam os infortúnios do passado... Mesmo assim, sempre está disposta a ajudar seus amigos e a uma criança filipina que, por vias tortas, ela acaba amparando em casa.

Não só a criança. De caso sexual, ela passa a ser a última companhia de clientes à beira da morte, cujas famílias não têm mais tempo ou paciência para cuidar deles. Recebe inúmeros insultos ao longo do filme, mas mantém a dignidade de lhes ser uma última companhia.

A história é muito boa, a atuação dela é excelente, inclusive, em corajosas cenas de sexo oral. Mas o filme é muito sem ritmo. Vi com legendas em inglês, que senti, infelizmente, não estarem muito precisas.

Korean Film Screening: THE BACCHUS LADY with director E J-yong - Dodge  College of Film and Media Arts

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Vamos lá, chuchus. Nos brindem com seus comentários. E não vale só o nomezinho do filme.

"Baby Driver" é uma divertida matinê onde o roteiro batido não é o que interessa, mas sim o som e música, que são é mais um personagem ativo da estrutura do longa. Divertido,é mais um musical travesti

Barbie and the Rockers: Out of This World (Bernard Deyriès, EUA, 1987)   Os personagens são tão falsos quanto se tivessem sido criados para um material de ensino de inglês. Até mesmo Barbie, a única

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Black box é um bom thriller scy-fy que parece um bom episodio de Black Mirror ou Além da Imaginacao. Mas eu na verdade logo associei ao noventista The Cell, por se tratar de uma viagem á mente humana. O suspense se mantem na tela de forma eficiente, dando pistas em migalhas pra gente solucionar o mistério proposto. Com trocentas reviravoltas, o filme se segura pelas ótimas performances do seu elenco principal, todos oriundos de series,  neste filme que tem o selo Blumhouse de qualidade.8.5-10

Cajas oscuras (Black Box) (2020) - NoMIXTO


 

The Russian Bride é um divertido thriller de vinganca que emula a elegância do horror gótico com gore dos filmes B. Em forma de conto trata de temas feministas relevantes desta ida online, tem duracao enuta e suas atuacoes sao corretas, dentro do possível. Clara homenagem aos filmes da Universal, especialmente Frankenstein, o filme comeca devagar mas engata de vez, sendo sua meia hora final um colírio pros olhos onde nos vemos torcendo pela heroína como se estivessemos na final de Copa. Tem defeitos de roteiro, tem..mas so esta sequencia final ja releva tudo isso. 8.5-10

Film Production | United States | Mz. Kim Productions

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"N`um vou nem falar nada!!!"

"A Time to Love and a Time to Die"/ "Amar e Morrer", de 1958, penúltimo filme de Douglas Sirk.

Um melodrama pacifista muito certeiro, que nos faz torcer pelo soldado alemão, meros 13 anos após a Segunda Guerra. Um soldado da terrível Frente Russa obtém 21 dias de licença e retorna à cidade natal, que passa por inclementes bombardeios incendiários. Lá, ele procura pelos pais desaparecidos, e retoma contato com uma amiga de infância, de origem judia, e ambos se apaixonam.  

Beneficiado por ser rodado em locações reais, o filme tem um grau de realismo grande, mas sem deixar o lado pungente de contar uma história de amor, com direito a trilha sonora melosa, pequenos desentendimentos, e cenas adoráveis de paixão. Mas isso sem abandonar a inteligência de mostrar vários lados da guerra, desde o nazista ordinário, orgulhosamente mau aluno, "filho de leiteiro", que foi alçado a uma posição de poder pelo Nazismo, e se esbalda em pequenos luxos, enquanto faz seu trabalho sujo; até a resistência; até a situação dos trabalhadores de fábrica...A história é de amor, mas o painel social nunca é deixado de lado.

Ao fim, a questão moral decisiva: Quem é o herói e o vilão em uma guerra? Como julgar o caráter pelo uniforme? O maior dos méritos contudo continua ser a inversão do ponto de vista tradicional: fazer o espectador enxergar e torcer pelo outro lado.

Indicado ao Oscar de Melhor Som. Um dos preferidos de Godard. Frequentemente tido como um dos melhores filmes pacifistas de todos os tempos...

Vale muito a pena ver.

A Time to Love and a Time to Die (1958) - IMDb

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"N`um vou nem falar nada!!!"

Imagine você estar no Festival de Cannes de 2004, com "Fahreinheit 11 de Setembro" (o virtual vencedor), "Oldboy", "Diários de Motocicleta", "2046", "Edukators", "A Vida é um Milagre", "Ninguém Pode Saber", etc...É um sonho! E a sensação de que estaria vivendo um sonho se reforçaria quando tivesse que votar para a Palma de Ouro, e meu voto, muito provavelmente, teria ido para o su-bli-me "Mal dos Trópicos" (que acabou ganhando o Prêmio do Júri). "Concebido", e não dirigido, como frisa o crédito, pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul.

A primeira hora é extremamente terna. Acompanhamos momentos da vida de um soldado florestal, e de um funcionário de uma fábrica de gelo, analfabeto, que depois se demite, e passa a procurar outro emprego, vestido como um soldado para angariar mais respeito social. Depois de alguns momentos, percebemos que os dois são mais do que amigos, são namorados. E tudo é desenvolvido de uma maneira tão calma, tão sem espetaculosidade...Eles se reúnem com a família de um deles à noite, vão ao veterinário,vão ao cinema juntos, depois a um show de karokê (cena lindíssima), a uma aula de ginástica aeróbica (em que um outro gay se insinua ao mais velho)... Momentos de um casal, em vida feliz, em vida plena, tranquila. Com música, respeito dos parentes, tudo búdico, e natural. Não há vestígio de nenhum drama ocidental, não dá vestígio de homofobia, ou qualquer questão de autoaceitação conflituosa. Nada de divã! Nada de passeata política! Nada de ideologia! É tudo compreendido como parte da natureza. Até que é falado que os animais estão desaparecendo ou sendo mortos no vilarejo por noites seguidas. Haveria um animal na floresta, ou talvez o espírito de um homem, que aparece em forma de tigre, e some com as criações. Um homem que pode se transformar em fera.

A cena mais sexy, que fecha a primeira parte, é o último encontro dos dois protagonistas. O mais jovem, o camponês analfabeto, vai mijar em um cantinho, e depois o namorado pega a mão dele e a cheira...O mais novo, o jovem camponês, por sua vez, retribui a animalidade, pega a mão do namorado e a lambe. A lambe como um felino. E depois some na estrada escura, sozinho.

De repente, uma tela preta. Ficamos sem entender o que se passa. Inicia-se quase uma segunda história. O namorado novinho desapareceu. E o soldado está em plena floresta tailandesa, a procura dele. São vários minutos sem uma palavra, só se ouve os sons damata. O soldado procura os vestígios da andança da criatura...Ele começa a ouvir a natureza, integra-se a ela. Um macaco dá um recado a ele, uma cena absurda e cativante. Ele vê o espírito de um boi sair do corpo e se integrar à floresta. Até que depara com o namorado nu, entram em luta corporal. E depois, mais à frente, o soldado encara o tigre, o espirito selvagem. Podem um matar um ao outro, ou se amarem. 

Que história, que poder. O amor é uma fera d`alma! A Tailândia é um país de homens doces, homens calmos, delicados, sem barba, sem militância, onde a vida é uma entidade mágica, natural, e transcendente. O cinema de Apichatpong dá risada da narrativa. É um hálito de outra vida. Um vento de dentro da floresta. Que coisa maravilhosa pode ser o cinema, quando escapa da necessidade do "assunto", e apenas filma o infilmável.

Um parêntesis: Em certo momento de uma conversa trivial, um deles conta que tem um tio de 90 anos. Um tio que pode recordar suas vidas passadas. Detalhe que "Mal dos Trópicos" é de 2004, e o vencedor da Palma de Ouro, é de 2010. "Joe", portanto, já tinha isso na cabeça (tanto que faz um curta sobre Tio Bonmee em 2009).

O amor é uma fera d`alma!

Sud pralad" or "Tropical Malady" (2004) by Director : Apichatpong  Weerasethakul | Great films, In this moment, Film posters

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Como eu sempre digo, o Cinema é um professor de geografia. Que maravilha ver um filme do Lesoto, aquele reino dentro do território da África do Sul! E mais contente pelo filme ser bom, e estar muito bem qualificado para adentrar na pré-lista dos candidatos a Melhor Filme Internacional.

"Isso não é um enterro, É uma Ressurreição" trata de uma comunidade atingida pela construção de uma barragem. A protagonista é uma senhora de 80 anos, viúva, cujo filho, trabalhador de mina, morre, enquanto ela o espera naquelas terras. Ela fica sem ninguém, e desejosa de morrer também, e ser enterrada entre os seus. Porém, vê-se alarmada, quando corre a notícia de que todos serão removidos, inclusive o cemitério, para a construção da tal barragem. Fará de tudo para não profanarem a sua terra.

Não vou mentir, a primeira meira-hora é estranhíssima. Há um narrador, meio folclórico, contando a história, por meio de parábolas. Mas a partir daí o filme engrena. É filmado em razão de aspecto 4:3, dando um ar de fotografia antiga; foca muito o perfil dos personagens; e é dono de uma trilha sonora com - como ser educado? - muita "cor local". 

O melhor é a atuação da senhorinha, de resistência local, não pelo discurso propriamente, mas pelo exemplo. A cena final é a síntese de tudo isso. Muito corajosa e bonita.

Ganhador de muitos prêmios internacionais, o filme conta também com um carinho pela sua origem diversa, contudo, não o vejo ficando entre os 5 melhores da categoria (embora por um tempo estivesse na minha lista de previsões).

 

44ª Mostra de São Paulo] Isso Não é um Enterro, é uma Ressurreição –  Estante da Sala

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Imagine você estar no Festival de Cannes 1994, com "A Rainha Margot", "Tempo de Viver", "O Sol Enganador", "Através das Oliveiras", "A Fraternidade é Vermelha", e o virtual vencedor da Palma "Pulp Fiction". É um sonho! Repeti a estrutura frasal do penúltimo post mais acima, pra enaltecer o prêmio de Melhor Direção daquela edição, para o italiano Nanni Moretti, por seu "Caro Diário"/ "Querido Diário".

É uma autoficação. Moretti primeiro passeia de vespa pelas ruas de bairros de Roma, olhando os prédios residenciais, indagando-se quem haveria de morar nas coberturas, divagando sobre  a origem dos residenciais, e depois vai à região costeira onde Pasolini fora assassinado ao som de Korn. Num segundo capítulo, o passeio é pelas ilhas do mar Tirreno, visitando Stromboli (inclusive o vulcão), Panarea, e Salina, onde faz amizade com os moradores da região. Num terceiro momento, acompanhamos Moretti às voltas com visitas a dermatologistas para descobrir a causa de um prurido.

A pergunta implícita: "Mas isto é cinema?". Acho que pra 99% das pessoas isso não seria um filme. Mas é um filme. Estou cada vez mais convicto de que a arte mais relevante está sempre próxima daquilo que não é considerado arte. 

Um diário de imagens, que não é um documentário. Uma imagem que se anota.

Caro diario (1993) - Photo Gallery - IMDb

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Em "Jogo de Cena", de 2007, o teatro era um "fundo de tela". Em 2009, neste "Moscou", o teatro é enquadrado como ele mesmo. Eduardo Coutinho filma o celebrado Grupo Galpão de Belo Horizonte (saudade! saudade! saudade!) tendo a missão de encenar "As Três Irmãs" de Tchekhov em três semanas. Ou seja, aqui temos o teatro Teatrão!

Este documentário foi muito criticado à época, julgado como um trabalho menor. Mas ele me encanta não pelos seus elementos de fusão entre formas, se forma bem-sucedidos ou não, mas o doc me encanta pelo seu viés mais simples: Mostrar que a grande arte viaja. Um texto russo de 1900 chega em Minas Gerais, com sotaque, com canções brasileiras, com atrizes e atores de biotipo bem distante do russo padrão (Teuda Bara, maravilhosa!)...Que força a dessas palavras!

Mas se queremos voltar ao jogo de formas, não vi nenhuma crítica se perguntar, por exemplo: Atores superpreparados, criaturas do palco, lavrados no ofício por décadas, seriam capazes de não se importarem com a a presença da câmera? Quando são atingidos na suas consciências pela câmera, eles realizam ficção? E quando, por sua vez, não são atingidos, em suas consciências, surge um documentário?

Por essas e outras, digo que é um trabalho bastante rico.

MOSCOU - Eduardo Coutinho - DVD

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Don’t Tell a Soul é um razoável thriller que parece ser de Supercine mas consegue ir um tiquim além, mas só um pouco. Sua curta duracao o favorece e as atuacoes corretas da dupla jovem principal também. Tem uma reviravolta meio bizonha quase torna engracada inclusive, apesar da premissa se resumir ao embate entre dois irmaos de caráter totalmente diferente, o bom e o mau, diante de uma cirscuntancia atípica (abandonam ou nao um cara num buraco). Um filme mediano porém competente com o moleque que faz o Shazam. 8-10

新年看新片!1月院线极客片单等你来选- 知乎


 

The Real Miyagi é um bom documentário que resgatei do limbo diante o hype que vem tendo o seriado Cobra Kai, e que trata do lendário lutador de karate que popularizou o esporte em Hollywood, virando ate base por personagem do Morita. O forte deste doc sao seus depoimentos dos varios astros e imagens de arquivo do treinamento das lutas da franquia do Macchio. Simples, consegue te colocar na vida desse cara que foi amigo do Bruce Lee e que sequer sabia da existencia. Passei tempo de forma bem agradavel. 8,5-10

The Real Miyagi - Documentaire (2015) - SensCritique

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Revi "O Dia do Chacal", de Fred Zinnemann, de 1973 - seu antepenúltimo filme. Baseado em um livro de grande sucesso, de Frederick Forsyth, segue um matador de aluguel de codinome Chacal, contratado pelos descontentes da extrema direita francesa, para darem um film ao Presidente Charles de Gaulle, que decretara finalmente a independência da Argélia.

É um suspense de procedimento. O jogo de gato e rato entre Chacal e a Polícia. Hábil na arte de falsificações, disfarces, e gélido para matar, Chacal fará de tudo para cumprir o seu serviço, e a polícia fará de tudo para impedir o atentado. A cada 100 diretores, 99 fariam um eletrizante suspense. Aqui não, o cariz é burocrático, administrativo. Acompanhamos mil telefonemas, papeis, pistas-falsas, deslocamentos, para se chegar ao fim que já sabemos, pela História, qual é.

O filme se recusa a ser político, a questão do apego ao colonialismo é apenas inerente. Mas o filme também se recusa a ser um emocionante thriller. Não é propriamente"legal", é frio e lento. Assim como "O Homem que não Vendeu sua Alma" e "Julia", seus filmes antecessor e posterior. Os meandros é que contam.

Indicado ao Oscar de Montagem.

Dvd Filme - O Dia Do Chacal | Mercado Livre

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Revi "As Montanhas se Separam", de 2015, do gênio Jia Zhangke, pra ver em qual posição ele está no meu ranking pessoal do diretor, após o ano de 2020, quando consegui ver dois filmaços dele. E, pois é, "As Montanhas se Separam" continua para mim sendo o filme mais fraco dele. 

Fraco, mas ainda sim com traços inteligentes. Uma história que se passa em 1999, 2014, e 2025. Em 1999, às voltas do novo século, à voltas da devolução de Macau, uma mulher (a sempre maravilhosa Tao Zhao) é cortejada por dois homens: um trabalhador da decadente indústria de carvão, e um ambicioso comerciante de gasolina. O triângulo amoroso se forma, e ela, ao fim, opta por casar com o cara mais rico (Alguma surpresa? Nem na China é diferente). Em 2014, contudo, o casal está separado, os dois têm um filho, que mora com o pai, e estuda na escola americana em Xangai. O outro cara também se casou, mas está doente e pobre. É 2025, e agora estamos na Austrália, para onde os chineses ricos se mudaram em busca de maior liberdade (inclusive a de ter armas), o garoto é um adolescente, e o filme muda de língua, para o inglês! No enredo, o adolescente precisa fazer aulas de chinês, e acaba se envolvendo romanticamente com a professora. A mãe some da história. A relação é a profunda raiva do filho para com o pai, que o afastou de suas origens. Eles se comunicam apenas pelo Google translator.

Zhangke é por excelência o diretor da transformação econômica da China. A tranformação acarretará, em sua visão, na substituição do idioma. O pai do menino agora tem um nome internacional, "Peter", e seu filho tem o sobrenome de "Dollar". Quão ridículo isso pode soar para a maioria das pessoas...Mas no mundo do trabalho transnacional, isso parecerá até...prático...sensato...inevitável...

As montanhas se separam. Há um afastamento deliberado dos personagens. Da primeira vez que vi, não captei isso. Achei um "erro" do roteiro abrir mão dos personagens, ou da história romântica de 1999/2014. Mas agora entendi melhor esse conceito. Em certo momento do filme, um personagem diz que todos se separam. É inevitável, digo eu, seja de seus amores, seja de sua terra natal, seja de seus parentes. É inevitável. 

As Montanhas Se Separam poster - Foto 13 - AdoroCinema

 

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Aleksandr Sokurov fez uma reflexão tripla sobre o poder, a partir das figuras de Hitler, Lênin, e Hirohito. Mais à frente, entrará "Fausto", o quarto filme, como um pressuposto da questão do poder.  "Taurus", de 2001, é, portanto, o segundo filme, para alguns, o melhor. Enquadra Lênin perto da morte, alquebrado por derrames sucessivos, semiparalisado. Ainda um homem poderoso, sem o poder físico do corpo? Não é mais um "touro" - ele que nasceu em 22 de abril, um touro zodiacal - de força.

O que vemos é um homem aprisionado em uma mente que falha, mas também aprisionado em uma casa no campo, com sua irmã e esposa, longe do poder do partido (não deixam que ele leia os jornais), cercado de proteção governamental, homens que na verdade agem como espias. Na segunda parte do filme, recebe a visita de Stálin, uma figura sinistra, mas que está, ele sim, em ascensão.

Vez ou outra Lênin dispara ensinamentos marxistas, ou dispara frases anticristãs. Na melhor cena do filme, tem um ataque de lucidez, e reclama dos luxos da casa. Ao que é repreendido: "Não é nosso, foi expropriado." Tem um último ataque de raiva e quebra objetos da sala com a bengala, até ser contido por várias pessoas que jogam panos em cima dele para conter sua fúria. Um momento ridículo vê-lo, outora poderoso, coberto por toalhas. Mas a cena continua, e o tirar dos panos, com ele deitado no chão, é como se tirasse um sudário, permitindo-nos relacionar seu corpo estendido com a clássica imagem do corpo dele no esquife.

Uma fotografia esverdeada, doentia, cheia de brumas, torna o filme uma experiência sensorial amarga e amedrontadora. Estava-se em 1924. O pior ainda estava por vir.

Taurus (2001) - Aleksandr Sokurov

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No posfácio da edição brasileira de "Almoço Nu", Burroughs descreve sua experiências com drogas de todo o tipo, talvez o homem que mais usou aditivos na face da Terra, e alerta que, entre todas, a cocaína é a pior. Este posfácio foi a passagem mais marcante do livro, pra mim. Foi um desafio enorme lê-lo até o fim. O desafio de adaptá-lo para o cinema era ainda maior, pois não há propriamente um enredo, e, pior, não há o elemento da "continuidade", pois ele é escrito em técnica de cut-up, recortes, tiras.

Assim, o canadense David Cronenberg teve que tomar algumas decisões bem "livres", digamos assim, na adaptação, como colocar episódios de outros livros dele, introduzir personagens que funcionam como homenagens a Ginsberg e Kerouac, amigos do autor, e criar um senso progressivo de trama. Fundiu mais aspectos da conturbada vida privada do escritor com seu alter ego em "Naked Lunch", e embarcou fundo na criação artística a partir de viagens alucinógenas.

O título brasileiro é "Mistérios e Paixões". Lamentável. Parece que apoiado apenas nas visões alucinadas das máquinas de escrever transformadas em insetos. Surreal, bizarro, esquisito. Funciona mais como homenagem intelectual do que qualquer outra coisa.

"Já lhe contei a história do homem que ensinou seu cu a falar?
O abdômen dele se mexia para cima e para baixo e ele peidava as palavras.
Era um som borbulhante,denso,estagnado,um som que dava para cheirar.
Depois de um tempo o cu começou a falar sozinho..."

 

Naked Lunch Movie Poster | 1 Sheet (27x41) Original Vintage Movie Poster |  2639

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One Night in Miami é um daqueles filmes de encontros hipotéticos, tipo A Liga Extraordinária, mas aqui é levado na base do drama histórico e o quarteto em questao se resume quatro grandes nomes da cultura negra. Em tempo, é um filme de diÁlogos e se passa quase que num único ambiente...e funciona que é uma beleza! Te prende dando uma aula de história e colocando no contexto desses quatro brothers que, apesar de ícones de uma geracao, sao seres humaninhos como nós, com muitos defeitos. Claro que isso so foi possivel pelo roteiro e interpretacao poderosa do elenco. Um filme contestador com conteúdo atemporal. 9-10

One Night in Miami': Estreia diretorial de Regina King ganha novo cartaz |  CinePOP


 

The Climb é uma dramédia indie que parece ter sido feito pelo Woody Allen. É um Harry e Sally Feitos um para o Outro, só que sobre dois amigos. O grande diferencial deste filme é seu formato, sua embalagem, bastante naturalista e beirando o documentário. Usando criativos artificios temos fusoes bacanas e interessantes planos sequências, onde se nota a alta qualidade de seus atores (todos desconhecidos). Nao é uma dramédia convencional e pode nao ser do agrado de todos, tanto que eu curti mais que minha muié.. que dormiu😂! Mas nao é pra todos os gostos. 8-10

The Climb (2020) Film Complet Streaming [VF] En Français -  ver-pelicula-premier

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7 hours ago, Jorge Soto said:

One Night in Miami é um daqueles filmes de encontros hipotéticos, tipo A Liga Extraordinária, mas aqui é levado na base do drama histórico e o quarteto em questao se resume quatro grandes nomes da cultura negra.

 

Só deixando claro que o encontro é factual, aconteceu mesmo, o teor da conversação é que foi imaginado.

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Mais de 20 anos sem ver o holandês "A Excêntrica Família de Antônia", e ele continua tão lindo e mágico como da primeira vez. Que azar de "O Quatrilho" disputar o Oscar de Filme Estrangeiro em 1996 contra esse filme!

Um roteiro excelente sobre três gerações de mulheres em um vilarejo, que acolhem os diferentes, que formam uma família antibolsonarista (o bolsonarismo sempre existiu, em todos os lugares e épocas), que recusam o casamento formal, que se defendem dos abusadores, que fazem arte...É um filme impressionantemente para hoje! Melhor do que o seu tema, são seus diálogos espertos e cativantes:

"Você está fedendo"

"É o cheiro do tempo que passou"

Único defeitozinho: poderia muito bem abrir mão de seus elementos de realismo mágico, desnecessários.

Trilha sonora linda também.

A EXCENTRICA FAMILIA DE ANTONIA - Marlen Gorris - DVD

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"The Ruling Class"/ "A Classe Dominante"/ "A Classe Governante"/ 'A Classe Dirigente", ufa, quantos títulos inconstantes. É de 1972, do húngaro Peter Medak, e rendeu a Peter O`Toole sua quinta indicação ao Oscar de Melhor Ator. Um filme que vem sendo reabilitado junto à crítica, nos últimos anos, pelo seu caráter completamente "fora da casinha".

O filho de um aristocrata inglês crê ser Jesus Cristo. Ele será o herdeiro do dinheiro e do título de conde, quando seu (bizarro) pai se enforcar acidentalmente, em uma forma de fetiche sexual. O resto da família lutará para internar o filho, e ficar com a grana. A solução encontrada é fazê-lo casar, ter um filho, e ficarem eles como tutores do novo herdeiro. Bom, essa pelo menos é a primeira parte da história. Depois de 1 hora e meia, o protagonista meio que retoma aparentemente a sanidade, mostra-se mais conforme à sociedade, mas, na horas vagas, age como Jack, Estripador.

É uma sátira à nobreza? Sim. A brilhante cena final, em que o personagem enxerga os representantes da Câmara dos Lordes como esqueletos é prova disso. Predomina a comédia? Sim. Principalmente nas tiradas com O`Toole personificado como um Jesus, que enfrenta outro louco de pedra, de um sanatório, e há uma guerra de raios...Mas há momentos de musical...tipo...do nada...absolutamente do nada...uma canção. É uma salada de gêneros, uma salada de trapalhadas.

O interessante é perceber, no meio da confusão, que quando o personagem imita Jesus, ele é avesso ao dinheiro, simples, crê no amor, gosta da natureza; e quando retoma a sanidade, ele é materialista, colonialista, xenófobo, e é aí que as pessoas em geral passam a gostar dele, passam a ver os defeitos como algo normal.

Mais curioso do que eu pensava. Mas não sei se veria novamente.

Amazon.co.jp | The Ruling Class (The Criterion Collection) DVD・ブルーレイ -

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Run Hide Fight é um divertido thriller de acao que basicamente é um Elefante ou Tiros em Columbine  misturado com Duro de Matar. Sim, moleques bullizados armados tomam escola e cabe a uma Rambinha fazer o trabalho da Swat. Plot inverossimil mas tocado de forma divertida e bem violenta. A personagem central é forte e bem interpretada, o vilao ta apenas ok em carisma.. o resto ta bem correto, dentro do possível. Pena que resvale nos clichês basicos do filme de heroi e seja menos humano, senao seria um filmaco top...mas ainda assim é bem competente. O filme ao invés de mergulhar no porquês de massacres indaga na cara dura: o que a gente faria num caso desses? 9-10

Run Hide Fight (2020)


 

Sivas é um razoável drama turco sobre a infancia espelhada num cachorro, ou melhor, projetada. Longe de ser fofinho feito producao da Disney, ser moleque numa Anatolia machista nao é facil. Mas parece que falta foco ao filme, quase documental, dado o desfecho apático e sem sentido. O que salva tudo, em termos, sao as paisagens, as estupendas atuacoes (todas naturais) do elenco mirim e os cachorros. Nao curti tambem a judiacao com bichos, o que pode afetar olhares mais sensíveis, uma vez que duvido muito que as sangrentas rixas de caes mostradas tenham sido feitas com CGI. 7-10

Wer streamt Sivas? Film online schauen

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Quando vi "Maria, Cheia de Graça", de 2004, adorei a história e adorei a atuação de Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar, e ganhadora do Urso de Prata em Berlim, em sua estreia no cinema! Assim como trata-se do début do diretor americano (por isso o filme foi impedido de concorrer pela Colômbia a Filme Estrangeiro) Joshua Marston.

Porém, vamos amadurecendo o olhar, e consegui nessa revisita perceber muito mais da inteligência do filme. Coisas que podem passar despercebidas, mas que recheiam um filme. Por exemplo: a personagem dela ser empregada da indústria de flores. Quem conhece as rosas Colombianas (e Equatorianas) não quer mais saber das brasileiras; os andinos viraram grandes exportadores de flores, empregando muita gente. Mas o filme mostra como este não é um trabalho "bonito". Mostra a realidade: os jovens preferindo trabalhar com o outro grande produto de exportação da colômbia, a cocaína.

Maria está grávida. E quando os acontecimentos se preciptam, vai se hospedar na casa de uma outra colombiana grávida. Mas esta seguiu o caminho da humildade. Leva uma vida simples, mas estável. A vida na droga é sempre um risco. Isso me faz pensar como as pessoas que querem ganhar a vida honestamente recebem pouco. E quem se arrisca, no ilícito, é quem ganha mais. Mesmo assim, um dinheiro realmente do diabo, que não traz nada de bom, não é abençoado.

Na saída do aeroporto, um cartaz ironicamente proclama: "O que importa é o que está dentro de você". 

Excelente.

Maria Cheia de Graça – Wikipédia, a enciclopédia livre

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"N`um vou nem falar nada!!"

Curioso para saber como será a adaptação de Joel Coen para "Macbeth", fui conferir a melhor adaptação ever da peça de Shakespeare, feita por Akira Kurosawa, em 1957, "Trono Manchado de Sangue".

O cenário é o Japão feudal do século XVI. Sai o aço escocês, entra o bambu. Saem os tapetes, entram as teiras de palha. Saem as capas, entram os quimonos. Visulamente, impecável, e original. A aparição das bruzas na floresta é de arrepiar. Compreendeu o japonês que esta é uma peça sobrenatural, assustadora, pois o além joga com o destino dos homens.

O que eu mais gosto, porém, é não perder tempo com batalhas campais. O importante não está nas lutas. Fora que, no que concerne a questão do o ritmo, o filme fez muito bem ao não se apegar ao texto versado.

Toshiro Mifune, incrível de feições. Sua cena final, atingido por dúzias de flechas, é demais.

 

Trono Manchado de Sangue poster - Foto 2 - AdoroCinema

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"O Presidente"/ "O Juiz", de 1919, primeira direção do dinamarquês Carl Theodor Dreyer. É quase inacreditável darmos conta que um filme como este foi feito há mais de 100 anos. E uma estreia! O roteiro é muito complexo, lida com várias questões sociais e psicológicas.

Temos aqui um Juiz de província que irá julgar uma mulher por infanticídio. Na verdade, ele é "Presidente", pois é o presidente do equivalente ao nosso Tribunal do Júri; quem dará a sentença na verdade serão os jurados, mas não há muito o que averiguar, pois a autora confessou. O detalhe é que a ré vem a ser a filha ilegítima do Juiz, fruto de um encontro amoroso do passado, em que ele - fazendo promessa ao pai, que, por sua vez, tivera um casamento infeliz, com uma mulher que engravidara - não subiu ao altar com a moça. A filha do juiz, a ré, também teve um encontro amoroso com um burguês, que a abandonará. Assim, sentimentos pessoais, repetições sociais, remorsos, promessas, e noções de Justiça se misturarão. Como executar à morte a própria filha?

Tal história dialoga fortemente com a história de vida do diretor. Ele era filho de uma empregada doméstica sueca e seu patrão, tendo sido relegado ao orfanato, passando por vários, até vir a ser adotado pelo casal de sobrenome Dreyer, luteranos rígidos. O filme abre com aquele recurso básico de um livro sendo aberto, páginas sendo passadas, finalmente fechado, tentando, a meu ver, afirmar que a história é "ficção", de modo a impedir qualquer justificativa pessoal. Compreensível.

Há flashbacks muito bem inseridos que mostram as malfadadas histórias de amor, e ainda dão esse sentido de sucessão de histórias que se repetem. Repetem-se por que os homens veem as mulheres mais humildes como um alvo fácil de flerte. Estão escusados pela conveniência social, caso não desejem casar.

A Fotografia é amarela, quase laranja, sei lá por quê. Imagino que seja a qualidade do negativo. A música acompanha o filme ininterruptamente. O ator principal é ótimo, em total dilema entre o dever paternal e o dever profissional. Percebo, ademais, que não há aqui ainda um apego aos closes, sobretudo dos rostos. Domina o plano-médio.

Gostei demais.

Dvd O Presidente 1919 | MercadoLivre.com.br

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"O Dono da Noite", de 1992, forma uma trilogia espaçada no tempo com "Taxi Driver" e "Gigolô Americano". É o mítico roteirista e diretor Paul Schrader refletindo sobre a solidão masculina na cidade marginal. Aqui, a metrópole vive uma greve de lixeiros, há sacos e sacos pelas ruas, enquanto as festas ainda tentam reaver o glamour elevado pela cocaína fácil dos anos 1980. Susan Sarandon vive uma traficante de luxo, e Willem Dafoe, seu conformado funcionário, ou, mais preciso, entregador. Surpreendido pela decisão dela de se afastar dos negócios e ir para o ramo dos cosméticos, terá que buscar um novo emprego, uma nova forma de ganhar dinheiro, e entra em uma crise de idade. Época propícia para pensar nos amores do passado.

É curioso como esse filme não mergulha com tudo na piscina no filme policial. Não há perseguições de carro, sirenes de polícia, ou fartas trocas de tiro. O glamour das festas, como eu disse acima, é meio que passado. Ficou na memória. A aura de limpeza dos anos 1990, manifestada na moda, na perfumaria, no design, na alimentação, estava a caminho. É essa a atmosfera do filme: uma meia-luz.

A história em si é muito boa, o ritmo é - como costume nas obras dele - lento, a Fotografia de Edward Lachman é excelente, mas o grande destaque é mesmo a atuação sensacionao do Dafoe. Claro, é um estudo de personagem, requer um grande ator. Mas ele está até... magicamente...bonito...porque o personagem "pede" que ele seja atraente às mulheres. Até a beleza que ele não tem, ele consegue através da composição.

No início do filme, e em outros momentos, vê-se seu personagem escrevendo um diário. Mecanismo para justificar o off de algumas cenas. Fazer do personagem um talento com as letras.

Só não gosto da cena final. Acho um pouco forçada. Uma cena que inclusive, no que tange a Sarandon, fará par com o futuro "Os Últimos Passos de um Homem", a joia máxima de sua carreira.

O Dono da Noite - Filme 1992 - AdoroCinema

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O ano é 2007 e Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei, na cama, desejam morar no Brasil. Ano de 2007, quando o Brasil se iludia de que seria um país rico...É claro que estou falando do estupendo "Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto".

Marisa Tomei, Ethan Hawke, Albert Finney, e, o meu preferido de todos os tempos, Philip Seymour Hoffman. É um banho de talento! Hoffman está so-ber-bo, que que isso...No mesmo ano: "The Savages", e indicado ao Oscar de Coadjuvante por "Charlie Wilson`s War".  É brincadeira!

Sei que muita gente não gosta de cronologias quebradas, em que vemos as mesmas cenas por ângulos diferentes, em tempos diferentes, mas eu adoro. Admiro demais esse tipo de montagem, e de colocação de câmera nos sets.  Gosto também da sutil insinuação estranha que há na história, casando com a autoimagem do protagonista. O povo reclama do finalzinho, mas é o finalzinho que justifica este intrigante título. Algo que me passa pela cabeça: "Deixa eu fazer o serviço antes do diabo" hehehe

Este filme, último do Sidney Lumet, só não foi mais premiado, porque 2007 foi um ano riquíssimo para o cinema também, muito concorrido.

Marisa Tomei causando enfarte na maioria dos homens... Ual!

Antes que o diabo saiba que você está morto

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