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Muito Longe de Casa - A História do Menino-Soldado


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O

relógio desperta e, como sempre acontece, você acorda assustado e com

raiva deste mecanismo diabólico que o acorda sempre no melhor dos

sonhos. A lua ainda está soberana no céu com alguns raios de sol a

pedir passagem para dominar a paisagem. Você coloca os pés em mais uma

segunda-feira e pensa nos inúmeros problemas, aflições e a estafante

rotina de uma semana novinha em folha que precisa ser trilhada com

algum esforço e chateações de toda ordem. Segue para o banheiro ainda

sonolento e toma aquele banho reparador, veste sua roupa limpa e

dirige-se a cozinha para o café da manhã. Na parada estão seus velhos

conhecidos esperando o momento de embarcar no ônibus que os levarão aos

seus destinos e seus respectivos empregos. No escritório encontra

novamente aquele chefe pentelho que vive só para atazanar sua vida e

atulhá-lo de obrigações acima de suas forças ou compreensão. Encontra

ainda aqueles colegas que desejaria estivessem em outras galáxias e o

deixassem em paz com seus afazeres. Na hora do almoço aquela comida de

sempre e aquelas conversas informais que você já sabe de cor e salteado

ou como diria seu melhor amigo “de cabo à rabo”. As mesmas piadas e

aquela discussão sobre se foi ou não pênalti naquele jogo de domingo à

tarde. Depois de um breve descanso é hora de recomeçar o batente e você

pensa que será a parte mais difícil e longa do dia. O tempo pára e os

problemas vão se acumulando e a cada minuto você olha para o relógio da

parede e pensa que os ponteiros estão fazendo greve e pararam de

trabalhar já que o tempo estacionou naquela marrenta segunda-feira. As

semanas se sucedem nesta rotina estafante e nestes compromissos

profissionais que não levam a lugar algum e sua vida parece que não tem

sentido e que você é apenas mais um número nesta estatística macabra de

trabalhar-comer-dormir e novamente trabalhar-comer-dormir e assim até o

fim dos tempos.

 

 

Você

pensa nas contas a pagar no fim do mês e no contracheque que não condiz

com suas obrigações; nos cachorros do vizinho que o acordam pela

madrugada; na dificuldade do relacionamento com seu filho adolescente e

aquele trabalho que não lhe dá a menor satisfação em fazê-lo, mas

precisa do pouco dinheiro que ele lhe paga. Além é claro daquela dor no

peito que o acompanha algum tempo. - Preciso ir ao médico você pensa.

Mas como sempre acontece vai adiando, ou empurrando com a barriga,

porque remédios custam caro. Assim você vai levando a vida da melhor

forma possível e, para animar os ânimos, acredita que tem sorte que

ainda existam sábados, domingos e alguns feriados durante o ano para

curtir um pouco um cineminha com a família, passeios no parque e ir ao

zoológico levar pipoca aos macacos até que o relógio o desperta para

mais uma segunda-feira. É só trabalhar para comprar comidas e roupas

para poder manter-se em pé para trabalhar mais ainda. Quantos problemas

você tem, não?

 

Isto porque você ainda não leu o livro Muito Longe de Casa,

de Ishmael Beah que conta sua infância como menino soldado na guerra

civil de Serra Leoa. Aos doze anos perdeu sua família na guerra e viveu

sozinho na floresta por vários meses comendo somente frutas e tomando

água dos rios numa corrida desesperada para fugir dos rebeles e

manter-se vivo. Aos onze já tinha visto mais cadáveres pelo caminho que

um coveiro, mais corpos destroçados e sangue que ambulância do morro

favela acima, e aos treze já era soldado com rifle e granada na mão e

mais cicatrizes pelo corpo que Rambo. Matou muita gente e vingou-se dos

rebeldes que mataram sua família e as famílias de tantas outras

crianças inocentes. De forma brutal e animalesca enterrou seis pessoas

vivas com tiros no pé como havia visto fazerem os rebeles nas aldeias

por onde passou. Saqueou e incendiou inúmeras aldeias e fumou todas as

maconhas e cheirou todas as cocaínas que o exército permitiu que

fumasse e cheirasse. Perdeu a infância, a razão e o espírito de ser um

ser humano. Sentia e vivia um mundo só de violência, morte, maldade e

dor. Uma criança vivendo no inferno com poucas lembranças de uma vida

feliz em família e brincadeira com sues amigos.

 

Ishmael

Beah relata esta vida como menino soldado de forma crua, sem piedade ou

intenção de ser herói ou bandido. Simplesmente conta-nos suas

experiências e a lavagem cerebral que sofreu como massa de manobra

nessa guerra civil de um país em constante conflito entre tribos pelo

poder de Serra Leoa. Felizmente foi tirado deste pesadelo pela UNICEF

que o acolheu e o reabilitou para um mundo mais humano. Após meses de

reabilitação e desintoxicação das drogas e curado das feridas do corpo

(exceto as da alma) pode finalmente contar suas dolorosas experiências

como conferencista juvenil nas Nações Unidas. Amante do Hip Hop e de

boa literatura conseguiu superar sua dor e fugir de Serra Leoa (após

outra guerra na capital do país) e escrever estas dolorosas memórias.

Confesso que foi difícil ler esta história e pensar que ao acordar

segunda-feira, sempre penso que será uma longa semana de trabalho e

inúmeras chateações esquecendo-me do sofrimento que milhares de pessoas

enfrentam mundo a fora por apenas um pouco de água e uma porção de

arroz no prato. Ou de crianças, que neste exato momento que escrevo

estas linhas, estão deixando sua infância de arma em punho lutando por

causas absurdas por um poder que não lhes pertencem. Ler esta história

me deu a perspectiva exata da minha condição de ser humano privilegiado

e a valorizar cada segundo do estilo de vida que agora usufruo. Tenho

comida à mesa, uma família unida e maravilhosa que me ama, roupas

limpas para vestir e um dia inteiro para viver em paz, realizando um

trabalho honesto, tendo alguns trocados no bolso, boa saúde e um

sorriso no rosto. Bastam apenas alguns gestos de boa vontade e

agradecer a Deus por não ter que enfrentar uma guerra e a bestialidade

humana que muitos povos enfrentam dia a dia. Desejo, sinceramente, que

Ishmael Beah supere suas lembranças e pesadelos e tenha uma vida feliz

já que lhe roubaram a infância nesta infame guerra.

 

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