Jump to content
Forum Cinema em Cena

Poesias


gold_walker
 Share

Recommended Posts

        Rasuras

...eu tenho um coração ilegível

 

(Beatriz Provasi)

 

A maioria de nós sofre desse mal 09

 

 
[/quote']

eu não sofro não0506060606

 

Postada por J.McClane

Eita, essa eu achei triste e mórbida, laure09

 

 

achei um desabafo lindo! Algo que espero passar, pois ver os pais sofrendo pela perda de um filho é algo inimaginável!

 

essa história me fez lembrar da época que eu contava história em hospital...uma vez vi uma mocinha, 15 anos, muito bonita, ela estava com um tumor, a mãe dela acabava de chegar da Bahia, a mãe chorava tanto04040404

 

 
Link to comment
Share on other sites

Te quero (Mário Benedetti)

 

Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois

Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro

Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois

E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero

E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só

Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Link to comment
Share on other sites

A Noite na Ilha

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

Pablo Neruda

Link to comment
Share on other sites

Pablo Neruda 3d17

 

 

 

"O Meu Amor"

 

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele fica toda arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos
Lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu?
E ele é meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca
Com a barba mal feita
E de posar as coxas
Entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre e
Me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se meu corpo
Fosse a sua casa

 

Eu sou sua menina, viu?
E ele é meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz...

 

Chico Buarque

 

 

Eta, Chico! 10
Link to comment
Share on other sites

  • 2 weeks later...

 

BILHETE

 

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

 

                                                                                              Mário Quintana
Kikas2010-05-06 21:17:55
Link to comment
Share on other sites

ANTES QUE ELES CRESÇAM

 

Há um período em que os pais vão ficando

órfãos dos próprios filhos.

 

 

 

É que as crianças  crescem. Independentes de nós, como

árvores, tagarelas e

pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença.

Crescem como a inflação,

independente do governo e da vontade popular. Entre os

estupros dos preços, os disparos

dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma

estridência alegre e, às

vezes, com alardeada arrogância.

 

 

 

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de

repente.

 

 

 

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma

frase de tal maturidade que

você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela

criatura.

 

 

 

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não

percebeu? Cadê aquele

cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar

na areia, as festinhas de

aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme

do maternal?

 

 

 

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e

desobediência civil. E você

está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não

apenas cresça, mas

apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que

saiam esfuziantes sobre

patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas

filhas, em pleno cio, lindas

potrancas.

 

 

 

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão

elas, com o uniforme de sua

geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com

a suéter amarrada na

cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter,

mas não tem jeito, é o

emblema da geração.

 

 

 

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento,

com essa barba de jovem

executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já

com a primeira plástica e

o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos

gerar e amar, apesar dos

golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura

das horas. E elas crescem

meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos

doutoramos nos nossos erros.

 

 

 

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios

filhos.

 

 

 

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi

recebido como um impacto de rosas

vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e

festas, quando surgiam

entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura

francesa e inglesa. Saíram

do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias

vidas. Só nos resta

  dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção

francesa narrando

a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no

apartamento dela.

 

 

 

Deveríamos ter ido mais  vezes à cama delas ao anoitecer

para ouvir  sua alma

respirando conversas e confidências entre os lençóis da

infância, e os adolescentes

cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e

agendas coloridas de pilô. Não,

não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao

Tablado para ver

“Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas,

não lhes compramos

todos os sorvetes e roupas merecidas.

 

 

 

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso

afeto.

 

 

 

No princípio  subiam a serra ou iam à casa de  praia entre

embrulhos, comidas,

engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas.

Sim, havia as brigas dentro do

carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e

sanduíches infantis. Depois chegou

a idade em que subir para a casa de campo  com os pais

começou a ser um esforço, um

sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia

e os primeiros namorados.

Esse exílio  dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar

sete anos bíblicos.

Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que

queriam, mas, de repente,

exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

 

 

 

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto

é a hora do carinho ocioso

e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode

morrer conosco. Por isso,

os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável

afeição. Os netos são

a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

 

 

 

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que

elas cresçam.

 

Link to comment
Share on other sites

TABACARIA (15-1-1928 )
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) <?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei <?:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.


In Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar.

 

Link to comment
Share on other sites

Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor

 

(Hilda Hilst)

 

 

I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)
Link to comment
Share on other sites

Os versos que te fiz

 

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.

 

Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder...

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!

 

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!

 

Amo-te tanto! E nunca te beijei...

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

 

Florbela Espanca

 

Link to comment
Share on other sites

QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER 

Anne Sexton

Quando o homem
entra na mulher,
como a onda batendo contra a costa,
de novo e de novo,
e a mulher abre a boca com prazer
e os seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó
de modo que nunca
possam voltar a separar-se
e a mulher
sobe a uma flor
e engole o seu caule
e Logos aparece
e solta seus rios.

Este homem,
esta mulher,
com a sua dupla fome,
tentaram atravessar
a cortina de Deus,
e por um instante conseguiram,
ainda que Deus
na Sua perversidade
desate o nó.
 

 

Link to comment
Share on other sites

Senhor

Jamil Snege

Hoje amanheci insatisfeito.
O pão estava amargo
e até o jornal que leio
todos os dias me pareceu de
uma insipidez atroz.
De repente, Senhor, lembrei-me
dos que não lêem jornais -
mas os usam para embrulhar
restos de pão que os paladares
amargos deixam no prato
após uma noite insatisfeita.
Como deve ser delicioso
esse pão, Senhor,
depois que tu o adoças com
tua própria boca!

Às vezes lamento minha
má sorte - e o que me espera
em seguida é um dia luminoso.
Às vezes bendigo minha
fortuna - e logo após um
furacão desaba sobre minha cabeça.
Brincas comigo, Senhor?
Ou será que devo lamentar
a minha fortuna e bendizer
a má sorte como se o avesso
e o direito fossem iguais
para ti?

Quando eu era pequeno,
topava contigo a cada instante.
Adolescente, passei
a encontrar-te cada vez menos.
Adulto, duvidei que
algum dia tivesse visto o
brilho de tua face e
te busquei incessantemente
por todos os caminhos.
Não te encontrei,
Senhor, nem poderia.
O piolho que segue na juba
do leão jamais terá
consciência de que possui um
leão inteiro.

Tenho procurado por
todos os meios me destacar
dos demais.
É minha a intervenção mais
inteligente, o lance
intelectual mais audaz.
Procuro as luzes do palco
com o mesmo fervor
com que o peregrino procura
a tua face.
Que tolice, Senhor.
Dentro de alguns anos, numa
tumba escura, que
artifícios usarei para
chamar a atenção sobre o meu
pobre crânio descarnado?

Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, senhor,
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?

Quando menino, nascido
serra acima, o que
mais eu desejava era o mar.
Eu queria apenas o mar
a mais nada - para nele
desfraldar meus
sonhos marinheiros.
Fui crescendo e ampliando
meus desejos.
Uma casa junto ao mar,
um barco a motor, festas,
empregados, piscina.
Obtive tudo isso, Senhor.
Mas aí então o mar dentro de
mim já havia secado

Não sou melhor que
uma pedra, uma folha,
a madeira de uma ponte,
o pó das estradas.
Sou apenas mais frágil,
Senhor, pisa-me com carinho.

Na minha infância, havia
um jogo que consistia
em se colocar um porquinho-da-índia
no interior de um círculo
formado por
casinholas numeradas.
Vencia aquele cuja
aposta correspondesse ao
número do esconderijo
escolhido pelo animalzinho.
Nunca mais vi esse jogo,
Senhor, mas eu sei que
alguns religiosos continuam
a praticá-lo contigo.
Cercam-te com suas
igrejas almiscaradas -
e correm a vendar apostas
aos seus fiéis.

A última tentativa
de me entrevistar contigo
foi um grande fracasso.
Acendi incensos, decorei com flores
- e nada de ti, Senhor.
Amanheci frustrado e
fatigado como se dançasse
a noite inteira nos infernos.
Resolvi então fazer
tudo ao contrário: dancei,
me embriaguei, libertei
fantasmas, invoquei
demônios.
Tive um sono embalado
por anjos em doces paragens
celestiais.
És sempre assim, Senhor?
Imprevisível? Desconcertante?

O velho índio foi encontrado
vagando pela floresta,
aparentemente perdido.
Perguntaram-lhe. Respondeu
cheio de brios: "Perdi
foi minha casa; não consigo
encontrá-la".
Quanta lição, Senhor.
O homem pode perder sua casa,
sua rua, os rostos que
ama - sem jamais se perder
de si mesmo.

Um dia tu sras demonstrado
cientificamente,
como o eletromagnetismo e
a gravitação universal.
Professores te reproduzirão
em laboratório,
crianças enfeitarão com tua
fórmula suas mochilas
e os grafiteiros rabiscarão
teu princípio pelos muros
da cidade.
Nesse dia, Senhor, alguém
estará restabelecendo
teu mistério... à luz
de uma vela, numa galáxia
bem distante.

Ontem não fui solicitado
como gostaria de ser.
Ninguém me pediu conselhos,
ninguém fez caso
de minhas opiniões -
até pareceu que o mundo
e as pessoas poderiam viver
bem melhor sem mim.
Sensação terrível, Senhor.
E pensar que já passei
dias e meses da minha vida
infligindo idêntico
tratamento a ti...


Não ouças qualquer
juízo que eu faça sobre
meu semelhante.
Amordaça-me.
Corta minha língua.
A pessoa que acusei
de furtar minhas luvas
não tinha mãos.

Ontem vi um jovem preso
a uma cadeira de rodas.
Mãos, pernas, tronco -
imobilizados numa rigidez
de pedra.
De vivo apenas seu olhar -
atento, vigilante,
como se contemplasse tudo
das alturas.
Que expressão, Senhor,
que força poderosa...
Tua puseste todos os seus
músculos ali.

Tenho pensado ultimamente
em comprar um carro novo.
Trabalho com afinco,
faço tudo o que devo fazer,
mas nunca me sobra dinheiro.
Outro dia, fazendo
minhas contas, cheguei a
botar a culpa em ti: "Deus
não tem me ajudado".
Que vergonha, Senhor.
Tantos homens trabalharam
com afinco a vida toda,
fizeram tudo
o que podiam fazer,
e jamais te pediram sequer
a passagem do ônibus...

Dois meninos, magrinhos,
irmãos, aproximam-se
do balcão de pães.
Escolhem um bem pequeno -
o que pode comprar a moeda
que um deles guarda no
côncavo da mão.
Saem os dois com seu
pãozinho - uma fome tão
antiga, entre acrílicos
e colesteróis.

Eu gostaria de ajudar
todas as crianças pobres,
carentes, desnutridas.
Gostaria, Senhor...
mas tenho a alma fatigada
de proteínas.
Ontem, por uma fraqueza
de caráter, resolvi
separar as pessoas de meu
convívio em dois blocos distintos
- os bons e os maus.
Que terrível, Senhor.
Depois de muito ajuizar,
os bons me fitavam com
expressões demoníacas
enquanto os maus, todos,
me exibiam a tua face.

Um homem mata outro e
tu o consentes.
O perverso agride o inocente
e tu não o fulminas.
O poderoso humilha o fraco
e tu aumentas-lhe o poder.
Que Deus és tu,
Senhor, que tudo podes
e tudo permites?
Que deus extermina órfãos
e ilumina a face dos
tiranos com os carmins
da longevidade?
Não respondas, Senhor,
não digas nada.
É esse mistério que me atrai
irremediavelmente a ti.

Toma a máquina do meu
corpo e nela
transporta socorro para
os teus aflitos.
É de pouca serventia,
Sei - o coração me arde,
meus músculos estão
fracos - mas podes
usá-la à exaustão.
E quando não mais prestar,
Senhor, escolhe uma tíbia
e faze uma flauta.

Hoje sairei à caça de lucros,
exatamente como o faço
todos os dias.
Tentarei ser o mais astuto,
o mais sagaz, e a terra
tremerá sob meus pés.
No entanto, Senhor, vai
comigo um menino magrinho,
olhos distraídos, que
não consegue entender por
que meus interesses
são mais importantes que
as nuvens e as borboletas.

Conserva-o assim, Senhor.
Mesmo que ele me atrapalhe,
mesmo que
me obrigue a ceder
no momento em
que preciso ser duro e inflexível,
conserva-o comigo.
E se um de nós não voltar,
Senhor, que seja eu - não ele.
Posso viver bem melhor
sem mim.

Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco - não
penses que irei por
este mar sozinho.

Link to comment
Share on other sites

Chão de Giz

Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um chão de giz
Há meros devaneios tolos a me torturar
...

Há tantas violetas velhas sem um colibri
Queria usar quem sabe uma camisa de força ou de vênus
Mas não vão gozar de nós apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom

...

Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar
Meus vinte anos de "boy, that's over, baby" , Freud explica
Não vou me sujar fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom
Quanto ao pano dos confetes já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo é assunto popular
No mais estou indo embora...

 

 

 

Zé Ramalho

[/quote']

Relembrando...16
Link to comment
Share on other sites

 

BILHETE

 

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

 

                                                                                              Mário Quintana
[/quote']

Me desculpe aí o poeta, mas amor bão necessita de um pouco de exagero ! 08

 

 

Árias Pequenas

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.


Lendo o post da Lau me deu vontade de ler mais da Hilst
Link to comment
Share on other sites

<?:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

 

BALADA

(Em memória de uma poeta suicida)

 

Não conseguiu firmar o nobre pacto

Entre o cosmos sangrento e a alma pura.

Porém, não se dobrou perante o fato

Da vitória do caos sobre a vontade

Augusta de ordenar a criatura

Ao menos: luz ao sul da tempestade.

Gladiador defunto mais intacto

(Tanta violência, mas tanta ternura),

 

Jogou-se contra um mar de sofrimentos

Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim

Para afirma-se além de seus tormentos

De monstros cegos contra só um delfim,

Frágil porém vidente, morto ao som

De vagas de verdade e de loucura.

Bateu-se delicado e fino, com

Tanta violência, mas tanta ternura!

 

Cruel foi teu triunfo, torpe mar.

Celebrara-te tanto, te adorava

De fundo atroz à superfície, altar

De seus deuses solares - tanto amava

Teu dorso cavalgado de tortura!

Com que fervor enfim te penetrou

No mergulho fatal com que mostrou

Tanta violência, mas tanta ternura!

 

Envoi

 

(Do livro "O Homem e Sua Hora e outros poemas", de Mário Faustino)

Link to comment
Share on other sites

  • 2 weeks later...
Por favor' date=' continuem senhoritas...

Não deixe este tópico morrer. Os textos são mutio bons!
[/quote']

 

 

 

nos ajude a mantê-lo. Coloca alguma poesia que você gosta!

 

 

Porque eu te amava

porque eu te amava e porque tu me amavas

nos colocamos além da posse do corpo

porque o mistério nos reuniria ,

mesmo ansiando por aquele outro

 

é que em nós, o amor não era só matéria da carne

mas sexo feito do tecido invisível das ternuras

transbordando em líquidos e planctons

fogos e logos, liquens, desejos, juras

 

porque eu te amava e porque tu me amavas

como raiz íntima da terra

o encanto resistia aos riscos 

como a estranha paz que adormece as feras



(Célia Musilli)
Link to comment
Share on other sites

 

Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

Fernando Pessoa

Link to comment
Share on other sites

 

A Mulher das Palavras

 

O silêncio

dói muito mais

na pele do inimigo
que o grito

pousa

assim

cálido

como uma resposta

sem pontuação

deita suave

nas concavidades do ouvido

desconcerta

desmancha certezas

hospeda pulgas

atrás da orelha

arma afiada

toque lancinante

estratégia zen

linguagem

dos deuses

da arte

da guerra

 

(Karen Debértolis)
Link to comment
Share on other sites

São muito bons. Aqui no tópico tem uma antologia bacana! heheh

 

ah eu posso postar algumas. Mas acho que já colocaram todas que eu gosto. Não sou mt versado em poesias, heheh. Uma que eu gosto é o poema XX do Neruda, mas já postaram aqui, não?

 

 

 

Mas o Fernando Pessoa é muito foda! Eu me lembro de um que marcou bastante, mas foi mais pela interpretação de quem recitou. Aliás, acho que a interpretação conta muito:

 

 

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal

 

São lágrimas de Portugal!

 

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

 

Quantos filhos em vão rezaram!

 

Quantas noivas ficaram por casar

 

Para que fosses nosso, ó mar!

 

 

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

 

Se a alma não é pequena.

 

Quem quer passar além do Bojador

 

Tem que passar além da dor.

 

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

 

Mas nele é que espelhou o céu.

 

 

Link to comment
Share on other sites

O vôo

 

Goza a euforia do vôo, do pássaro,

do anjo perdido em ti.

Não indagues se nossas estradas, tempo e vento

desabam no abismo. Que sabes tu do fim?

Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas,

Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre para o mais alto.

No deslumbramento da ascensão,

se pressentires que amanhã estarás mudo,

esgota, como um pássaro, as canções

que tens na garganta.

Canta, canta pra conservar uma ilusão

de festa e de vitória,

talvez as canções adormeçam as feras

que querem devorar o pássaro.

Desde que nascentes não és mais que um vôo no tempo rumo ao céu?

Que importa a rota?

Voa e canta enquanto resistirem as asas.

 

Menotti del Picchia

Link to comment
Share on other sites

De minha autoria:

 

Da ponte pulei

No rio nadei

Na terra caminhei

E me cansei

Cansei, cansei, cansei

Eu sei

Então os pontos entreguei

E a branca bandeira ergui

Água pedi

E, ora pois, morri.

(2/9/09)

————————————————————————————————–

Santa paciência, chega de deferência

Escutar tanta baboseira

Sem eira nem beira

Só me dá canseira

E causa coceira

Calem-te, bocas!

Abram-te, ouvidos!

Façam mesura, ajoelhem-se

Perante o sábio saber do silêncio

(28/6/09)

Link to comment
Share on other sites

 20 Anos Sem Cazuza. 

 

 

Poema

Cazuza / Frejat

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era ainda criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás

Link to comment
Share on other sites

Join the conversation

You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.

Guest
Reply to this topic...

×   Pasted as rich text.   Paste as plain text instead

  Only 75 emoji are allowed.

×   Your link has been automatically embedded.   Display as a link instead

×   Your previous content has been restored.   Clear editor

×   You cannot paste images directly. Upload or insert images from URL.

Loading...
 Share

×
×
  • Create New...