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Forum Cinema em Cena

Postem a Arte de Vocês


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uso uma camera de 4mpx :S

Que coisa' date=' todo mundo já tem seu próprio jogo.06 Também quero pô, cadê o Enxak?!1106[/quote']

 

Cara,como te disse via MP,to atolado de coisa pra cuidar já...Mas se precisar de uns toques pra desenvolver aquela sua idéia,pode contar comigo,seria muito legal.

 

Bom,aproveitando...Lá vai o terceiro e quarto capítulos de meu livro inacabado,pra compensar a demora (até parece que alguém estava ancioso...06):

 

 

 

 

 

03<?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

 

 

 

Era sábado e Elvis havia marcado de sair com Gilda à noite.Mas o dia seria longo,pois antes disso ele teria que enfrentar uma extravagante reunião de fanáticos por Elvis Presley,liderados pelo seu pai,o senhor Pereira.Não era a toa que Elvis tinha esse nome.E não era simplesmente Elvis.Em sua carteira de identidade ele estava registrado como Elvis Presley Pereira.Seu pai era um daqueles tipos fanáticos por Elvis Presley que mantêm o topete e as costeletas desde os anos 70,e que já visitou Graceland,a casa que Presley comprou para seus pais, em 1957, em Memphis, no estado do Tennessee.No sul dos Estados Unidos muitas casas têm nomes, especialmente as casas históricas.Na história da casa de Elvis Presley, não fica claro se a casa já tinha este nome antes, ou se o próprio Elvis escolheu "Graceland".Pereira conseguiu fazer essa viagem depois de juntar dinheiro por muitos anos,trabalhando na loja de materias para construção,e possuia também todos os discos,incluindo os raríssimos EPs,fitas com todos os filmes e apresentações em programas de tv,e também um boneco que dançava quando apertava-se um botão,ao som de Kiss Me Quick,e que servia também de abajur.A reunião seria em sua própria casa,e Elvis já acorda preocupado em arranjar alguma forma de evitar aquilo.Talvez ele fosse alimentar os pombos na praça,ou visitar alguma exposição chatíssima,de cunho cultural,com algumas pessoas espalhadas pelo longo espaço livre,espiando aquelas coisas pretensiosamente complicadas de se entender,com cara de "hmmm interessante,entendo o que o artista quis dizer".Mas ele não estava mesmo com vontade de fazer nada disso,só queria mijar:

 

- Abre pai,preciso usar o banheiro.

- Estou acabando de aparar as costeletas,Elvis.Hoje é um dia especial.Ou como diria o rei,Today is a special day,guy.

 

Elvis detestava quando o pai tentava falar em inglês,com aquela pronúncia sofrível.E sempre detestou o fato de ter sido batizado com o nome de um cara que o seu pai admirava,pois parecia que ele era apenas uma coisinha,um souvenir,ou um hamster,que havia ganho o nome de um personagem famoso e carismático de alguma série da tv,ou de algum astro do rock,e não o seu filho,com nome e personalidade distinta.

 

- Sua mãe está preparando o bolo recheado com abacaxi e com a imagem do Rei modelada com passas e chantilly,você sempre adorou esse bolo quando era menor,lembra? E ela vai colocar aquelas bolinhas prateadas que colocam em bolos de aniversário na roupa branca dele pra dar aquele brilho Las Vegas...

- Deixem um pedaço pra mim,preciso sair.Me empresta o carro?

 

Elvis pensou em passar na casa de Luiz,mas ele deveria estar planejando sair com a mulher e as crianças para ver algum desenho feito por animação gráfica no cinema ou alguma dessas coisas que pessoas com uma renda mensal razoável fazem com os filhos nos sábados à tarde para demonstrar que têm algum amor por eles.E crianças geralmente assimilavam mesmo essas coisas materialistas de shopping center como legítimo e deseperado amor paternal.Pensou no que fazer,mas não conseguia pensar em nada para as próximas oito horas,até o encontro com Gilda,a mulher que adorava piadas envolvendo pum no elevador e outras coisas refinadas do tipo.Ficou dando voltas pela cidade até estacionar num shopping center.Estava decidido a assistir a algum filme infantil na matinê das 13 horas.De preferência algum feito por computação gráfica.

 

Elvis saiu do cinema rodeado por crianças comentando sobre o peixe azul engraçado do desenho que sofria de uma espécie de amnésia que fazia ele esquecer de coisas recentes.Foi à área de alimentação e comprou uma das promoções do Mc Donalds e depois ficou jogando Metal Slug no fliperama até as cinco da tarde.Resolveu que voltaria pra casa para tomar um banho antes de se encontrar com Gilda.Não que ele se preocupasse verdadeiramente em estar com uma aparência atraente para o encontro com ela,já que não estava muito interessado em atraí-la,mas o fato é que estava mesmo se sentindo suado e fedido demais para um encontro,mesmo sendo com um dentista ou um daqueles caras que param as pessoas nas ruas para fazerem pesquisas ou oferecerem cursos de informática.Quando chegou em casa,pôde perceber pela claridade na sala e pelo barulho que a reunião de adoradores de Elvis Presley estava em seu auge.Passou por sua cabeça que talvez pudesse voltar ao shopping e jogar mais algumas partidas de Metal Slug até as 19:30 e voltar à tempo apenas de tomar um banho rápido e sair novamente para o encontro,mas ele gostava de banhos longos e havia ficado irritado por não conseguir passar de uma das fases do game,aparentemente simples,mesmo tendo gasto muito dinheiro em fichas.

 

- Filho! Você chegou bem na hora do Karaokê...

 

Elvis passou pela sala de cabeça baixa,fazendo todo esforço possível para não olhar para aqueles senhores obesos vestidos ridiculamente com aqueles macacões brancos e com os cabelos empapuçados de gel.Subiu as escadas,indo para seu quarto.Colocou sua coletânia do Bob Dylan pra tocar e deitou-se.Pensou na garota que vira no metrô na noite anterior e no quanto odiava aquela situação toda criada entre ele e Gilda.Adormeceu ouvindo a faixa 3: The Times They Are a Changin'.Quando acordou,atordoado,depois de ter tido a impressão que havia escorregado de algum lugar e caído,em seu sonho,percebe que estava ouvindo Like a Rolling Stone,a faixa 5,e imaginou ter apenas tirado um breve cochilo.Já esquecera do sonho,mas seu coração ainda pulava assustado,ele não esperava escorregar e cair.Ele sempre tinha esses sonhos rápidos com pequenos sustos envolvendo quedas quando tirava breves cochilos.Mas só depois percebeu que havia deixado o cd player no continuous play.Levantou-se da cama num pulo,ainda com a luz verde do relógio de pulso acesa:

 

- Putz,02:40 da manhã...

 

 

 

 

04

 

 

 

Desde que decidiu sair de casa,Virna sempre conseguiu se virar muito bem com as dívidas e tudo o mais.Não tinha problema nenhum com comida,mesmo não sabendo fritar um ovo,pois estava pouco ligando para dietas,e se contentava com pizzas,esfihas e cachorros quentes.Não havia contratado uma empregada para cuidar de seu pequeno apartamento alugado pois adorava fazer faxina.Gostava da sensação de “descarrego” que tinha ao terminar de limpar tudo todo sábado pela manhã.Sentia-se renovada e aquilo era uma das poucas coisas em sua semana que a fazia feliz.Ela também sorria com sua amiga Rubia,com quem trabalhava no super-mercado.Rubia não era uma pessoa engraçada,pelo contrário,era até bastante triste.Mas ela achava graça na forma como chegava sempre bêbada toda manhã.Aquilo não era algo que deveria fazer com que ela risse,e nem ria também por maldade,só achava mesmo engraçado o modo como os seus olhos ficavam de manhã e como ela falava alto e animadamente,enquanto todos estavam com sono ainda.No decorrer do dia ela se recuperava e voltava a expor aquele rosto melancólico e exausto de sempre e tornava-se novamente uma chata.Virna não costumava beber,geralmente por não gostar do sabor das bebidas alcoolicas,mas achava sinceramente que a bebida,assim como as drogas e qualquer outro tipo de artifício usado para fazer com que as pessoas se sentissem melhor,deveria ser respeitada.Poderiam até mesmo serem prejudiciais à saúde,mas ao menos emprestavam algo de bom por alguns momentos à elas,ao contrário,por exemplo,da religião,que só enchia as pessoas de complexos e culpas.Mas Virna não gostava de levantar bandeiras e detestava pessoas engajadas em causas políticas ou sociais.Dias antes havia sido convidada por Rubia para uma manifestação.Aquilo de sorrir da desgraça de Rubia servia para Virna como uma espécie de droga leve,tomada em alegres pílulas coloridas,toda manhã.E ela acabou aceitando o convite como agradecimento.E talvez Rubia resolvesse encher a cara e fazer um strip tease,dançar a Dança da Garrafa com uma lata de cerveja,ou algo do tipo durante a manifestação.Seria uma overdose de pílulas coloridas.

 

Era uma manifestação em favor do vegetarianismo.Vestidos com camisetas  contendo inscrições como “Não Coma Uma Vaca Morta” e “Abatedouro Se Escreve Com A De Auschwitz (campo nazista de extermínio de judeus durante a 2ª Guerra),entre outras ainda mais apelativas.Todos tinham a intenção de caminhar pela avenida principal da cidade,com faixas e distribuindo panfletos,enquanto o representante da manifestação fazia seu discurso utilizando um megafone.Parecia empolgante quando Rubia começou a explicar,mas na quarta à tarde,depois de sair do trabalho,quando entrou no gabinete onde os manifestantes se reuniriam o que viu foi apenas menos de meia duzia de pessoas pálidas e cabisbaixas,conversando sentadas,de pernas cruzadas.Nada de rostos destemidos e gritos de guerra vibrantes,como imaginara que pudesse ser.Sentou-se em uma das cadeiras,ao lado de Rubia,e depois de alguns minutos conheceu o líder da manifestação.Era um cara franzino,com a barba muito mal feita e careca em alguns pontos de sua cabeça.Falava pra dentro demais pra ser um líder.Começou falando algo aparentemente engraçado,pois fez com que todos rissem de maneira contida,porém com cumplicidade,como telespectadores de teatro assistindo a alguma comédia requintadamente sarcástica,que dispensava as gargalhadas e prezava pelo riso ponderado apenas em momentos estratégicos.Mas Virna não riu,já que não havia escutado o que ele havia dito,e continuava decepcionada com toda aquela calmaria.Onde estava a raiva selvagem dos manifestantes oprimidos? Eles deveriam estar depredando açougues e não sentados ali discutindo coisas.Começou a imaginar como seria se decidisse fazer uma manifestação contra algo,e decididamente não seria daquele jeito que agiria.Haveria muito fogo,roupas rasgadas e gritos ensandecidos.Mas não conseguia pensar em algo para protestar contra e decidiu apenas ver e ouvir o espetáculo sem interagir com mais nenhuma observação maldosa.Mesmo considerando o espetáculo uma bosta.

 

- …Da próxima vez nós poderíamos soltar balões brancos no final da passeata. - disse uma das participantes,levantando a mão para falar,timidamente.

- Gostei da idéia dos balões,mas porque brancos? - retrucou o líder dos vegetarianos,que pelo vigor de sua voz deveria se alimentar apenas com cascas de arroz integral,pensou Virna,franzindo a testa,tentando entender o que ele havia dito.

- Por representar a paz e tudo o mais…

 

Ele se levantou de sua cadeira,limpou as lentes dos óculos com uma pequena flanela branca que trazia no bolso,e começou a falar,pausadamente,olhando de maneira perturbadora para cada um dos presentes,como se os estivesse ameaçando:

 

- Gostaria que entendessem desde já que não achamos que comer carne é uma coisa praticada por pessoas más.Elas só não têm consciencia do que fazem,sempre comeram carne por toda a vida.Não estamos do lado do bem e elas do lado do mal,não há guerra para querermos a paz.

 

Virna mesmo não tendo entendido perfeitamente o que ele acabara de dizer gostou do que entendeu.Talvez por ter adaptado algumas coisas da maneira mais aceitável à seus ouvidos.Imaginou que o pequeno discurso merecia aplausos calorosos,com closes nos rostos de todos enquanto aplaudiam,emocionados,como nas cenas finais dos filmes com o Robbin Willians,onde sempre haviam breves lições de amizade e amor ao próximo e toda aquela baboseira que ela detestava.Depois de muita conversa,todos ganharam camisetas,faixas e um saco de super-mercado cheio de panfletos.Virna logo percebeu que os sacos eram do super-mercado onde trabalhava:

 

- Eu roubei do estoque. - confessou Rubia,enquanto dava o saco plástico à Virna,com um sorriso assustado.

 

Já haviam mais pessoas que quando Virna havia chegado.Talvez mais de vinte.O necessário para serem chamados de “grupo”,mas não o suficiente para serem chamados de “multidão”.Todos começaram a caminhar em direção à praça que ficava há alguns quarteirões,onde pretendiam fazer uma espécie de comício.No começo todos estavam ainda meio desajeitados e alguns até conversavam sobre o eliminado do Big Brother na noite anterior,na tv.Depois de algum tempo um côro foi puxado por um gordinho de cavanhaque,que gritava: “ACA ACA ACA,SALVEM UMA VACA”.Algumas pessoas aderiram ao grito,mas logo todos se calaram novamente,se conscientizando de que era um grito ridículo e continuaram andando,jogando os panfletos no chão ou dando para as pessoas que passavam pela calçada.

 

No final de tudo todos foram comer num restaurante vegetariano,para comemorar o sucesso da manifestação.Não chegava a ser um sucesso retumbante,mas pelo menos não haviam sido detidos pela polícia nem haviam ganhado ovos podres na testa e ainda havia uma remota possibilidade de aparecerem no Telejornal local logo mais à noite (coisa que não aconteceu),já que haviam visto um helicóptero da tv sobrevoando a cidade durante a caminhada.Virna se comprometeu a comparecer à manifestação novamente na próxima semana,e que traria dessa vez um convidado.Essa era a regra para permanecer participando do grupo.Ainda não tinha certeza se gostaria de fazer parte do grupo,mas enquanto não decidia,estava preocupada em arranjar alguém,caso decidisse que continuaria.Teria que ser alguém neutro e manipulável o suficiente para não achá-la uma louca fanática,mas também teria que ser alguém agradável de se conviver,pois teria que vê-la toda semana,e isso não seria tão fácil,já que ela não conhecia ninguém que fosse manipulável e contestadora ao mesmo tempo.Desistiu de pensar nisso e continuou comendo seu hamburguer enquanto esperava o Big Brother  começar.

 

 

 

 

 

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Tô editando isso aí uma vez por semana.06 

 

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Não era o começo, era o fim. Ou o contrário. Natan sempre teve esta estranha sensação de que sua vida não passa de uma sucessão de voltas em círculos, de que terminará onde um dia começou. Enquanto lutava para esquecer essa bobagem, nadava por uma rua como qualquer outra, banhado pelo frescor picante do piche-pérola. O dia também o sufocava com o ar do normal, do comum. Tudo moído, sacudido e servido como tédio viscoso. O vento inspirava suavemente, carregando um aroma ácido de baunilha aos cantos da cidade. Seus seis sapos azuis voavam alçados pela luz dura disparada de baixo pra cima pelo acaso, fundido à lava e mármore. Cantavam, recortando uma melodia tão dissonante quanto à refletida pelos pretos espelhos paralelos pregados ao teto distante. Que eram seis, sagrados. Davam uma ilusão de espaço, refletindo o prédio, a noite. Choviam guarda-chuvas, despencando contra a gravidade sob sua cabeça. Ou o contrário, já que o céu sob o qual pisava ostentava o maravilhoso tom lilás-com-magenta das típicas e escaldantes madrugadas orientais, enquanto o sol azul congelava seus pés. Ou o contrário, pois o tempo virava a todo o instante, ora chovendo guarda-chuvas, ora guarda-sóis, dependendo do que precisava ser guardado.

 

Natan estava preocupado. As pessoas não ficariam, afinal, era só uma sombra, mas ele estava. Sentia a falta dela. Mesmo que fosse à feira comprar uma nova, não seria a mesma coisa. Havia se apegado a ela. Eram bons companheiros, um sempre livrando a cara do outro. Ela não falava muito, mas era divertida, sincera, do tipo super transparente. A comprara num bazar mexicano, numa das várias praças suspensas, seis na cidade. Os donos dos bazares eram os Satíricos. Tinham os melhores preços, e eram os únicos. Vendiam seis sombras por quatro, naquele dia. Mas ficara com pena daquela em especial, que via as outras alegres, compostas por cores quentes e vibrantes, enquanto seu cinza/grafite ao mesmo tempo em que desaparecia perante aquela massa arco-íris, se destacava pelo ridículo. Pagara seis sonetos, afinal, estava em promoção. O Satírico, a princípio, desconfiou. Queria muito se livrar da sombra, mas já havia perdido quaisquer esperanças de vendê-la (esperanças estavam em falta realmente, a que Natan comprou um dia antes devia ser uma das últimas). Na verdade, se Natan estivesse meia hora atrasado, teria ganhado de graça. Ou o contrário, já que qualquer artigo grátis tem imposto triplicado.

 

Os braços cansaram. Resolve subir na calçada. As ruas eram sempre assim, brilhantes e pegajosas, mas as calçadas não. Eram de vidro, transparentes, para que se pudesse ver o céu com mais nitidez. Ou o contrário, já que volta e meia (às vezes completava duas, mas era raro) as marquises dos prédios derretiam pingando e manchando as calçadas. Os postes de luz não eram de luz, mas de sombra. Não sombras domésticas como a que Natan perdera, eram sombras selvagens. Perigosas, sorrateiras, atacavam sem a menor piedade. As pessoas tinham que ficar atentas, desviar com cuidado. A sombra de Natan se perdera numa confusão gerada por um dos ataques. As sombras, em seis, se soltam e se disparam contra a vítima. É raro, mas acontece. Infelizmente, a presença dos postes era necessária. Às vezes as noites ficavam tão claras, mas tão claras que alguma coisa tinha que ser usada para escurecê-las um pouco. Ou o contrário, pois neste caso, a chuva já diminuíra e agora não passava de uma garoa de sombrinhas, o que dispensava a necessidade dos postes.

 

Pisando, portanto (mas nem tanto), sobre o cristal límpido das calçadas celestes que beiravam as ruas espessas e peroladas, Natan seguia rumo ao infinito, que ficava ali, entre a 3ª e a 4ª avenida (avenida 3,66666...). O grande problema de se chegar à Avenida Três Vírgula Meia Meia Meia Meia Meia Dízima Periódica era a quantidade de ruas para se atravessar: nenhuma. Natan adorava atravessá-las porque as faixas de pedestres que às sobrevoavam mudam de lugar o tempo todo. Dá pra ir a qualquer parte da cidade em cima de uma delas. Eram como tapetes voadores, mas melhores. Tapetes têm um sério problema de versatilidade. São grandes demais, moles demais, e sujam muito fácil. Mandar lavar um é terrível, e acabam servindo mesmo só como elevadores dentro de uma casa de dois pisos. Natan detestava tapetes, mas adorava as faixas. Eram quase como pranchas de surf.

 

Era preciso passar pelo Infinito para chegar ao Achados e Perdidos da cidade onde, sustentava a esperança de Natan (de última geração, o mantinha confiante o tempo todo), deveria estar sua sombra. Duvida ele que alguém que tenha a encontrado desejaria ficar com ela, afinal, era tão cinza e grafite quanto se pode imaginar. Ou o contrário, já que o Governo limitara severamente a imaginação há vários anos devido a uma série crise causada pela quantidade de criatividade e discernimento que transbordava dos pacatos cidadãos e ameaçava seriamente a vida daqueles políticos então condenados a terem seus personagens afogados e varridos para todo o sempre. O Sempre ficava logo ali, no trevo da 6ª com a 39ª e -15ª avenida, e era tão lindo e cruel quanto o Infinito.

 

Quando chegou à Avenida Três Vírgula Meia Meia Meia Meia Meia Dízima Periódica reparou na confusão em frente ao Infinito que não acabava mais. Não conseguia nem pensar com o barulho. E os gritos? Afiados, eram desferidos para todos os lados: o direito, o esquerdo, o de fora e o de dentro. Era perigoso ficar por perto, pois uma mulher já havia perdido a hora, outra a dignidade. As reclamações de um homem que poderiam ser ouvidas há terceirões dali denunciavam o óbvio: tinha perdido a paciência. O Achados e Perdidos da cidade era bem organizado, morriam duas, três pessoas por semana, no máximo. Natan nunca entendeu porquê aquela gente perdia tanta coisa. Uns perdiam a cabeça, outros a memória. O apetite também era comum. Mas sombras, não...  Era raro, tão raro que Natan não lembra de alguém que tenha perdido. Mas acontecia, sem dúvida. Por isso mesmo achava que não seria difícil encontrá-la, se estivesse mesmo lá. Difícil seria atravessar aquela multidão e o Infinito, pra só assim conseguir chegar ao Achados e Perdidos.

 

Mas não, não podia ser tão difícil assim, não podia transformar algo tão simples em um épico. Marcou no seu relógio dois instantes, uns seis segundos, pra pensar. Pensar no que iria fazer, como passar pelo Infinito, como encontrar sua sombra, como... Opa! Dois e meio. Resolve que tudo valeria a pena e parte pra cima da enfurecida multidão com toda a garra e vontade de um homem como qualquer outro procurando sua sombra. De cara percebe o porquê de aquelas pessoas perderem tantas coisas. Eram displicentes, distraídas, pareciam ter perdido há tempos os sensos, o bom e o crítico. Ou era impressão de Natan, ou de fato elas viviam em alguma espécie de universo paralelo, um mundo que só funcionava dentro de suas cabeças (dos que ainda tinham, pelo menos). Natan, carregando a coragem em uma mão e a esperança na outra, depois de subir seis escadas sem degraus pelas quais escorria as famosas cascatas estaduais, atravessa a multidão e chega ao Infinito, que por algum motivo obscuro, era branco. Ou o contrário, já que a safra de motivos obscuros fora fraca naquele ano. Ele começa a andar. O Infinito tem a curiosa peculiaridade de parecer não acabar nunca mais. Se bem que o Nunca ficava logo ali, em frente ao Sempre.

 

Depois de quase um momento inteiro, composto por 60 minutinhos, cada um composto por 60 instantes, ele chega ao Achados e Perdidos da cidade. Era a primeira vez lá. Já ouvira falar que os funcionários públicos do Achados e Perdidos eram as pessoas mais inteligentes da cidade. Confirmou isto quando perguntou se os perus de páscoa que ganhavam tinham mesmo aqueles ponteiros para medir a temperatura. Realmente tinham tudo que um cidadão de rotina que paga seus impostos e leva o lixo pra fora poderia querer. Ou o contrário, já que o Governo recusara recentemente uma proposta de aumento no peso do peru.

 

Depois de pedir das férias, das crianças e dos documentos necessários para cancelar seu cartão de crédito, foi direto ao assunto: “quero minha sombra!”. Todos se assustaram com a determinação do rapaz. Nunca tinham visto alguém que gostasse tanto de sua sombra quanto ele. “É raro, mas acontece”, sussurrou um deles. Foram, imediatamente, atrás da sombra de Natan. “Ela é assim, como direi, meio cinza, meio grafite, entende?”. Começaram a andar. “São seis salões, senhor”. E eram enormes, frios, metálicos. Natan logo entende o porquê da confusão em frente ao Infinito, os salões estavam vazios. Passando pelo primeiro pôde ver claramente o mapa para Atlântida, algumas tragédias gregas e, de relance, aquele clips de papel que ele procurara até a morte tempos atrás. Passou para a seção de artigos sacros. Santo Graal, evangelhos perdidos, estava tudo lá. Seguindo viu o diamante azul que a velinha do Titanic jogou no mar, a taça Julies Rimet, e alguns pedaços da Challenger. A serpente negra estava naquela mesma seção até pouco tempo atrás, mas algumas loiras apresentadoras de programas infantis apareceram e resolveram tirá-la de lá. O corpo do Jimmy Hoffa permanecia em álcool caso alguém resolvesse reclamá-lo.

 

Enquanto passava de seção a seção, a esperança de Natan enfraquecia. Aquele momento exigia as pilhas extras, que ele deixara na caixa, em casa. Eram seis, super potentes. “Esta foi a última. Sinto muito”, disse um dos inteligentes funcionários. “Não pode ser”, pensou ele. Depois de tudo que havia passado para chegar até ali, teria que recomeçar do zero. Porém, o funcionário se dirigiu a uma pequena porta que ficava no fundo daquela seção. “Acho que você deveria tentar falar com ele.” Havia horas, setenta e seis, que alguém atravessava os salões e não encontrava o que procurava. Era raro, mas acontecia. Natan não queria ser a exceção, nunca quis. Sempre foi diferente, sempre ostentou uma sensibilidade que o contornava e o defendia das pessoas Sempre viveu trancado sob si mesmo. “Você quer tentar?”, pergunta o funcionário, cortando a linha de pensamento de Natan, que já quase tocava o chão. “Quem?”, “Como ‘quem?’? O Enigmatista, é óbvio”. Já tinha ouvido falar de um homem especializado em produzir enigmas, mas achou que fosse um mito.

 

A porta era pequena, e ele se abaixou com dificuldade para poder passar. O funcionário apenas a abriu, fechando-a rapidamente depois que Natan entrara. Como prestara atenção pra não bater a cabeça nas quinas da porta, sequer teve os olhos atingidos pela luz fria que refletia a sala d’O Enigmatista em um primeiro instante. Apenas depois de virar o rosto por reflexo para conferir o barulho da batida que o funcionário dera na porta, Natan pôde contemplar uma das coisas mais fascinantes que já havia visto: um velho cabeludo de óculos 3D que jogava Playstation e bebia Coca-Cola ao som de Van Halen. Antes que pudesse mover um músculo do seu rosto a fim de desenhar na expressão o que estava sentindo, o velho grita: “MERRRDA!!!”. O grito passa raspando. Natan pôde sentir o vento na sua orelha. Felizmente apenas acerta a parede que, devido ao gênero, fica toda manchada.

 

-Desculpe, meu jovem.

-O senhor é...

-O recordista mundial de Need For Speed!!!

-Achei que fosse um tal de Enigmatista.

-“O”. “O Enigmatista”. É, também...

-O senhor pode me ajudar?

-Vai depender...

-Do quê?

-Vai depender da idade das suas irmãs.

-Não tenho irmãs, senhor.

-Ah, veio procurá-las aqui? Definitivamente não. Corto todos os contatos depois que...

-Estou procurando minha sombra!

-Hmmm, o rapaz perdeu a sombra...

-Perdi sim.

-Mas por que não compra outra? Você pode usar uma sombra pirata, hoje em dia nem se nota o papagaio no ombro.

 

A cada nova palavra dita pel’O Enigmatista, o nível de confiança de Natan despencava.

 

-É que eu sou muito apegado a minha sombra.

-Sei...

-Ela é meio cinza, grafite...

-Ainda no tempo da sombra em preto e branco?

-Não é a cor que importa. Quando pus meus olhos nela, sabia que era única.

-E é. Devia tentar o museu nacional, quem sabe consegue alguma coisa semelhante, como amor, educação...

-Não quero quinquilharias, só minha sombra de volta.

-Vejamos. Onde a deixou pela última vez?

-Não deixei, a perdi durante uma confusão na rua.

-Que coisa...

-O senhor é a minha última chance.

-Sinto muito, meu jovem. Sou só um mero enigmatista.

-Por isso mesmo.

-Não, eu só produzo enigmas, não os resolvo. Eu sustento este negócio de Achados e Perdidos.

 

Neste momento, Natan percebe o óbvio.

 

-Espere. Você...

-É.

-Mas...

-Desculpe. Quando digo que sinto muito é porque sinto mesmo. Eu tenho que sobreviver.

-Tu é um ladrão!

-Veja lá como fala! Tá vendo a sua sombra aqui?

-Então onde ela está?

-Não sei. Era pra ter vindo parar aqui no Achados e Perdidos, mas às vezes as coisas se extraviam. Sabe como é, raro, mas acontece.

-Mas o senhor faz tudo. Como é possível não saber trabalhar com aquilo que produz?

-O sujeito que lixa e molda a caixa de um violão, ele precisa saber tocar?

 

Natan sente que está perdendo argumentos. Enquanto se abaixa para juntá-los, repara no lustre do piso de parquê.

 

-Acredite rapaz, tudo que eu faço é fundir e limar os enigmas. Cada um é feito para que seu destinatário o compreenda e o desfaça.

 

Natan sente raiva d’O Enigmatista, mas de qualquer forma percebe que precisa dele.

 

-Eu não consigo... Alguém mais pode me ajudar? Alguém que tenha as chaves para esses “enigmas”?

 

O Enigmatista permanece estático por 2 instantes, uns seis segundos.

 

-Diga, meu jovem, você nunca notou nada no mundo que o rodeia?

-Por que deveria?

-Ora, diga você. Essas pessoas que andam por aí, distraídas, levando suas vidas. Acha que ELAS percebem?

-Eu não estou entendendo.

 

A sala muda de cor nesse instante.

 

-Se importa se eu fizer algumas perguntas?

-Bem... Sim...

-Como era sua vida há quatro, cinco anos atrás?

-Eu... Eu não sei, acho que igual.

-O que te levou a achar que encontraria o que procurava nesse lugar?

-Eu não sei, eu... Eu lembro que estava andando pela rua...

-Andando?

-É. Mas parece mais tempo...

-O quê?

-Nada.

-Hmmm. Diga, você não tem, às vezes, uma sensação estranha? Quer dizer, como se não fosse “pra frente”?

-Hã... É, parece mais como um pesadelo... Como sabe disso?

 

Neste momento O Enigmatista finalmente tira os olhos da TV e os coloca sobre Natan.

 

-Sabe, meu jovem, acho que eu posso te ajudar...  – ele respira fundo - Ouça, você pediu se exista alguém que resolvesse meus enigmas. Pois bem, sabe onde ficam os pilares que sustentam a cidade?

-Claro.

-Então. Basta você descer pela Rua Inversa até chegar na Ponte Aérea, que fica ali, sobre o Rio de Papel que desemboca no Oceano da Cartolina Marrom. Do outro lado da ponte ficam os Pilares Extravéssos que agüentam o piso fosco da cidade. São seis. Entre os pilares você vai encontrar um homem chamado O Iluminático. Ele fabrica estrelas, caudas de cometa, e algumas Supernovas também. Terá as respostas para as minhas perguntas.

 

Natan não queria agradecer ao homem. Sentia a raiva crescer dentro de si, ainda que ele fosse o inocente que dizia.

 

-Eu vou lá.

 

Sai da sala pelos fundos, uma porta que dava para a feira da cidade que ficava na Praça Suspensa Descentral.

 

Dentro da sala, o solitário Enigmatista liga para alguém.

 

-Acho que o achei.

-Tem certeza?

-Ele fala como se fosse, é diferente de todos os outros, tenho sim.

-Ótimo. Mandarei alguém pegá-lo.

-Está fácil, ele está indo para a Ponte agora, perto dos Pilares Extravéssos. Ninguém vai incomodar.

-Excelente! Sabe o que acontece se ele resolve acordar, algum dia, não é?

-Desaparecemos. É, já ouvi falar...

-Isso não é brincadeira.

-Nós sabemos que ele nunca mais vai acordar.

-Seria raro, mas você conhece esse lugar, o que é raro sempre acontece.

 

Do lado de fora, Natan resolve rodear aquela praça que flutuava sobre treze carreiras de pinheiros prateados. Sentiu um súbito aperto, uma falta de ar. Como se estivesse indefeso, impotente. Chutando as conchas pelo chão, ele ouve as ofertas do dia. Escárnios, ironias e sarcasmos estavam com um ótimo preço. Ilusões, miragens e déjà vus estavam em falta. Mas ele não queria mais saber, achava que nem era mais a sombra que procurava. Sentia como se estivesse preso, como se os limites desta prisão fossem traçados por ele próprio, só não sabia como. Como se o mundo fosse sua mente e como se sua mente fosse seu mundo. Um dos satíricos ali perto anunciava um artigo raro, peça clássica, de museu. Só seis sonetos. Natan não ouvia mais, resolveu pular na rua. Sempre teve esta estranha sensação de que sua vida não passa de uma sucessão de círculos, de uma eterna volta sobre si mesma que não evolui em aspecto algum. Não lembra desde quando isso acontece e nem como foi parar naquela cidade, há tanto tempo. Simplesmente sabia, seu silêncio saltava séculos, simbólicos, secretos, sagrados, sintéticos. Enquanto lutava para esquecer esta bobagem, nadava displicentemente, banhado pelo frescor picante do piche-pérola. oi7À7tno)) o uO.

 

Luis Henrique Boaventura

 
Forasteiro2006-10-26 13:26:21
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Esse é um capítulo do meu livro. Mais um conto dentro da história principal. Um vocabulário para que vocês possam entender melhor:

-Gatos: principais servos do rei. Eram homens de grande inteligência e força, ensinados desde cedo ao serviço real. Juntos com o rei formavam a ordem dos gatos.

-Tai Neko: significa grande gato em japonês. Era a dinastia real.

-Laros: Ilha do tamanho da bretanha, escondida pelos estranhos poderes de Tai Neko. É onde tudo acontece.

-Transbio: um tipo de mosaico genético, formando criaturas de diversos tipos.

 

O aniversário de Shun

 

O sol raiava no horizonte. Nos litorais podia-se ver gaivotas-prateadas e papagaios-do-mar voando com muita graça e beleza, em busca de caranguejos, ovos, peixes ou qualquer outro alimento. Os pardais cantarolavam alegres pelas florestas e pelos campos lisos do interior. Muito bonito mas pouco especial, pois o sol sempre raia, as gaivotas e papagaios-do-mar sempre voam em busca de alimento e os pardais sempre cantam. Portanto, não haveria motivo para ressaltar as características biologicamente naturais e cotidianas daquele dia. Nada além de um adorno desnecessário para expressar a especialidade daquele dia. Era o aniversário de Shun, neto do rei Ryushi Tai Neko e filho do príncipe Ryu com Polymínia. Shun fazia cinco anos de idade. Por enquanto não podia receber a denominação de príncipe. Essa seria alcançada quando completasse dez anos. Até lá Shun, permanecia em sua prisão de amor e ódio.

            A torre do castelo de Fotópolis abrigava toda a família real, que era composta pelo rei, rainha, príncipes e filhos do príncipe herdeiro. Quem estivesse além dessas relações familiares (tio, primo, sogro, nora, cunhado, genro etc do rei e de seus herdeiros) não tinham direito a ocupar lugar na torre. O lar real tinha dez gigantes andares, sendo o mais alto dele dedicado ao herdeiro não nomeado ainda. No caso, Shun. Segundo sua filosofia, a impureza estava no contato de pessoas com pessoas, e não nas pessoas em si. Para manter num indivíduo sua pureza de mente, era necessário afasta-la de todos. E assim criavam Shun, e todos os herdeiros do trono com menos de dez anos.

            Shun fazia cinco anos naquele dia. As únicas pessoas que conhecia era seu pai e sua criada transbio. Em seu nascimento Shun ganhou dos gatos cientistas um transbio de urso-pardo fêmea, que nomearam Ge. Ge tinha aparência de urso, mas sua inteligência se assemelhava muito com a humana. Ela até falava palavras simples em grego. O presente foi, ao mesmo tempo, a gênese da idéia dos transbios humanos. Ge protegia Shun com sua própria vida, pois isso fazia parte de seu código genético manipulado por Persis. Ge era a única criatura que Shun podia conversar, pois até seu pai não tinha muito tempo para dedicar com ele. Mas mesmo assim, Ryu Tai Neko continuava sendo um bom pai. De sua janela, com um telescópio de alta tecnologia, Shun conseguia avistar Laros de leste a oeste, de norte a sul. Por isso, naquela manhã Shun podia avistar as gaivotas-cinzentas, os papagaios-do-mar e os pardais.

            O príncipe tomou sua refeição matutina com muita tranqüilidade. Enquanto se alimentava, chamou Masamune Saromi. Ordenou que ele convidasse todos os gatos à sala do trono, para uma declaração especial. Como não se tratava de nenhum assunto legal ou judiciário, não era necessário o encontro na sede do senado. Logo que terminou de comer, foi ao encontro de Shun. Como todo herdeiro do trono, Ryu tinha os misteriosos poderes reais. Os mesmos que deram a Haruo o trono e o título de grande gato. Como um grande fantasma, Ryu levitava-se pelos corredores e escadas da torre. Acompanhado de Ryu sua gigantesca capa, cobrindo o príncipe, se arrastando pelo caminho com suavidade.

            A porta do quarto era completamente de platina, com o símbolo real (o olho do gato, o cajado de platina e o cetro) gravado no meio. Ryu tinha na mão esquerda um anel, com uma linda jóia de esmeralda. Ele apoiou o anel com o desenho do símbolo real, e a porta se abriu automaticamente.

            Ao entrar, Ryu avistou uma linda selva. Relva se espalhando pelo chão e pelas paredes. Árvores caducas estendendo seus braços. E nos braços, centenas de aves. Tentilhões, pardais, pombas, faisões, cucos, corujas. No meio da floresta densa, Ryu não conseguia ver seu filho. Mesmo assim sorriu.

-Bom dia, passarinhos.

            Tal carisma e sorriso só podia ser vista na intimidade de um nobre. E os pássaros responderam, em coro de vozes:

-Bom dia, papai.

-Que bonitinhos são vocês. Vermelhos, azuis, amarelinhos, verdes, brancos, pequenos, grandes, canoros e uma coruja! Digam-me onde está Shun.

-Por aqui papai.

            As pequeninas aves foram voando na direção da criança, seguidos por Ryu. Shun estava cercado por centenas de pequenas aves. À sua traseira estava Ge, olhando admirada e ao mesmo tempo assustada com o vôo contínuo e desesperado das aves. Em sua testa, Shun carregava uma jóia prateada.

-Oi pai!

-Bom dia Shun. Inspirado hoje.

-O dia está bonito. Vi muitas aves hoje.

-E pessoas?

            Shun apontou um não com a cabeça.

-Então hoje você verá. Mais que isso, conhecerá.

-Não entendo.

-Tire a jóia para conversarmos.

            Shun tirou a jóia e todos os pássaros e plantas sumiram imediatamente. Ficaram apenas os móveis do quarto e seus reais habitantes. Aquilo não passava de um brinquedo luxuoso, que os larianos chamavam de lousa holográfica. Com a jóia, o que a pessoa imaginava aparecia em sua frente como holograma, num raio de dez metros da criança. Porém Shun mostrava-se especial, até em suas brincadeiras. Uma criança de cinco anos conseguia criar no máximo duas criaturas, e o seu formato não saía tão real. Já Shun conseguia criar centenas de seres com a lousa holográfica, com todos os seus detalhes e meticulosidades.

-Como você já deve saber hoje é seu aniversário. E meu presente para você é a sua liberdade por esse dia. Sei que é contra a tradição, mais é importante para você ter contato com as pessoas desde hoje. Quando você tiver dez anos te coroaremos príncipe, e você será cercado de pessoas, e não de imagens holográficas. Te libertando, pelo menos hoje, você vai experimentar a convivência, já treinando para a sua coroação.

-Não quero ir. Estou com medo.

-Enfrente-o. Conviver com as pessoas não é sempre bom, eu sei. Principalmente para você que nunca conversou com ninguém. Mas quando aprender, vai ver que as alegrias da convivência superam as tristezas.

-Mas quero que Ge vá comigo.

-É claro.

            A sala do trono não abrigava todos os 535 gatos da ordem. Mas o comparecimento nela não era obrigatório. O cômodo era grande e vazio. No teto um lustre enfeitado com cristais e diamantes. Um tapete gigantesco se estendia ao chão, com três grandes portas abertas de frente para três tronos. Os tronos eram de platina, o metal mais valioso em Laros, com o assento de seda. Na época os ocupantes dos tronos eram o rei Ryushi Tai Neko e seus filhos, Ryu e Kiko. Ao lado direito das três cadeiras nobres havia uma pequena porta, de platina e esmeraldas. Ela levava até a torre, o lar dos Tai Neko. Cerca de duzentos gatos atenderam à convocação de Masamune Saromi. O grupo dos gatos cientistas, Salim, Ekilo e Philemon estavam presentes. O príncipe Ryu chegou. Como era de costume, todos levantaram seus cajados com a ponta arqueada para cima, em sinal de respeito e saudação.

-Saúdo a todos aqui presentes. Hoje, vinte e sete de Abril segundo o calendário de Gregório, é um dia que devemos todos nos lembrar. Hoje comemoramos a morte de Polymínia Tai Neko, a grande rainha que Laros conheceu e aplaudiu. Foi uma grande perda, que desolou a todos os cidadãos desse nobre país. Mas, nesse dia tão cruel, uma esperança nasceu. Pude concluir que a causa da morte de minha amada esposa foi a vida. Ela escolheu morrer para que a geração de Tai Neko continuasse viva, através de Shun, meu filho que hoje comemora cinco anos de existência. Por isso, ó povo de Laros, comemoremos nós. Comemoremos a morte que foi em favor da vida e do prolongamento da geração real. Hoje ofereci um presente, uma oportunidade para Laros, em homenagem a Polymínia, pois era isso que ela queria. Laros, neste dia especial, conhecerá o futuro rei. Aquele que sucederá a mim. Aquele que foi gerado no ventre de Polymínia e com ternura foi salvo por ela. Eu, Ryu Tai Neko, apresento a todos Shun Tai Neko.

            Houve um espanto geral. Até Masamune Saromi esperava diferente quando fez a convocação. Todos sabiam que o menino deveria permanecer em seu quarto até completar dez anos e ser coroado príncipe. Mesmo assim os protestos se calaram, olhando para Shun com espanto. Da mesma forma, Shun estava espantado. Shun jamais vira tantas pessoas juntas, ainda mais olhando para ele. Teve vontade de voltar, ou se esconder nos pêlos macios de Ge. Shun se achegou a seu pai, que declarou com muita felicidade:

-Alegrai, vós todos. A perda de Polymínia é deprimida, mas a esperança de Shun e viva.

            Ryu sentou-se em seu trono. Alguns gatos se dispersaram, enquanto outros foram acariciar Shun. Os cientistas cercaram mais Ge, desejando observar o progresso e o sucesso na criação de Persis. Shun sentia muito medo e insegurança naquele momento, em meio a tantos gatos cumprimentando, saudando e falando ao mesmo tempo. Quase pulou de susto quando um cajado de platina bateu com força no chão atrás dele. Ao virar-se, Shun encontrou um homem oriental, de barba fina e cabelos pretos, vestindo um kimono vermelho. Seu aspecto sério era aterrorizante.

-Saudações, alteza. Meu nome é Masamune Saromi, escrivão real e coordenador do castelo de Fotópolis. Ficarei lisonjeado se me deres o prazer de apresentar-te o castelo.

-Não, eu prefiro ficar aqui mesmo.

            Com o tempo, todos cumprimentaram Shun e foram embora. Até Ryu foi para a sua torre. Quando se deu conta, estava sozinho ele e Ge. Ele abraçou seu ursinho.

-Ge, acho que não gostei desse presente. Quero voltar para meu quarto.

-Seu pai não deixa, disse calmamente Ge, com sua voz abafada.

            Foi quando chegaram dois gatos.

-Felix, esta é a última vez que você me atrasa para uma convocação.

-Desculpe-me, mestre. Mas acho que já acabou. Não tem ninguém aqui. Hei, quem é aquele menino lá?

-Deve ser o filho de um gato perdido por aí. Ele vai encontrar seu responsável.

-Não sou filho de um gato, mas não sabia que os pais davam ursos de presente para seus filhos.

-Isso não nos interessa. Que é estranho eu sei, mas é melhor não se intrometer nos assuntos dos outros. Vamos embora... Felix?

            Felix Campobasso tinha 13 anos. Branco, alto e magricelo. Tinha lisos cabelos loiros que escorriam pela cabeça, e olhos da cor do céu. Era do mesmo grupo de bagunceiros que Ekilo, e talvez o que mais aprontava. Mas ele não fazia para o mal e destruição dos outros. Para Felix a vida era uma brincadeira. Leandro Nijitov, capitão da companhia beta, não sabia disso e o escolheu como gaku neko. Mas, apesar das repreensões que era obrigado a fazer, no íntimo Leandro se divertia em ver as artimanhas e brincadeiras de seu aprendiz. Felix se achegou perto dos dois. Olhou tentando identificar, mas não conseguiu.

-Oi. Qual é o seu nome?

-Shun.

-Está perdido?

-Não.

-Felix, o que esta fazendo aí?

-Vem cá, mestre. Acho que não é um urso. É um transbio.

-Um transbio? Ora Felix, já falei para você não se intrometer nos... Shun Tai Neko! OH, minha nossa, o que ele faz aqui?

-Não sei, mas parece estar com muito medo.

-Felix, você sabe quem é ele?!

-Não.

-Ele é o filho de Ryu Tai Neko! Ele deveria ficar no quarto dele até os dez anos!

-O príncipe o deixou sair. É o presente de aniversário de Shun – respondeu Ge tímida.

-Você parece não estar gostando muito desse seu presente, não é? Porque você não vem e brinca comigo?

-Felix!

-Sim. Mas do que?

-Eu não sei. Nós poderíamos correr no jardim ou brincar na piscina. O que acha?

-Felix, não entendeu o que eu falei? Ele é o filho do príncipe! Você não pode pega-lo e brincar com ele como se fosse qualquer criança.

-Mas mestre, é o aniversário dele. Não há bolo, nem festa, nem nada. E ele parece muito triste. Aniversários não servem para isso. E então, vamos?

-Nós vamos morrer por isso, mas você está certo.

            Felix, Leandro, Shun e Ge passaram o dia juntos. Comentários contra a ação de Ryu espalharam-se. E por isso ninguém mais queria direcionar a palavra a Shun. Felix e Shun se divertiram muito juntos, o dia todo. Felix não tratou Shun como um herdeiro, mas como um amigo, como uma criança. O dia se passou e Shun voltou ao seu quarto. E pelos próximos cinco anos, o menino Shun guardou no coração a imagem de um amigo.

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  • 2 weeks later...

Bom, comecei a mexer com o 3d Studio Max semana passada e vou postar meus primeiros trabalhos aqui... não é nada grande coisa porque sou bem newbie ainda, mas espero melhorar com o tempo.

  

O primeiro é um tabuleiro de Xadrez:

 

xadrez4.jpg


Olha o Cinema Em Cena no pedaço 02

xadrez18CEC.jpg


Versão final do tabuleiro (com reflexo e noise):

xadrez10-1.jpg


Robôs do Spielberg (exagerei nas 'eyebrows', dai eles ficaram com cara de sono rs):

robosnoCeu2comSOL.jpg

O buraco em cima foi erro mesmo na hora de desenhar a parte de cima do robô, mas eu pretendo fazer aqueles bracinhos rs.
LeonardoBastos2006-11-05 20:32:05
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  • 2 weeks later...
Como que tu tirou a primeira foto?Deitou no chão?

é' date=' eu tava deitada na grama vendo o sol se por e com a câmera na mao... hehe foi muito gostoso

 

 

artemis, tao muito boas... dariam boas capas de revistas..serio! se eu fosse vc ja registrava e garantia um copyright... ja ja ce vai ve elas ilustranbdo alguma materia por ai..

 

eu nao sei como faço nada disso, eu preciso muito de uma luz, quero pôr meu trabalho por aí, nao só em forums.... se souber de alguma dica, aceito e com gosto! 02
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  • 2 weeks later...

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