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Forum Cinema em Cena

Clarice Lispector


Kate B.
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“Sou tão misteriosa que não me entendo.”

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Clarice Lispector, nascida Haia Lispector (Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia. Autora de linha introspectiva, buscava exprimir, através de seus textos, as agruras e antinomias do ser. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise.

 

 "Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

 

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Terminei de ler recentemente A Hora da Estrela e achei fantástico. Verei o filme em breve pois estarei fazendo um trabalho sobre o livro para a faculdade. Foi o primeiro livro que li dela, mas vou ler outros, com toda a certeza.

 

 

Alguém aqui gosta?
Kate B.2009-05-12 14:07:18
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Sou da mesma turma que você, Madame Bovary. Acho que não entendi a profundidade de Clarice. Li somente Laços de Família (para o vestibular, e talvez por isso não consegui gostar: fui obrigada a ler), que reune contos da autora. Mas lembro que um desses contos é muito bonito, que fala sobre flores (se não me engano rosas) que uma mulher recebia... Preciso reler este e ler mais dela!

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  • 2 months later...

Eu gosto dos contos dela também, bastante. Digamos que me apaixonei quando li "A Hora da Estrela". Mas com a Clarice eu vejo isso mesmo. Com ela a relação é 8 ou 80, ou as pessoas amam, ou não estão nem aí/odeiam. É engraçado isso. Quando eu li "A Hora da Estrela", não gostei muito de primeira mas depois, pensando no livro, em toda a história e tudo mais, eu achei fascinante. O jeito como ela lida com a exclusão social, com pessoas que simplesmente vivem, sem meta, sem conhecimento, por simplesmente não terem oportunidade... Achei um livro maravilhoso. Logo depois assisti o filme de Suzana Amaral que é ótimo também.

 

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  • 3 weeks later...

Hora da Estrela é um bom  livro, gosto muito dos livros, e teve época que eu era uma traça lia o que vinha pela frente.

Um dos livros marcantes para mim é Água Viva, nunca fui fã de monólogo, mas sei lá, esse livro é diferente, ele prende a gente.

no topo dos bons Laços de Familia e Paixão Segundo G.H ( tudo por causa de uma barata)rsrsrsrs

 

Impossível falar de Clarice sem lembrar da carregada frase:

 

Sou mais forte do que eu....
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  • 1 month later...
  • 1 month later...
  • 4 weeks later...
  • 1 month later...

Ouvi há algum tempo um diálogo pronunciado por uma pessoa e que' date=' se não me falha a memória, era de autoria dela.
Algo como "a liberdade incomoda", ou coisa parecida.
Alguém sabe me dizer que poema ou texto é esse? Se há alguma obra dela com palavras parecidas?
Obrigada.[/quote']

 

Nossa, acho que ou você pode estar falando de "Liberdade" ou "Ato Gratuito" que falam dessa Liberdade que tanto aflorava Clarice...mas eles são textos... vou colocar aqui o "Ato Gratuito" que é muito bom e faz referência a Liberdade e incômodo:

 

                          O Ato Gratuito 


Muitas vezes, o que me salvou foi improvisar um ato gratuito. Ato gratuito, se tem causas, são desconhecidas. E se tem conseqüências, são imprevisíveis. O ato gratuito é o oposto da luta pela vida e na vida. Ele é o oposto da nossa corrida pelo dinheiro, pelo trabalho, pelo amor, pelos prazeres, pelos táxis e ônibus, pela nossa vida diária enfim – que esta é toda paga, isto é, tem o seu preço.

Uma tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquíssimas, estava eu escrevendo à máquina – quando alguma coisa em mim aconteceu. Era o profundo cansaço da luta.

E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava exausta de tirar idéias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava – precisava com urgência – de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver.

Então minha própria sede guiou-me. Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?”, perguntou ele. “O senhor não está entendendo”, expliquei-lhe, “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro.” Não sei por que olhou-me um instante com atenção.

Deixei abertas as vidraças do carro, que corria muito, e eu já começara minha liberdade deixando que um vento fortíssimo me desalinhasse os cabelos e me batesse no rosto grato de olhos entrefechados de felicidade.

Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver. Saltei do táxi e atravessei os largos portões. A sombra logo me acolheu. Fiquei parada. Lá a vida verde era larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, no ar, à vida, tudo se erguia em direção ao céu. E mais: dava também o seu mistério.

O mistério me rodeava. Olhei arbustos frágeis recém-plantados. Olhei uma árvores de tronco nodoso e escruo, tão largo que me seria impossível abraçá-lo. Por dentro dessa madeira de rocha, através de raízes pesadas e duras como garras – como é que corria a seiva, essa coisa quase intangível que é a vida? Havia seiva em tudo como há sangue em nosso corpo.

De propósito não vou descrever o que vi: cada pessoa tem que descobrir sozinha. Apenas lembrarei que havia sombras oscilantes, secretas. De passagem falarei de leve na liberdade dos pássaros. E na minha liberdade. Mas é só. O resto era o verde úmido subindo em mim pelas minhas raízes incógnitas. Eu andava, andava. Às vezes parava. Já me afastara muito do portão de entrada, não o via mais, pois entrara em tantas alamedas. Eu sentia um medo bom – como um estremecimento apenas perceptível de alma – um medo bom de talvez estar perdida e nunca mais, porém nunca mais! achar a porta de saída.

Havia naquela alameda um chafariz de onde a água corria sem parar. Era uma cara de pedra e de sua boca jorrava a água. Bebi. Molhei-me toda. Sem me incomodar: esse exagero estava de acordo com a abundância do Jardim.

O chão estava às vezes coberto de bolinhas de ararueira, daquelas que caem em abundância nas calçadas da nossa infância e que pisamos, não sei por que, com enorme prazer. Repeti então o esmagamento das bolinhas e de novo senti o misterioso gosto bom. Estava com um cansaço benfazejo, era hora de voltar, o sol já estava mais fraco.

Voltarei num dia de chuva – só para ver o gotejante jardim submerso.

Clarice Lispector
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