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Forum Cinema em Cena

A Paixão de Cristo


Dook
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Há duas maneiras de se encarar A Paixão de Cristo: pelo viés teológico e pelo viés cinematográfico. Embora em alguns aspectos ambos coincidam, Gibson acerta muito e erra um bocado em ambos.

Pelo viés teológico, Gibson é extremamente feliz em retratar em película aquilo que é detalhado, não nos Evangelhos, mas em Isaías (não à toa, o filme abre com um versículo do referido livro). Entretanto, ao se dedicar à via crúcis de Jesus, Gibson acaba 'pregando' para os convertidos, erro crasso que acomete 9 entre 10 filmes de temática bíblica (sendo o exemplo mais recente o insonso Deixados Para Trás). Mesmo assim, Gibson alterna entre uma visão autoral que foge do catolicismo tradicional, com as inserções absurdamente fantásticas do diabo (incluindo aí as criancinhas que pentelham Judas - será que toda aquela sequência não é fruto da consciência pesada do apóstolo traíra?), retratado de forma totalmente oposta a que o catolicismo pregou por séculos e séculos; na metáfora para o fardo de carregar as transgressões da humanidade nas cenas em que Simão mal consegue levar a cruz, mas Jesus consegue. Mas em outros momentos, Gibson abraça a tradição católica sem pudor, enfatizando o relacionamento de Cristo com sua mãe e fazendo seu protagonista carregar a cruz inteira (quando é cediço que ele carregou somente a parte de cima, como mostra o filme de Scorsese). Gibson fala de sacrifício, de sofrimento físico intenso, abordagem que pega melhor para quem é convertido e precisa de um... chacoalhão, pode-se dizer assim. É o que em Homilética Bíblica é chamado de "Sermão doutrinário" ou "consagrador". Definitivamente o filme passa longe do Evangelismo, embora Gibson tente passar isso em diversos momentos. Teologicamente falando, o filme acaba ficando uma salada (saborosa em muitos momentos) onde tradição, universalidade, história e religiosidade se alternam.

O que nos leva ao viés cinematográfico. Cara esperto como é, Gibson polvilhou seu filme de uma estética singular, herança do trabalho magistral de Scorsese em A Última Tentação de Cristo. Até a trilha sonora repete alguns riffs da trilha de Peter Gabriel para o polêmico filme do Scorsa. Mas peca por abusar de recursos melodramáticos em alguns momentos e alguns planos, embora acerte em tantos outros (a fala de Jesus carregando a cruz para a sua mãe "vê mãe, eu renovo todas as coisas" é de uma beleza e sutileza incomuns em se tratando do elefante Gibson). É um filme difícil de se ver para muitos que acreditam em Cristo por mera religiosidade, afinal o filme confronta com uma idéia de sofrimento que muitas igrejas não pregam e que pode soar gratuito aos olhos de muitos, ao passo que o filme de Scorsese é difícil de se ver por muitos que acreditam em Cristo pra valer, porém ainda não compreendem a complexidade de seu sacrifício e de nosso papel enquanto seres humanos carnais e espirituais.

Infelizmente, A Paixão de Cristo, por escolha pessoal de seu diretor, é um filme que fica impedido de falar abertamente com aqueles que nunca ouviram falar de forma sincera e sem apelações de Jesus. Quem não conhece direito a história se pergunta "por que ele foi morto mesmo?" Às vezes o excesso de didatismo prejudica. Aqui um pouco mais de didatismo só enriqueceria a experiência de apreciar o filme. Ainda fico com o Scorsese que, mesmo não sendo fiel às Escrituras, relata a dolorosa batalha entre espírito e carne que todos enfrentamos, mesmo aqueles que não acreditam em Deus.

 

4/5

 

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Fiquei inspirado a abrir o tópico. Discutam, argumentem, desçam a lenha, babem...
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Uma vez eu vi um padre no canal E! dizendo que o filme exagera na violência da via crucis e que não há' date=' historicamente falando, registros de que a violência fosse dantesca como o Gibson coloca. Afinal, Jesus foi MAIS UM crucificado e se o processo foi cruel, não o foi só neste caso.[/quote']

 

Na verdade eu concordo com esse Padre. Gibson exagera, eu acho. A quantidade de sangue que nós vemos depois do flagelo, seria o suficiente para encher dois corpor humanos...06

É muito sangue e muita pancada, mas são os exageros permitod no cinema.

 

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Exageros são as explosões de Transformers, isso sim.

 

ADORO filmes "fortes" e "pesados" que ficam na sua cabeça durante muito tempo. Esse foi um deles.

 

E também tenho um apreço especial por esse filme por ter sido o primeiro que eu escrevi uma crítica com começo, meio e fim sobre um filme.

 

 

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Coloco aqui algumas ponderações que fiz em outro lugar:

 

Pois é... por isso que eu disse que Gibson' date=' embora tenha intentado (penso eu) pregar para os 'incrédulos', ele acaba pregando para os já convertidos. Toda sanguinolência e violência só farão sentido pleno para aqueles que já estão familiarizados com a história.

Entretanto, embora concorde com a evangelização pelas mensagens de Cristo, só recentemente consegui compreender como a morte dele (e as circunstâncias dela) é igualmente importante para que a pessoa que está tendo contato com o assunto entenda o que realmente estava em jogo ali. Mas para que isso ficasse claro em um filme, era necessário voltar à gênese da coisa toda, contextualizar tudo e aí sim, mostrar a morte de Cristo nesse contexto (onde a violência certamente não seria tachada de gratuita). Mas daí teríamos um filme extremamente looooongo pois eventos do Antigo Testamento teriam que ser mostrados também...

É como se o plano de salvação proposto pelo cristianismo fosse como um filme de 3 atos. Gibson mostrou somente o terceiro.
[/quote']
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Eu não acho que a quantidade de sangue seja um problema, meu. O sangue serviu ali como um atenuante à violência dos romanos (???) para com Cristo, serve pra mostrar o quanto Ele sofreu naquela brincadeira toda a etc. Além do mais, é um filme, o Gibson pode criar um cara com quantos litros de sangue no corpo ele quiser, é o universo particular dele. :P

 

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Definitivamente... A Bíblia não é anti-semita, apenas fala que Cristo fora rejeitado pelos seus, o que é verdade. Não há que se falar em 'culpados' pela morte de Cristo, ela ocorreu pq estava previsto e Jesus sabia disso. O anti-semitismo vem de pessoas religiosas (e não espirituais) que não compreendem que se Jesus não tivesse sido crucificado, todo o plano de salvação proposto pelo cristianismo iria por água abaixo e, por não terem esse conhecimento (de burros, pq a Bíblia é clara a esse respeito), ficam com raiva de judeus. Portanto, que bom que Ele morreu.

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