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Forum Cinema em Cena
Nacka

Lavoura Arcaica

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Não sei o que houve com o outro tópico (tenho quase certeza que havia um, com uma crítica maravilhosa do Moviola) mas esse é um filme que merece ser comentado:

Foto: Divulgação

Lavoura Arcaica - Dir. Luiz Fernando Carvalho - à partir da história de uma família de imigrantes libaneses no interior do Brasil filme traz temas como amor, incesto e relacionamento familiar.  Pedro o irmão mais velho recebe de sua mãe a missão de trazer de volta para casa seu irmão mais novo, André, que foi embora. Porém, o retorno dele e o motivo de sua partida, irá alterar para sempre os alicerces da família.

Lavoura Arcaica pode não ser o melhor filme brasileiro mas, é sem dúvida o mais impactante, versão ao avesso da parábola do filho pródigo a transposição homônima do romance de Raduan Nassar por Luiz Fernando Carvalho explode na tela com a força de um soco. 

O filme é hipnótico, a fotografia de Walter Carvalho transforma cada frame em um quadro (nem sempre em movimento), com elenco fabuloso, Raul Cortez (o pai), Juliana Carneiro da Cunha (a mãe) Selton Mello (André), Simone Spoladore (Ana) Lavoura pertence àquela casta de filmes inesquecíveis com imagens que ficam martelando na mente muito tempo depois de serem vistas. Incorpora aspectos teatrais e poéticos que longe de enfadar mostram que no cinema de Luiz Fernando não têm lugar, os cortes rápidos a edição descuidada e falas curtas. Aqui somos brindados com textos longos entremeados de silêncios embaraçosos e imagens nunca menos que perfeitas. O diretor trabalha com material de primeira, da equipe técnica ao elenco passando pelo próprio espaço físico onde o filme é rodado, tudo é de uma simbiose rara no cinema nacional.  Hoje, sabendo que a minissérie Os Maias foi realizada por este diretor (lembram o horário que foi exibida? smiley7.gif), acho que o responsável pela grade de programação da Globo deveria arder em azeite fervendo, lentamente...

PS: Pablo comentou em sua crítica que alguns críticos brasileiros defenderam a exclusão de Lavoura das indicações do Oscar em 2002 alegando que seu ritmo lento afastaria os votantes da academia. Imbecis. Isso evidencia bem em que bases o cinema brasileiro está, antes de ser exposto ao mundo é esquartejado aqui mesmo por pseudos intelectuais...

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Este filme é, sem sombra de dúvida, o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Faltam adjetivos para expressar toda a qualidade técnica, dramatica e interpretativa desta produção brasileira que não deve nada aos grandes filmes europeus (sim, porque a grande maioria dos filmes americanos são pura pipoca e nada mais...).

Vou procurar a crítica que o Nacka gentilmente citou e posto oportunamente.

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Opinião "sutil" do Bernardo do Zeta:

"Lavoura Arcaica" não é filme para Lucicréia ou Wandercleison que gostaram de "Renascer". Eu não pude evitar' date=' mas achei o filme meio elitista. "Lavoura..." é um filme exigente, que envolve para provocar. Eu não encaixaria ele na categoria de revolucionário. Mas sem dúvida, ele é ousado, sem concessões. É um verdadeiro filme de arte à brasileira.[/quote']

E é isso mesmo.

 

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LAVOURA ARCAICA ( texto publicado no meu blog )

 

Diante dos meus olhos extasiados desfilam telas impressionistas de rara beleza e encanto. Ao fundo quartetos de violoncelos e oboés tocam melodias de uma trilha sonora suave e contagiante a criar um ambiente único e sublime.  O tempo que corre lá fora a obedecer as batidas do relógio, parece andar no compasso do coração de um espectador encantado com beleza da obra apresentada na mágica sala. <?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

 

Mas não estou a apreciar pinturas emolduradas numa fria parede branca de uma galeria de arte.

 

Sentado confortavelmente numa poltrona,  assisto, com o coração na boca e olhos marejados, atores em sua arte a representar um grande duelo de palavras e emoção em simples cenários de uma arcaica lavoura entre reflexos de luz e sombras em figurinos de rude algodão e suaves rendas e bordados.

 

Mas também não estou assistindo a uma ópera no teatro municipal. Seria, com certeza, uma grande peça teatral já que a obra é intimista de grandes e arrasadores diálogos e muitos monólogos. Trabalho árduo de interpretação e despojamento. É preciso ser um grande ator para encarar, de forma corajosa e honesta, este personagem trágico como só os mediterrâneos sabem ser. Mas não se trata de uma tragédia grega. Mas a tragédia no seio de uma família patriarcal e opressora que deve habitar em muitos lares deste azul planeta.

 

Não seria exagero dizer que o filme Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, (baseado no romance homônimo de Raduan Nassar) possui todas as qualidades de um belo quadro impressionista de Renoir, a dramaticidade de uma ópera de Giuseppe Verdi ou uma obra teatral das tragédias gregas. Qualidades existem e conferem a esta magnífica e sensível obra um marco no nosso cinema. Cinema brasileiro com orgulho.

 

Lavoura Arcaica é a certidão de nascimento do verdadeiro cinema nacional brasileiro da mais alta qualidade. Um claro e inquestionável divisor de águas. Toda a concepção que se tem sobre a sétima arte,  na sua maior amplitude  e qualidade estão aqui representados de forma brilhante como raramente temos o prazer de assistir.  Um filme essencialmente de palavras e interpretações soberbas dos atores. Paixão, pecado, incesto e a mais pura poesia em cada cena. Como cenário uma fazenda de café de uma família de imigrantes libaneses que vivem reclusos em suas cercanias pela mão poderosa de um pai autoritário e uma mãe extremamente afetuosa, mas submissa ao marido. Neste contexto, vive o atormentado André que será causa e conseqüência dos destinos trágicos desta família.

 

É preciso dar crédito a quem merece:

 

Luiz Fernando Carvalho - responsável pela produção, roteiro e direção. Um trabalho realmente de mestre em transpor toda a tragédia de forma verdadeira sem perder o rumo ou  fazer qualquer concessão ao fácil para agradar gregos e troianos (para ficarmos na tragédia grega). O objetivo claro e correto de Luiz Fernando Carvalho foi fazer uma produção fiel à obra literária de Raduan Nassar naquilo que é o mais importante: Os conflitos existenciais de André e Ana; o lado opressor do pai e a convivência conflituosa desta família centrada em si mesma. Outro mérito foi respeitar o tempo dos personagens. Não teve o diretor a preocupação de contar esta trágica história de forma lenta e compassada e não cortou diálogos ou supriu minutos de uma câmera que focava uma fumaça de cigarro que se esvaia no ar de um bordel de quinta categoria. O tempo aqui não corre, mas flutua lentamente. É preciso refletir sobre aquilo que se vê e se ouve dos personagens. Principalmente os monólogos cruéis e instigantes de André. O tempo aqui é um personagem importante na história. E não é, como seria de se supor, cansativo ou monótono, mas um elo necessário para que possamos mergulhar de corpo e alma nesta fantástica aventura da alma humana.

 

Walter Carvalho -  Diretor de Fotografia. Uma obra-prima. Luz e sombra. Claro e escuro. Por vezes apenas uma lâmpada trêmula a iluminar um personagem possuído a dizer suas verdades,  extirpando pecados de loucas obsessões.  Uma fotografia como um verdadeiro quadro impressionista de raríssima beleza. Simples e extremamente eficientes. Cada enquadramento ou ângulo de câmera poderia servir como um quadro na parede.

 

Marco Antônio Guimarães – Trilha Sonora. Simplesmente fantástica. Quartetos de Violoncelos e Oboés para dar uma dramaticidade própria em cada situação. Também usou uma música mais pulsante no momento em que Ana, em sua dança erótica, enfeitiçava um atormentado André.  Uma trilha sonora eficiente e da mais pura emoção. (Continua na Segunda Parte)

 

Selton Mello – Devo confessar que não conhecia esta sua capacidade interpretativa em papéis dramáticos. Conhecia seu bom trabalho em comédias. Mas ele conseguiu criar um atormentado e incestuoso André de forma brilhante.  Seu monólogo interminável de gestuais, por vezes contido em outros irados, deu veracidade aos seus tormentos psicológicos. Sua paixão incestuosa por Ana e a culpa de tê-la possuído foram a causa de sua fuga do seio familiar. Claro que a opressão do pai e o afeto em excesso da mãe também tiveram responsabilidade no destino deste jovem. Por vezes, parece um anjo a ditar a mais pura poesia filosófica existencialista. Mas em seguida vemos surgir   um demônio a apontar pecados e a atormentar, com desejos libidinosos, sua irmã Ana; a atormentar a paz de seu irmão e rejeitar o poder centralizador e opressor do pai.  André é o lado oposto de Ana. Seus desejos também são os da irmã. André  é o lado masculino de Ana e esta o lado feminino de André. Duas almas gêmeas criadas nesta patriarcal família que tudo fez para mantê-los longe dos desejos mundanos de fora das suas cercanias. Em certo momento diz o personagem André: “toda taça tem no fundo seu veneno”. Assim, não seria de se estranhar que o próprio pai tenha alimentado, involuntariamente, na alma de seus filhos desejos proibidos e contraditórios. Mas o corpo exige seus cuidados e negá-los é perigoso como se viu. Impossível negar a paixão que aflora e o desejo é por demais poderoso para conter-se no peito e nas entranhas de jovens na flor da idade. Sem outra alternativa,  André sucumbe aos encantos da irmã, que também vítima da mesma opressão, cai na armadilha incestuosa.  Para mostrar este encontro o diretor utilizou duas cenas simultâneas: André menino faz uma armadilha para capturar uma pompa enquanto vemos igualmente o André adolescente seguindo Ana até a casa abandonada. No momento da captura da pomba é o momento que,  em êxtase,  o prazer sexual dos irmãos é satisfeita. Logo em seguida vemos um trator rasgando fundo a terra. Em um grande monólogo na capela da fazenda, Seltom Mello faz uma interpretação soberba e arrasadora de um André angustiado pedindo perdão e implorando o amor da irmã ultrajada.

 

 

Simone Spoladore -  Ana em uma interpretação importante no desenrolar desta história. Não tem diálogos este personagem, mas através de seu bailado e de suas expressões percebe-se claramente as suas intenções e desejos. Talvez a fala não seja importante para o personagem na medida que ela é oprimida pelo pai, seduzida pelo irmão e subestimada pelos demais. Não consegue expor seu pensamento em palavras. Como a mãe, está à mercê dos homens da fazenda. Aliás,  as mulheres quase nunca falam nesta sombria casa. Com Ana – vítima destes conflitos, não seria diferente. Mas também ela – através de olhares e de sua sensual dança expõe seus reprimidos desejos a um irmão já perdidamente apaixonado.

 

Raul Cortês – o pai desta família centrada na terra com sua plantação de café e criação de ovelhas. Usa de mão de ferro para manter unida, sob sua proteção,  seus filhos e a mulher. Não faz concessões e não percebe que através de sua opressão está castigando a juventude e a adolescência dos filhos.  Dá-lhes amor é claro. É um bom pai na medida em que educa para a honradez, para o trabalho e pela união de todos. Mas é autoritário em excesso e não permite desobediência e mantém a todos longe do que acredita ser os pecados do mundo.  Tem na união da família, no trabalho árduo da fazenda e nas tradições conservadoras seu objetivo de vida.

 

Juliana Carneiro da Cunha – a mãe afetuosa e mulher submissa. É o oposto do marido e trata os filhos com afeto e ternura. É o ponto de equilíbrio.  Solicita a Pedro que traga o irmão novamente ao lar sem saber que tal ato trará conseqüências mais devastadoras para sua família.

 

Um filme de várias interpretações. Essencialmente uma obra que trata da psicologia dos personagens onde a palavra é a forma mais pura de expressão. Poesia em cada cena dita com uma sensibilidade à flor da pele.  De uma qualidade que raramente vimos, não só tratando-se de filme brasileiro, mas muito superior a outras produções cinematográficas americanas ou européias. Uma rara surpresa pela qualidade do conjunto da obra. Todos os adjetivos devem ser usados para qualificar a obra de Luiz Fernando Carvalho. Um cinema brasileiro para o mundo. 

 

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Só para constar, uma nota triste, morreu ontem em decorrência de complicações por conta do câncer contra o qual vinha lutando, o excepcional ator Raul Cortez. Raul, além de ser um dos melhores atores do país era respeitado entre os colegas pelo grande ser humano que era, ver Raul em Lavoura é extasiar-se pela segurança e conhecimento do ofício que ele demonstra, em cada fala ou silêncio, ficamos órfãos... smiley19.gif

 

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Segurança essa colocada em xeque durante os ensaios de Lavoura. Raul abandonou o set e só ficou devido há uma carta que o Luis colocou de baixo da porta do quarto dele explicando o processo de ensaio e a dificuldade clara que todos estavam enfrentando, além de enaltecer o talento de Raul.

Uma grande perda, realmente....e o Lula continua vivo...

Sobre Lavoura, bom, um dos poucos filmes brasileiros que tem alma. Sem dúvidas um dos melhores de nossa história, para mim, o melhor, junto com Desmundo e A Ostra e o Vento. Mas claro, Lavoura acima.

Eu discordo do Moviola em um ponto, Selton Mello, se formos analisar sua interpretação, fica claro a evolução do ator durante o filme. Logo, eu acredito que na ordem do dia de filmagem, o Luis filmou as cenas iniciais logo no começo do processo. O monólogo inicial dele é verborágico ao extremo, pois assim é o texto do Raduan, e na minha opinião, o Selton não teve estofo para fazê-lo, ou pelo menos não atingiu a personagem. Ele como ator estava em um patamar, a personagem estava em outro, e ele, naquele momento, não atingiu. Olha, sinceramente, eu vejo um, dois, três, no máximo quatro atores que conseguiriam fazer aquilo sem deixar o texto sobressair, e esses atores teriam mais de 50 anos,  um deles acabou de falecer...Mas ainda sim, Selton foi muito bem, um papel incrivelmente difícil, um dos mais difíceis da cinematografia brasileira. 

O Luis é foda, pra Fernanda Montenegro, com 70 anos se deixar dirigir completamente por um diretor em um processo como Hoje é Dia de Maria, o cara é muito, mas muito bom.

FeCamargo2006-7-20 13:27:34

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Perda inestimável para as artes do Brasil. Raul Cortez era grande e excelente em tudo que fazia. Em LAVOURA ARCAICA, como bem disse o FeCamargo, ele esteve a ponto de abandonar as filmagens, até ser impedido por Luiz Fernando Carvalho. Ainda bem que o fez, já que fomos brindados com um desempenho fenomenal em uma verdadeira obra-prima do cinema contemporâneo.

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Vi no último final de semana e estou até agora me recuperando do baque. E me pergunto até hoje: Por quê diabos eu não vi essa obra - prima antes????

Abaixo está a minha (pequena) crítica feita ao filme no tópico "O Que Você Anda Vendo??"

Lavoura Arcaica - São quase três horas de poesia lírica contada através de palavras' date=' atuações intensas (Selton Mello), contidas (Raul Cortez), mudas (Simone Spoladore, fantástica e deliciosa...smiley4.gif), trilha sonora (excepcional), mas, principalmente, com tudo isso combinado a imagens belíssimas e uma fotografia e direção de arte fantásticas, complementando de forma magistral a poesia que se desenha no decorrer do filme, além de um roteiro que evidencia muito bem essa perspectiva poética do filme. Uma trama ao mesmo tempo trágica e bela na sua construção, que te prende de tal forma que você praticamente se insere na história, vivendo, sofrendo, sorrindo, enfim, interagindo com os personagens, como pouquíssimos filmes fazem. Hoje eu me pergunto por quê eu não assisti esse filme antes. OP, com sobras e com louvor!!!!!

Nota - 10/10

[/quote']

Podem ter certeza que essa será uma das minhas próximas aquisições...

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Vocês já leram o livro? Meu deus, o livro e o filme conseguem ser a mesma coisa, sendo que no filme a poesia do livro é intocavelmente mantida e complementada com as imagens e sons perfeitos do Lavoura. Às vezes a sensação poética é tão incrível que dá para sentir o cheiro da terra.

 

Sem dúvida nenhuma, uma pérola do cinema nacional.

 

Mas convenhamos que para ser tão fiel ao livro, o filme acabou sendo longo demais. =/

 

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Talvez porque este não é o meu tipo de filme , para mim foi o pior filme brasileiro que vi , e olhem que bem tentei mas o filme não passava do mesmo e fui avançando e mesmo assim não consegui gostar um bocadinho sequer .

Maria envergonhada me desculpe mas é a minha opinião .

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Talvez porque este não é o meu tipo de filme ' date=' para mim foi o pior filme brasileiro que vi , e olhem que bem tentei mas o filme não passava do mesmo e fui avançando e mesmo assim não consegui gostar um bocadinho sequer .

Maria envergonhada me desculpe mas é a minha opinião .
[/quote']

Herege! Herege! bailan.gif

Brincadeirinha! 01

 

By the way, o filme é de digestão lenta, introspectivo e tão denso e angustiante que chega a ser perturbador mesmo.

Não é p/ todo gosto, acho... eu achei pura poesia...aff! 3d17.gif

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LAVOURA ARCAICA ( texto publicado no meu blog )

 

Diante dos meus olhos extasiados desfilam telas impressionistas de rara beleza e encanto. Ao fundo quartetos de violoncelos e oboés tocam melodias de uma trilha sonora suave e contagiante a criar um ambiente único e sublime.  O tempo que corre lá fora a obedecer as batidas do relógio' date=' parece andar no compasso do coração de um espectador encantado com beleza da obra apresentada na mágica sala.

 

Mas não estou a apreciar pinturas emolduradas numa fria parede branca de uma galeria de arte.

 

Sentado confortavelmente numa poltrona,  assisto, com o coração na boca e olhos marejados, atores em sua arte a representar um grande duelo de palavras e emoção em simples cenários de uma arcaica lavoura entre reflexos de luz e sombras em figurinos de rude algodão e suaves rendas e bordados.

 

Mas também não estou assistindo a uma ópera no teatro municipal. Seria, com certeza, uma grande peça teatral já que a obra é intimista de grandes e arrasadores diálogos e muitos monólogos. Trabalho árduo de interpretação e despojamento. É preciso ser um grande ator para encarar, de forma corajosa e honesta, este personagem trágico como só os mediterrâneos sabem ser. Mas não se trata de uma tragédia grega. Mas a tragédia no seio de uma família patriarcal e opressora que deve habitar em muitos lares deste azul planeta.

 

Não seria exagero dizer que o filme Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, (baseado no romance homônimo de Raduan Nassar) possui todas as qualidades de um belo quadro impressionista de Renoir, a dramaticidade de uma ópera de Giuseppe Verdi ou uma obra teatral das tragédias gregas. Qualidades existem e conferem a esta magnífica e sensível obra um marco no nosso cinema. Cinema brasileiro com orgulho.

 

Lavoura Arcaica é a certidão de nascimento do verdadeiro cinema nacional brasileiro da mais alta qualidade. Um claro e inquestionável divisor de águas. Toda a concepção que se tem sobre a sétima arte,  na sua maior amplitude  e qualidade estão aqui representados de forma brilhante como raramente temos o prazer de assistir.  Um filme essencialmente de palavras e interpretações soberbas dos atores. Paixão, pecado, incesto e a mais pura poesia em cada cena. Como cenário uma fazenda de café de uma família de imigrantes libaneses que vivem reclusos em suas cercanias pela mão poderosa de um pai autoritário e uma mãe extremamente afetuosa, mas submissa ao marido. Neste contexto, vive o atormentado André que será causa e conseqüência dos destinos trágicos desta família.

 

[/quote']

 

Lavoura Arcaica reuniu um excelente elenco, uma excelente direção de fotografia, uma bonita história e uma trilha sonora ótima também. Porém, o que parece que o Luiz Fernando Carvalho ficou tão impressionado com a qualidade dos elementos que citei acima que decidiu incluir todas as cenas filmadas na versão final do longa e o que era pra ser uma obra-prima acabou se transformando num filme cansativo, como se só quisessem que o espectador contemplasse ótimas imagens deixando o filme com um ritmo muitíssimo lento. O resultado foi que o diretor realmente colocou à prova o que o personagem interpretado por Raul Cortez dizia: a paciência é a virtude das virtudes.

 

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Não é a questão da duração do filme em si. Eu gosto de filmes considerados longos como, por exemplo, O Poderoso Chefão e Era Uma Vez na América. O problema é que Lavoura Arcaica foi cansativo pra mim, dando a impressão de que tem a duração muito maior do que realmente tem. Mas cada um tem suas preferências e opiniões, eu respeito isso. Afinal ver um filme é uma experiência individual e subjetiva.

 

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Não é a questão da duração do filme em si. Eu gosto de filmes considerados longos como, por exemplo, O Poderoso Chefão e Era Uma Vez na América. O problema é que Lavoura Arcaica foi cansativo pra mim, dando a impressão de que tem a duração muito maior do que realmente tem. Mas cada um tem suas preferências e opiniões, eu respeito isso. Afinal ver um filme é uma experiência individual e subjetiva.

[/quote']

Tens razão, mas sei lá, talvez a sensação do diretor foi de que cortar/tirar/excluir qquer cena ali seria como uma amputação, uma heresia.
MariaShy2010-09-12 11:32:53

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Muita Qualidade, “gastronomia de alto nível”, Cinema Classe A. Não no sentido elitista da coisa, mas sim por incorporar um lado Cult, alternativo .... intenso!

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Logicamente não é pra todos os gostos, assim como a arte contemporâneo é tão diferente que traz sensações totalmente diversas em pessoas de gostos semelhantes, e talvez isso faça algo ser tão bom... o cara representou muito bem o cinema nacional.

De forma expressionista, não houve a intenção de abrir mão do esforço que foi produzido com cortes simplesmente para torná-lo mais fluido; doa a que doer.

 

Talvez não tenha acontecido isso mas me pareceu que a arte foi mais valorizada em detrimento do convecional ou  comercial.

 

Confesso que estava meio desanimado quando estava assistindo mas minha reação mudou completamente no desfecho e as coisas foram se encaixando perfeitamente...

 

Não sabia desse topico, acabei de assistir lavoura comentei agora no “o.q.v.a.v.e.c

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parece que o Luiz Fernando Carvalho ficou tão impressionado com a qualidade dos elementos que citei acima que decidiu incluir todas as cenas filmadas na versão final do longa e o que era pra ser uma obra-prima acabou se transformando num filme cansativo, como se só quisessem que o espectador contemplasse ótimas imagens deixando o filme com um ritmo muitíssimo lento. O resultado foi que o diretor realmente colocou à prova o que o personagem interpretado por Raul Cortez dizia: a paciência é a virtude das virtudes.

 

10

 

é exatamente isso aí, na mosca!
Calvin2010-10-09 21:32:23

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