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Seleções nacionais X Clubes


Rayden
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Essa matéria da PLACAR é de Julho do ano passado mas não deixa de ser atual. E também os jogadores passam muito mais tempo nos clubes que nas seleções, onde eles tem mais afinidade com o elenco que convivem diariamente do que uma dúzia de carinhas que eles vão lá e treinam a cada 3-6 meses. O futebol hoje se resume em uma palavra: negócio, não há mais esse espírito de "rivalidade", essa vontade em defender a seleção do seu país, acabam as partidas, o time tomou de 3x0 e estão lá os jogadores com a cara mais lisa do mundo, como robôs programados, sem nenhuma personalidade. 07

 

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DO LUXO AO LIXO

 

Não faz muito tempo, o máximo para um jogador de futebol era vestir a camisa da seleção de seu país. Ao ser convocado, o jogador ganhava um carimbo de excelência que o acompanharia para além da aposentadoria.

 

Entre esses eleitos, de todas as nacionalidades, a mais alta honraria pertencia aos brasileiros: vestir a mais mítica camisa de futebol do mundo, a "amarelinha".

 

Hoje, esse amarelo desbotou, superexposto ao sol da ganância, torcido pela mão pesada dos clubes. O jogador já não precisa mais da seleção para ter projeção mundial - os times da Europa bastam para isso.

 

O torcedor, distante de treinos e jogos que quase sempre acontecem no exterior, já não se sente identificado com a equipe - até porque os jogadores de seu time do coração não têm mais vaga na seleção, tomada pelos que jogam no exterior, de melhor nível.

 

A seleção chega à Copa América diminuída por episódios que envolveram quatro de seus principais jogadores. Ronaldinho e Kaká pediram dispensa por carta, alegando precisar de descanso, Zé Roberto, depois de convocado, seguiu o mesmo caminho, cedendo à exigência de seu novo time, o Bayern Munique, para que abandonasse a seleção.

 

Por fim, mesmo amparada pelas regras da Fifa - que obriga jogadores convocados para competições oficiais a se apresentarem com 14 dias de antecedência -, a CBF teve que ceder ao Real Madrid, que segurou Robinho até a última rodada do Campeonato Espanhol.

 

A seguir, PLACAR apresenta cinco fatores que contribuiram decisivamente para a perda do brilho da camisa amarela - e algumas soluções simples para resgatá-lo.

 

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MINA DE OURO

 

Brazil World Tour. É com esse nome (em inglês mesmo...) que a seleção brasileira desfila pelos gramados da Europa e da Ásia. Desde 2005, é a Kentaro, empresa de marketing e direitos esportivos com sede na Suíça, a dona dos "nossos" amistosos pelo mundo - a CBF pode vetar algum adversário, só precisa cumprir a cota de amistosos.

 

A empresa também tem escritórios em Berlim, Hannover, Londres e Estocolmo. E conta como parceira nesse negócio com um grupo de investidores árabes, que cuida da parte financeira.

 

Foi a Kentaro também que organizou toda a preparação da selecão para a Copa de 2006, na cidade de Weggis, Suíça - aquela preparação para a qual eram vendidos ingressos de todos os treinos, até corridas ao redor do gramado, que PLACAR à época comparou como se fossem os Beatles em ensaios abertos antes da gravação de um disco.

 

A CBF vendeu todos os amistosos, cerca de 30, até a Copa de 2010 - o contrato com as empresas foi renovado e vai até 2010. A CBF vendeu o pacote por aproximadamente 30 milhões de dólares e recebeu 30% antecipadamente. Cada jogo vale, no máximo, 2 milhões de dólares (cerca de 4 milhões de reais).

 

Parece e é um bom dinheiro, mas, comparado aos principais clubes europeus, como Milan, Barcelona e Real Madrid, acaba se tornando menor.

 

O Barcelona, por exemplo, fez um amistoso contra o Al-Ahly, do Egito, em Maio de 2007, na comemoração pelo centenário do clube africano. Entre televisão e cota, recebeu o equivalente a 6 milhões de reais. Em Agosto de 2007, na pré-temporada, o Barça jogaria amistoso em Hong Kong e embolsaria mais 6 milhões de reais.

 

Assim mesmo, a CBF conseguiu um bom aumento nas cotas. Em 1994, o Brasil arrecadava algo em torno de 200.000 dólares por amistoso. Depois, em 2002, antes do penta, passou para 800.000 dólares. Dá pra entender a lógica (financeira) de se jogar tanto...

 

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Diz o publicitário Washington Olivetto, ouvido por PLACAR: "Os compromissos comerciais atrapalham. A seleção joga partidas de caráter duvidoso. Veja o exemplo da Inglaterra. Deu para ver claramente que os jogadores ingleses não estavam com muita disposição [no amistoso com o Brasil].

 

Quem vê Manchester e Chelsea pelo Campeonato Inglês e viu o jogo da seleção pôde notar claramente a diferença entre as duas partidas. E isso afeta diretamente o torcedor. O torcedor é consumidor e ele quer um bom produto, quer ser bem tratado", afirma Olivetto.

 

COMO RESOLVER

 

A CBF não pode terceirizar os jogos da seleção. Estes têm de responder a quesitos estritamente técnicos. Caso contrário, teremos aberrações como disputar os últimos amistosos antes da Copa América com jogadores que simplesmente... não vão disputar a Copa América!

 

Que estão lá apenas por pressão de quem comprou o jogo, deixando claro que o negócio está acima do aspecto técnico. Vender a preparação da selecão para a Copa como se ela fosse um circo também só vai alcançar um objetivo, alem de muitos dólares: transformá-la mesmo num circo.

 

Preparação para a Copa do Mundo tem de ser de inteira responsabilidade da comissão técnica.

 

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LONGE DO PÚBLICO BRASILEIRO

 

O último amistoso da seleção brasileira no país foi no dia 27 de Abril de 2005, no Pacaembu, na despedida de Romário, contra a Guatemala. Havia apenas jogadores que atuavam no Brasil em campo (Grafite substituiu Romário). O ibope dos jogos do Brasil na Europa numa terça-feira à tarde é maior que o de qualquer jogo do Flamengo num domingão.

 

Isso mostra que, enquanto a seleção não consegue lotar os estádios europeus para os amistosos (os turcos eram a grande esperança de público para a última peleja, em Dortmund, com casa quase vazia), há um público carente por aqui, querendo ver seus ídolos de perto, sentir-se mais próximo deles.

 

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Diz o jornalista Juca Kfouri: "Em primeiro lugar, [a seleção está distante] por uma política incentivada pela CBF de exportação de pé-de-obra. Era mais confortável ter todos os melhores jogadores na Europa, globalizaria ainda mais a seleção, acostumaria os jogadores ao padrão europeu, reforçaria a grife do time da CBF.

 

Em segundo, a exigência da Fifa de os jogadores não viajarem mais de quatro horas para os amistosos juntou o útil ao agradável (para a CBF), de só jogar fora do Brasil. Ora, o torcedor brasileiro não tem nenhum dos ídolos de seus times na seleção e ainda perdeu a intimidade com a equipe".

 

COMO RESOLVER

 

Obrigar os jogadores a treinarem na Granja Comary às vésperas de uma competição não serve de nada. A CBF tinha de fixar uma cota de seus amistosos contra seleções poderosas em solo brasileiro, mas fez um acordo segundo o qual os jogadores não podem viajar mais de quatro horas de avião em jogos amistosos, em troca de poder disputar as Eliminatórias em turno e returno.

 

Não fosse o acordo - que só interessa aos clubes europeus ou a quem leva vantagem financeira com os jogos na Europa -, poderia até fazer uma promoção do tipo: a cidade que levar mais público aos jogos da série A, B ou C do Brasileiro (na média) vai abrigar o primeiro amistoso assim que acabar a temporada européia, antes de os astros gozarem suas férias.

 

O acordo das quatro horas está feito. Há de se pensar para depois da próxima Copa.

 

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DESDÉM DOS CRAQUES

 

Na NBA, a liga norte-americana de basquete profissional, é muito mais interessante para um astro defender seu clube que os Estados Unidos em um Mundial de basquete ou mesmo em uma Olimpíada. É bem mais importante ser campeão da liga.

 

Os times ficaram mais importantes que as seleções nacionais. E o fenômeno não se restringe aos americanos. Pela primeira vez, a Argentina não terá seus astros no Pré-Olímpico Pan-Americano de Basquete.

 

Ainda estamos longe disso, mas é hora de abrir os olhos para não repetir a NBA no futebol mundial. Cada vez mais, astros do mundo todo negam convocações.

 

Nedved diz que prefere defender a Juventus à seleção tcheca, Totti não quer jogar pela Itália nas Eliminatórias, Riquelme fez de tudo para voltar ao Boca, mas não quer mais a seleção argentina. Nilsterooy está relutando em defender a Holanda.

 

Os craques brasileiros são apenas parte desse processo. Entre treinar para a Copa América e jogar a última rodada do Espanhol, Robinho não teve dúvida em ficar com a última opção. Kaká e Ronaldinho preferiram descansar a jogar a Copa América - o astro do Milan pode ser eleito o melhor do mundo este ano sem ter feito absolutamente nada com a mítica amarelinha.

 

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"Sou de uma outra época, em que jogar na seleção em qualquer jogo valia mais que tudo para os jogadores. E eu nunca pedi dispensa. Mas hoje é diferente", afirma Zico.

 

COMO RESOLVER

 

Diálogo e tratamento diferenciado para quem merece. Ronaldinho e Kaká não podem ser tratados da mesma maneira que Elano e Vágner Love. Na marra, na base do ame-a ou deixe-a (ainda mais com a "habilidade" de Dunga em lidar com isso...), a seleção brasileira vai ter muito mais gente escolhendo a segunda opção.

 

Um diretor de seleções tem de telefonar para todos os jogadores (importantes) antes de uma convocação, avaliar quantas partidas cada um fez por seu clube na temporada, há quanto tempo não tira férias, perguntar para um Robinho se é importante para ele dar a volta olímpica pelo Real Madrid, ainda que isso acarrete cinco dias a menos de treino para a Copa América.

 

"Claro que a seleção projeta os jogadores, mas prefiro não falar em dívida. Também não acho que ninguém deve ser obrigado a jogar. Sobre esse assunto, só posso falar pelo que vivi. Nunca encarei jogar na seleção como pagamento por uma dívida, tem que ser por prazer de defender o país", diz Zico.

 

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DESGASTE DE IMAGEM

 

Em 1979, o Brasil disputou dez partidas (incluindo a Copa América). Em 1991, também com Copa América, foram 15. Em 2007, dependendo da campanha no torneio continental, pode jogar até 18.

 

O Brasil joga cada vez mais. E, logicamente, cada vez mais os jogos valem menos. Viram "carne-de-vaca", perdem a graça tanto para os jogadores - que sabem estar lá apenas cumprindo um contrato da CBF - quanto para os torcedores, que cada vez mais assistem a jogos sem graça, onde não há nada em disputa.

 

COMO RESOLVER

 

Jogar menos. Fazer as Eliminatórias em dois grupos, com Brasil e Argentina cabeças-de-chave. Realizar a Copa América a cada quatro anos, simultaneamente à Eurocopa. E reduzir de forma drástica o número de amistosos.

 

Seleção não pode fazer mais de um jogo por mês, em média, em um ano depois de Copa. "A seleção é igualzinha a qualquer produto de consumo", diz Olivetto. "Se você comprar um refrigerante e ele estiver quente e sem gás, dificilmente você vai comprar de novo. Se ela não disputar jogos atraentes, dificilmente o torcedor-consumidor vai se sentir atraído."

 

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CLUBES x SELEÇÃO

 

Foi-se o tempo em que chegar ao topo do futebol mundial era vestir a camisa de uma forte seleção nacional. Hoje, chegar ao topo é defender um grande clube europeu. E para isso você não precisa brilhar com a camisa de uma seleção nacional.

 

Os jogadores que chegam a um Palmeiras, como o desconhecido Makelele, dizem logo em sua apresentação que o objetivo é "fazer uma boa temporada para chamar a atenção do futebol europeu".

 

É o novo sonho do boleiro. É uma realidade inexorável: os clubes estão cada vez mais poderosos, com torcidas e consumidores no mundo todo - e não apenas em seus países.

 

Em 1990, o magnata Sílvio Berlusconi, dono do Milan, foi tratado como maluco ao dizer que uma Copa de Clubes substituiria a Copa do Mundo. A idéia já não parece tão maluca assim... E o pior é que, no mundo todo, os clubes se mostram cada vez mais dispostos a desafiar o poder das seleções...

 

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"Dou aqui uma visão pessoal. A seleção é um ótimo negócio para a CBF e um péssimo negócio para os clubes. Eu encaro assim: você compra um carro zero-quilômetro, eles chegam na sua garagem sexta à tarde e dizem que vão levá-lo no fim de semana. Devolvem na segunda-feira, de preferência sem lavar. E, se quebrar, é você quem paga...", diz o supervisor de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha.

 

COMO RESOLVER

 

O valor dos clubes não vai diminuir, ao contrário. Vamos, então, aumentar o valor das seleções. Fazer menos jogos, porém jogos mais importantes, com adversários de respeito em vez de uma coleção de "galinhas-mortas".

 

Só assim vamos dar às seleções o combustível da rivalidade, da competitividade, que é o que move o futebol. Só assim elas vão continuar fortes na relação com os clubes (além, é claro, de pagarem os salários proporcionais dos jogadores quando eles estiverem defendendo as seleções, o que ainda não acontece).

 

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