Jump to content
Forum Cinema em Cena

O Que Você Anda Vendo e Comentando?


Tensor
 Share

Recommended Posts

(264)

Terminei a leitura de "Diário de um Pároco de Aldeia", romance de 1936, que Georges Bernanos concebeu na Espanha - em um dos mil endereços que teve ao longo da vida, inclusive na década de 1940 em Minas Gerais. Corri para ver a celebrada adaptação de Robert Bresson, datada de 1951. 

O estilo de seu "cinematógrafo" ainda não estava consolidado. Podemos dizer que este filme contém o embrião de suas características. Das mais notáveis, valeu-se de um ator, Claude Laydu, em seu primeiro filme, portanto, uma cara fresca, virgem, mas ainda sim, um ator. Um ator iniciante. Como observou Susan Sontag muito bem, um "ator" e não um "demonstrador", como viriam a ser os demais participantes de sua obra, os assim chamados "modelos". Os coadjuvantes também, todos atores. Mesmo assim, o filme tem muito de frio, régio, distante. Totalmente em consonância com as primeiras páginas do livro, a respeito do tédio, o tédio da paróquia do norte da França, para o qual o jovem e inexperiente padre é designado.

A trama foi seguida à risca. Como é um livro de confidências de um diário, o filme tem várias narrações. Mas isso nao é ruim. Deu mesmo a impressão que estávamos lendo um diário.

Hoje em dia, é considerado um dos mais importantes romances franceses do século XX, e um livro icônico para a Literatura Católica. Já ouvi religiosos recomendando aos fiéis sua leitura, para saber o que eles passam. É dizer: fofocas a respeito da figura do padre, o teste de sedução que sofrem por parte de algumas mulheres, suas dúvidas religiosas, suas dúvidas humanas a respeito do não aproveitamento da juventude, da vida (exemplificada na passagem do passeio de motocicleta)...

Meu ranking Robert Bresson:

1) "O Diabo, Provavelmente";

2) "Mouchette";

3) "O Batedor de Carteiras"

4) "Diário de um Pároco de Aldeia";

5) "O Dinheiro"

Diário de um Pároco de Aldeia - 7 de Fevereiro de 1951 | Filmow

Link to comment
Share on other sites

A Nuvem é um bom terror ecológico francês que aparentemente faz o mesmo que Hitchkock fez com Os Passaros, só que aqui no caso são gafanhotos sanguessugas. O filme tem uma vibe dramática bem legal e o melhor é a alegoria da transformação (com os gafanhotos) da personagem principal e sua interação com os filhos, todos muito bem interpretados. O plot lembra muito A Pequena Loja dos Horrores tocado como drama e depois vira horror com moral Hellraiser, sobre o sacrifício de "dar o sangue" pelos filhos, literalmente. É um filme dificil, diga-se de passagem, pois quem espera mortes desenfreadas não encontrará.. a pegada ta na relação dos bichos com o comportamento humano. Minha única observação é com seu desfecho, que achei abrupto demais. Visto na Netflix. 8,5-10

La Nuée - Film (2020) - SensCritique

 


The Colony é uma boa scy-fy pós-apocalíptica alemã que assisti e imediatemente lembrei do noventista Waterworld, com Kevin Costner, dadas as semelhanças. Pois é, mas este apesar de feito com orçamento merreca consegue ser bem mais efetivo que seu abonado correlato. O design de produção é um espetáculo, uma terra tomada por água, nevoeiro e muito brejo e a humanidade (ou que restou dela) morando em navios encalhados na areia, vai vendo. A atriz principal ta muito bem num papel similar ao de Charlton Heston no Planeta dos Macacos nesse mundo caótico, mas o "vilão" (e seus asseclas) são fraquinho. Curti o filme, mas acredito que a precariedade de sua produção o desfavoreça em alguns aspectos (tipo vestimentas, por exemplo), mas deixa-se ver de boa. 8,5-10

The Colony (2021) - TrailerAddict

Link to comment
Share on other sites

(265)

Um dos filmes mais loucos que já vi, o famosíssimo "A Cor da Romã", de 1969, do armênio Sergei Parajanov. Diz a sinopse que é a biografia de um poeta e trovador do Século XVIII, em 8 momentos, de sua infância atá sua morte. 

Obrigado por explicar, pois, na verdade, não há narrativa fílmica, como estamos acostumados. São performances artísticas, com música do Cáucaso, com planos extremamente simbólicos, herméticos. Pessoas em vestes talares, mostrando a complexa religiosidade local, ou pessoas extremamente maquiadas, ou com roupas folclóricas, ficam no centro da tela, olhando pra você, à meia-distância, enquanto seguram um pavão, ou um livro aberto...As posições de todos os figurantes na tela assemelham-se aos ícones russos, ou a iluminuras de livros: corpos esticados, parados, de frente à câmera... É uma loucura, um ataque ao significado. Mas é um ataque visual belíssimo, e instigante.

Compreendi fragmentos da vida do tal poeta, pois, aliás, quase não há diálogos. O poeta mesmo entra mudo e sai calado. A poesia é a vida dele. De menino, entre os carneiros, lavando as páginas dos livros, ou lavando os tapetes, para depois entrar pra cavalaria, e depois se casar (??), e vagar pelo interior... É uma viagem completa, que só consigo equiparar com "A Montanha Sagrada" do Alejandro Jodorowsky.

Mas é considerado um filme importantíssimo pois seu diretor foi silenciado, e censurado, pelos dirigentes do cinema soviético, na certa mais desejosos de alguma expressão realista. 

A Cor da Romã - 29 de Agosto de 1968 | Filmow

Link to comment
Share on other sites

Tempo é uma fantasia de horror bacana que te prende mesmo desde o início, se torna agoniante até seus 2/3 onde ta tudo indo muito bem. Mas daí vêm logo aquele final ou desfecho estilo Scooby-Doo e joga pá de cal onde nem deveria jogar... parece que ali ele quebrou toda tensão e intriga que construiu até então, ao tentar explicar tin-tin por tin-tin o que se viu. Não precisava disso. Bem ambientado, com planos sequências bem bolados, gore comedido e muito boa maquiagem de envelhecimento. As atuações estão ok, com destaque pro elenco mirim. Creio que o tempo de duração também prejudicou, tentando extrair até o sabugo da unha da boa premissa que não dava muito mais o que tirar, tipo um episodio estendido de Além da Imaginação. Creio que num curta de uma hora funcionaria bem melhor, mas o filme deixa-se ver de boa apesar desses poréns. Ainda assim, é um filme do Shy superior aos seus últimos trampos, principalmente ao ruinzinho Vidro. 8-10

Official poster for M. Night Shyamalan's 'Old': movies

 

Al Morir la Matinée é uma deliciosa homenagem ao horror gialo oitentista que tem sua procedência o Uruguay e não a Gringolândia! Este indie latino foi a grata surpresa porque é uma ode ao cinema e aos grandes mestres do suspense, onde não faltam referencias visuais a Hitchcock, De Palma, Fulci, Carpenter, etc.. percebe-se o amor do diretor ao gênero. A premissa se passa toda num cinema tipo o gostoso Matinê, do Joe Dante, mas aqui é uma versão slasher desse filme. As atuações estao corretas, mas não precisa mais. E as mortes são todas criativas, atente pro cara que morre degolado fumando com fumaça saindo pelo corte!? Genial! O tempo enxuto e a direção de arte avermelhada não poupa homenagens a Argento. Acho que só faltou um pouco mais de putaria porque as uruguaias do filme são uma belezura só mas aí seria pedir demais. Grata boa surpresa da semana, um filme que não dava nada que ja valeu a bizoiada. Atente pro filme dentro do filme e as boas sacadas visuais entre ambos. 9-10

white joto forever. on Twitter: "Hoy doy por iniciado mi ✨ thread de  pósters del 2021 ✨… "

Link to comment
Share on other sites

(266)

Leão de Ouro em Veneza, em 1994, "Vive l`Amour" era apenas o segundo longa-metragem do malaio Tsai Ming-liang. Ganhou o prêmio pelos últimos vinte minutos. Não que o filme antes disso fosse ruim, mas os vinte minutos finais desse filme são um es-cu-la-cho! Caramba! Os deuses do cinema, em silêncio, agradecem!

Três jovens; uma abdicada mulher corretora de imóveis; um tímido e solitário vendedor de jazigos; e um sedutor camelô que não quer nada com a vida; vão partilhar um mesmo apartamento em Taiwan, sem que isso signifique que estão juntos, que estão vivendo juntos, que são os proprietários, que se amam, que são amigos. Ou que se falem! Aliás, a primeira fala do filme aparece no minuto 23. E mesmo assim serão poucas. O filme é silencioso, solitário, introspectivo, doente da cabeça, doente da alma, como seus personagens.

A metrópole contemporânea exige do jovem: Consumo, amor, sucesso profissional. Tsai está sempre mostrando o fracasso humano diante dessas metas urbanas. Aqui, era o princípio de sua carreira. Não tem chuva. Mas já há uma cena de torneira vazando, escadas, uma banheira, uma geladeira pobrinha. E há uma melancia suculenta, também, ora veja, vocês podem imaginar...(O singular "O Sabor da Melancia" é de 2005, anoto). O prédio onde há o apartamento em questão não está deteriorado como nas obras seguintes do diretor ("Eu Não Quero Dormir Sozinho", "O Buraco", etc) pelo contrário, é um apartamento que os três não podem ter. Então, se não podem tê-lo, eles o usam como abrigo. Para uma tentativa de suicídio. Para sexo casual. Para vazias masturbações. 

Ou para uma masturbação e um sexo casual, juntos. E separados. 

Brilhante é pouco!

Meu ranking Tsai Ming-liang se atualiza:

1) "Adeus, Dragon Inn";

2) "Rebeldes do Deus Néon";

3) "O Sabor da Melancia";

4) "Cães Errantes";

5) "Vive L`Amour";

6) "O Rio"

7) "Eu não Quero Dormir Sozinho"

8 ) "O Buraco"

9) "Que Horas são aí?"

10) "Madame Butterfly"

Vive L'Amour poster - Foto 9 - AdoroCinema

Link to comment
Share on other sites

(267)

Muito curiosamente a Palma de Ouro em Cannes em 1978 foi para o italiano Ermanno Olmi, e seu belíssimo "A Árvore dos Tamancos". Escrevo curioso, pois no ano anterior, em 1977, a Palma tinha ido para um primo estético, "Pai Patrão", dos irmãos Taviani. Lá como cá, a pobreza rural italiana. Mas as similitudes não avançam mais do que isso.

"A Árvore dos Tamancos" é um filme semidocumental de três horas encenado por camponeses de verdade tentando reproduzir como era a Bergamo rural da virada do século XIX. A Itália longe da industrialização, exclusivamente rural. Mostra como as enormes famílinas viviam em comunidade, lidando com o milho, o tomate, as criações; enquanto à noite, se encontravam no celeiro, para contar histórias, paquerar sutilmente, e rezar o rosário. A fotografia é incrível, em luz natural. O que quer dizer que à noite ele quase se apaga. Em um neorrealismo tardio, os "atores" passam muita verdade a cada gesto, a cada fala. Seus rostos contam uma história de tristeza e dignidade. 

O filme não tem uma história principal, são várias paralelas. A que justifica o título é a de um pai que faz questão que o filho frequente a escola (Justamente o contrário de "Pai Patrão"), para que possa ter um futuro melhor, mas a caminhada é longa, e falta dinheiro para um novo sapato...Fará então um do toco de uma árvore. Há a história de uma viúva com muitos filhos, pouco dinheiro, e cuja vaca está doente, e põe-se a pedir um milagre. Há uma linda história amorosa, no qual homem e mulher, ambos superdignos, mal podem trocar um olhar, mal podem namorar, se conhecerem, sem que virem alvo das atenções castradoras da comunidade, que resultará em um mal-estar sexual quando se casarem. E assim vai...O que foi difícil, para mim, são as cenas de sofrimento animal, como degolar um pato; matar um porco, jogar água fervendo em sua pele, dissecá-lo; o manejo abrupto com as vacas...Ai! Não dá pra mim assistir a isso....

No meio do filme, acontece uma quermesse, uma feira popular, um dos poucos momentos de diversão da comunidade, abrindo a estação do verão. E nela podemos ver um homem fazendo um discurso políitico, um discurso socialista. Mais à frente, vemos, sutilmente, anarquistas sendo presos. É a Itália que, mesmo sem se industrializar, ou seja, pulando etapas marxistas, já recebia influências dessas matizes econômicas, como forma de superar sua pobreza, seu atraso. Ideias que eram perseguidas, que viravam alvo da polícia.

É deste ambiente, extremamente bem-retratado, e é dessa população, com seu dia a dia fielmente exposto, que eclodirá o intenso movimento migratório aqui para o Brasil, e América do Sul.  Para todos os descendentes de italianos, um filme, portanto, obrigatório.

Ademais, vale muito bem observar como outros cinemas, diferentes do nosso, mostram a pobreza. Sem proselitismo, com mais dignidade, e verdade.

A Árvore dos Tamancos - 21 de Setembro de 1978 | Filmow

Link to comment
Share on other sites

(268)

Eu tinha achado o primeiro "A Barraca do Beijo" ruim; o segundo eu achei melhor; mas esse "A Barraca do Beijo 3", que encerra a série, é simplesmente atroz! Reproduzo o que achei do segundo filme, e que vale para este terceiro:

"Sempre escrevo como a comédia romântica norte-americana tende a ser superescrita, com uma sucessão de "deixas" a todo momento, geralmente interpretadas com exagero nos semblantes. Outra característica é a supermontagem. O filme é hipereditado para parecer jovem, moderno, urbano, comercial, e para impedir a reflexão. "

"...tamanho sucesso deve ter alguma causa. Aqui, são duas; a beleza de capa de caderno escolar do ator australiano Jacob Elordi (nada adolescente, 24 anos), já alcançando voos maiores na carreira; mas, deve-se, sobretudo ao enorme carisma, beleza, e talento da atriz Joey King.  Essa menina é realmente ótima."

Ainda acho a protagonista muito boa. Mas quanto ao galã, dessa vez se nota o quanto está desconfortável com o papel, sem muito o que fazer, velho demais para a temática, cansado de ser bonito.  

Mas o que estraga esse filme é o quanto o conflito principal é ridículo! Até para um público teen. A amizade não pode ser equiparada ao amor. E nem é caso de hierarquia, são aspectos diferentes da vida. Qualquer pessoa entende isso. Logo, o sofrimento da menina é incompreensível, bobo, e completamente inverossímil.  

Não só o conflito inexiste efetivamente na vida real. Como a vida desses "jovens" é completamente falsa. Festas, parques, encontros acidentais atrás da placa de Hollywood (eu dei risada nessa hora!), roupas coloridas, pais descoladíssimos...Tudo é falso, e inventado.

Parece que quiseram estender o infantil conto de fadas para o público da pré-adolescência, porém os grandes filmes a retratarem essa negligenciada parte da vida, como "Oitava Série", estão apostando em tratá-los como seres pensantes, dignos realmente de atenção.

Horrível, Netflix!

Barraca do Beijo 3: Netflix divulga 1º trailer do filme; veja! - TecMundo

Link to comment
Share on other sites

(269)

Tanto alvoroço em torno de "The Worst Person in the World", incluso o prêmio de Melhor Atriz em Cannes neste ano, e rumores de indicação ao Oscar Internacional, me fizeram voltar ao maravilhoso "Oslo, 31 de Agosto", de 2011, do primo de Lars von Trier, o norueguês, nascido na Dinamarca, Joachim Trier.  Não gosto muito de "Mais Forte que Bombas", de 2015 (apenas de uma cena em particular), mas este aqui é lindíssimo.

Em termos cinematográficos, uma atualização de "Trinta Anos Esta Noite" - aquela coisa sublime de Louis Malle. Um cara de 34 anos, recuperando-se de um vício em drogas em uma clínica rural, é liberado para prestar uma entrevista de emprego em Oslo. Comparece, se dá mal (Numa cena muito bem construída cujo foco é o apagamento de sua vida corricular depois do ano de 2005. Que dor deve ser passar por uma entrevista assim) e aproveita sua reinvestida na cidade, para rever certos amigos e um ex-amor. Tudo é filmado sem alarde, sem descontrole, sem brutalidade, ou desespero dramático, mas sim com muita elegância. 

A atuação do protagonista norueguês Anders Danielsen Lie é excelente, mas o mérito maior é da direção. É lindo como Trier conseguiu filmar a cidade vazia, ao amanhecer, ou de madrugada, e o quanto isso suscita sentimentos no personagem, como, por exemplo, "não haverá ninguém para amá-lo", na cidade, como ele desperdiçou tudo, como ele ficou para trás. A incrível cena da cafeteria de Maurice Ronet, no clássico francês, é repetida aqui, dessa vez com diálogos, em um bar nórdico. Não tem a música de Erik Satie, mas a trilha é muito bonita também.

Para mim que saio (saía) muito, reverencio um diálogo em que o cara diz para uma garota que está interessado, que ela terá 1000 noites como aquela e depois não se lembrará de nada. É bem por aí! Com certeza, saí mais de 1000 vezes, e mal poderia me recordar de um único flash da grande maioria.

Estou ansioso pelo novo filme dele.

Oslo, 31 de Agosto poster - Foto 2 - AdoroCinema

Link to comment
Share on other sites

The Green Knight é uma curiosa adaptação de um conto arturiano tão estranho quanto envolvente por causa dessa mesma estranheza. É uma fábula sombria com fotografia linda onde a atmosfera e o climão gerado falam mais alto que os diálogos e a ação. As interpretações do elenco estelar estão ok, com destaque pro Dev Patel, e a pegada é meio de filme independente, porque o filme tem umas quedas de ritmo nervosas. Resumindo, é um filme medieval diferente, um Senhor dos Aneis mais alternativo e pode que não seja do agrado geral. É 8 ou 80 e por isso dou apenas 8.kkkkkk 8-10

The Green Knight ganha pôster inédito – Geeks In Action- Sua fonte de  recomendações e entretenimento!


 

The Boy Behind the Door é um bom thriller indie de horror sobre sequestro que parece ser uma versão sinistra de Esqueceram de Mim, onde o ponto positivo é judiar e judiar mesmo dos dois moleques sequestrados, algo que Hollywood geralmente edulcora ou prefere não mostrar. Tem outra pegada interessante ao esconder o rosto do vilão (ótimo!) por movimentos de câmera, apenas pra revelá-lo em tom de surpresa em relação a outra minoria mimizenta hollywoodiana. O filme é bem filmado e te prende desde o primeiro momento. Só achei o moleque negrinho fraco em relacão ao outro, infinitamente superior. 8-10

Crianças tentam escapar de sequestrador em “The Boy Behind the Door” |  Trilha Do Medo

Link to comment
Share on other sites

(270)

Mais um Edward Yang para a conta, em preparação para encarar as quatro horas de "Um Dia Quente de Verão". Vi o cultuado, e por isso, restaurado pela World Cinema Foundation de Scorsese, "História de Taipei", de 1985.

Gostei bastante, embora tenha de encarar todas as dificuldades de sempre, aquele estilo vagarosíssimo, bebendo em Antonioni, com espelhamentos entre o interior dos personagens e o núcleo urbano, e muitas linhas narrativas.

Acompanhamos especialmente um casal de namorados, cujo o homem não tem glórias profissionais, preso que está ao passado juvenil de jogador de Beisebol. Por não conseguir se ligar em outra coisa, não tem dinheiro, não tem ambição, ganha pouco, e vive no passado. Já a mulher é seu contrário, desejosa de mais espaço no mercado imobiliário, desejosa de se mudar para os Estados Unidos, desejosa de mais. Socialmente, o conformismo do homem está ligada às tradicões ancestrais de Taiwan, já a ambição da mulher está ligada à ocidentalização da ilha rebelde. É um espelhamento.

Daria uma tese a posição das mulheres no filme. Pois desde a protagonista vemos um desejo por mais autonomia, por mais liberdade. Sua mãe, se bem entendi, quer se separar de seu pai, um cara cheio de dívidas. Sua irmã é vidrada em propagandas japonesas (e não em programas tradicionais da ilha), gosta de boates, gosta de música estrangeira. A protagonista ainda tem a oportunidade de se apartar da relação infrutífera, e se relacionar com outro cara do trabalho. Por sua vez, um amigo dos tempos da escola do protagonista, antigo parceiro de Beisebol, foi abandonado pela mulher, e precisa cuidar de seu filho bebê. É dizer: São as mulheres escapando da vida monolítica da tradição oriental.

Não registrei ainda que o protagonista é vivido por Hou Hsiao-Hsien, sim, o cultuado diretor. Ele, Yang, e Tsai Ming-liang formam a trinca do que é o cinema independente da Ilha. Ele está muito bem como ator. 

Particularmernte, vejo mais identidade entre Yang e Hsien: na questão do rítmo, no corte, e na orquestração da luz; e vejo mais potência artística e emocional em Tsai. Pelo menos para mim.

História de Taipei - 1985 | Filmow

Link to comment
Share on other sites

(271)

"N`um vou nem falar nada"!!

Segundo longa-metragem de Pasolini, "Mamma Roma", de 1962, talvez seja seu trabalho mais acessível. Muito difícil não gostar da história de uma mãe que tenta dar o melhor para o filho, principalmente quando a figura da mãe é interpretada de um jeito tão escadaloso, emocional, e grandioso, como Anna Magnani aqui o faz. Uma interpretação maravilhosa, por certo, mas num papel que ela estava acostumada a fazer, em sua bela carreira. Particularmente, adoro ela em "Vidas em Fuga", de 1960, do Sidney Lumet.

Voltando ao clássico neorrealista, a paisagem principal é um amplo bairro na periferia de Roma, que, é dito em certo momento, foi construído para os trabalhadores na época de Mussolini. Campinho de futebol, muitos terrenos baldios, matagais, um ar de cidade pequena...Me identifico com isso, por também ter sido criado em um bairro muito afastado. E também havia em meu bairro a menina com quem os carinhas começaram cedo suas iniciações sexuais, sendo que ela era desprezada também pelas outras meninas, e, da mesma forma que no filme, era considerada um perigo por todas as mães (com medo de uma gravidez, um desvio de rota para os seus filhos). O filme acaba que é sobre isso: São as histórias de vida se repetindo, o perigo da repetição dos destinos. Amei relembrar a ambiguidade sobre quem é o pai do garoto, cujo personagem recebeu o mesmo nome do ator, Ettore Garafolo, em seu primeiro papel, resgatado de uma cantina onde trabalhava como garçom, cantina que Pasolini frequentava. Que legal então fazer a cena com o personagem trabalhando como tal em seu primeiro emprego.

O final do filme talvez se desvie um pouco do tom da narrativa. Mesmo assim, um filme que verdadeiramente marca as pessoas, e que é uma bela entrada para o cinema do diretor.

Os sustos virão mais à frente.

Mamma Roma poster - Foto 5 - AdoroCinema

Link to comment
Share on other sites

Viúva Negra 

Que decepção esse filme hein. Nem lutas da Viúva em grande estilo teve ao menos. Muita conversa sobre família, que aliás que família a dela hein. Algumas cenas de ação, sim são boas, mas eu o mínimo que se espera. Mas sem empolgar muito. E ainda invez de meter uma vilā badass, foram humaniza-la pra acabar de ferrar com tudo. Triste despedida da Viúva Negra. 

Link to comment
Share on other sites

(272)

Vi nesta manhã de domingo "Chorão: Marginal Alado", do diretor Felipe Novaes, disponível na Netflix. Como arte de documentário, um trabalho normal, baseado em vídeos e depoimentosÉ um trabalho sem linguagem, arroz com feijão. Mas como a figura fala alto ao meu coração, acabei gostando e dando like.

Curiosamente, eu estava justamente em Santos, quando o Chorão morreu. Além da tristeza enorme que senti, foi muito comovente testemunhar  a reação da cidade. A orla ficou diferente, as zonas de skate encheram-se, as pessoas só falavam disso, os carros passavam com o som dos caras no máximo, circulou às presas uma edição especial - de Veja? , de Isto é? - agora não me lembro - para o balneário. Dava para perceber a cidade sofrendo. A temporada na cidade me deu uma nova compreensão das letras dele. Por exemplo, vou ficar só nisso, "Meu escritório é na Praia". É claro, na leitura mais óbvia, aquela linda orla é um paraíso para os skatistas e para os jovens. Mas por lá entendi também que Santos não tem propriamente um centro financeiro. A vida mesmo se orienta inteira para o mar.

No doc são tocadas as principais faixas, com exceção de "Céu Azul", que eu amo, e marcou um tempo difícil da minha vida em 2011. Não se mergulha muito nas músicas individualmente. É mostrado sim o processo criativo, caótico, e impressionantemente rápido. A gastança exagerada também é só citada, mas poderia ter sido exemplificada. A questão das drogas é tratada só ao final, até com discrição.

Entre os testemunhos, Serginho Groisman faz as melhores observações. João gordo conta as histórias mais engraçadas.

A energia intensíssima do Chorão me chamava a atenção, mas gostava mesmo era da voz dele: Meio rouca, "cansada", suja, e masculina.

Linkando com a recente Olimpíada, Pedro Barros homenageou o músico com sua medalha de Prata. Sua música e o Skate estarão juntos para sempre.

Chorão: Marginal Alado poster - Foto 1 - AdoroCinema

Link to comment
Share on other sites

34 minutes ago, SergioB. said:

(272)

Vi nesta manhã de domingo, "Chorão: Marginal Alado", do diretor Felipe Novaes, disponível na Netflix. Como arte de documentário, um trabalho normal, baseado em vídeos e depoimentosÉ um trabalho sem linguagem, arroz com feijão. Mas como a figura fala alto ao meu coração, acabei gostando e dando like.

Curiosamente, eu estava justamente em Santos, quando o Chorão morreu. Além da tristeza enorme que senti, foi muito comovente testemunhar  a reação da cidade. A orla ficou diferente, as zonas de skate encheram-se, as pessoas só falavam disso, os carros passavam com o som dos caras no máximo, circulou às presas uma edição especial - de Veja? , de Isto é? - agora não me lembro - para o balneário. Dava para perceber a cidade sofrendo. A temporada na cidade me deu uma nova compreensão das letras dele. Por exemplo, vou ficar só nisso, "Meu escritório é na Praia". É claro, na leitura mais óbvia, aquela linda orla é um paraíso para os skatistas e para os jovens. Mas por lá entendi também que Santos não tem propriamente um centro financeiro. A vida mesmo se orienta inteira para o mar.

No doc são tocadas as principais faixas, com exceção de "Céu Azul", que eu amo, e marcou um tempo difícil da minha vida em 2011. Não se mergulha muito nas músicas individualmente. É mostrado sim o processo criativo, caótico, e impressionantemente rápido. A gastança exagerada também é só citada, mas poderia ter sido exemplificada. A questão das drogas é tratada só ao final, até com discrição.

Entre os testemunhos, Serginho Groisman faz as melhores observações. João gordo conta as histórias mais engraçadas.

A energia intensíssima do Chorão me chamava a atenção, mas gostava mesmo era da voz dele: Meio rouca, "cansada", suja e masculina.

Linkando com a recente Olimpíada, Pedro Barros homenageou o músico com sua medalha de Prata. Sua música e o Skate estarão juntos para sempre.

Chorão: Marginal Alado poster - Foto 1 - AdoroCinema

Falando em Olimpíadas, o Kelvin é de Santos (ou Guarujá, não me lembro) e ele falou que não ouvia nada no seu fone que leva ao ouvido, mas que se ouvisse seria Charlie Brown. 

Link to comment
Share on other sites

Filme que fez Denis Villeneuve ficar conhecido para a cinefilia mundial, "Polytechnique" reencena o massacre que houve nesta faculdade em Montreal, em 1989.

Como qualquer filme com esta temática, é difícil não fazer comparações com "Elefante". Apesar de achar que a obra de Gus Van Sant está muito acima, a abordagem é distinta. 

O assassino tinha intenção de matar mulheres por causa do "feminismo" e Villeneuve foca em três pontos: o assassino em sua preparação e na própria matança; duas amigas, em especial uma delas (muito parecida com Marjorie Adriano, por sinal) que se prepara para uma entrevista num ambiente machista; e outro estudante, próximo às duas amigas anteriores. 

Confesso que por alguns momentos estranhei a montagem, porque o filme claramente tem a mensagem apontando a doença do antifeminismo, mas durante boa parte do tempo o foco vai para a caçada do assassino e a reação do terceiro estudante, usando as mulheres como vitimas sem nome.

Por fim, ele volta as atenções para a personagem feminina principal, ainda que usando um discurso meio superficial, para não dizer problemático: uma "conversa entre mães". 

images - 2021-08-22T231107.183.jpeg

Link to comment
Share on other sites

On 9/23/2020 at 7:21 PM, SergioB. said:

Diferentemente de outros filmes, em que os motivos do atirador ficam meio "no ar", aqui a motivação é clara. O atirador era um homem de 25, talvez incel, misógino, que atribuía às dificudades de sua vida ao movimento feminista, assim, covardemente, todas as vítimas foram apenas mulheres. 

Então é aquela brutalidade, aquele desespero pelos corredores, aquela correria, mas, como filme, o resultado é meio fraco. Não me impressionou. Não se incursiona pela vida pregressa do autor, nos quais as questões poderiam ser ao menos debatidas (nunca justificadas!). Prefere-se  enfocar a tenacidade e inteligência de uma determinada aluna do curso, mas que infelizmente é uma personagem painel, fictícia. Como eu escrevi acima, fica claro o motivo, mas não quem era a pessoa do atirador. E, por respeito as vítimas, elas são uma representação fictícia do sucedido. Não gostei disso. Houve muito respeito e pouca verdade.

É mais um documento de homenagem às vítimas, e familiares, e funcionários da escola, do que qualquer outra coisa.

Também achei fraco. Meu comentário sobre o filme, @Muviola.

Link to comment
Share on other sites

(273)

Decepção enorme para mim! Sempre quis ver "Longe Deste Insensato Mundo", de 1967, feito pelo genial John Schlesinger, diretor de filmes extraordinários, como os posteriores "Perdidos na Noite", "Domingo Maldito", e "Maratona da Morte". É uma adaptação de um romance de época, do inglês Thomas Hardy, e conta com um elenco formidável: Julie Christie, Alan Bates, Peter Finch, e Terence Stamp.

Ou seja, tinha tudo para ser bom, mas é maçante e "estranho". Segundo a conhecida sinopse, trata-se de uma bela jovem, que herda uma fazenda de um tio, e passa a comandá-la sozinha, com sua luminosa personalidade e carisma. Tais predicados conquistam a todos, e ela passa a ser cortejada por 3 homens: Um nobre detentor de muitas terras; um soldado cafajeste; e um agricultor de alma nobre. Tal como na Inglaterra do Século XIX, ou no Brasil do século XXI, é claro que ela faz a escolha errada.

É um romance de época mesmo, não dos dias de hoje. A protagonista vira uma boba, uma otária ao longo do filme. Não dá pra acreditar. É justamente o caminho oposto do que se faria hoje: da dependência à independência. Seria até curioso testemunhar uma jornada inversa, fora do nosso habitual de "lacração", mas são quase 3 horas de decisões tolas, para, no final, haver algum regozijo. Tudo é muito estranho, e repentino. As coisas mais importantes acontecem em 2 segundos, e acabou. Dá-se um corte para a etapa seguinte.

O filme tem algumas movimentos de câmera ousados, como trocar as lentes, para grande angulares, no momento em que os personagens se embriagam e ficam tontos. Mas nada demais.

Um épico de fazenda, cujas decisões românticas são difícieis de aceitar, no qual foi eliminado qualquer teor de avanço social, depois dos primeiros 20 minutos.

A liderança feminina esvazia-se em nome de um amor, que nunca, jamais, é necessário, para uma mulher.

Far from the Madding Crowd (1967) British dvd movie cover

 

Link to comment
Share on other sites

2 hours ago, SergioB. said:

(273)

Decepção enorme para mim! Sempre quis ver "Longe Deste Insensato Mundo", de 1967, feito pelo genial John Schlesinger, diretor de filmes extraordinários, como os posteriores "Perdidos na Noite", "Domingo Maldito", e "Maratona da Morte". É uma adaptação de um romance de época, do inglês Thomas Hardy, e conta com um elenco formidável: Julie Christie, Alan Bates, Peter Finch, e Terence Stamp.

Ou seja, tinha tudo para ser bom, mas é maçante e "estranho". Segundo a conhecida sinopse, trata-se de uma bela jovem, que herda uma fazenda de um tio, e passa a comandá-la sozinha, com sua luminosa personalidade e carisma. Tais predicados conquistam a todos, e ela passa a ser cortejada por 3 homens: Um nobre detentor de muitas terras; um soldado cafajeste; e um agricultor de alma nobre. Tal como na Inglaterra do Século XIX, ou no Brasil do século XXI, é claro que ela faz a escolha errada.

É um romance de época mesmo, não dos dias de hoje. A protagonista vira uma boba, uma otária ao longo do filme. Não dá pra acreditar. É justamente o caminho oposto do que se faria hoje: da dependência à independência. Seria até curioso testemunhar uma jornada inversa, fora do nosso habitual de "lacração", mas são quase 3 horas de decisões tolas, para no final, haver algum regozijo. Tudo é muito estranho, e repentino. As coisas mais importantes acontecem em 2 segundos, e acabou. Dá-se um corte para a etapa seguinte.

O filme tem algumas movimentos de câmera ousados, como trocar as lentes, para grande angulares, no momento em que os personagens se embriagam e ficam tontos. Mas nada demais.

Um épico de fazenda, cujas decisões românticas são difícieis de aceitar, no qual foi eliminado qualquer teor de avanço social, depois dos primeiros 20 minutos.

A liderança feminina esvazia-se em nome de um amor, que nunca, jamais, é necessário, para uma mulher.

Far from the Madding Crowd (1967) British dvd movie cover

 

Tem uma versão nova, do Thomas Vinterberg com Carey Mulligan como a mulher cortejada, mas eu tampouco vi. Imagino que tente atualizar este papel feminino, mas pensando que é um filme de repercussão inexistente, não me parece que tenha sido bem-sucedido. 

Link to comment
Share on other sites

21 minutes ago, Muviola said:

Tem uma versão nova, do Thomas Vinterberg com Carey Mulligan como a mulher cortejada, mas eu tampouco vi. Imagino que tente atualizar este papel feminino, mas pensando que é um filme de repercussão inexistente, não me parece que tenha sido bem-sucedido. 

Pois é. Eu o posterguei até conseguir encontrar e ver o original. Agora perdi a vontade. Risos.

Link to comment
Share on other sites

(274) 

Filme mais fraco que eu já vi do húngaro István Szabó, "Atrás da Porta", de 2012, é uma dramédia sobre o relacionamento entre uma escritora iniciante e uma empregada doméstica mais velha, ranzinza, cheia de peculiaridades e traumas de guerra.

O texto é formulaico, noveleiro, e meio cafona, mas o pior é ver a atuação da Helen Mirren. Sinceramente, eu acho que ela atua mal em muitos filmes. Estou longe de achar que ela é uma atriz impecável, por mais que ela sim já esteve realmente digna do adjetivo em "A Rainha", "Gosford Park", e "As Loucuras do Rei George". Às vezes dá pra notar um fingimento técnico em seu rosto, algo automático, e não emoção de dentro pra fora.

Não tem nada na direção que me chame a atenção, e estou falando de um cara que fez "Mephisto" - aquela coisa!! E o pior é que o filme tem muito pouco a dizer sobre o horror que os húngaros passaram na Segunda Guerra, ou muito pouco a dizer sobre o sabido colaboracionismo com os nazistas por parte da população.

Muito ruim.

Atrás da Porta - 2012 | Filmow

Link to comment
Share on other sites

Demonic é a fraquíssima incursão do Neill Blomkamp, do ótimo Distrito 9, no horror sobrenatural. E coloca fraca nisso! Imagina a mistura de O Exorcista com A Cela.. é isso! Tem uma ou outra boa idéia, mas é tudo tocado de forma genérica, previsível e nada empolgante. Com atuações razoáveis do elenco desconhecido, parece que foi mais uma incursão do diretor em dar trabalho pirotécnico de rodo á sua empresa de FX, efeitos estes que não são lá tudo isso. Na boa, dá pra ver sim.. mas é um produto tipico da Blumhouse que dispensava a grife do diretor. Uma pena porque deste filme esperava muito mais. 7,5-10

IFC Midnight على تويتر: "It's not a dream. It's not reality. See  #DemonicMovie in theaters and on demand August 20… "


 

Honeydew é um "horror-slasher-cabeça" até demais da conta, uma espécie Massacre da Serra Elétrica intimista e comedido... se é que existe isso. É um filme mais sensorial (a equipe de som está de parabéns!) que mantém o interesse até a metade, porque depois cai ladeira abaixo em interesse e apatia. na boa, demora muito pra acontecer alguma coisa de fato e quando acontece é de forma bem frouxa. O filho do Spielberg ate se empenha como ator mas é bem fraquinho, mas a atriz que faz a velha é muito boa e de meter um puta cagaço. Taí um horror alternativo que so vale pela embalagem, mas isso não basta, pelo menos pra mim. 7,5-10

Chris on Twitter: "Thrilled to share our new poster for the truly stomach  churning horror film, Honeydew. https://t.co/RbC0VDDqum" / Twitter

Link to comment
Share on other sites

On 8/20/2021 at 6:11 PM, SergioB. said:

(270)

Mais um Edward Yang para a conta, em preparação para encarar as quatro horas de "Um Dia Quente de Verão". Vi o cultuado, e por isso, restaurado pela World Cinema Foundation de Scorsese, "História de Taipei", de 1985.

Gostei bastante, embora tenha de encarar todas as dificuldades de sempre, aquele estilo vagarosíssimo, bebendo em Antonioni, com espelhamentos entre o interior dos personagens e o núcleo urbano, e muitas linhas narrativas.

Acompanhamos especialmente um casal de namorados, cujo o homem não tem glórias profissionais, preso que está ao passado juvenil de jogador de Beisebol. Por não conseguir se ligar em outra coisa, não tem dinheiro, não tem ambição, ganha pouco, e vive no passado. Já a mulher é seu contrário, desejosa de mais espaço no mercado imobiliário, desejosa de se mudar para os Estados Unidos, desejosa de mais. Socialmente, o conformismo do homem está ligada às tradicões ancestrais de Taiwan, já a ambição da mulher está ligada à ocidentalização da ilha rebelde. É um espelhamento.

Daria uma tese a posição das mulheres no filme. Pois desde a protagonista vemos um desejo por mais autonomia, por mais liberdade. Sua mãe, se bem entendi, quer se separar de seu pai, um cara cheio de dívidas. Sua irmã é vidrada em propagandas japonesas (e não em programas tradicionais da ilha), gosta de boates, gosta de música estrangeira. A protagonista ainda tem a oportunidade de se apartar da relação infrutífera, e se relacionar com outro cara do trabalho. Por sua vez, um amigo dos tempos da escola do protagonista, antigo parceiro de Beisebol, foi abandonado pela mulher, e precisa cuidar de seu filho bebê. É dizer: São as mulheres escapando da vida monolítica da tradição oriental.

Não registrei ainda que o protagonista é vivido por Hou Hsiao-Hsien, sim, o cultuado diretor. Ele, Yang, e Tsai Ming-liang formam a trinca do que é o cinema independente da Ilha. Ele está muito bem como ator. 

Particularmernte, vejo mais identidade entre Yang e Hsien: na questão do rítmo, no corte, e na orquestração da luz; e vejo mais potência artística e emocional em Tsai. Pelo menos para mim.

História de Taipei - 1985 | Filmow

Faz uns dois anos que quero vê esse longo ! Aonde vc encontrou ?

Link to comment
Share on other sites

O último filme que havia comentado aqui foi do Denis Villeneuve. Agora, é um filme que o canadense chupinhou para o seu "Suspeitos" e, obviamente, sem as mesmas camadas. (sim, sou um tanto antipático ao seu cinema).

"Spoorlos", ou "Silêncio do Lago" na versão br, é um suspense/terror holandês, dirigido por George Sluizer, baseado em um romance de certo sucesso na época (o escritor é o roteirista).

Essencialmente, um casal de holandeses está viajando pela França, pára em um posto para reabastecer e, de maneira repentina e misteriosa, a jovem some. Seu namorado entra numa espiral de desespero para entender o que se passa e....

...eis que o filme não segue de forma alguma a expectativa normal do gênero. Passamos a ter dois focos: o namorado, em sua obstinação ao melhor estilo capitão Ahab para encontrar o que passou e a montagem nos ajuda a entender exatamente isso, porque se passam 03 anos e parece que ele está exatamente no mesmo ponto; e o mais fascinante, temos o foco também no agente causador do sumiço. Sluizer não faz a mínima questão de esconder quem é esta pessoa; pelo contrário, o intuito é mostrá-lo e o mais extraordinário é que ele não é um típico serial-killer, incel e misógino, mas um pai de família e professor respeitado. Ele é essencialmente um personagem nietzchiniano, se perguntando sobre os limites humano "além do Bem e do Mal". 

Como falei, o mais importante não é entender exatamente o que de fato aconteceu, isto fica até certo ponto dedutível no momento que nos aproximamos do clímax, mas sim o que levou a isso: do encontro entre quem busca uma verdade e quem tem sua resposta. 

Spoorlos.jpg

Link to comment
Share on other sites

(275)

in love com o cinema de Carlos Reichenbach, de quem sempre fui fã, mas desde o ano passado fui vendo os filmes mais antigos dele, e só aumentou minha admiração. Este "Audácia!", de 1970, foi filmado em conjunto com Antônio Lima, mas Carlão filmou dois dos três episódios que o compõem, e, claro, os dois mais cativantes para a minha mente.

No episódio intitulado "Prólogo", ele faz uma espécie de curta documentário, filmando a Boca do Lixo, em São Paulo, que era a zona do meretrício, a zona boêmia, e a zona em que os cinestas paulistanos ( e de outras glebas) se encontravam para falar de cinema. Tem imagens de Saraceni, Glauber, dele mesmo, e ainda a documentação da filmagem de um filme de Maurice Capovilla (morto em maio deste ano). O que ele quer mostrar é os cineastas de então fazendo cinema no Brasil, mesmo remando contra a maré, que exigia chanchada, nudismo à toa, gangsterismo.

Nisso, corta-se rapidamente para o segundo episódio, também filmado por Reichenbach, um episódio de ficção, no qual uma jovem cineasta está tentando rodar seu primeiro filme, justamente usando os lemas daquela turma: algo direto, "anti-intelectual", como ela diz, livre, e sem medo da censura. Quando o dinheiro inicial acaba, a cineasta será tentada por produtores a incluir em seu filme gangsterismo do sertão, e nudismo, pois é o que vende ingresso, o que dá retorno. Além de tudo, uma amiga da onça da Imprensa a desestimula, enquanto um puxa-saco maníaco [ spoiler] a mata. 

O terceiro episódio de Antônio Lima é também a tentativa ficcional de se rodar um filme. Mas não um filme crítico como o da cineasta acima. Um filme tal qual se fazia aos montes naquela época: machista, retrógrado, no qual os produtores, o diretor, e o fotógrafo, usam as mulheres que anseiam em aparecer na tela grande, fazem teste do sofá com elas, tudo bem misógino, podre, e sem consciência de cinema. Do nada, há uma bandinha estilo Jovem Guarda, no cenário, cantando uma música fuleira. Uma ironia aos filmes bobos de Roberto Carlos.  É um filme, portanto, que imita o que se fazia à epoca.

"Audácia!" não é muito bem concebido, falta dinheiro, falta apuro técnico. Mas é muito instigante. E desafia a censura de frente. Os cineastas em dado momento discutem como vão se livrar da - usam a palavra - Censura, ao rodarem uma cena de sexo, e prometem dar um jeito. 

Audacioso!

 

Audácia (1970) - IMDb

 

Link to comment
Share on other sites

(276)

Tentei mais uma vez, mas não gosto mesmo de "A Maldição da Flor Dourada", de 2006. Parece uma tentativa exagerada de Zhang Yimou de repetir a mágica conseguida com os fabulosos "Herói", e "O Clã das Adagas Voadoras", dois dos mais espetaculares filmes em termos visuais que eu já vi. Eu simplesmente amo aqueles Wuxia.

A beleza extrema tenta esconder a história desinteressante, muitas vezes já vista, de intrigas palacianas, envenenamentos, e de tomadas de poder na China Imperial medieval.

 Gong Li tem pouco a fazer, com seu personagem que revela tudo nos primeiros minutos. Passa o filme todo sem acrescentar nada.

Indicado ao Oscar de Figurino em 2007.

 

Meu ranking Zhang Yimou está assim:

- Cerimônia das Olimpíadas de Pequim 2008 (O show mais bonito que a humanidade já fez) -

1) "Lanternas Vermelhas";

2) "Herói"

3) "Tempo de Viver";

4) "O Clã das Adagas Voadoras";

5) "Sorgo Vermelho"

A Maldição da Flor Dourada - 21 de Dezembro de 2006 | Filmow

Link to comment
Share on other sites

Join the conversation

You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.

Guest
Reply to this topic...

×   Pasted as rich text.   Paste as plain text instead

  Only 75 emoji are allowed.

×   Your link has been automatically embedded.   Display as a link instead

×   Your previous content has been restored.   Clear editor

×   You cannot paste images directly. Upload or insert images from URL.

Loading...
 Share

×
×
  • Create New...