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Forum Cinema em Cena

Made For TV


Mr. Ibanez
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Made for TV: Um retrato do Cinema brasileiro atual

 

 

Salles.jpg Sabe qual é uma das frases mais ditas pelos brasileiros atualmente? ”O Cinema nacional está em alta." Mas para ser dolorosamente franco, é preciso dizer que isso depende. Ou melhor: se for para levar em consideração o que realmente importa, então esta frase é um equívoco exagerado.

No ano passado o Cinema brasileiro angariou 20% da bilheteria total do Brasil. É uma boa notícia? Sem dúvida. O problema é a má notícia incluída neste fato, e que, infelizmente, faz-se mais notável que os números das arrecadações. Falar em alto, até mesmo expressando orgulho, que nosso Cinema dominou boa parte da bilheteria geral é fácil. Mas, por outro lado, qual é o tipo de produto que abocanha a fatia mais grossa do “bolo 20%”?

Refresquem a memória e vejam os principais longas nacionais que mostraram suas faces em 2003:

Nacional01.jpgO Homem Que Copiava;

O Homem do Ano;

Desmundo;

Durval Discos;

Deus É Brasileiro;

Dom;

Maria, Mãe do Filho de Deus;

Casseta e Planeta – A Taça do Mundo É Nossa;

Acquaria;

Os Normais;

Didi, o Cupido Trapalhão;

Xuxa Abracadabra

 

Agora, considerem mais três lançados em 2004: Sexo, Amor e Traição, Um Show de Verão e A Cartomante. Honestamente, acho difícil olhar para uma lista como essa e dizer que ”O Cinema nacional está em alta.”

Dos filmes citados acima, os únicos que possuem ótima qualidade são os três primeiros nomes. Já Carandiru (que teve excelente público – que se deve mais à publicidade do que ao longa em si) é apenas um trabalho correto e nada mais; Lisbela e o Prisioneiro não passa de bonzinho (atenção no "inho") e mediano; Amarelo Manga e Durval Discos revelaram-se medíocres; e Deus É Brasileiro mais parece um canhestro cartão postal rocambolesco. O restante é bobagem atrás de bobagem.

Nacional04.jpg Produções cinematográficas com o selo da Xuxa e o incansável Didi deveriam ser desconsideradas, mas estas “coisas” existem e, sim, arrecadam (é triste, eu sei). No entanto, como se esses cachorros mortos não fossem suficientes para envergonhar o Cinema do país, surgem impiedosamente filmes que trazem Angélica & Cia (Um Show de Verão), Casseta e Planeta, Sandy e Júnior (Acquaria), Padre Marcelo Rossi (Maria, Mãe do Filho de Deus) e a turminha de Os Normais (e confesso: vi apenas trinta minutos de Acquaria, Maria, Mãe do Filho de Deus, Casseta e Planeta, Os Normais e Um Show de Verão - bondade dos funcionários do cinema que freqüento –, mas este pouco tempo foi o suficiente para ver seus “estilos”).

Nacional03.jpg Para piorar, além da baixa qualidade, o espectador brasileiro está sendo vítima do “efeito TV” no Cinema. Destes trabalhos mais recentes, apenas os longas de Jorge Furtado (O Homem Que Copiava), José Henrique Fonseca (O Homem do Ano), Alain Fresnot (Desmundo), Hector Babenco (Carandiru) e Cláudio Assis (Amarelo Manga) parecem ter sido realizados de forma verdadeiramente cinematográfica. O que isso quer dizer? Quer dizer que todos os outros filmes se assemelham mais a um programa especial de televisão do que uma produção de Cinema. Basta observar: filmes como Dom, Sexo, Amor e Traição, A Cartomante e até mesmo o elogiado Lisbela e o Prisioneiro estão repletos de características televisivas (excesso de planos muito próximos, montagem picotada, utilização musical, fotografia banal, etc), podendo facilmente ser apresentados após a “novela das oito”, pois são filmes em formato de caixa pequena. O público brasileiro está pagando para ver TV nos cinemas!

Ao que parece, esta onda começou por meio de Guel Arraes (que, não surpreendentemente, faz parte do núcleo da Rede Globo, principal emissora de TV brasileira), quando teve duas de suas mini-séries jogadas para a telona: O Auto da Compadecida (ótimo!) e Caramuru – A Invenção do Brasil (fraco). No entanto, ao realizar um trabalho para ser veiculado diretamente pelo Cinema, a sensação foi novamente a de um programa global. Aliás, não é à toa observar que a Globo esteja por trás de quase todas as recentes produções brasileiras, nem que seja como co-produtora. O fato é que a emissora e o meio televisivo em geral estão dando um jeito de expandirem suas miras e, claro, seus lucros, assim como promoverem suas estrelas, celebridades e funcionários artísticos. O que há de errado nisso? Nada, desde que os resultados tenham qualidade – algo que, definitivamente, não está acontecendo.

Furtado.jpg Não tenho absolutamente nada contra a Rede Globo (que até possui alguns programas agradáveis) ou filmes em “formato TV” (a prova disso é que acho Lisbela e o Prisioneiro relativamente simpático e adoro O Auto da Compadecida, tanto a série quanto o longa); só acho que nem toda linguagem da televisão pode ser usada da mesma forma no Cinema. São meios muito diferentes: do que adianta passar nos cinemas o que pode ser encontrado nos canais de TV? Se não houver inventividade, as “criações” serão sempre – e apenas – mais do mesmo. Então, a pergunta é: qual o propósito? É porque é mais fácil de fazer e ainda lucrar, aproveitando-se da ingenuidade do público brasileiro, que vem abraçando cegamente toda e qualquer produção nacional pelo fato de estarem embarcados na onda do ”nosso Cinema está em cima”? Afinal, com a retomada de Walter Salles e (ok, foi Carlota Joaquina que iniciou a Retomada, mas foi Salles quem a consolidou de vez), principalmente agora, com o sucesso de Cidade de Deus, o Brasil “decidiu” que Cinema brasileiro é bom. E realmente chegam a generalizar. Particularmente, são poucos os brasileiros profissionais da área que arrisco a chamar de verdadeiros cineastas (especialmente no sentido qualitativo), como Jorge Furtado (foto ao lado), Fernando Meirelles, Walter Salles (primeira foto), Hector Babenco – ok, ele nasceu na Argentina, mas se diz sinceramente brasileiro e, de fato, é mais do que muitos que nasceram aqui -, Beto Brant, Carlos Reichenbach e Júlio Bressane (eu não aprecio muito o Cinema deste, mas definitivamente o que Bressane faz não se aplica a linguagem de televisão); já Monique Gardenberg e José Henrique Fonseca são ótimas promessas.

O Cinema nacional está em alta? Não, não está. Pelo menos não como muitos acham que estão. É verdade que melhorou consideravelmente, mas afirmá-lo como um bom trabalho em geral chega a ser ofensivamente constrangedor. Tenho orgulho de alguns filmes brasileiros, mas não de nosso Cinema atual.

Nacional06.jpg Triste mesmo é notar que a grande parcela do espectador está caindo no truque: as pessoas estão indo conferir o mais do mesmo na telona, e muitos saindo com vários elogios. Deste modo, a situação só pode continuar e/ou piorar. Quem resta fazer um filme? Ivete Sangalo? Luciana Gimenez em Super Pop, o Filme? Fantástico, o Filme, estrelando Pedro Bial e Glória Maria (dois profissionais que respeito bastante, que fique bem claro)? Adaptação cinematográfica de Malhação? Se o público não abrir os olhos e continuar engolindo tais tipos, então de Cinema o Cinema brasileiro terá pouco a oferecer. E, infelizmente, me refiro a qualidade, e não a quantidade.

 

OBS: este artigo se refere especificamente ao Cinema ficção brasileiro, já que o Cinema-documentário do Brasil felizmente vai relativamente bem – vide Nelson Freire, de João Moreira Salles, Edifício Master, de Eduardo Coutinho, e Paulinho da Viola – Meu Tempo É Hoje, de Izabel Jaguaribe, por exemplo.

17/02/2004

 

 

Apesar do texto comentar o cinema brasileiro,e ser de 2004,gostaria de saber o que vocês acham das produções feitas geralmente para Tv,filmes da Columbia,HBO,Disney...Aquele Titanic 2 e Dinotopia eram Made For Tv?

Dorothy Dandridge - O Brilho de uma Estrela (outro para Tv)...

Algum tem destaque na lista de vocês?

E estes filmes nacionais que parecem continuação da novela das oito,alguém recomenda?
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