Members Highlander Posted October 9, 2006 Members Report Share Posted October 9, 2006 Depois de muito ouvir falar de Glauber Rocha e de seus filmes, estava ansioso pra finalmente assistir algum. Sim, me desprezem; este pretenso amante do cinema nunca tinha visto nada do aclamado Glauber até duas horas atrás...De todo modo, há muito que tinha curiosidade; e ela aumentou muito a partir da leitura que fiz do excelente livro “Glauber Rocha , Esse Vulcão”, biografia do cineasta escrita por João Carlos Teixeira Gomes, jornalista conterrâneo, contemporâneo e amigo pessoal de Glauber Rocha, que o escreveu a partir de sua própria vivência e convivência com o cineasta e também baseado em extensa pesquisa e entrevistas. Resolvi fazer minha primeira incursão na obra de Glauber pelo seu filme mais famoso e polêmico, Terra em Transe. Terra em Transe se passa num país fictício chamado Eldorado, mas precisamente na província de Alecrim, onde forças políticas populares e conservadoras se opõem ferozmente diante de uma massa cega,ignorante e facilmente manobrável, que ameaça se opor ao golpe iminente. Em meio à turbulência e dividido entre sentimentos de amizade para com um senador conservador que quer tomar o poder e suas próprias convicções políticas está o poeta e jornalista idealista Paulo Martins. Como acabo de ler o biografia do diretor, me pergunto se Paulo Martins não seria uma espécie de alter ego de Glauber. Um poeta genial, instável, cheio de dúvidas e mergulhado na sua confusa genialidade. Será? Definitivamente, Terra em Transe não é um filme de fácil digestão; é quase um poema filmado. Os diálogos são mesmo riquíssimos em poesia. Em determinados momentos, o filme sugere um certo improviso, mas conhecendo a biografia do diretor é fácil acreditar num improviso premeditado, numa imperfeição proposital. Não é preciso mais do que 5 minutos de filme, pra ficar evidente que Eldorado é o Brasil. Corrupção, golpe, luta de classes em meio á um ambiente carnavalesco. Um povo atirado à miséria e a elite distanciada em palácios nababescos. Mais estarrecedor é perceber o quanto o filme é atual. Uma esquerda que conquistou o poder com o apoio do povo mas não cumpriu o que prometera. Uma direita canalha e mentirosa que tem horror ao povo no poder. Tudo isso recheado de metáforas. O filme foi feito em 1967, mas poderia tranqüilamente ser filmado em 2006. Mais uma prova de que o Glauber era mesmo um cara à frente do seu tempo. A proposta do Cinema Novo, movimento do qual Glauber foi um dos fundadores, e que praticamente “inaugurou” com Terra em Transe, pregava entre outras coisas um rompimento com o cinema “bonitinho”, hollywoodiano. E esse rompimento é evidente em Terra em Transe; apresentado em uma linguagem diferente do que estamos habituados. Em alguns momentos o filme me remeteu a Antonioni e filmes como Blow Up e Profissão:Repórter; linguagem pouco usual, e passagens que demoram a fazer sentido, que requerem reflexão; e mesmo algumas que não consegui compreender. Como entretenimento puro e simples não é uma boa opção. Às vezes o filme se arrasta, e a verborragia incomoda um pouco. Mas é inegável o caráter genial e inovador do filme. Aliás, Glauber costumava citar Brecht, segundo o qual as coisas novas ruins são melhores que as velhas boas. Por essa razão Glauber incitava os artistas do seu tempo a ousarem, perderem o medo de mudar; de fazer diferente. E ele próprio fazia diferente, reinventava, e segundo ele mesmo, sabia que corria o risco da incompreensão. Essa característica, na minha opinião, fica evidente em Terra em Transe. A montagem é fragmentada, a narrativa é totalmente não usual, por vezes confusa, e algumas passagens são, como Glauber sabia que corria o risco, incompreensíveis. De todo modo, quem quer saber um pouquinho sobre cinema, como eu quero saber um dia, não pode morrer ser assistir Terra em Transe. Quem viu, o q achou?? sebmlfwcwsg and MichaelSr 2 Quote Link to comment
Members HAL2000 Posted October 10, 2006 Members Report Share Posted October 10, 2006 Cara! também ouvi falar muito do filme Logo vou ver DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL.E era um cineasta diferente pois andava contra mídia.(O que hoje em dia é muito difícil de se fazer).Tentei muito achar o filme mais não achei.. Quote Link to comment
Members silva Posted October 10, 2006 Members Report Share Posted October 10, 2006 Esse é um dos "pecados cinematográficos" que tenho que corrigir imediatamente... Quote Link to comment
Members Katsushiro Posted October 10, 2006 Members Report Share Posted October 10, 2006 É sobre o ser, sobre a humanidade, não apenas sobre um sistema político, ou contra um sistema político. Vai além disto e portanto sempre será algo novo. Acho que política e poesia não podem coexistir, a poesia tem a política. Não importa o que você faça, isso é político. Penso que os jovens de hoje poderiam se beneficiar ao verem esses filmes. É óbvio no caso de 'Terra em Transe', porque o filme é sobre política. Mas é o contrário de 'All the Kings Men' ('A Grande Ilusão'), que é sobre os políticos.O livro de Robert Penn Warren, que inspirou o filme --tem inclusive uma nova versão saindo-- é uma coisa bem distinta. Na ocasião que assisti 'Terra em Transe', eu nunca tinha visto uma reação a um filme como aquela. Havia aquele último plano do homem disparando a arma, em tela ampla (1:85), em que a cena ocupa o canto do quadro. Depois que a sessão terminou, algumas pessoas permaneceram aplaudindo, aplaudindo e aplaudindo por uns vinte minutos. Foi comovente e aterrador! Aquela imagem é por demais eloqüente de um cinema que sempre expressará um sentido de resistência, de uma forma ou de outra. Isto ocorre porque o personagem permanece na tela e você ouve aqueles tiros. É uma imagem incendiária. Eu presenciei a reação do público, é uma cena poderosa. É poesia, mas podemos dizer também que é política. Mas a poesia vem primeiro e então talvez Glauber esteja certo ao afirmar que 'a poesia e a política são demais para um só homem'. recomendo o EXCELENTE "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro" e, é claro, Deus e o Diabo. Quote Link to comment
Members rubysun Posted October 10, 2006 Members Report Share Posted October 10, 2006 esse eu também pretendo corrigir, pelo menos esse ano. saiu agora em DVD. eu vi "Deus e o Diabo" e achei FODA. "O Dragão" é um dos favoritos do Scorsese, mas eu nunca encontrei em nenhum lugar por ai... Quote Link to comment
Members Christopher_P Posted October 12, 2006 Members Report Share Posted October 12, 2006 Obra-prima máxima do cinema brasileiro. Quote Link to comment
Members SisterJack Posted December 18, 2006 Members Report Share Posted December 18, 2006 Pútrido. Como um filme do Pasolini, se o Pasolini nunca tivesse visto um filme na vida dele. Quote Link to comment
Members .Amanda Posted November 15, 2007 Members Report Share Posted November 15, 2007 Um dos melhores filmes que já vi. Quote Link to comment
Members Liv A. Posted December 8, 2010 Members Report Share Posted December 8, 2010 Maior OP do cinema brasileiro, sem dúvidas. Glauber Rocha era um gênio. Não dá para discutir cinema hoje em dia sem usá-lo como referência, e nem estou falando só do Brasil não, Glauber Rocha e seu Terra em Transe influencia até hoje muitos cineastas no mundo todo, por exemplo, Martin Scorsese, um dos grandes diretores dos EUA a fazer cinema de diagnóstico (estou ficando viciada nesta expressão), assim como os irmãos Coen também. Mas voltando ao filme, adoro como o filme vai desmoronando tudo até seu desfecho trágico. O protagonista, Paulo, segue numa agonia contruída de forma complexa num plano imagético ao longo do flashback, até retornar ao tempo zero, que é o momento do golpe. Tudo de forma conceitual, com atuações teatrais e alegorias. Amo esta fala: Sara: "- O que prova sua morte?" Paulo: "- O triunfo da beleza e da justiça!" Quote Link to comment
Members AndreZc Posted February 6, 2011 Members Report Share Posted February 6, 2011 Pra mim, o cinema brasileiro se divide em dois nomes: Glauber Rocha e Sganzerla. Quote Link to comment
Mr. Scofield Posted February 6, 2011 Report Share Posted February 6, 2011 Nunca consegui ver todo. A verdade é que, apesar do enredo extremamente complexo e original, o filme é demais em tudo: poético demais, teatral demais, complexo demais, metafórico demais o que poderia ser até interessante, mas no final deixa tudo chato demais (aliás, também é longo demais). Este para mim ultrapassa o limite do entretenimento e adentra o domínio do pretensioso e pouco acessível em plenitude. Para mim a linguagem falada dificilmente se adapta a complexidade poética de tal categoria - muitas vezes a reflexão exigida nos diálogos caberia melhor em um livro, cujo tempo de leitura não é delimitado em decorrência da duração da fita. Só terminaria de ver se eu tivesse uma necessidade extrema de parecer ishperto (o que não tenho) ou então observar partes técnicas. PS: até as críticas são chatas. Parece que os críticos querem escrever textos à suposta altura do filme e para isso torna-se precípuo o uso de adjetivos refinados. Mr. Scofield2011-02-06 10:53:42 Quote Link to comment
Nacka Posted February 6, 2011 Report Share Posted February 6, 2011 Nunca consegui ver todo.[/quote'] Isso aí mata tua fala Scofildis. Se não viu todo a experiência não foi completa. Se o comentário foi apenas sobre o que viu, idem. Vi no cinema, acompanhado de saboroso debate após o filme, então não poderia discordar mais... Quote Link to comment
Mr. Scofield Posted February 6, 2011 Report Share Posted February 6, 2011 Nunca consegui ver todo. [/quote'] Isso aí mata tua fala Scofildis. Se não viu todo a experiência não foi completa. Se o comentário foi apenas sobre o que viu, idem. Vi no cinema, acompanhado de saboroso debate após o filme, então não poderia discordar mais... Se eu não consegui ver todo é porque achei um saco e não vou continuar vendo só para agradar a quem acha que eu deveria ter visto. Quote Link to comment
Nacka Posted February 6, 2011 Report Share Posted February 6, 2011 Nunca consegui ver todo.[/quote'] Isso aí mata tua fala Scofildis. Se não viu todo a experiência não foi completa. Se o comentário foi apenas sobre o que viu, idem. Vi no cinema, acompanhado de saboroso debate após o filme, então não poderia discordar mais... Se eu não consegui ver todo é porque achei um saco e não vou continuar vendo só para agradar a quem acha que eu deveria ter visto. Ué mas você viu o filme para agradar alguém? Não parta do pressuposto que Terra em Transe é um filme de intelectual feito para intelectual. Terra em Transe é cinema da melhor qualidade, no entanto, como você muitos não gostaram, normal. O que eu quis dizer é que não ver um filme inteiro é experiência pela metade (isso se muito). Quote Link to comment
Mr. Scofield Posted February 6, 2011 Report Share Posted February 6, 2011 Nunca consegui ver todo. [/quote'] Isso aí mata tua fala Scofildis. Se não viu todo a experiência não foi completa. Se o comentário foi apenas sobre o que viu, idem. Vi no cinema, acompanhado de saboroso debate após o filme, então não poderia discordar mais... Se eu não consegui ver todo é porque achei um saco e não vou continuar vendo só para agradar a quem acha que eu deveria ter visto. Ué mas você viu o filme para agradar alguém? Não parta do pressuposto que Terra em Transe é um filme de intelectual feito para intelectual. Terra em Transe é cinema da melhor qualidade, no entanto, como você muitos não gostaram, normal. O que eu quis dizer é que não ver um filme inteiro é experiência pela metade (isso se muito). Eu não parti de pressuposto, eu vi com meus próprios olhos. Eu não acho que o filme seja bom, algo que não me entretém não é bom. E eu não me importo de ter experiências de coisas que eu não gosto pela metade. É questão de auto-preservação. Quote Link to comment
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