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Forum Cinema em Cena

SergioB.

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Everything posted by SergioB.

  1. Nesta semana quem tem muito sorrir é o atletismo da Jamaica. Se as provas de velocidade masculina não trarão os louros das Olímpíadas passadas, a velocidade feminina ainda tem muitas alegrias a dar ao país. Ontem, em uma competição na Jamaica, Shelly-An Fraser- Pryce e Elaine Thompson, fizeram, cada uma, os dois melhores tempos do ano nos 100m rasos: 10.87s, e 10.88, respectivamente. Na minha cabeça, são o Ouro e o Bronze de Tóquio. * Bence Hálasz da Hungria fez hoje 79,88 no Lançamento do Martelo! Segunda melhor marca do mundo neste ano. Ele que foi Bronze por 1cm, com 78,18m, teria sido Prata com tranquilidade no Mundial passado. Mas ainda vejo o polonês fodão Pawel Fajdek com o Ouro, redimindo-se do seu fiasco no Rio 2016, quando nem foi à final. * Outra bela marca obtida neste fim de semana foi o incrível 1:54.44 nos 200m livre feminino da nadadora de Hong Kong Siobhan Haughey! Ela teria sido medalha de Prata com essa marca no Mundial passado, quando ficou na quarta colocação. Olha a Sarah Sjöström ficando de fora do pódio nesta prova, ou até mesmo a Ledecky!!!
  2. Que filme!! Estou ainda impactado por esse "Pola X", filme de 1999, de Léos Carax. Até os primeiros 50 minutos, eu nem acreditava que era do diretor francês. Um filme chiquérrimo, ambientado numa mansão do sul da França, com amplos jardins, taças de vinho, livros, Catherine Deneuve e Guillaume Depardieu, como dois irmãos, muito próximos, quase incestuosos, que ficam deitados juntos, fumando... Depois de certo acontecimento, o filme muda completamente de têmpera. Vira Rock ´n´roll, indo parar até em um galpão fabril. Aí, sim, o Léos Carax, louco, genial, aparece, inclusive em uma cena de sexo sensualíssima, com um "69" em close, por longos minutos. Quente a parada... Não posso dizer nada da trama em si, pois ela tem vários segredos. Mas penso que o filme consegue discutir muito apropriadamente aquela ideia de que o escritor de verdade não pode se contentar em ter uma vida perfeita, burguesa, sem perigos, ele precisaria, para a sua literatura progredir em arte, enfrentar certos desasfios da história pessoal. Encontrar realmente o tema mais importante de sua vida, parar purgar os pecados do passado. A nota triste é saber que o bom ator Guillaume Depardieu tenha morrido tão precocemente. No filme ele anda de moto e caí dela, e na vida real, justamente um acidente de moto lhe taria uma infecção bacteriana que o levaria a amputar a perna, viver em hospitais, e, depois, em 2008, infelizmente, falecer. Fotografia de Eric Gautier ( "Na Natureza Selvagem", "Diários de Motocicleta", "Ash is Purest White"), como sempre, excelente, tanto no ato luminoso, como no ato sombrio. Maravilhoso! Em preparação para "Annette". Chega logo!
  3. Sugestão do nosso amigo @Gust84, vi esse "Ninguém Sabe que Estou Aqui", de 2020, primeiro original Netflix do Chile. Tem uma história legalzinha a respeito de usurpação de talento, de modo a criticar a indústria cultural, principalmente sua vertente musical, e sua necessidade de gerar ídolos teens que sejam também em si mesmos protótipos de beleza ideal. Achei a direção um pouco indecisa. Às vezes quer ser estilística, às vezes quer ser apenas padrão. Ressalva-se que é o primeiro longa do diretor Gaspar Antillo, amparado pela produção de Pablo Larraín. Vale conferir, ainda mais num mar de produções "C" que aportaram no serviço recentemente.
  4. Depois do filme antiguerra, que tal o antifaroeste? Em 1971, Robert Altman dirigiu "Onde os Homens São Homens", e reduziu a pó os clichês do gênero. Ambientado em um Oeste tardio, com muita chuva e neve, ao som de canções tristes de Leonard Cohen, Altman enfeou os mais belos atores de Hollywood na época, Warren Beatty e Julie Christie, para contar uma história da formação de uma sociedade entre um apostador e uma cafetina, no empreendimento de um bordel de luxo. Eles acabam se apaixonando, embora longe da cama. Mas a razão do filme, na verdade, aponta a um fim maior: Mostrar o capitalismo incipiente do começo do século XX naquela região. Portanto, um parente setentista de "First Cow" - pra mim, ainda o melhor filme do ano -, sabe-se lá se não é de fato uma inspiração, e acrescento mais um argumento, a presença em ambos os filmes do ótimo ator Rene Auberjonois, morto no ano passado. Fotografia linda do húngaro Vilmos Zsigmond, preparando-se para o seu Oscar no final da década. Segunda indicação de Melhor Atriz para Julie Christie. Final excelente.
  5. "Aleksandra" é um filme de 2007 do mestre russo Aleksandr Sokurov. Leva como título o nome de uma avó que - por razões pouco explicadas - vai visitar o neto capitão no acampamento militar na Chechênia. O filme também poderia se chamar "Avó e Neto", na sequência de "Mãe e Filho" e "Pai e Filho", trabalhos elogiados do diretor, mas esse é muito mais simples e direto. Gostei do não sentimentalismo. A personagem da avó não é "fofa", é rabugenta, dá trabalho...Mas mesmo assim ela consegue atrair o carinho dos oficiais, e ofecer-lhes préstimos, como ir comprar biscoitos do outro lado do campo miltar. É do outro lado, na zona de guerra, que ela encontra outras mulheres da sua idade, outras avós, ainda mais débeis,e pode ver a destruição que seus protegidos "tão jovens" ou "pequenos" podem acarretar. Ela que a pouco andara de tanques, e presenciara a limpeza do armamento. O desenho de som é primoroso. Sentimos durante todo o tempo os ruídos da maquinaria militar. Uma coisa irritante. Assim, como, a fotografia, saturada em graus de verde e amarelo, nos fala do calor da região. Não é um cinema fácil. Mas é muito bom.
  6. "N`um vou nem falar nada!!" "Eu espero que haja homossexuais felizes. Eles apenas não estão no meu filme." William Friedkin, em 1970, dirigiu essa obra-prima chamada "Os Rapazes da Banda". É curioso como mesmo entre os cinéfilos, mesmo entre os gays, pouca gente a viu. Nunca é exibida, nem seu dvd é fácil de achar. Poderia falar que é "Os 12 Homens e uma Sentença" gay. Aquele típico filme de um ou dois cenários, em que aparentemente o que brilha são o texto e o elenco, mas na verdade a direção precisa ser espetacular para conferir dinamicidade à narrativa, e colocar a todos os atores no quadro. Bem como a montagem. Nessa minha revisita, fiquei admirando o trabalho da montagem de Gerald b. Greenberg (Oscar por "Conexão França"). Os cortes são rápidos, no rítmo das falas. O certo é que tudo se originou no teatro off-Broadway, por meio da escrita e produção de Mart Crowley, morto este ano. A peça de 1968 foi um enorme sucesso de público e crítica, marcando para sempre a representatividade gay. Sete amigos se reúnem para comemorar o aniversário de um deles. Aparece um "presente" em forma de Go Go Boy. E também um "penetra", um amigo heterossexual do anfitrião. A partir daí, rancores, segredos, verdades, racismo, antisemitismo, e homofobia aparecerão, e a festa irá por água abaixo. É fantasticamente bem interpretado pelos mesmos atores da peça original. Lamentavelmente, dos sete atores que interpretaram os amigos, 5 morreram de AIDS. E, sim, concordo com a frase acima do Friedkin. Os gays felizes viraram uma espécie de muleta de legitimação para a televisão e para o cinema. Se não aparece um personagem que legitime a possibilidade da felicidade, a obra é encarada com preconceito. Se esse filme fosse feito hoje, seria apedrejado. Sua honestidade fere, mas ao mesmo tempo humaniza, tornado-se o primeiro filme a mostrar os homossexuais realmente como indivíduos de carne e osso, com dramas profundos e defeitos. Para mim toca no incômodo ponto principal: Como os gays no fundo se detestam! É minha experiência, chegado à idade em que estou, tanto que só ando com homens héteros. E o uso do pronominal no filme, como no meu texto, é muito importante. No final, se diz: "Tudo seria mais fácil se não nos odiássemos". O pronome tanto se referindo à comunidade, bem como referindo-se psicologicamente a si mesmos. De fato: "Não foi tão divertido quanto achei que ia ser".
  7. "Conflito Mortal" é a estreia na direção de Wong Kar-wai em 1988. A história é básica - irmão maior defendendo o irmão caçula dos achaques de uma gangue - mas o estilo já chama a atenção, principalmente para a época. Vários elementos de seu cinema já estão presentes, como várias tomadas em slow-motion, a saber o beijo do cartaz, que veremos mais à frente em "Um Beijo Roubado" de 2007. Ah, aqui também tem um romance em que um dos pares trabalha em um restaurante ( "Happy Together", 1997), e uma música romântica é colocada em jukebox (alô, "Moonlight"), tática que se repetiria em "Anjos Caídos", de 1995; bem como há as mesmas baforadas de cigarro (alô, "Moonligth") de "Happy Together", e "Anjos Caídos". E já há também o emprego das luzes melancolicamente em néon (sim, a grafia correta é esta). O que ficará na memória do espectador, acredito, será a música "Take my Breath Away" em versão mandarim tocada em vários momentos do filme, conferindo um caráter de melodrama kitsch para as cenas. Eu gosto de ressaltar as semelhanças dos filmes de wai com a obra ganhadora do Oscar por que o mundo lacrador não vive sem enaltecer a pretensa originalidade do filme de Barry Jenkis. De minha parte, gosto sempre de mostrar onde está a fonte das coisas. E muito dessa fonte já estava presente em 1988, quem diria?! Humor involuntário pré-pandêmia: Nas primeiras cenas, abre-se a porta e aparece uma chinesa tossindo e usando máscara.
  8. Depois de fazer o mundo inteiro chorar com o indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro "Filhos do Paraíso" em 1999, o grande diretor iraniano Majid Majid quis fazer o mundo inteiro se desidratar de novo com seu filme seguinte "A Cor do Paraíso". Basicamente conta a história de um pai que pretende se livrar de seu filho cego de 8 anos. É visto pelo pai ignorante, como um estorvo, um incapaz, um fardo, que atrapalhará inclusive uma segunda núpcia. Mas na verdade o garoto compreende o mundo através do tato ativo, aprendeu a ler em braile em sua escola em Teerã, tem curiosidade pelo mundo, ama suas irmãs e avó, cujos rostos sempre os toca. Cego na verdade é o amor do pai. Há duas cenas comoventes. A primeira é quando o garoto em longo monólogo questiona por que Deus não ama os mais fracos, embora diz - segura o choro!, seu amável professor o tenha ensinado que não é verdade, pois Deus também habita o invisível. A segunda cena comovente é o final do filme, quando há de ser feita uma decisão. Em termos cinematográficos, fico maravilhado com a Fotografia, nos mostrando um Irã verde - nada deserto - verde. Com bosques, rios, corredeiras, trigo...Uma coisa! E, em termos políticos, um Irã florescente, da reconstrução pós-guerra. Lindo demais! E muito estudado em cursos de pedagogia inclusiva.
  9. "Louca Paixão"/ Turkish Delight/ Turkish Fruit, de 1973, é um dos melhores filmes de Paul Verhoeven. Seu segundo filme; a estreia de Rutger Hauer no cinema; uma resposta holandesa à "Love Story"; uma companhia mental para "O Último Tango em Paris"; uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro para a Holanda em 1974; não faltam motivos para ver esse filme! No início você fica incrédulo, por não saber que os Países Baixos também faziam pornochanchada, ou quase isso. De cara, é uma comédia pastelão bem erotizada, com muita nudez frontal, música de motel, e tudo. Depois o filme vai te pegando de um jeito...Ele está apenas contando uma real história de amor, com a intimidade explodindo de tal maneira, que o amante, em uma famosa cena, pega com carinho as fezes da amada. Para mim, que estou lendo Sade, e me acostumando a centenas e centenas de páginas de coprofagia, nada demais... Direção excelente, e atores extraordinários. Rutger Hauer e Monique van de Ven fazem dois libertinos, no auge da beleza, no auge da intensidade, muito patetas, incontroláveis, irreparáveis. A cena final é um primor. Excelente.
  10. "Cidade Pássaro", com título internacional, "Shine Your Eyes", é um filme brasileiro que competiu em Berlim 2020, na Mostra Panorama, e foi bem recebido por lá. Pudera, é um ótimo filme, muito melhor do que eu pensava. O diretor Matias Mariani, e um time de muitos roteiristas que incluem sua esposa Júlia Murat, fizeram uma história muito inteligente, e muito original, filmado sem o miserabilismo tradicional do nosso cinema, mesmo se passando no castigado centro velho da capital paulista ( Há até uma cena na belíssima Sala São Paulo). Conseguiu também tocar em pontos colaterais, como a ocupação de imóveis abandonados, a pouca mas importante assistência ao imigrante, bem como na falta de cultura linguística do brasileiro. A história: Um nigeriano vem ao Brasil procurar o irmão mais velho que desapareceu, logo descobre que ele contava mentiras, alardeando sucesso, para a família se tranquilizar por lá. Na busca pelos passos do irmão, descobre outras pessoas que se relacionaram com ele, e também descobre o lado mais duro da cosmopolita São Paulo, bem como seu histórico de receber imigrantes do mundo todo. O filme é falado mais em Igbo (uma das línguas da Nigéria) do que em português, mas há muito espaço para o inglês, chinês, e também até húngaro. Tudo para mostrar essa faceta multicultural da cidade. Ademais, o roteiro consegue, às vezes de forma bem sucedida, às vezes não, aliar a ancestralidade africana com a matemática e a tecnologia - áreas de interesse do irmão desaparecido. Mas o melhor lado da história pra mim é o relacionamento amoroso formado por tabela, entre o protagonista vivido de forma excelente pelo nigeriano O.C. Ukeje e a atriz brasileira Indira Nascimento. Gostei muito. É uma pena que o filme, acredito, não tenha 50% de português para se qualificar na disputa para ser o candidato a Melhor Filme Internacional.
  11. "N`um vou nem falar nada!!!"" F I N A L M E N T E !!! GENTE... Era o grande filme do Maior de Todos (essa perífrase que uso antes de escrever Ingmar Bergman) que me faltava ver. "Face a Face", 1976. Estou ainda aplaudindo de pé (dentro da cabeça). Porque muitos bons diretores podem fazer um parque dos dinossauros, mostrar uma guerra nas estrelas, recontar a história de um reinado, filmar de trás pra frente, adaptar Shakespeare com modernismos, mostrar a corrupção policial, ou fazer graça com nossos defeitos, mas só um, só um, conseguiu filmar a mente humana. Se ao longo de sua imensa filmografia já sabíamos disso, quando você chega em "Face a Face", você se desmente, não, "foi agora", foi nesse filme que ele conseguiu filmar a mente humana. Que isso! Mas ele filmou a vida mental de uma determinada personagem, uma mulher, e para isso era necessário a melhor atriz possível, e talvez até mesmo a melhor atriz do mundo. Gente...o que a Liv Ullmann faz nesse filme!!!? O que é isso? Como essa mulher não tem pelo menos um Oscar Honorário, atingidos os 81 anos? Há pelo menos três cenas de arrancar a tampa da cabeça de tão maravilhosas. Há uma cena de choro histérico que é pra lá de impressionante. Ela ganhou, na época, Nova York, Los Angeles, a National Board of Review, mas perdeu o Oscar para Faye Dunaway. Explicado. A Academia da época não iria assistir a esse filme denso, reflexivo, com legenda... Outra questão: Originalmente é um telefilme sueco (assim como o magistral "Cenas de um Casamento"), com cerca 200 minutos, mas só chega a nós atualmente a cópia cortada. Bergman tem requinte mesmo na modéstia financeira. Sua perícia das coisas prosaicas do dia a dia, como um arabesco do papel-parede, ou portas, faz elas ganharem uma quarta dimensão. É Freud se cineasta fosse. É Deus se cineasta fosse.
  12. "N`um vou nem falar nada!!"" Filmaço de Vincente Minnelli, aliás seu melhor filme, a respeito da ascensão de um produtor de cinema ambicioso e igualmente crápula, que pisa em seus colaboradores ( um diretor, uma atriz, e um roteirista) para atingir o sucesso. Não dá pra qualificar a atuação do Kirk Douglas, esplêndida esplêndida; bem como de Lana Turner. Os dois têm uma cena de bater palma. Só que quem ganhou o Oscar foi Gloria Grahme, Atriz Coadjuvante, por seus menos de 10 minutos em cena (por muito tempo, a menor da história a vencer), além de não fazer NADA, tirando o Oscar de Jean Hagen por "Cantando na Chuva". Hollywood tratada como ficção tinha causado furor anos antes com "Sunset Boulevard", de 1950, e talvez por isso este "Assim Estava Escrito", de 1952, apesar de ter ganhado 5 estatuetas (tal como o predecessor, Roteiro. Mas ridiculamente não foi indicado a Melhor Filme), seja menos lembrado. Não deveria. Vemos aqui a arte como produto, e quem a vê como produto, ganha dinheiro, ascende. Foi assim lá atrás, é assim hoje. Assim estava escrito. Está escrito. A cena final é sensacional.
  13. "Os Gritos do Silêncio"/ The killing Fields, de 1984, é outro filme que nunca é exibido e eu não sei a razão. Embora goste muito mais da primeira parte, a segunda é a que fica marcada na memória do espectador pela tragicidade das cenas. Haing S.N Nagor levou o Oscar de Coadjuvante, em sua estreia no cinema, mas na verdade é um coprotagonista, já que a segunda parte do filme é toda dele. Adoro o Sam Waterston - que figura serena e doce - merecida indicação a Melhor Ator. Aliás, deveria ser mais reconhecido. O filme politicamente é bem equilibrado. Mostra a intervenção americana no então neutro Camboja, durante a Guerra do Vietnã, bem como mostra os horrores do regime comunista do Khmer Vermelho - não a ponto de igualar os horrores descritos no excelente documentário "A Imagem que Falta", de 2013, também indicado ao Oscar. Os horrores dos campos de morte da segunda parte são contrapostos também a um certo horror mercadológico, com aquele país asiático inundado de caixas de Coca-Cola ou do uísque do andarilho, disputando espaço com a suntuosidade de seus templos. Primeiro Oscar de Fotografia do Chris Menges. Mestre.
  14. Fechando o fim de semana, com o belo "A Colecionadora", de 1967, a parte IV (que muitos erradamente dizem ser a terceira) dos Seis Contos Morais de Éric Rohmer. O antigo editor do Cahiers du Cinema dá aqui uma aula sobre a rejeição masculina. Sul da França, verão, uma casa de campo, três jovens entediados, preguiçosos, que só fazem ler, beber, ficar ao sol, deitarem-se na grama...Opa! É filme do James Ivory? Prequel de "Call Me By Your Name"? Pois é, Rohmer foi dos primeiros a construir esse cinema de discussão filosófica embalado em charmosos cenários. Os debates são excelentes. Primeiro, no prólogo, amigos debatem beleza vs feiúra (A elegância como uma forma de manter um espaço vazio entre as pessoas). Depois se debate a necessidade do trabalho ou do ócio; mas nada é mais importante no filme do que a pensata sobre a rejeição. A bela jovem, chamada machistamente de colecionadora, por se envolver sexualmente com vários rapazes, passa o filme todo rejeitando o protagonista-narrador. E ele finge que não a quer. Desse jogo, vemos que quem tem exarcerbado o conceito de posse não é quem coleciona amantes. Mas quem sofre por não ter o objeto desejado. A personagem feminina não colenciona, ela destrói. E nem liga para os danos. Fotografia linda de Néstor Almendros, futuramente ganhador do Oscar por "Days of Heaven".
  15. Último filme de Luis Buñuel, "Esse Obscuro Objeto do Desejo", de 1977, levantou muita polêmica, foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro e de Roteiro Adaptado, e tem muitos encantos ainda hoje. Pra começar esse título excelente, lindo, que incita a todos. Cada palavra conta. "Esse": Ora, a graça surrealista maior é que no filme há duas (belíssimas) atrizes interpretando a mesma personagem - o que só saberemos depois de um tempo. Esse; esse qual? Há dois. É "obscuro", porque o protagonista vivido pelo ótimo Fernando Rey, um burguês de meia-idade, luta para conhecer completamente a mulher, luta para tirar sua virgindade. Está oculto o prazer. "Objeto": A palavra mais importante. O burguês, porque tem dinheiro, vê as pessoas como algo a seu dispor, algo que pode vir a ele, como força magnética, porque simplesmente tem dinheiro. A jovem tem de abandonar a dança, tem de abandonar seus amigos,seu emprego, sua mãe, abrir-se a ele. "Do Desejo" : Como versou a poeta Hilda Hilst no livro de mesmo nome, "porque há desejo em mim é tudo cintilância". É só desejo sexual o que o protagonista sente pela jovem. Não é amor. Diz que é amor, que é paixão, mas acompanhando o desenrolar do filme, vemos que ali está-se diante mais de uma relação de consumo, está-se sim mais diante de uma hierarquia, do que propriamente de um sentimento nobre. Quanto ao filme em si, Buñuel tem aquele hábito de incorporar animais em cena. Mas aqui só o faz duas vezes. Com uma mosca. E com um rato de pelúcia, preso em uma ratoeira (Metáfora para o jogo de sedução, é dizer, o jogo de gato e rato, entre o homem e a mulher). Também faz uma sinalização política importante: A burguesia não estaria interessada no que se passava na Espanha. Os atentados terroristas mostrados ao longo do filme são tratados com frieza e indiferença pelo protagonista. Até o final. Meu ranking Buñuel é assim: 1) O Anjo Exterminador; 2) O Fantasma da Liberdade; 3) Esse Obscuro Objeto do Desejo; 4) O Discreto Charme da Burguesia; 5) A Bela da Tarde
  16. Só dá atletismo americano. Nesta semana, outros ótimos resultados do país. *Pra começar, o melhor lançamento do Disco feminino no ano. E que lançamento! Um excelente 70.15m de Valarie Allman (escrevo sobre ela desde o início do tópico!), quebrando o recorde americano. Teria sido campeã mundial no ano passado. As duas cubanas devem começar a se preocupar! Para a nossa tristeza, em um Campeonato Mundial Júnior de Atletismo, em 2014, Valarie foi prata, e uma brasileira, Izabela Rodrigues, a "panda", foi Ouro. Nunca mais ouvi falar dela! Ê Brasil, sil sil... *As boas notícias não param por lá. Com 4.92m, Katie Nageotte atingiu a sexta melhor marca do Salto com vara feminino de todos os tempos, melhor desempenho deste ano. Isso que é crescer na hora certa! *Em compensação, em evento realizado na Itália, nosso Thiago Braz foi campeão com uma marca discretíssima, 5,50m, na terceira tentativa, não conseguindo saltar além disso. Tenso!
  17. Encerrando o sábado com os "cancelados" do cinema, fui com o gênio Woody Allen, e seu "Crimes e Pecados", de 1989. Sem dúvida, um dos grandes filmes dele. Tudo é redondo, tudo flui. Embora ele mesmo tenha confessado não ter ficado tão satisfeito com a parte de comédia desse filme, e em "Match Point", segundo o próprio, ele tenha conseguido fazer um "Crimes e Pecados" só com drama. Engraçado, que a filmografia continua, e depois ele trabalharia o tema ainda em "O Homem Irracional", de 2015, por exemplo. Bem como dividiria a comédia e o drama, de maneira formal, no subestimado "Melinda e Melinda", de 2004. A inveja é um dos temas principais desse filme. Um pecado que está relacionado com o olhar, daí estarmos diante de um personagem oftamologista e outro diretor de cinema. Mas a inveja é um pecado, não é um crime. Contudo, quem será "punido" será o pecador, não o criminoso. É a ironia dramática desse roteiro fabuloso (indicado ao Oscar), desse diretor fabuloso (indicado ao Oscar), com um ator fabuloso (Martin Landau, indicado ao Oscar, que iria se superar depois estupendamente em "Ed Wood"). Deus também, lá do alto, só "olha", ou, dependendo, pune. No final, dá-se o encontro entre esses dois personagens, bebendo uísque, celebrando a derrota e a vitória de serem quem são, sob a sombra trágica do fotógrafo bergmaniano Sven Nykvist. Talvez o ranking mais difícil de se fazer. Meu ranking Woody Allen é assim: 1) Manhattan; 2) Annie Hall; 3) Match Point; 4) Zelig/ A Era do Rádio/ A Rosa Púrpura do Cairo; 5) Desconstruindo Harry/Todos Dizem Eu Te Amo/ Um Misterioso Assassinato em Manhattan Não dá pra escolher!
  18. Vocês sabem, sou bem fã do cinema do Kim Ki-duk, já vi quase todos. Mas faltava esse "Endereço Desconhecido", do começo de sua carreira, 2001, que abriu o Festival de Veneza na época. É um filme bem trágico a respeito de três jovens que, mesmo tantas décadas depois, ainda padecem das consequencias da Guerra da Coreia. A presença americana ainda está lá, na forma de uma base militar. A cidadezinha ao redor convive com a tropa que ronda com um discurso de promoção da paz; alguns moradores tentam arranhar o inglês na expectativa de um dia viajarem; veteranos nacionalistas se amarguram com o passado enquanto treinam o Tiro ao Arco; uma ex-prostituta que teve um caso com um soldado americano envia-lhe cartas que voltam com o selo de "Endereço Desconhecido"; o filho dela é um mestiço, um asiático afrodescendente, que sofre racismo; uma mocinha apaixona-se por um soldado americano viciado em LSD... E por aí vai..É um amplo painel de personagens, sempre a trabalhar criticamente a ideia do militarismo estrangeiro na província coreana. Quem diria que esse Kim ki-duk politizado iria atravessar posteriormente uma fase mística-contemplativa, até voltar, mais recentemente, amarrando as duas pontas da vida, aos filmes mais politizados?!... Voltando ao filme em si, a primeira hora é detestável, muito difícil de acompanhar, pois envolve tortura de cachoros em várias cenas. Mesmo com o aviso inicial nos créditos que nenhum animal sofreu, pra mim passou do ponto. A segunda hora - quando os cachorros se vingam - é muito melhor. E, ademais, os conflitos humanos também já estão mais estabelecidos. Como sói acontece, o final dos filmes dele é excelente, e aqui não fica por menos. Meu ranking Kim Ki-duk, contudo, permanece inalterado: 1) Pietá; 2) A Rede; 3) Primavera, Verão, Outono, Inverno...e Primavera; 4) O Arco; 5) Dente por Dente.
  19. Filme gay de Ang Lee? "Brokeback Mountain" responde-se em uníssono. Ou você poderia responder "O Banquete de Casamento", de 1993. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1994, e Urso de Ouro em Berlim, foi com ele que Ang Lee começou sua conquista do mundo do cinema. Aqui, uma comédia romântica, sobre um casal gay que forjará um casamento para agradar aos pais de um deles, vindos da tradicional Taiwan. A história convence, e os atores estão excelentes, sensíveis e entregues. Ao final, uma reviravolta que emociona, mostrando o lado mais humano do roteirista/diretor Ang Lee. A "Instituição Família" é uma mentira - mentira política, para o "gado", e para as Igrejas - na verdade, só existem pessoas. Pessoas. E os laços afetivos que elas criam. Volta, Lee, a fazer esse tipo de cinema! É isso que você faz melhor. Obs: Detalhe das camisetas usadas pelo ator Michell Lichtenstein, com estampas de seu pai Roy Lichtenstein.
  20. Casa de Antiquidades estará em Toronto. Encaminha-se para ser o representante brasileiro na corrida para o Oscar.
  21. TORONTO INTERNATIONAL FILM FESTIVAL 2020: DATE: September 10-19. FILM LINEUP CONTEMPORARY WORLD CINEMA “Bandar Band,” Manijeh Hekmat (Iran/Germany) “New Order (Nuevo orden),” Michel Franco (Mexico) “Night of the Kings (La Nuit des Rois),” Philippe Lacôte (Côte d’Ivoire/France/Canada/Senegal) “Preparations to Be Together For an Unknown Period of Time (Felkészülés meghatározatlan ideig tartó együttlétre),” Lili Horvát (Hungary) “Quo Vadis, Aïda?,” Jasmila Žbanić (Bosnia and Herzegovina/Norway/The Netherlands/Austria/Romania/France/Germany/Poland/Turkey) “Under the Open Sky (Subarashiki Sekai),” Miwa Nishikawa (Japan) DISCOVERY “180 Degree Rule,” Farnoosh Samadi (Iran) “Beans,” Tracey Deer (Canada) “Beginning (Dasatskisi),” Dea Kulumbegashvili (Georgia/France) “The Best is Yet to Come (Bu Zhi Bu Xiu),” Wang Jing (China) “Gaza mon amour,” Tarzan Nasser, Arab Nasser (Palestine/France/Germany/Portugal/Qatar) “Limbo,” Ben Sharrock (United Kingdom) “Memory House (Casa de Antiguidades),” João Paulo Miranda Maria (Brazil/France) (!!!!!!!!!) “Shiva Baby,” Emma Seligman (USA/Canada) “Spring Blossom,” Suzanne Lindon (France) “Wildfire,” Cathy Brady (United Kingdom/Ireland) GALA PRESENTATIONS “Ammonite,” Francis Lee (United Kingdom) (!!!!!) “Bruised,” Halle Berry (USA) (???) “Concrete Cowboy,” Ricky Staub (USA) “David Byrne’s American Utopia,” Spike Lee (USA) – OPENING FILM “Good Joe Bell,” Reinaldo Marcus Green (USA) “I Care A Lot,” J Blakeson (United Kingdom) “Nomadland,” Chloé Zhao (USA) (!!!!!!) “One Night in Miami,” Regina King (USA) (???) “Pieces of a Woman,” Kornél Mundruczó (USA/Canada/Hungary) MASTERS “Notturno,” Gianfranco Rosi (Italy/France/Germany) MIDNIGHT MADNESS “Get the Hell Out (Tao Chu Li Fa Yuan),” I-Fan Wang (Taiwan) “Shadow In The Cloud,” Roseanne Liang (USA/New Zealand) “Violation,” Madeleine Sims-Fewer, Dusty Mancinelli (Canada) PRIMETIME “A Suitable Boy,” Mira Nair (United Kingdom/India) – CLOSING FILM “The Third Day,” Felix Barrett, Dennis Kelly (United Kingdom) “Trickster,” Michelle Latimer (Canada) SPECIAL PRESENTATIONS “Another Round (Druk),” Thomas Vinterberg (Denmark) “The Disciple,” Chaitanya Tamhane (India) “Falling,” Viggo Mortensen (Canada/United Kingdom) “The Father,” Florian Zeller (United Kingdom/France) “Penguin Bloom,” Glendyn Ivin (Australia) “Summer of 85 (Été 85),” François Ozon (France) “True Mothers (Asa Ga Kuru),” Naomi Kawase (Japan) TIFF DOCS “76 Days,” Hao Wu, Anonymous, Weixi Chen (USA) “City Hall,” Frederick Wiseman (USA) “Enemies of the State,” Sonia Kennebeck (USA) “Fireball: Visitors from Darker Worlds,” Werner Herzog, Clive Oppenheimer (United Kingdom/USA) “Inconvenient Indian,” Michelle Latimer (Canada) “Lift Like a Girl (Ash Ya Captain),” Mayye Zayed (Egypt/Germany/Denmark) “MLK/FBI,” Sam Pollard (USA) “The New Corporation: The Unfortunately Necessary Sequel,” Joel Bakan, Jennifer Abbott (Canada) “No Ordinary Man,” Aisling Chin-Yee, Chase Joynt (Canada) WAVELENTHS “Fauna,” Nicolás Pereda (Mexico/Canada) “The Inheritance,” Ephraim Asili (USA)
  22. "O Homem de Ferro". É filme de super-herói? Não, é um épico político de 1981, dirigido pelo mestre polonês Andrzej Wajda, que arrebatou a Palma de Ouro em Cannes em 1981, sendo o filme ainda indicado a Melhor Filme Estrangeiro em 1982. São quase três horas mostrando a fundação do chamado Sindicato Solidariedade da Polônia, cuja cabeça seria Lech Walesa; em 1983, Prêmio Nobel da Paz; e Presidente da Polônia nos anos 1990; e hoje em dia é execrado por lá... A Terra, ela gira. Mostra, timtim por timtim, como o Regime Comunista infiltrava agentes da mídia para cobrir e investigar sindicalistas emergentes, cuja luta era criar uma organização sindical independente do estado, e assim lutar por maiores salários e benefícios para o povo. O filme é ficção, mas é intercalado por partes documentais, e imagens do próprio Walesa - inclusive rezando. Não recomendaria o filme a ninguém, pois ele é muito específico. Se você não tiver alguma bagagem cultural, ou se não recorrer a fontes de pesquisa, você boia. A segunda hora do filme é muito melhor do que a primeira, mais clara e humana. A Polônia de hoje é cada vez mais rica. Direitista, abraçou forte a economia de mercado, e hoje colhe os louros da liberdade. Não da liberdade sindical dos anos 1980, como mostra esse filme, mas da liberdade econômica.
  23. "Kaili Blues", de 2015, é o primeiro filme do chinês Bi Gan, que impressionou a todos com seu filme posterior "Longa Jornada Noite Adentro" (que está - quem diria? - na Netflix), particularmente com aqueles 59 minutos de plano-sequência. Aqui também tem. Vários. Um que deve durar uns 35 minutos, e a câmera anda de moto, caminhonete, um barco a cruzar um rio, sempre a registrar cada momento ínfimo do protagonista, inclusive um corte de cabelo, e participar de um show no meio da rua! Fico imaginando o trabalho para combinar tudo com figurantes, com coadjuvantes, esconder o povo da técnica... Mas se em "Longa Jornada..." havia diversos momentos de luz e som pra embasbacar o espectador; nesta estreia tudo é mais direto, cru, "feio", registrando uma humilde província rural chinesa ( que, pelo que capturei, é uma comunidade de minoria perseguida). A história é um fiapo: Um médico que vai em busca de seu sobrinho, aparentemente vendido pelo irmão ganancioso. Aos poucos, vamos sabendo do passado do médico, e vamos sabendo tanto, que, se bem entendi, vamos voltando a corda do relógio, e indo para o passado dele nessa região. Então, em dois filmes do diretor, pude encontrar dois denominadores comuns: um cinema de busca; através de planos-sequências em direção ao passado. A cabeça do cara de fato é uma cabeça cinematográfica, tem vocabulário, demonstrando uma engenharia de imagens muito madura para a idade dele. Imagino quando ele conseguir uma história que se encaixe perfeitamente em seu estilo... Gostei muito.
  24. Uma mulher precisa aprender a tomar conta de sua fazenda sozinha, ao mesmo tempo cuidar dos filhos, vencer o machismo local, enfrentar um tornado, e o papel símbolo da tenacidade lhe renderá uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. É "Country", com Jessica Lange? Não! É "Places in The Heart" com Sally Field, que, fez mais que a concorrente, e levou seu segundo Oscar para casa em 1985. Para ela que vinha da subestimada tevê, isso, na época, era um feito realmente importante: "You like me!", gritou na cerimônia, e as pessoas criaram uma falsa memória coletiva de que ela teria falado "You really like me!", ou "really really like me"- o que - basta ver o vídeo da cerimônia - não é verdade. Falando do filme do Robert Benton, não entendo por que ele é exibido tão pouco, já que tem tudo o que o público normalmente gosta. Uma história de superação, luta contra os preconceitos, com ótimas atuações, e um final feliz. Seu ponto fraco é a previsibilidade do roteiro, que, num ano meio fraco, acabou sendo premiado. Gosto bastante do figurino da longeva Ann Roth, em sua primeira indicação.
  25. Detesto a maioria, gosto apenas de "Green Book" e "Mãe" (mas não para maiores prêmios).
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