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Primeiro longa de Christian Petzold, "Segurança Interna" de 2000 não faz questão de explicar absolutamente nada. Uma família alemã está em Portugal, aparentemente em fuga, mas do quê? De quem? O que fizeram? Para onde vão?

O foco é na filha adolescente Jeanne, que solitária, vive seu coming of age, nesta constante fuga com seus pais. Como rebelar-se quando já vive -se à margem? Como descobrir novas músicas, curtir o que vestir, aflorar sexualidade?

Petzold consegue mesclar estas questões com seu cinema de montagem seca, elíptica e objetiva. Uma estreia marcando forte presença.

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(241)

Tenho uma tia que quando chegou a Portugal pela primeira vez só entendeu: "Sinhôres Passagêros". Tive um pouco mais de sorte e consegui entender uns 85% das falas (sem legenda) do filme português, passado nos anos 1950, "O Estranho Caso de Angélica" do mestre Manoel de Oliveira. Ele dirigiu o filme, em 2010, com mais de 100 anos, portanto, este que é seu penúltimo longa-metragem.

Um fotógrafo é chamado tarde da noite para fotografar uma jovem rica que recém-falecera. Ao executar o serviço para a família da jovem, percebe que Angélica ganha vida na fotografia. Apaixona-se por essa assombração pictórica, fictícia. Ou então apaixona-se pela beleza, permanente, que se preservou na fotografia. Ou então, outra hipótese, os dois tinham mesmo uma ligação espiritual de outras vidas.

Um roteiro que possibilita várias interpretações, mas é outro caso de filme do cineasta em que parece proposital a não preocupação com qualquer noção de ritmo. Tudo é arrastadíssimo, e olha que estou acostumado...

Não recomendo.  

 

O Estranho Caso de Angélica poster - Foto 2 - AdoroCinema

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Viúva Negra é um bom filme da Marvel que se situa entre Guerra Civil e Guerra Infinita que tem momentos grandiosos e aprimora mais a mitologia da personagem da Johansson. O filme tem uma pegada de espionagem bem bacana que o diferencia dos demais, pena que esta pegada vai só até a metade porque depois assume de fato seu lado marvelesco, inverossímil, com facilidades de roteiro e bem piegas. Atuações ok e muito bem feito tecnicamente, a película complementa as demais produções do MCU e deixa ganho pra outras, na cena pós-créditos. Bom passatempo e bem assistível, embora da metade em diante caia um pouco de qualidade. 8,5-10

Black Widow (2021) - Movie Posters (7 of 13)

 


Coincidentemente também assisti um terror russo chamado The Widow, que deixa muito a desejar se comparado ao de cima. Não que seja found footage (em primeira pessoa) mas porque é mal feito e construído mesmo e não chega aos pés da Bruxa de Blair, filme que tomou quase tudo emprestado. Visualmente é bem feito e tem atuações sem grande destaque, mas demora mais de hora pra de fato acontecer alguma coisa, o que é péssimo prum filme que tem que manter a atenção. Sim, se até lá não se dormiu aí vem os 20min finais, onde de fato o pau come gostoso mas é aquela coisa.. Filme genérico sem muito caldo pra dar. 7-10

The Widow (2020)

 

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(242)

"Meus Irmãos e Irmãs do Norte" é um documentário de 2016, a respeito da fechada Coreia do Norte. Como os sul-coreanos são proibidos de adentrar no país vizinho, e vice-versa, a diretora se vale de seu passaporte alemão. O resultado, entretanto, é apenas protocolar, já que ela visita e se põe em contato apenas com lugares e pessoas pre-configuradas. Então, a resultante não desejada é um documentário turístico, mas de turismo oficial. 

Nota-se o que estamos autorizados a notar: uma capital impressionantemente limpa, bem-cuidada, ajardinada, com moradores aparentemente felizes. Visita-se uma escola de futebol oficial (lembrei que na Copa de 2010, o governo informou que o time nacional havia ganhado do Brasil; e em 2014, informou que eles chegaram à final), visita-se um parque aquático, uma escola, uma fábrica têxtil, tudo limpinho, organizadinho, e, claro, falso, propagandístico. A maior crítica, ao culto à personalidade, é a que mais ressai, evidenciando a avassaladora lavagem cerebral.

Achei um doc muito conformado em mostrar o modo de vida oficial, muito preso nas cordas do regime coreano.  Impossível compará-lo com o fantástico doc alemão "Camp 14: Total Control Zone", adaptação do livro magistral "Fuga do Campo 14", sobre os campos de concentração.

Meus Irmãos e Irmãs do Norte - 2016 | Filmow

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"Empty Man" é o primeiro trabalho de David Prior, que na indústria é conhecido por ter dirigido e editado alguns making-of de filmes do David Fincher. Claro, há algumas composições fincherianas.

Baseado em uma graphic novel que desconhecia, este filme tem um excelente prólogo de 20 minutos, ao melhor estilo "O Exorcista"; nos anos 90, dois casais estão numa trilha no Butão e o silêncio bucólico traz um estranho ruído. A partir daí a merda acontece. 

Depois, nos tempos atuais, um ex-policial começa a investigar o sumiço de um grupo de adolescentes...acho que este é o máximo que da pra falar.

A duração bem longa é escancarada por um filme que explora diversos subgêneros (filme de seita, sobrenatural, thriller psicologico, drama familiar). Mesmo sendo sua primeira experiência, é possível enxergar a segurança de Prior e, sendo um discípulo de Fincher, é notório ver sua preocupação em cada aspecto da construção cinematográfica, destacando som e efeitos visuais.

Sendo possível enxergar várias inspirações e também não fugindo de clichês do gênero (ex-policial solitário de passado tormentoso, fita vhs, inicio em país "exótico"), Empty Man é uma diversão que não é nada vazia.

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"N`um vou nem falar nada!!"

Tarde de sábado conferindo as quase três horas de "O Homem de Mármore", uma da obras-primas de Andrzej Wajda, e um dos filmes políticos mais importantes já feitos. Premiado pela Imprensa em Cannes em 1978, anunciando a futura Palma de Ouro para seu filme-consequência "O Homem de Ferro", de 1981.

É filme dentro de filme dentro de filme. Uma aguerrida jovem estudante de cinema tenta, nos anos 1970, fazer um filme sobre um pedreiro da Polônia dos anos 1950, que foi alçado à condição de líder e exemplo para os trabalhadores do país, sendo até transformado em estátua, pelo governo. A metáfora está dada: Um homem modelado. Primeira, ela acha a estátua abandonada. Depois, descobre na cinemateca os rolos de um cinejornal estatal, que mostram a seleção daquele trabalhador humilde, sua glória ao vencer um concurso de quem assentava mais tijolos, seu casamento com uma bonita ginasta...

Esses rolos de cinejornal são o motivo para que o filme passe então para preto e branco (curiosamente, assinados na ficha técnica por um tal Andrezj Wajda), e mude de época, na qual presenciamos a construção de uma cidade a partir do zero, Nowa Huta, na periferia de Cracóvia; uma cidade socialista, no qual não haveria "Deus" (Igrejas), completamente planejada, e abrigaria os trabalhadores poloneses. 

Porém, o filme adentra em si mais uma vez, e vamos parar efetivamente na década de 1950, nos bastidores daquela filmagem. E vemos que é tudo fake! As imagens triunfantes escondem a fadiga extrema daquele trabalhador, como ele é enganado pelos companheiros, como tudo é mais difícil e nada glorioso naquela obra monumental. Até seu casamento é fake. 

Intercalando os planos temporais, a jovem cineasta tenta investigar cada vez mais aquele homem, de exemplo a perseguido pelo governo, sendo a pergunta principal: "Onde ele agora está?" 

A resposta entregue ao final do filme está no "extracampo", digamos assim. O filme termina no porto de Gdansk, onde o governo comunista massacrou trabalhadores grevistas, em 1967, e de onde emergirá a figura de Lech Walesa, e futuramente da Organização Sindical independente Solidariedade, que são o tema de  "O Homem de Ferro". Ou seja, podemos concluir que o trabalhador símbolo foi morto lá, em Gdansk.

Um filme brilhantemente executado, seja em sua montagem, seja na organização das ideias. A mente anticomunista de Wajda mostra a arte como uma ferramenta mentirosa da política, mas também como uma ferramenta para se encontrar a verdade.

Amei!

O Homem de Mármore - Filme 1977 - AdoroCinema

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(244)

Desde logo, com seu "resumo" do capítulo de 1994,  já se revela que deveria ser chamado de "série" e não de "trilogia". Dividiram por que estrategicamente se ganha mais views. Só por isso. Um pouco de honestidade, por favor, Netflix!

"Rua do Medo: 1978 - Parte 2" oferece mais "gore" do que o primeiro, em sua tentativa de lembrar "Sexta-Feira 13". A protagonista deste episódio, Sadie Sink, é melhor atriz também. No mais, detestei.

Escuro demais; "sujo" de elementos; a químicia entre os adolescentes não funciona; cheio de hits a cada minuto pra demarcar a época, embora no design não tenhamos efetivamente nada de especial dos anos 1970.

Bobo até falar chega.

Rua do Medo: 1978 - Parte 2 - 9 de Julho de 2021 | Filmow

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Segundo filme da leva de Kelly Reichardt, "Wendy and Lucy" deve ser um dos primeiros olhares da crise econômica de 2008 nos EUA. 

Wendy e a fofíssima Lucy estão à caminho do Alaska para uma jornada de trabalho intermitente. Nada se sabe sobre a garota, apenas que ela tem uma irmã e cunhado no Indiana, mas fora isso ela é essencialmente um corpo em movimento. Tudo que ela tem é um carro e o companheirismo de Lucy.

Até que numa manhã dormindo em lugar proibido, o carro pifa. Depois, numa decisão errada, ela descobre que Lucy se perdeu. Presa num lugar que nada tem, sem ter onde ficar, com quem falar e perdendo seu norte. 

Para mim, o mais notório do filme é a forma como fala de uma situação crítica sem precisar berrar e abre os olhos para pequenos detalhes que normalmente não são tão tratados em obras do tipo: não se perde apenas os pertences numa crise econômica, mas ela traz muita solidão, pois é preciso buscar algo, normalmente longe e se nao é você quem o faz, será um familiar ou amigos. Além disso, é bem ilustrativo ao reforcar que uma vez caindo neste espiral de pobreza, é muito difícil escapar; isso é mais bem comentado na fala do segurança que se aproxima de Wendy (muito provavelmente por sua própria solidão ) "É preciso um endereço para ter um endereço e um trabalho para ter um trabalho".

Tendo ainda uma das sequências mais tristes que vi recentemente (o travelling no canil), Wendy e Lucy é o retrato muito gentil, mas não menos duro de sobrevivência.

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On 10/7/2020 at 5:30 PM, SergioB. said:

Maratona Kelly Reichardt - agora uma revisão - com o lindo "Wendy and Lucy", de 2008.

Adaptando um curta de seu parceiro Jonathan Raymond, Kelly entrega seu filme com final mais emotivo. Uma jovem, de quem sabemos pouco, viaja para o Alasca em busca de emprego, em sua caranga velha, ao lado de sua cachorra Lucy. Agora que entendi a chave de seu cinema - pensar no negativo, o que não é - temos aqui um filme que não é um road movie, nem é um filme sentimental clássico entre homem e animal.

Engraçado, esse filme vir um ano depois de "Na Natureza Selvagem" (como vocês sabem, meu filme número 1). Lá o road movie está cheio de grandes encontros e grandes aprendizados para a vida (algo que Reichardt já havia desossado em "River of Grass"),mas principalmente naquele filme o Alasca é quase um sonho, um último refúgio da natureza, versado e cantado pelas suas belezas naturais. Neste filme, o Alasca é, ao contrário, um refúgio econômico, uma oportunidade empregatícia para a jovem de Indiana.

O problema é que ela perde o cachorro (Palm Dog, em Cannes, 2008, para a cachorrinha "Lucy" - por sinal a mesma do filme anterior de Reichardt, o soberbo "Antiga Alegria". O bom de fazer maratona é conseguir pescar as referências). O filme então se torna a garota perdida na vida buscando sua cachorra perdida. Vira aquele tipo de drama sentimental que envolve animais? Não. O cinema de Reichardt é negativo.

Durante a procura, vamos perceber uma insensibilidade mais geral da sociedade. Garotas passam comentando que alguém dorme no carro. Informações erradas são passadas, ou então informações duríssimas são passadas com pouco tato. Bem como na frase síntese do filme, alguém sem a menor sensibilidade, em tom moralista, um evidente republicano, dirá algo como: "Não se pode ter um cachorro, se você não tem condições para isso". Evidentemente, trata-se da chamada "Posse Responsável". Concordo. Mas não dá pra simplesmente ignorar o amor, a amizade, entre um ser humano e um animal, pois essa ligação não passa pelo dinheiro. Ou seja, não é filme de estrada, não é um filme de cachorro, é uma intimista reflexão sobre os valores da América.

Em termos de direção, reparei no planos laterais. Seja a câmera buscando o cachorro atrás de um pau atirado em um bosque, seja a câmera que passeia tristemente pelas "celas" desoladoras de um canil, seja Wendy andando a pé pelos bairros pouco familiares da cidade.

Um filme muito rico, cujo final, sim, é construído para pegar um lenço. Michelle Willliams desenvolve sua personagem de maneira parecida com o que ela geralmente faz: econômica econômica econômica, para em uma cena "x", o dique da emoção se romper. Sempre dá certo.

Bravo!

Wendy e Lucy poster - Poster 3 - AdoroCinema

Alow, @Muviola, eis aí meu comentário . E abaixo minha comparação da cena do canil, que você bem destacou, com a da obra-prima "Umberto D."

Kelly Reichardt, atualmente, está filmando outro filme com a Williams.

 

On 10/10/2020 at 7:16 PM, SergioB. said:

Se "Wendy & Lucy" , (re)visto esta semana, tiver um pai cinematográfico será "Umberto D.", de 1952, do mestre Vittorio de Sica - meu diretor italiano favorito.

As semelhanças são muitas. Um velho necessitado (lá, uma jovem; aqui um idoso), endividado, prestes a ser expulso de seu quartinho em uma pensão, faz de tudo para proteger seu pequeno cachorro. Outra semelhança entre os filmes, uma dolorosa cena de procura em canil, mas aqui de Sica faz um perturbador paralelo, não dito, entre o canil com os fornos crematórios de um campo de concentração, mostrando onde vão parar os cães abandonados...Uma cena angustiante. Outra semelhança, no final de ambos os filmes, há uma cena de um trem, em marcha para a (des)esperança. Por fim, a acusação de insensibilidade social é comum aos dois. A maior diferença é o lado sentimental. Em Reichardt, um tom mais baixo; aqui o tom sentimental e humanístico no volume máximo.

 

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(245)

Acho "Trabalhar Cansa", de 2011, uma formidável estreia em longas de Marco Dutra e Juliana Rojas, eles que ao longo do tempo iriam continuar colocando elementos de terror dentro de suas pensatas sobre a classe média brasileira. Tudo neste filme é intrigante, do início ao fim, do título à cena final. 

Amo ver a questão do trabalho nesse amplo painel: desde as ridículas e humilhantes dinâmicas de entrevistas de emprego; até as desconfianças mútuas entre empregados e empregadores, ou locadores e locatários; bem como o trabalho doméstico ser o mais desvalorizado de todos.

Achei engraçado também ver a tabela de preços do pequeno supermercado assombrado. Um frasco de óleo de soja a R$ 1,22 !! Vamos voltar para 2011! Dez anos a menos de desvalorização monetária, a custo de desenfreada emissão de dinheiro.

Infelizmente, o início da década passada era o auge da tendência indie de se falar baixo nos filmes nacionais. É o ponto negativo do filme.

Trabalhar cansa, nos esgota.

Trabalhar Cansa poster - Foto 1 - AdoroCinema

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(246)

Não é muito a minha praia, mas o diretor Ken Russel consegue em 'Viagens Alucinantes", de 1980, realizar um filme de ficção científica extremamente imersivo e criativo. Fiquei boquiaberto com a montagem. Não só quando retrata devidamente os estados mentais de alucinação, mas também como ela não perde tempo com a questão da passagem dos anos, exemplo, os jovens cientistas enamorados, logo, logo,  estão casados, com filho, e separando-se sem muitas explicações. A rapidez da montagem está expressa na rapidez do roteiro. Essas coisas me ganham...

Muito legal para mim também ver como o experimento científico, a droga alucinógena, o misticismo, e o sexo, foram representados como veículos ensejadores de perda de consciência.

Indicado a dois Oscars, Som, e Trilha, deveria ter sido mais reconhecido. Assim como a atuação de William Hurt, em seu primeiro longa no cinema, que está bárbaro. O filme precisava realmente de um grande ator que pudesse visualizar  em sua imaginação as difíceis alterações mentais. Por óbvio, não tinha a montagem para ajudá-lo a ver as loucuras que nós vemos na tela.

Gostei bastante.

Viagens Alucinantes - Filme 1980 - AdoroCinema

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Em 1962, Pier Paolo Pasolini viajou por toda a Itália para entender sobre o princípio de tudo: o que os italianos, em seus mais diversos recortes regionais, econômicos, sociais, idade, gênero entendem por "sexualidade". 

A partir deste grande retrato, Pasolini recorta os sub-temas dentro do amplo espectro de sexualidade: sexo x amor; casamento x divórcio (a Lei do Divórcio ainda era inexistente na época); papel da mulher; visão sobre homossexualidade; proibição dos bordéis e prostituição de rua. 

Citando inspiração do cinema-verdade de "Crônicas de um Verão", de Jean Rouch e Edgar Morin, Pasolini não tem medo de expor e, até certo modo, constranger seus entrevistadores, seja criança, adolescentes, velhos, mas especialmente o lado mais machista e carola da sociedade italiana. 

O principal ponto foi ver como algo supostamente tão pessoal quanto sexualidade consegue definir tão bem a complexidade de um lugar como a Itália, com sua claríssima divisão do norte burguês, intelectual (destaque para participação do grande Alberto Moravia), urbano, mas moralista com o sul agrário, atrasado, mas menos comedido. 

Eu só não entendi muito bem o epílogo, me pareceu um pouco destoante do apresentado anteriormente, mas valeu ver esta provocação do ainda iniciante Pasolini.

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(247)

Um dos últimos que me faltava ver de Lars von Trier, "Europa", de 1991, foi um desafio para mim. Premiado em Cannes com o Prêmio do Júri, chama a atenção com sua Fotografia belíssima, em preto e branco, e, em certos momentos, colorida em primeiro plano, como se estivéssemos realmente nos anos 1940, com as cores esmaecidas. As pessoas ressaltam esse apuro estético do filme, e meio que se conformam com ele, mas eu não. Afinal de contas, poucos anos depois Trier seria o principal expoente de um famoso Movimento que rejeitava justamente esse tipo de truque inorgânico.

"Europa" conta a história de um cidadão americano, de origem alemã, que, idealista, retorna ao país, justamente em 1945, para ajudar na reconstrução do pós-guerra. Ajudado por um tio, emprega-se em uma companhia de trem, que, vai ficar sabendo, serviu ao nazismo, embora hoje esteja vigiada/contornada pelos interesses norte-americanos. O ambiente na Alemanhã não é de paz, longe disso.

Há os remasnecentes nazistas, "lobisomens", que atuam como terroristas; há militares americanos; há pessoas ainda fugindo dos campos de concentração (em uma cena incrível, usando as roupas listradas dos campos, no vagão de última classe), há judeus sobreviventes teimando em ficar no país em vez de irem "para o deserto". O clima social é tenso! O cidadão idealista se vê - como toda pessoa que tenta ser impacial - no meio do jogo entre alemães nazistas e os novos senhores do país. É curioso pensar como Lars von Trier tem paixão por esse tipo de protagonista "inocente", "do bem", característica presente em "Ondas do Destino", "Dançando no Escuro", ou "Dogville", mas aqui trata-se deu uma figura masculina. 

Como gênero, confunde; é um drama de guerra "noir". Temos até a loira fatal, em meio às sombras de um clima policialesco. É engraçado ver os temas da Segunda Guerra embalados como um filme de Orson Welles. Filmes que, em geral, têm uma temática meio pobre, menor. Aqui não. Aqui o conteúdo social importa, embora eu tenha entendido menos do que eu gostaria de suas nuances histórico-sociais.

O filme é narrado por Max von Sydow, de forma hipnotizante. Mais um dos filmes de Trier com "narrador". 

Esperava mais.

Europa poster - Foto 1 - AdoroCinema

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(248)

Vi o simpático "Being There"/ "Muito Além do Jardim", de 1979, do diretor Hal Ashby. Peter Sellers, Shirley MacLaine, e Melvyn Douglas estão excelentes, rendendo ao último o seu segundo Oscar de Coadjuvante - ou, então, roubando a estatueta de Robert Duvall por "Apocalypse Now", como queiram.

Há vários filmes e livros sobre o o idiota "do bem", incluindo desde um clássico russo a um grande sucesso dos cinemas nos anos 1990. Mas aqui o filme é mais sobre as projeções que os outros fazem, do que sobre as características inatas do personagem. Para os outros, ele pode ser um sábio de poucas palavras, um amante compassivo, ou um amigo fiel.

O humor existe, mas também uma certa pena e uma certa condescendência. O protagonista, essa criança eterna,  é aficcionado por televisão, e assiste em determinada cena ao show do senhor Fred Rogers. Sintomático. Tive uma sensação parecida ao assistir a "Won`t You Be My Neighbor?" Uma aproximação entre simplicidade, inocência, humildade, bondade, e burrice. Há alguma ligação.

Amazon.com: Being There 27 x 40 Movie Poster - Style A: Lithographic  Prints: Posters & Prints

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(249)

De madrugada, influenciado por uma comentário de Susan Sontag em um ensaio, assisti a "Os Noivos", filme de 1963, do italiano Ermanno Olmi. Fiquei esbabacado! Que filme mais maravilhoso! Sou fã de filmes sobre a questão do trabalho, e esse me pegou de jeito. Que coisa mais linda!

O comentário de Susan é a sobre o quão direto um grande filme pode ser, sem que nos desperte uma "coceira interpretativa". É bem o caso. É tão direto, tão frontal, que entendemos tudo, tudo, completamente. 

Um trabalhador do norte italiano arranja trabalho em uma fábrica na Sicília, dos anos 1960. É uma chance de "subir de vida", para um "pobre desgraçado", como ele diz. O problema é que ele está noivo de uma jovem adorável, a quem conheceu em um salão de baile. Aquele ambiente careta, típico da época, em que todos se paqueravam a certa distância. Ou seja, a mudança de cidade implica um namoro a distância. Um possível fim de relações. Muitas saudades, e depois pouco assunto, dada a diversidade de vida.

Infelizmente o desenvolvimento econômico não se dá em todas as regiões, em todos os quadrantes. Gente tem sempre de partir. Mas isso sou eu elocubrando, com "coceira interpretativa". O bom é apreciar o trabalhador chegando a nova cidade, procurando um quarto de pensão, olhando a cidade sozinho, sem amigos, sem conhecer ninguém. Os domingos quase o matam de solidão, ou tédio. Quem nunca experimentou isso ao se deslocar? Não interpretei, me identifiquei. Já senti demais isso. "Em vez de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte", arremata Susan.

Ouve o protagonista comentários de outros trabalhadores infelizes; aprende o difícil labor; tem aula teórica para evoluir na profissão no fim da noite; faz troça com outros companheiros de pensão. Mas sempre a saudade da amada o pega em sonho, ou acordado, refletindo sozinho.

Maravilhosamente bem dirigido, bem montado. Pensei muito no estupendo filme brasileiro "Arabia", sobre como a necessidade do trabalho arrebenta, transforma, nossos planos individuais.

Um absurdo de entendimento sobre o que é a alma humana, a alma fora de seu lugar. 

Amei!

I fidanzati (1963) - Filmaffinity

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(250)

Ainda impressionado, fui atrás agora de outro filme de Ermanno Olmi, o seu segundo longa, muito premiado em Veneza, "O Posto", de 1961, também conhecido a menor como "O Emprego". Outro belíssimo filme a respeito do mundo do trabalho.

Um jovem pobre de uma cidade-satélite de Milão consegue uma oportunidade de tentar uma seleção para um grande complexo fabril. Acompanhamos seu acordar de madrugada - luzes acesas, frio - com a mãe e irmãos maiores preparando-se para trabalhar. Ele é saído da escola, e precisa contribuir com a despesa. Vemos ele nervoso na chegada ao local de teste, e, lá, conhece outros jovens que almejam o cargo, entre eles, uma bela garota (futura esposa do diretor). Fazem testes físicos, psicomotores, redação, e um teste de matemática (que engraçado, os personagens dizem que é fácil, mas todos erram a conta. Falam que é 24, mas é 26. Eu parei para resolver...Achei curioso esse "erro"). Ao sair, o protagonista e a moça conversam, ela meio arrogante, ele totalmente encantado com a menina, mas ambos se deseja boa sorte. Os dois passam! Os dois começam no emprego. Têm uniformes; têm colegas de trabalho ("Aqui é uma família", diz algum funcionário, como se lhe fizesse a corte); responsabilidades; "são alguém". É a vida que lhes sorri?

Acontece que a fábrica é gigante, e eles nunca se esbarram. Ele atua como mensageiro, ela como datilógrafa. Mas nunca se esbarram, nem no almoço. O amor não se cumpre. A desaparição da personagem feminina cria um buraco no filme, um vazio, que é o vazio emocional do garoto. Brilhante!  Foi maravilhoso ver um filme sobre a iniciação laboral conjugada com a iniciação amorosa. A juventude pode tudo. Só não contava com tantas barreiras do mundo real. O conto de fadas se desvanece, por que a vida é real e madrasta.

Excelente! Estou encantado com a sensibilidade desse diretor.

 

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3 hours ago, SergioB. said:

(249)

De madrugada, influenciado por uma comentário de Susan Sontag em um ensaio, assisti a "Os Noivos", filme de 1963, do italiano Ermanno Olmi. Fiquei esbabacado! Que filme mais maravilhoso! Sou fã de filmes sobre a questão do trabalho, e esse me pegou de jeito. Que coisa mais linda!

O comentário de Susan é a sobre o quão direto um grande filme pode ser, sem que nos desperte uma "coceira interpretativa". É bem o caso. É tão direto, tão frontal, que entendemos tudo, tudo, completamente. 

Um trabalhador do norte italiano arranja trabalho em uma fábrica na Sicília, dos anos 1960. É uma chance de "subir de vida", para um "pobre desgraçado", como ele diz. O problema é que ele está noivo de uma jovem adorável, a quem conheceu em um salão de baile. Aquele ambiente careta, típico da época, em que todos se paqueravam a certa distância. Ou seja, a mudança de cidade implica um namoro a distância. Um possível fim de relações. Muitas saudades, e depois pouco assunto, dada a diversidade de vida.

Infelizmente o desenvolvimento econômico não se dá em todas as regiões, em todos os quadrantes. Gente tem sempre de partir. Mas isso sou eu elocubrando, com "coceira interpretativa". O bom é apreciar o trabalhador chegando a nova cidade, procurando um quarto de pensão, olhando a cidade sozinho, sem amigos, sem conhecer ninguém. Os domingos quase o matam de solidão, ou tédio. Quem nunca experimentou isso ao se deslocar? Não interpretei, me identifiquei. Já senti demais isso. "Em vez de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte", arremata Susan.

Ouve o protagonista comentários de outros trabalhadores infelizes; aprende o difícil labor; tem aula teórica para evoluir na profissão no fim da noite; faz troça com outros companheiros de pensão. Mas sempre a saudade da amada o pega em sonho, ou acordado, refletindo sozinho.

Maravilhosamente bem dirigido, bem montado. Pensei muito no estupendo filme brasileiro "Arabia", sobre como a necessidade do trabalho arrebenta, transforma, nossos planos individuais.

Um absurdo de entendimento sobre o que é a alma humana, a alma fora de seu lugar. 

Amei!

I fidanzati (1963) - Filmaffinity

Eu também o vi recentemente e lendo seu relato, além do paralelo muito bem-lembrado de Arábia, me veio à cabeça as minhas recentes visitas ao "Wendy e Lucy", numa outra perspectiva geográfica e histórica, mas lidando com a perda de raízes a partir da necessidade de mudança em vista de uma tentativa de progresso e econômica e o doc do Pasolini "Love Meetings", neste caso por conta do contexto regional italiano, tanto em termos socioeconômicos como sexual. 

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(251)

Me assustei quando percebi que não tinha visto nenhum filme do Maior de Todos neste ano! Fui então com o difícil "O Silêncio", de 1963, que fecha a trilogia homônima, iniciada por Bergman, com "Através de um Espelho" e "Luz de Inverno". Curioso é que vejo mais relação deste filme com o futuro "Persona", em temas e relações conturbadas entre mulheres.

A incomunicabilidade se expressa de muitas maneiras neste filme. Desde o começo, quando as irmãs e sobrinho mal se falam, no trem de calor sufocante, passando por um país do qual não conhecem a língua, e o menino tenta foneticamente ler um aviso. No hotel (de corredores vazios) onde se instalam para descansar e seguir viagem, os funcionários precisam fazer mímica. Um tanque de guerra passa silenciosamente, repressivamente, pelas ruas da cidade europeia (e olha que o evento da Primavera de Praga é de 1968!).

As irmãs se odeiam em silêncio, para explodirem ao final, quando perceberemos mais nitidamente alusões a lesbianismo e incesto. Tanto ódio pelo passado, que nem diante da doença, ou do sexo violento, a paz reconciliatória (que não é silêncio) as encontrará. Talvez o menino tenha mais esperança de um futuro melhor.

É um filme difícil, mas muito bem filmado e inteligente. 

O Silêncio - 23 de Setembro de 1963 | Filmow

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Um tanto decepcionado aqui. 

Thomas Vinterberg receber indicação ao Oscar de direção pelo quê? Câmera na mão? Ele já fez isso melhor anteriormente. 

Não entendi muito bem a intenção aqui: beber pode levar ao descontrole? A falta de comunicação no relacionamento te leva a uma infelicidade que te leva à bebida? A solidão pode te fazer mais suscetível a ser autodestrutivo?

Todas são questões de respostas muito simples, distantes do que deveria ser o questionamento inicial, fora a total previsibilidade das ações. 

Se alguém merecesse uma indicação que fosse Mads Mikkelsen. 

 

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2 minutes ago, Muviola said:

Um tanto decepcionado aqui. 

Thomas Vinterberg receber indicação ao Oscar de direção pelo quê? Câmera na mão? Ele já fez isso melhor anteriormente. 

 

Incompreensível. Um dos piores filmes dele, na minha opinião.

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Baal (1970) é a releitura de Volker Schlöndorff para a obra homônima de Bertolt Brecht, sua primeira peça completa.

Quem dá vida a Baal é Rainer Werner Fassbinder, ainda jovem e acompanhado aqui de uma série de atores que fariam parte de sua trupe. Ele é uma figura um tanto ambígua, capaz de gerar as mais diversas reações nas pessoas ao redor: devoção, ojeriza, tesão. Ele é um furacão, destruindo a si mesmo e a todos que passam por seu caminho. 

Fassbinder o interpreta quase como se estivesse refletindo sua futura persona: anárquico, narcisista, sujo e fugindo de qualquer expectativa que tenham sobre ele.

Assim como boa parte da produção alemã da época, é uma reflexão sobre o estado incerto de um país ainda se tateando, Baal foi detestado pela esposa de Brecht, o que fez com que sumisse de circulação durante muitos anos. 

 

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(252)

Completando a tortura mental, "Rua do Medo: 1666 - Parte 3".

Odiei com força a primeira parte do filme, pois não conseguia acreditar como eles instalaram os personagens naquela época antiga, com todos os cacoetes modernos de atuação, postura, falas, gestos, comportamentos. Faltou muita direção de atores, em suma; enquanto o design, que eu critiquei na parte 2, esteve melhor, mais condizente.

Depois, a trama foi se resolvendo, e foi ficando melhor. Então, pra ser justo, acho que foi o melhor dos filmes/capítulos, para mim. [ A Isabela Boscov , de Veja, é da mesma opinião, que este foi o melhor]. Mas não significa para nada que seja grande coisa também.

Observo que se o filme 2 tivesse sido eliminado, não teria feito falta para o entendimento da trama.

OBS: Quem me conhece sabe que sou um colecionador inveterado de perfumes, então qual não foi a minha surpresa de haver uma propaganda do legendário "CK One", de Calvin Klein, a grande fragrância unissex de 1994 - aquele cheiro maravilhoso que não dura nada. Tipo, no meio de uma perseguição, a protagonista se perfuma. É patético!

Rua do Medo: 1666 - Parte 3 - 16 de Julho de 2021 | Filmow

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Hoje à tarde, "A Regra do Jogo", Jean Renoir, 1939. Ou o que conhecemos dele. Pois a história nos diz que o filme foi censurado na França, desaparecendo inclusive o que seria a versão original. O que nos chegou é essa comédia de costumes, sátira dos ricos. Pai de tantos filmes de crítica à burguesia, entre eles - um dos filmes do meu coração - "Gosford Park". 

Um letreiro faz questão de dizer que é passado às vésperas a Segunda Guerra Mundial. Mais que nos situar no tempo, realça a questão da superficialidade daquela gente toda, reunida em casa de campo belíssima, para promover uma festa da caça. O gigantesco plano da matança dos coelhos e faisões me faz lembrar como sofri ao ler as dezenas de páginas da caça em "Guerra e Paz" de Tosltói. Tenho certeza que há essa ligação, pois ali o "esporte" maldito também convivia com os prenúncios da guerra napoleônica. Cenas para realçar a insensibilidade e exibicionismo dos personagens.

O filme se faz especial na direção por conjugar muitos personagens, e assuntos até avançados para a época (como infidelidade conjugal), em um mesmo ambiente, e é notável como a direção se faz em planos abertos, com muita profundidade, acompanhando os atores no primeiro e no fundo do plano. 

Dito isso, o filme do Altman é muito melhor. Não tenho pudor cinematográfico em falar isso. É uma atualização muito mais chique, mais socialmente relevante (ao incorporar o mundo dos empregados com muito mais densidade e protagonismo), com mais diversão (na sempre deliciosa resolução do "Quem matou?"). Eu nem posso pensar muito no quanto me revolta Ron Howard ter ganhado o Oscar de Diretor naquele ano! Contra Altman, Lynch e Peter Jackson! É a atroz falta de gosto!

No filme de 2001, também situado nos anos 1930,o personagem de ofício sedutor que se incorpora à festa é um diretor (e um ator) da nova arte, o cinema. No filme de 1939, o personagem sedutor é um aviador que acaba de cruzar o Atlântico. Anoto isso por que, quanto às outras semelhanças, como a esposa infiel, são mais fáceis de ver.

Seja em que época for, é preciso sempre resolver os assuntos mais espinhosos com classe. Muita classe.

A Regra Do Jogo - Filme 1939 - AdoroCinema

 

 

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Inspiração para algumas obras importantes recentes, tais quais "Três Reis", "Sangue Negro", "Destacamento Blood" e até "Senhor dos Anéis", "Tesouro de Sierra Madre" é um dos exemplos mais fortes do cinema americano por excelência, em seus melhores tons. Além disso, é uma das primeiras produções de Hollywood filmadas em locação e isso faz uma sensível diferença no resultado final.

Humphrey Bogart é um desempregado americano no México da década de 20, atrás de esmolas e empregos até que esbarra com outro americano na mesma situação e ambos são passados são passados para trás numa oportunidade, mas então descobrem acidentalmente por meio de um senhor a possibilidade de encontrar ouro nas montanhas da redondeza de onde estão. Os três parte juntos para o garimpo. 

John Huston, adaptando o livro de mesmo nome quer mais do que mostrar a violência por trás do garimpo, ele quer extrair o que a chance da riqueza pode causar nos homens: cobiça, paranóia, decadência moral. 
Humphrey Bogart, na melhor interpretação sua que vi, passa por esta transformação entre o sujeito sem lá muita direção na vida, mas que tenta achar seu sustento de forma correta para uma versão absolutamente atormentada pela "febre do ouro", citada pelo veterano do garimpo Howard. Sua paranóia chega a níveis de famosos autocratas que temiam todos ao redor.

Apesar de haver sim julgamento moral (muito também por influência do Código Hays), John Huston não quer limitar o destino apenas à tragédia. A ironia também é parte deste teatro de fantoches, mais uma das falas notórias do personagem do pai de Huston. 

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Tenho um estranho fascínio por estes documentários que analisam vida e obra de grandes personalidades. Claro, o fascínio é pelo próprio personagem, mas o estranhamento citado é por eu desgostar da maior parte destes produtos. Boa parte deles não consegue distribuir de maneira satisfatória esta duplicidade, além do próprio formato de "cabeças falantes" ser um pouco cansativo. 

Até por isso, eu gostei da abordagem deste retrato do grandíssimo Arthur Miller por sua filha mais nova, Rebecca (também esposa de Daniel Day-Lewis). Desde o princípio, ela já aponta a dicotomia da figura do pai: para ela, é o sujeito meio bonachão, caseiro e carpinteiro; para o mundo, um colosso, dos maiores escritores do século XX. 

É justamente esta intimidade familiar, mostrada numa série de vídeos caseiros filmados desde a juventude de Rebecca até a morte do pai, que nos ajuda a enxergá-lo um pouco mais com os olhos da filha e há uma sinceridade latente em como isso é mostrado, diferente de ouvirmos apenas as "cabeças falantes".

Inclusive nisso, as cabeças que surgem (destaque para um emocional e fragilizado Mike Nichols) são importantes para o entendimento do homem e do mito. Da infância classe média-alta e a queda econômica por conta da Queda da Bolsa; as primeiras obras-prima, em especial a biográfica "Morte de Um Caixeiro Viajante"; a perseguição do Macarthismo, por mais que ele tenha abandonado desde cedo o Marxismo, que gerou sua segunda peça mais famosa "Bruxas de Salem"; e por fim, seus três casamentos, em especial o segundo, com Marilyn Monroe. Há carinho e há muita tristeza nas falas de Arthur Miller, seja no período imediatamente posterior à morte dela, seja já na sua velhice. 

Apesar do carinho, ela não deixa que os fatos problemáticos de seu pai sejam omitidos: traição no primeiro casamento, pai ausente dos primeiros dois filhos e principalmente abandono do irmão de Rebecca, Danny, nascido com Down. 

Por fim, acho especialmente inspirado o título, que soa simples, mas era que ele gostaria que estivesse em sua epígrafe: "Escritor"

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